Santo do Dia – 17/1/1966 – p. 4 de 4

Santo do Dia — 17/1/1966 — 2ª-feira

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Santo do Dia

O santo de amanhã, é a festa da Cátedra de São Pedro de Roma. Sobre esse assunto, Dom Guerangér na “Anée Liturgique” dá um trecho do sermão 82 de São Leão Magno. Os dizeres de São Leão Magno são os seguintes:

Ó Deus bom, justo e todo poderoso, que jamais negou Sua misericórdia ao gênero humano, e que pela abundância de seus dons forneceu a todos os mortais os meios de conhecermos o Seu nome, nos secretos desígnios de Seu imenso amor teve piedade da cegueira voluntária dos homens e da malicia que os precipitava na degradação, enviou o Seu Verbo, que lhe é igual e co-eterno.

Ora, esse Verbo, tendo-se feito carne, tão estritamente uniu a natureza divina à natureza humana que o abaixamento da primeira até nossa objeção tornou-se para nós o princípio da elevação mais sublime.

Mas, a fim de difundir no mundo inteiro os efeitos desse favor, a Providência preparou o Império Romano e deu-lhe tão grandes limites que ele abarcava em seu vasto meio a universalidade das nações. Foi feita uma coisa muito útil à realização da obra projetada, que os diversos reinos formassem uma confederação de um império único, a fim de que a pregação geral chegasse mais rapidamente aos povos, unidos que já estavam sob o regime de uma só cidade.

Esta cidade, desconhecendo o Divino autor de seus destinos, fizera-se escravo dos erros de todos os povos, no instante mesmo em que ela os tinha sob suas leis e acreditava possuir uma grande religião, porque não rejeitava nenhuma mentira. Mas quanto mais duramente foi dominada pelo demônio, mais maravilhosamente foi conquistada por Cristo.

Com efeito, quando os doze apóstolos, após terem recebido do Espírito Santo o dom de falar todas as línguas, espalhados pelos quatro cantos da Terra, e que tomaram conta deste mundo onde deviam difundir o Evangelho, o Bem-aventurado Pedro, príncipe dos Apóstolos, recebeu como herança a cidadela do Império Romano, a fim de que a luz da verdade que se manifestava para a salvação de todas as nações se difundisse mais eficazmente difundindo-se no centro desse império sobre o mundo inteiro.

Qual a nação, com efeito, que não contava com numerosos representantes nessa cidade? Qual o povo ignorava o que Roma ensinava? Era lá que deviam ser esmagadas as opiniões de filosofia, lá deviam ser dissipadas as vaidades da sabedoria terrestre, lá o culto dos demônios seria confundido, destruído. Enfim, a impiedade de todos os sacrifícios, no mesmo lugar onde uma superstição hábil reunira tudo o que os diversos erros havia produzido.

Eu tenho impressão de que eu li isto por devoção, e li para me inteirara do texto, mas que para os ouvidos da geração nova esta longa seqüência de frases e pensamentos redunda vizinha do ininteligível. De maneira que eu vou dar uma versão — como é que se diz do Concílio? Aggiornata, do conteúdo. E a versão aggiornata é a seguinte:

A primeira idéia é de que a humanidade estava extremamente degradada, e que Nosso Senhor Jesus Cristo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, encarnou-se, realizando por esta forma uma descida que era imensa, porque era do mais alto dos Céus para o infinito de uma condição degradada, mas que há uma correspondência entre o enorme dessa descida e o enorme da ascensão que o gênero humano teve. Porque assim como Deus se humilhou imensamente encarnando-se, nós fomos imensamente elevados pela Encarnação d’Ele.

E que há uma expressão que diz: “Quanto maior a altura, tanto maior o tombo.” Aqui se poderia dizer, salvadas as proporções: “Quanto maior o tombo, maior o tombo, maior a altura.” Quanto mais Deus se humilhou, tanto mais nós fomos prodigiosamente levantados por Ele. Então vem acentuada aqui a imensa misericórdia do dia de Natal, que patenteia aos homens a elevação sublime e incompreensível da natureza humana pela união hipostática na Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Este é o primeiro pensamento.

Agora, o segundo pensamento é o seguinte: de que esse favor da Providência só daria todos os seus resultados pela constituição do Império Romano. Porque o Império Romano era um império enorme que continha dentro de seu bojo todas as nações a orla do Mediterrâneo, e muitas outras ainda. Os senhores sabem que o Império Romano estendeu-se até o atual território da Inglaterra, e um pouco o território da Escócia; que na linha sul ele tocou as lindes da Etiópia.

Os senhores sabem que a África do Norte era povoada, fértil e intensamente latina no tempo dos romanos, e que o poder dos romanos afundou pela Pérsia adentro, tocando quase até a Índia. De algum modo se podia dizer que o mundo conhecido era todo romano. Quer dizer, houve uma unificação de incontáveis nações sob um só império, e então ele mostra porque é que esta unificação serviu para a difusão do enorme beneficio que houve em que Cristo se encarnasse e elevasse a natureza humana. Ele então dá para isso almas razões.

Uma razão que veio muito rapidamente mencionada é a razão ligada ao fato de que não havendo fronteiras, era muito mais fácil o haver uma só religião, porque onde há um só Estado cabe mais facilmente a idéia de uma só religião. E que por causa disso então, a unidade do Império Romano, a unidade civil preparava as mentes para a aceitação de uma unidade religiosa.

Mas depois então ele desenvolve uma idéia mais viva, e que é a seguinte: que a cidade de Roma era como que um coração mantendo dentro de si, com movimento de sístole e diástole, um sangue que circulava por todo o Império. E em Roma havia cidadãos, havia habitantes de todas as partes do Império que, ou moravam em Roma e de Roma exerciam influência sobre suas respectivas províncias, ou estavam sempre em viagem.

Com isto, levavam a influência de Roma para os últimos recantos. Mas de um modo ou de outro, Roma era como que um coração que tinha atraído para si pessoas de todo o Império, e que depois também mandavam para longe pessoas de todo o Império: funcionários romanos, legionários romanos e todo o aparelho administrativo, militar romano. De maneira que, cristianizando a cidade de Roma, estava conquistado o ponto estratégico para a cristianização do Império. E feita a cristianização do Império, estava potencialmente cristianizado o mundo.

Então ele explica porque é que por um desígnio soberano de Deus a cidade de Roma foi então escolhida para ser a cidade do Papa: porque era uma cidade estratégica onde este benefício da salvação podia se tornar mais geralmente conhecido.

Então daí vem a Cátedra de São Pedro, que se trata de venerar. Quer dizer, a Cátedra de São Pedro foi a cátedra posta no ponto nevrálgico do mundo inteiro. Foi cátedra posta no centro de influência do mundo inteiro, e que por causa disto inoculou no mundo inteiro a regeneração católica, a verdadeira Fé, disseminou e espalhou a Igreja.

O que é bonito é o seguinte: como a Providência age de um modo político interessante. E eu não paro aqui diante da palavra “político”. Enquanto a Igreja era pequena e fraca, era preciso que a sede d’Ela fosse na mais importante cidade do mundo, para poder espalhar a sua influência. Mas depois que a Igreja se espalhou para o mundo inteiro, convinha que o Papa, tornado personagem humanamente poderosíssimo, não convivesse na mais importante cidade do mundo com o maior poder temporal, porque sairia fricção. E em certo momento, foi necessário que, pelo contrário, Roma não fosse mais a capital política do mundo.

E então Constantino deixou Roma e se transladou para Bisâncio. Atribuem alguns esta idéia de que exatamente o imperador não incomodasse o Papa, mas é um pouco discutido, porque Roma já não era capital do Império. A capital do Império era Milão, era Ravena, Roma não era mais a capital. Mas nunca mais Roma veio a ser a capital de um país que fosse uma potência internacional.

Nós tivemos a Roma dos Papas, que foi sempre um pequeno Estado temporal, e depois que nós tivemos a Roma dos Papas, nós tivemos a carnavalesca Roma sabalda, a Roma dos Sabóias, capital do reino da Itália. Esta Roma foi capital de um Estado de alguma importância na Europa, mas não de um Estado de uma importância, de um poder político e militar mundial. De uma influência cultural mundial, sim; de um poder político e militar mundial, não.

Agora, poderia começar a aparecer então uma espécie de opressão da Roma civil, poderosa, sobre a Roma religiosa. O que é que se passou? Passou-se a coisa mais inesperada do mundo. Para tocar para frente a obra de humilhação do Papa, a Roma dos Sabóias foi uma Roma constitucional e depois se transformou numa República. Mas quando se foi fazer as eleições, verificou-se que a maior influência eleitoral da Itália era o Papa. E hoje em dia, por detrás do governo democrata-cristão, é o Papa que governa.

De maneira que os papéis se inverteram e em vez de ser Roma civil que governa, Roma religiosa, nós temos até certo ponto a Roma religiosa que governa a Roma civil. E assim o desígnio de que o papado seja opressão pelo poder civil, esse desígnio não ser realizou.

Será o melhor possível esse governo democrata-cristão? Este é um assunto a respeito do qual nós temos nossa opinião formada. Uma coisa é verdadeira: é que se São Pio X estivesse no Sólio Pontifício, a Itália seria a nação mais bem governada do mundo. Isto não tem dúvida! Não sei se isto está claro ou se alguém quer fazer alguma pergunta sobre isto.

Quando se fala da Cátedra de São Pedro, fala-se naturalmente do móvel da cátedra. Os senhores sabem que no fundo da Igreja de São Pedro há uma cátedra feita de bronze por Bernine, cercada de uma série de resplendores. E que por causa disto se chama “a glória de Bernine.” Esta cátedra é oca. Ela pode ser aberta e dentro se encontra e é exposto em certas ocasiões, o pequeno trono de madeira que São Pedro usava em Roma, e que até hoje se conserva para veneração dos fiéis.

Agora, a cátedra simbolicamente lembra o poder, lembra a instituição, lembra o papado, lembra o pontificado. E lembra a continuidade dessa instituição através de todos os homens tão diferentes que a têm ocupado.

E lembra então o supremo governo da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Lembra a cabeça da Igreja. Se as vicissitudes humanas podem dar brilho maior ou menor, ou podem até rodear de trevas essa cátedra, Ela sempre a mesma. E o supremo governo da Igreja é a cabeça da Igreja. E quando se ama alguém, se ama sobretudo alguém na sua face, na sua cabeça. E portanto, nosso amor à Santa Igreja Católica Apostólica Romana, que é um amor absolutamente sem limites e acima de todas as coisas da Terra, deve incidir especialmente sobre o papado e a Cátedra de São Pedro, qualquer que seja o seu ocupante.

Porque esse é Pedro, a quem foram dadas as chaves dourada e prateada. A chave do Céu, do poder indireto na Terra. E a este Pedro nós osculamos, em espírito, os pés, como expressão de homenagem e de adesão.

Porque em relação à Cátedra de São Pedro nosso amor, nossa obediência, nossa veneração absolutamente não têm limites. E era especialmente conveniente acentuar na noite de hoje.