Santo
do Dia – 20/1/1966 – 5ª feira [SD IIA D 157] .
Santo do Dia — 20/1/1966 — 5ª feira [SD IIA D 157]
Nome
anterior do arquivo:
Santa Inês descrita por Santo Ambrósio * Santo Ambrósio põe em evidência o pensamento que quer salientar de Santa Inês pelos contrastes que sua personalidade oferece * Deus se revela pela santidade e pelo milagre do martírio de Santa Inês * Dois pontos a salientar no dia do aniversário da morte de Luís XVI: a realeza de direito divino como a Igreja Católica considerava, e a conversão operada no rei * No aceitar o sofrimento, o maior sabugo se lava de escórias imundas, adelgaça a alma tornada rígida e hirta por uma porção de circunstâncias lamentáveis, e se regenera
Sobre Santa Inês, diz D. Guéranguer, citando palavras de Santo Ambrósio:
* Santa Inês descrita por Santo Ambrósio
Novo gênero de martírio. A virgem não tem idade ainda para ser supliciada e já está amadurecida para a vitória. Não está ainda amadurecida para o combate e já está apta para obter a coroa. Tem contra si mesma sua pouca idade, mas já é mestra na virtude. Avança cheia de alegria, com passo desembaraçado para o lugar de seu suplício. Ornada, não de cabelos artificialmente penteados, mas de Cristo. Coroada, não de flores, mas de pureza. Todos estão em lágrimas. Somente ela não chora.
Admiram‑se de que entregue tão facilmente uma vida que ainda não gozou, que ela sacrifica como se a tivesse esgotado.
Todos se admiram de que seja testemunha da divindade, numa idade em que não poderia ainda dispor de si mesma. Sua palavra não teria valor na causa de um mortal. Hoje crê‑se nessa palavra, no testemunho que presta a Deus.
Com efeito, uma força que está acima da natureza não poderia vir senão do Autor da natureza. Ela se adiante, reza e curva a cabeça. Vede tremer o carrasco, como se ele mesmo fosse um condenado. Sua mão está agitada, seu rosto pálido pelo perigo do outro, enquanto a jovem vê sem medo seu próprio perigo. Eis então uma só vítima num duplo martírio: um, o da castidade; o outro, o da religião.
Inês permaneceu virgem e obteve o martírio.
Observação do Hohrbacher:
No mesmo dia, morte de Luís XVI, rei da França, o qual, por se haver recusado a assinar a deportação de sacerdotes fiéis e haver‑se tornado confessor da fé católica, foi morto pelos ímpios da época. O papa Pio VI, como doutor particular, qualificou de martírio a morte de Luís XVI.
* Santo Ambrósio põe em evidência o pensamento que quer salientar de Santa Inês pelos contrastes que sua personalidade oferece
Este comentário de Santo Ambrósio sobre Santa Inês tem um certo caráter literário, mas profundo e muito bonito, porque é todo feito de contrastes, e através dos contrastantes, vai pondo em evidência o pensamento que ele quer salientar.
Em primeiro lugar, o contraste entre a idade e o martírio. Ela ainda não está em idade de ser supliciada, porque é tão jovem, que não é idade de se suplicar ninguém. Porém, já está amadurecida para a vitória. Aquela que não está amadurecida para a vida, está amadurecida para vencer. É uma glória: a imaturidade do tempo e a maturidade da virtude.
Segundo contraste: não está amadurecida para o combate e já está apta para obter a coroa. Uma moça nessa época não está em condições de combater, mas já obtém a maior de todas as coroas, que é a coroa do martírio.
Terceiro contraste: tem tão pouca idade, que não dispõe de si mesma. Entretanto aquela que tem tão pouca idade que a lei não considera poder se governar a si mesma, já é uma mestra de virtude.
Então, são os contrastes que a personalidade dela oferece.
Agora, é o modo de ela sofrer o martírio. Avança cheia de alegria, com o passo desembaraçado; e avança para o lugar onde todos sofrem, ou melhor, todos fogem.
Outro contraste: está ornada, não de cabelos artificialmente penteados, mas de Jesus Cristo, porque Jesus Cristo é o verdadeiro ornato, a verdadeira beleza da alma que se consagra a Ele.
Outro contraste: está coroada, não como as moças romanas de seu tempo, com flores, mas de pureza. A pureza nela resplandece e é como um halo em torno de sua cabeça.
Outro contraste: todos estão em lágrimas diante daquela menina que vai ser morta. Ela não chora. Contraste glorioso, porque está sedenta de ir para o Céu.
Outro contraste: admiram que entregue tão facilmente uma vida que ainda não gozou. Ela sacrifica esta vida como se estivesse esgotada.
Outra figura belíssima, que retrata sua personalidade: todos admiram que ela já seja testemunha da divindade. Entretanto, ela ainda é menor de idade. O máximo que uma pessoa pode ser é mártir, testemunho da divindade. No entanto, ela é menor de idade.
Ainda: sua palavra não valeria num processo comum, mas todos se impressionam com sua defesa de Nosso Senhor.
E agora a razão de todos esses contrastes: neles há sempre o absurdo, e o que era natural é que ela fizesse o contrário do que está fazendo. Ora, a razão é que uma força que está acima da natureza só poderia vir do Autor da natureza. Acima da natureza é mais do que a natureza. Mais do que a natureza, só Quem fez a natureza.
* Deus se revela pela santidade e pelo milagre do martírio de Santa Inês
Deus se revela pela santidade e pelo milagre da morte, do martírio de Santa Inês.
Ela se adiante, reza e curva a cabeça. Vede tremer o carrasco, como se ele mesmo fosse um condenado.
A condenada vai calma, o carrasco treme.
Sua mão está agitada, seu rosto pálido pelo perigo do outro, enquanto a jovem vê sem medo seu próprio perigo.
O carrasco tem medo de manusear os instrumentos de suplício, e ela não tem medo do carrasco.
Eis então uma só vítima num duplo martírio: um, o da castidade; o outro, o da religião.
Inês permaneceu virgem e obteve o martírio.
Dois martírios, portanto, numa só vítima.
Esta é a consideração magnífica de D. Guéranger sobre Santa Inês.
* Dois pontos a salientar no dia do aniversário da morte de Luís XVI: a realeza de direito divino como a Igreja Católica considerava, e a conversão operada no rei
Amanhã será o aniversário da morte de Luís XVI. Seria interessante dizermos uma rápida palavra sobre o quadro dele que temos aqui na sede.
Se querem ver um quadro que representa uma cara de bobo, é olhar para aquele quadro: gorducha, balofa, um nariz que era para ser de ave de rapina, mas com olhos de pomba bêbeda atrás.
Santa Teresinha dizia de si mesma que tinha olhos de águia num corpo de passarinho. Ali são olhos de passarinho num corpo de boi.
Uma alegria idiota, satisfeita. Na boca da Revolução Francesa, ele está contente.
A indumentária é simplesmente lindíssima: o manto violeta, com flores-de-lis de ouro, que representa a realeza; revestido de arminho, que é outro símbolo da realeza. Depois, um manto disposto com uma arte extraordinária. Aquele manto é uma verdadeira teoria da realeza simbolizada em pano.
Um homem muito bem vestido com uma roupa branca e leve, que contrasta com o peso e solenidade do manto. Tem à cinta a espada de Carlos Magno. Todas as idéias da realeza de direito divino estão representadas ali.
Então há uma coisa para considerar neste dia: a realeza de direito divino, como a Igreja Católica considerava. Mas também há outra coisa: é a conversão operada naquele homem. Aquele homem bobo, que não valia nada, que depois da data daquela gravura cometeu torpezas ainda maiores em que a bobeira chegou até o fim, colocado diante do supremo infortúnio, morreu com sublimidade. Percebe‑se que num homem, aparentemente inconversível, houve uma conversão.
* No aceitar o sofrimento, o maior sabugo se lava de escórias imundas, adelgaça a alma tornada rígida e hirta por uma porção de circunstâncias lamentáveis, e se regenera
O que converteu aquele homem, a meu ver, foi o seguinte:
Há algo de especialmente santificante para o maior cretino, para o maior sabugo desinteressante, em sofrer pela causa da Igreja, em sofrer por causa de Nossa Senhora. No aceitar esse sofrimento, ele se lava de escórias imundas, ele adelgaça a alma tornada rígida e hirta por uma porção de circunstâncias lamentáveis, e por isso ele, por assim dizer, se regenera.
Foi o que se deu com Luís XVI. Ele sofreu pela boa causa e à medida que foi sofrendo, foi melhorando.
Luís XVI da fuga de Varennes, ainda é um homem que não se pode suportar. No meio da fuga, desce da carruagem com toda a família, que implora que não faça isto, para ver um lindo raiar do sol. Perto de Varennes, aproximando‑se das tropas que lhe eram fiéis, resolve viajar com as cortinas abertas, todo mundo o vê e reconhece pelas células e moedas, algumas pessoas vaiam, outras aplaudem. Para ele não importa fugir, mas ver o panorama.
Em outro lugar desce para comer queijo e beber vinho, porque era gostoso. Afinal é preso. Quando é preso, depois de um dilúvio de humilhações, chega nas Tulharias, em seu quarto, joga‑se numa poltrona e tem uma exclamação: “Enfim, de volta!”.
Este homem, por ter sofrido pela Igreja, com a Igreja, pela causa da Igreja, teve a regeneração que os senhores sabem. Vale a pena olhar para aquela cara para se compreender o valor desse sofrimento. E vale a pena também por uma razão ligada à nossa vida.
Todos nós sofremos pela causa da Igreja. Podemos esperar que Nossa Senhora, misericordiosamente, nos conceda muitas graças, muitas emendas e muitos remédios, por esta nossa solidariedade com a causa da Igreja, tão perseguida no mundo inteiro.
*_*_*_*_*