Santo
do Dia – 10/2/66 – 5ª feira .
Santo do Dia — 10/2/66 — 5ª feira
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A conversão de um homem cético ao contemplar o colóquio de Santa Bernadette com Nossa Senhora * Santa Bernadette, uma camponesa, enobrece no contato com Nossa Senhora * Ação misericordiosa de Nossa Senhora sobre um pecador: primeira gota de uma verdadeira inundação de graças * Se Nossa Senhora foi tão misericordiosa com um céptico, o que Ela não será com os que perseveram? * Gregório II, Papa que combateu os hereges e propagou a Fé
(…) da mesma forma e com a mesma naturalidade que aquela criança teria em sua Igreja Paroquial para as suas devoções comuns. De repente como se um raio a houvesse tocado, ela teve um sobressalto de admiração e pareceu nascer para uma segunda vida. (…) envolvia toda sua pessoa.
Espontaneamente, sem calcular, com um movimento maquinal, nós os homens que lá estávamos tiramos os nossos chapéus e nos inclinamos como as mais humildes mulheres. A hora do raciocínio passara e, a exemplo de todos aqueles que assistiam a esta cena do céu, olhávamos da estática para o rochedo, do rochedo para a estática.
Após os primeiros transportes provocados pela chegada da Senhora, a vidente se colocou na atitude de uma pessoa com… (…).
Sorridente ou séria, Bernardette aprovava com a cabeça, ou parecia mesmo interrogar. Quando a Senhora falava, ela estremecia de felicidade. Quando ao contrário fazia ouvir as suas súplicas, ela se humilhava e comovia até às lágrimas.
Habitualmente a vidente terminava as suas preces por saudações dirigidas à Senhora escondida. Eu conheci o mundo talvez até demais. Encontrara já modelos de graça e distinção, mas jamais vi ninguém saudar com a graça e distinção com que fazia Bernardette. Mas ao terminar a visão voltamos a ter diante de nós somente a figura amável, mas rústica da filha dos Soubirous.
Após a cena que acabo de descrever, encontrei-me como um homem que sai de um sonho e me afastei da gruta. Não conseguia voltar a mim e um mundo de pensamentos agitava-se em minha alma.
A Senhora do rochedo ocultava-se bem, mas eu sentira a sua presença, e estava convencido de que o seu olhar maternal voltara-se para mim. O hora solene de minha vida! Perturbava-me até ao delírio pensando que eu, o homem das ironias e das presunções, fosse admitido a ocupar um lugar perto da Rainha do Céu.
* A conversão de um homem céptico ao contemplar o colóquio de Santa Bernadette com Nossa Senhora
Isto é um muito bonito trecho que indica a conversão de um pequeno funcionário público de uma pequena cidadezinha, mais uma aldeia, que era Lourdes naqueles tempos, portanto uma minúscula sumidade, mas embebida de todo orgulho, de todo o ceticismo que era moda nas altas rodas governamentais.
E como sempre sucede nas pessoas que seguem uma moda, exagera mais a moda do que aqueles que a lançam. E o ceticismo de um pequeno funcionário dos Pirineus querendo imitar o Ministro haveria de ser, naturalmente, um ceticismo muito mais categórico, mais radical, mais exuberante do que o ceticismo do próprio Ministro. Os senhores podem imaginar portanto que potezinho de ceticismo seria esse minúsculo funcionário.
Pois bem, ele vai à gruta, como ele diz aqui, para se divertir, mas quando ele viu Santa Bernardette falar com Nossa Senhora, vê-se que ele teve por uma intuição psicológica direta, ainda de sua observação, de sua análise de Santa Bernardette, ele teve a noção de que realmente a pessoa com quem Santa Bernardette falava existia, que isto não podia ser uma abstração, uma coisa tirada do vácuo, não podia ser uma fantasia, mas que ela estava falando com alguém e que o seu modo de agir, de proceder nessas circunstâncias tinha todas as características objetivas de alguém que fala com alguém, de maneira tal que era inimitável a autenticidade da cena.
E por considerar assim as coisas, por ter visto diretamente assim, ele então se converteu. Quer dizer, foi um fato de observação, ele não viu Nossa Senhora, mas no trato de Santa Bernardette ele percebeu que Nossa Senhora existia, que Nossa Senhora estava ali presente.
É uma coisa fácil de compreender, porque há cenas que têm uma autenticidade tal que um homem que seja um observador mediano já compreende perfeitamente que não se pode tratar de uma imitação, que há algumas coisas que são estritamente inimitáveis. E ali era a atitude de Santa Bernardette também inimitável. Ele não formula isto com esta precisão, mas é o que está aqui.
* Santa Bernadette, uma camponesa, enobrece no contato com Nossa Senhora
Ele então dá um dos indícios e este indício para nós tem muito interesse. O indício é o seguinte:
Santa Bernardette era uma rústica. A gente lendo, vendo as fotografias dela, nota que ela era fundamentalmente uma camponesa. Pois bem, apesar disso quando ela falava com Nossa Senhora ela cumprimentava Nossa Senhora com uma distinção extraordinária. Disse ele que ele tinha freqüentado — diz ele — o mundo e que ele tinha conhecido modelos de distinção Evidentemente, compreendemos o que ele queria dizer: seus modelos de distinção eram aldeões suburbanos, o pessoal de Lourdes, da camadazinha dele, do meio dele, evidentemente, não é? O que é que poderia ser esta distinção aldeã-suburbana, não é verdade? Pois bem, é o termo de comparação que ele tinha.
Então ele disse que das senhoras que eram modelo de distinção que ele tinha conhecido, ele nunca viu uma que fosse distinta tanto quanto Santa Bernardette. Mas terminando a visão, ela voltava a ser a camponesa.
Quer dizer, era uma distinção que era comunicada a ela por Nossa Senhora. É a visão de Nossa Senhora que lhe conferia essa distinção. Passada a visão ela mudava de jeito. É um pouco como se nós tomássemos uma pessoa muito cafajeste, mas que de repente trate com a rainha da Inglaterra. Naquela hora terá um trato mais fino do que teria depois, quando a rainha da Inglaterra tivesse saído, não é verdade? Era uma espécie de filtração dos predicados da rainha da Inglaterra na pessoa com quem a rainha se dignaria estabelecer uma interlocução. Então é isto que ele analisa aí.
* Ação misericordiosa de Nossa Senhora sobre um pecador: primeira gota de uma verdadeira inundação de graças
Depois, então, nós temos a situação de alma dele. Ele, ao mesmo tempo humilhado — ele fala aqui em humilhação — mas pasmo, porque ele não podia crer que uma pessoa, que fora de todas as dúvidas, tinha sido tão bem tratada por Nossa Senhora.
Aí há uma espécie de milagre gratuito de Nossa Senhora. Vê-se que é um homem que de nenhum modo merecia ter esta espécie de visão indireta da visão. Ele não merecia de nenhum modo a graça que lhe foi dada, mas Nossa Senhora gratuitamente lhe deu.
E como o simples aparecer d’Ela — mais, nem é o simples aparecer, é o simples refratar do aparecimento d’Ela sobre a figura de Santa Bernardette. Com este simples fato Ela tocou a alma deste homem e acabou com todos os seus orgulhos.
E a gente vê na expressão curiosa dele, o que ele pensa é o seguinte: “Como é espantoso! Eu era tão porco, eu era tão orgulhoso, eu estava tão contra-indicado por esta graça, e contra todas as expectativas, eu que me sentia tal, agora me sinto tocado por esta graça. Como é misericordiosa a graça que bate em portas tão conspurcadas, e bate em termos que a porta quase não pode recusar-se a abrir. E então entra e vem.
É portanto uma obra maravilhosa que a graça fez na alma deste homem precursora da obra que a graça faria com tantos milhares e milhares de almas que passariam por Lourdes e que seriam tocadas pelo milagre. De tantas outras que mesmo longe de Lourdes se converteriam ouvindo falar do milagre. Quer dizer, é uma primeira gota de uma verdadeira inundação de graças que viriam para o mundo e que começou no dia 11 de fevereiro, razão pela qual a Santa Igreja estabeleceu para amanhã a festa de Nossa Senhora de Lourdes.
* Se Nossa Senhora foi tão misericordiosa com um céptico, o que Ela não será com os que perseveram?
Eu gostaria de transformar ou de aplicar este comentário ao seguinte ponto. Se tomarmos em consideração que se Nossa Senhora para um homem céptico deu uma graça tão grande, muito maior graça dará Ela àqueles que perseveraram. E portanto nós podemos esperar com muita esperança e com muita devoção, nós podemos esperar que Nossa Senhora nos dê também graças insignes, inclusive neste dia de amanhã, razão pela qual eu sugiro e recomendo que os senhores vão à Igreja do Sagrado Coração de Jesus amanhã para rezar diante da imagem de Nossa Senhora de Lourdes que ali se encontra.
Foi recolocado hoje aquele quadrinho lá, dando todo o histórico da basílica. Eu tenho a impressão [de] que eles tiraram para limparem um pouco e recolocaram lá naquele ponto. E que ali então os senhores peçam toda espécie de graças de que possam precisar.
Aí está, portanto, o comentário que diz respeito a Nossa Senhora de Lourdes.
* Gregório II, Papa que combateu os hereges e propagou a Fé
Há uma outra festa também amanhã e é a festa de São Gregório II, Papa.
São Gregório II, Papa, lutou tenazmente contra Leão, o Isauro, imperador líder dos iconoclastas. Por outro lado procurou intensificar a evangelização no Ocidente.
Nós vemos tão grande Papa que está colocado entre os dois mundos: o mundo oriental, que era o mundo civilizado daquele tempo e o semi-bárbaro, o mundo “caipira” que era o mundo do Ocidente, das nações bárbaras que estavam comeaçando a nascer, a nascer para a vida da graça. O Império Romano, invadido já por um grande número de bárbaros etc, que tratava de converter então.
E ele fez ao mesmo tempo ambas as coisas. Ele tentou salvar o Oriente da heresia e da decadência combatendo a heresia dos iconoclastas, que eram hereges que não permitiam o culto das imagens, precursores verdadeiros dos protestantes, e que por causa disso quebravam todas as imagens. E de outro lado, ele procurou, então, a intensificação da evangelização destes povos bárbaros. A respeito deste Papa diz o Rochbacher o seguinte:
Os piedosos imperadores…
Este é um trecho final de uma carta de São Gregório II, ao Imperador Leão, o Isauro.
Os piedosos imperadores estiveram submissos ao Pontífice das Igrejas e não os vexaram. Vós pelo contrário desde o dia em que vos pervertestes, desde o dia em que incorrestes na maldição que vós próprio proferis nas vossas cartas contra aqueles que derrubam os ministros dos padres, desde o dia que vos condenastes pelo vosso próprio juízo, e de vós afastastes o Espírito Santo, nos perseguis e tiranizais pelas mãos dos soldados e pelas armas da carne.
Nós estamos nus e sem armas, não temos exército, mas invocamos o Generalíssimo de todo os exércitos, ou melhor de todo o universo, Cristo, sentado no Céu, acima de todos os exércitos, das potestades celestiais, para que vos entregue à Satã, como diz o Apóstolo: “Mediante a perda da carne e da salvação da alma”.
Quanto a nós, tal qual escrevemos, partimos para o extremo do Ocidente para os que pedem o Santo Batismo, desde que para lá enviei bispos e clerigos de nossa Igreja, os príncipes não quiseram ser levados ainda ao Batismo, por desejarem a mim por Padrinho. É por isso que nos pomos a caminho, receosos que um dia nos peça alguém, o motivo de de nossa negligência.
Queira Deus dar-lhes a prudência e o arrependimento para que volteis à verdade da qual vos afastastes, e leveis o povo ao berço único da Igreja Ortodoxa.
* Pelas palavras de São Gregório II, Papa, a perfeição da atitude anti-ecumênica
Esta carta é grandiosa. O Papa então acaba dizendo ao imperador todas as verdades, como quem se dirige a uma pessoa que quase não tem mais salvação. E depois diz: “Vou fazer coisa melhor do que cuidar de você, infiel; vou cuidar dos fiéis. E em vez de estar empregando todo o meu tempo em favor de um soberano que é infiel, digo-lhe a verdade e depois vou par as zonas de fidelidade, para construir fidelidade, porque você já está perdido”. E vem uma linguagem que mostra bem como um santo pode ter, em relação aos hereges, as disposições de alma que no Catolicismo se inculcam. Vejam isto:
Primeiro, o homem se tornou herege. Para ele falar da data em que o homem se tornou herege ele diz:
O dia em que vós vos pervertestes.
O falso ecumenismo de hoje jamais diria isto. Diria: “No dia em que vossa atenção foi chamada especialmente para tal parte da verdade evangélica, talvez tenhais esqecido esta outra parte. Mas foi num élan de amor para uma dessas partes que essa… [inaudível] se pronunciou”. Na linguagem de um verdadeiro santo, não: “Vós vos pervestestes!” E isto para um imperador, que é um homem poderoso. Monarca absoluto, maior potentado da terra naquele tempo. Depois, referindo-se ao dia:
Este foi o dia em que incorrestes na maldição, que vós próprio proferistes em vossas cartas contra aquele que derruba os ministros dos padres.
Eu não conheço a história mas, com certeza, em cartas anteriores, ele havia falado contra os hereges. Como Henrique VIII da Ingraterra escreveu também contra o protestantismo. Então, diz o Papa:
Vossa maldição caia sobre vós; vossas palavras vos julguem!
Assim ele fala de um herege. Nunca hoje em dia: “Vós, na vossa boa fé, chegastes a ponto de negar que Cristo é Deus. O caminhos misteriosos do raciocínio humano! Mas como não considerar a vossa boa fé. Bênção para vossa boa fé” — quaisquer que sejam os resultados encontrados. Isto é o anti falso ecumenismo. Depois:
Desde o dia em que vós vos condenastes por vosso próprio juízo e que afastastes o Espírito Santo de vós.
Quer dizer, ficando herege, condenou-se a si próprio e afastou de si mesmo o Divino Espírito Santo. Há coisa pior do que alguém afastar de si o Espírito Santo?
Outras atitudes anti-ecumênicas: ele está perseguido. Alguém diz que a Igreja do Silêncionão falava em nossos dias a não ser por seus gemidos e que outra coisa não fazia sob o látego do perseguidor, senão gemer. Esse homem diz: “Vós estais nos perseguindo. Nós não temos exército, mas não nos limitamos a gemer. Nosso sangue sobe a Deus como o sangue de Abel contra Caim e por causa disso apelamos para Cristo sentado nos Céus, acima de todos os exércitos das potestades celestiais para que vos entregue a Satã.” Quer dizer, não é só gemer, mas amaldiçoar também.
Como diz o Apóstolo, mediante a perdição da carne e da alma.
São Paulo tem uma expressão que diz…
(…)
Então, o Papa entrega o imperador Leão Isaurio para satanás. Isto é uma temperatura tão diferente da pseudo-ecumênica, mas não tem saída, porque é um santo.
Depois ele fala da viagem que vai empreender. Ele tem medo de uma atitude falsamente ecumênica. Por causa disso ele diz:
Queira Deus dar-vos a prudência e o arrependimento para que volteis à verdade da qual vos apartastes e leveis o povo ao berço único das igrejas ortodoxas.
Isto quer dizer o seguinte: “Só há uma aproximação entre nós se você voltar para a verdadeira Igreja Católica.” É diferente do atual ecumenismo, que diria: “Bem, nós nos separamos. Já não temos as mesmas idéias, tenhamos o mesmo coração”. O que equivale a dizer que a verdade e o erro, o bem e o mal se osculam, o que é uma verdadeira abominação diante de Deus. Os senhores vêem como é o procedimento dos santos.
Alguém poderia dizer: “Mas Dr. Plinio, isto não era próprio daquela época? Não se pode pretender que em nossa época as coisas sejam diferentes? Então esse modo de agir moral para aquela época, não pode ser imoral para a nossa?”
Ora, a “palavra de Deus permanece eternamente” e aquilo que é imoral no começo da Igreja vai até o fim; e o que é moral, vai assim até o fim. Que São Gregório reze amanhã por nós e que Nossa Senhora de Lourdes nos dê as graças necessárias para termos até o extremo limite aquele espírito de combatividade, de discriminação, de discernimento e oposição entre a verdade e o erro, o bem e o mal que é, exatamente, uma resultante da intensidade da fé, que tanto e tanto os inimigos da Santa Igreja querem eliminar, substituindo pelo relativismo que, em última análise, acaba sendo a morte da Fé.
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