. 3 de 3

Santo do Dia — 12/1/1966 — 4ª feira [SD 157]

Nome anterior do arquivo: 660112--Santo_do_Dia_4.doc

Que proveito tirar da vida de santos tão diferente da que podemos levar? * Há santos para serem admirados e não imitados: quantas colunas de São Simão Estilita seriam abandonadas! * O extremo da admiração provoca certa imitação na prática de virtudes menores * A santidade está ao alcance de todos, como Santa Terezinha que introduzia um amor abrasado e plena confiança nas menores coisas

* Que proveito tirar da vida de santos tão diferente da que podemos levar?

Hoje não há Santo do Dia, mas há o pedido que eu responda a uma consulta. A consulta é a seguinte:

Muitas vezes aqui no Santo do Dia, fazendo comentário das virtudes deste ou daquele santo eu apresento um quadro da vida espiritual que se poderia dizer mais ou menos o seguinte: a fé dirige a inteligência, a inteligência dirige a vontade, a vontade dirige toda a sensibilidade humana, e por esta forma Deus governa o homem, o homem está em ordem em relação a Deus.

Os grandes santos conseguiram isto por meio de raciocínios, de meditações, de exercícios inteiramente metódicos, cuidadosos, persistentes, através das lutas e dos sofrimentos mais extraordinários. Eu, então, apresento esta ordem de virtude, esta forma de praticar a virtude, eu apresento e elogio altamente nos Santos do Dia em vários comentários sucessivos.

Agora, em vista disso, alguém me fez a seguinte pergunta:

Dr. Plinio, o senhor sabe que esse Santo do Dia é feito em grande parte para a geração nova, para a geração nova representada pela Martim, para a geração nova-novíssima representada por essas multidões que enchem aqui a sala de reuniões a essa hora.

Ora, o senhor sabe bem que se a geração nova é capenga, a geração novíssima é capenguíssima. E estes santos que o senhor apresenta são o contrário da capenguice, porque são santos de uma grande personalidade, de uma grande capacidade, de uma grande força de sofrimento, de um grande heroísmo e parece que eles representam algo que a capenguice da geração nova não consegue realizar.

Então, pergunta: do que adianta apresentar estes santos? Ou — a pergunta eu não formulei bem — é a seguinte a formulação verdadeira: que proveito nós podemos tirar da apresentação de santos que são tão diferentes da vida que nós mesmos podemos fazer?

* Há santos para serem admirados e não imitados: quantas colunas de São Simão Estilita seriam abandonadas!

Eu devo então responder a esta pergunta.

Primeira coisa que eu devo dizer é o seguinte: é que Deus — e D. Mayer expôs isto há dias atrás quando fez o comentário da vida do Bem-Aventurado Makhlouf — constitui em todos os séculos da história da Igreja santos cujas virtudes são mais para admirar do que para imitar. Quer dizer, são virtudes tão extraordinárias, virtudes tão insignes, tão além de tudo quanto se poderia imaginar, que a gente vê que Deus constitui aquela virtude para que todos admirem, mas não constitui para que todos imitem. Um exemplo frisante é o de São Simão o Estilita, do qual se falou algum tempo atrás: para fugir às atrações do mundo, sobe no alto de uma coluna e fica a vida inteira sentado, ou em pé, sobre a coluna em atitude de oração.

Os senhores imaginem que qualquer pessoa que tivesse dificuldade com a pureza, ou dificuldades do ponto de vista do amor-próprio, construísse uma coluna e ficasse ali, de braços abertos, a vida inteira, rezando, no que isto poderia dar. Quer dizer, primeiro não haveria colunas que bastassem, depois o número de colunas abandonadas seria colossal, não é verdade? Por quê? Porque é um modo de praticar a virtude sem dúvida nenhuma admirável. Um homem que fica anos de pé, ali, rezando no alto de uma coluna, e não pensando noutra coisa a não ser Deus Nosso Senhor, não há palavras que indiquem bastante a admiração que se deve a ele. Mas ele fez isso, coisa totalmente excepcional, para ser admirado, e não sendo desígnio de Deus que ele seja imitado.

* O extremo da admiração provoca certa imitação na prática de virtudes menores

Entretanto, aquela admiração leva as pessoas a praticarem virtudes menores, ou pelo menos virtudes de um modo menos excepcionalmente heróico, leva a praticar aquelas virtudes em grande quantidade. Pensa-se: “Se ele pôde fazer isto, quem sabe eu posso fazer menos? Eu admiro tanto aquilo cuja beleza ele mostrou, que vou fazer menos, mas vou fazer. Eu não posso chegar até onde ele foi, mas quero caminhar naquela direção”.

Então este santo é uma espécie de precursor de milhões de almas que vão atrás dele, não para chegar aonde ele chegou, mas para de algum modo fazer aquilo que ele fez. O extremo da admiração provoca uma como que imitação, e essa como que imitação produz naturalmente … é o bem para muitas almas.

Assim também os santos da velha escola para os santos da geração nova. Eles são admiráveis e eles podem, produzindo admiração, convidar para lances de relativa imitação. E nesses lances de relativa imitação, fazerem um bem muito grande para o “geração nova” que considere isto.

Esta é a primeira idéia que a gente deve dar.

* A santidade está ao alcance de todos, como Santa Terezinha que introduzia um amor abrasado e plena confiança nas menores coisas

A segunda idéia é a seguinte: que na realidade também se é verdade que esta virtude heróica, feita como alguns dos santos do passado a praticaram, não está ao alcance de nenhum homem, ainda mesmo não está nas vias comuns da graça, também é verdade que a santidade está ao alcance de todos, que a santidade afinal de contas é una, e que quando alguém admira outrem que se tornou santo, de outra maneira admira a santidade e fica levado a praticá-la na maneira pela qual pode praticar.

Esse foi o pensamento que inundou a alma de Santa Terezinha do Menino Jesus que foi exatamente a doutora da chamada Escola da Infância Espiritual, que ela chamava a pequena via, que exatamente era uma prática da virtude de quem se portava diante de Deus imitando a simplicidade e humildade de uma criança, e, como uma criança, não querendo coisas extraordinárias, não querendo fazer coisas colossais, apenas servindo a Deus com todo amor nas formas quotidianas e comuns da virtude, mas introduzindo um tal amor, que esse amor representava verdadeiramente a santidade. Então, colocando-se diante de Deus, não como um adulto se colocaria, mas como uma criança se colocaria, e tendo com Deus Nosso Senhor um teor de relações idênticas àquela que as crianças têm com o seu pai ou sua mãe.

Quer dizer, um teor que se poderia chamar filial e reverentemente sem cerimônia, em que de nenhum modo procurava ser grande diante de Deus, mas pelo contrário procurava o mais possível ser pequena, ser humilde diante de Deus e viver da confiança em Deus, minuto por minuto, em viver na confiança da misericórdia de Deus de um modo exacerbado e extremo, se a palavra exacerbado não tivesse um sentido pejorativo. Com isto precisamente, ela alcançou a santidade.

Ela levou sua confiança a extremos singulares. Por exemplo, ela tinha uma aridez contínua e ela que era um braseiro de amor de Deus não sentia seu próprio amor. E sua aridez era tão grande que, por vezes, durante o ofício do coro ela dormia.

Ela tinha pequenas peculiaridade de temperamento, como, por exemplo, quando uma freira que se sentava perto dela e fazendo clic… clic… de rosário que incomodava a ela. Ela nem conseguia prestar atenção no rosário. Ela depois devorada por tentações contra a fé, às quais ela resistia de um modo admirável e completo.

Bem, com tudo isso ela tinha diante de si toda a aparência de pequenez, mas uma pequenez que era a inanidade, que era o vácuo, que ela entretanto sabia que valia muito aos olhos de Deus. Então confiadamente ela vivia sabendo que a todo momento Deus a protegia apesar de ela não o sentir.

Ela até tinha uma figura muito bonita da águia que olhava para o sol através de uma nuvem. Quer dizer, não era possível fitar o Sol Divino, ela tinha as aridezes, mas amava imensamente a Deus Nosso Senhor.

Uma vez perguntaram a ela o que ela faria se caísse em pecado mortal. E ela disse: “O que eu faria? A misericórdia de Deus é tão grande, que eu retomaria com a alma partida de dor a minha vida espiritual bem no ponto onde o pecado tinha deixado, e recomeçaria a minha ascensão tranqüilamente”.

Não se pode dizer que Santa Terezinha fosse capenga, mas ela abriu a pequena via para os capengas, e deu a eles, por esta forma, a possibilidade de uma vida espiritual muito modesta, muito humilde, muito cheia de amor, deu-lhes a possibilidade de realizar a seu modo as coisas dos grandes.

Convém, portanto, conhecer as coisas dos grandes para amá-las e para, na medida do que cabe a cada um, imitá-las, mas dentro da pequena via.

Esta seria a razão das exposições que neste sentido se fazem.

*_*_*_*_*