Reunião Normal – 12/1/1966 – p. 5 de 5

Reunião Normal — 12/1/1966 — 4ª-feira [VF_175_030]

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[Texto confuso, anotado da fita praticamente sem pontuação. A pontuação, em geral, foi feita pelo datilógrafo do microfilme, na medida em que isso foi possível. Alguns trechos ficaram como no original]

Há uma outra coisa que é a seguinte: eu tenho a impressão sobre a mentalidade propriamente dita do pessoal que vem aqui [para] ser apostolizado, o modo de fisgar essa mentalidade também existiria dificuldade muito grande. Tenho a impressão que o nosso pessoal que faz apostolado, muitas vezes não sabe [quem é] o outro diante do qual ele está, uma completa incógnita, … [faltam palavras] … de maneira que ele está sendo convidado a jogar um jogo cujas regras ele ignora.

Bem. Aqui compreende três tópicos tão difíceis que a coisa torna-se atraente. Bem, talvez valesse a pena dizer alguma coisa a respeito da regra do jogo tanto quanto eu interpreto…

(…)

acharam que ainda não conheço dentro da sala do Reino de Maria, quer dizer, como é a coisa. Talvez valesse a pena dizer alguma coisa a respeito desse ponto.

Eu tenho a impressão do seguinte. Que a maior parte, o grosso, o grosso maior das pessoas que tomam contato aqui é… giram em torno do vidro, o grosso já não é nem geração-nova, é vidro desse de fazer janela. Bem. E que a mentalidade desse pessoal de vidro é uma mentalidade ultra chacunière, mas ultra, inclusive por temperamento; eles não têm força de alma, eles não têm vibração para se interessar por qualquer coisa que não seja a vidinha deles; eles não têm, por assim dizer, senso vital para se interessar por qualquer coisa que não seja a vidinha deles. Então, é aquela coisinha que vêm, que eles não vêm, que eles fazem…

(…)

no horizonte deles, dentro do qual eles pensam e que é um horizonte que é apenas a família deles, e é a como que aldeiazinha em que cada um vive. Porque a gente prestando bem atenção, a gente percebe que uma grande cidade de hoje é como um aglomerado enorme de aldeias, porque todo o mundo vive em uma espécie de aldeia, quer dizer, um meiozinho pequeno dentro do qual o sujeito vive e dentro do qual ele imagina que todo o Brasil é o prolongamento da aldeia dele. É um engano. Mas ele pensa que ele vive em uma aldeia homogênea, da qual a aldeia dele é uma gota, como de fato uma grande cidade é aglomerado de aldeias. O sujeito entra com aquela aldeiazinha dentro da cabeça.

Em geral, quando ele tem alguma simpatia por nós, eu tenho a impressão de que ele fica meio arrepiado pelo unanimismo e meio arrepiado pela imoralidade muito grossa que vai aí fora, e é um sujeito que teve a ingenuidade de acreditar na virtude dos pais em geral. Acha que o papai é bom, que a mamãe é boa, e acham também que o mundo aí fora está pior do que o papai e a mamãe; e que então é preciso voltar à Idade Média, que é feita pelo papai e mamãe deles. É o ponto de referência que eles tomam. E eles acham que pai e mãe são os amigos velhos e não compreendem a modificação que houve; e se compreendessem estariam indignados também. E quando começam a freqüentar o Grupo a visualização é essa.

Aí tem um ligeiro senso de castidade, de pureza. Sobretudo a “fassura”, propriamente dita “fassura” paga, aparece como uma coisa horrorosa; a mocinha bem limpa que vai indo pela rua, nem “fassura” nem não “fassura”, é diferente — e é o perigo —, mas a “fassura” é uma coisa horrorosa. Então, elas dizem: “Que bom rapaz, ele pensa também que nem eu pensei”. Interrompe e pergunta se este clips será que prende bem este papel, como é hahnhan…, continua, interrompe por qualquer idiotice que apareça, interrompe com o pensamento e depois voltam cá, voltam ao fio da idéia.

Bem. E quando vocês voltam a falar para ele a respeito disso e daquilo, e daquilo outro, etc., aquilo para ele é como de repente encontrar com um bando de astrólogos que começam a dizer coisas muito difíceis a respeito da consistência da lua. “Que me interessa sobre a lua? Política eu não compreendo bem, porque interessa para um político, ao menos para mim, não; eu vivo a vida sem precisar disso; eu vivo bem, tenho papai, tenho mamãe, tenho meu irmão, tenho a tia, e vivo bem sem isso; não tem mais nada, não preciso de outra coisa.”

Bem. E há, portanto, uma espécie de incompreensão de tudo, uma mentalidade meia impenetrável e o problema apostólico é vencer esta mentalidade impenetrável. Eu tenho a impressão que isto não visto assim, começam o desfilar de sociologias que às vezes é bom e às vezes não é.

É bom isto ou não: D. Bertrand, Leo, José Lúcio, João, Gregório?

Você veja, por exemplo, o Fidelis. O Fidelis é característico, porque é um rapaz até que lê; mas ele não lê para tomar conhecimento do problema geral a não ser que há um sujeito dentro da janela do mundinho dele; então ele lê e guarda o livro em uma estante provavelmente bem cuidadinha … [faltam palavras] … estaria na loja da mentalidade dele. Então, ele fica um rapaz que entende de reforma agrária e quando se … [faltam palavras] … é um astro, mas é um astro de perder, não é … [faltam palavras] …

Quando o Fidelis compreender que é preciso agir através do Grupo na rua sobre a sociedade, fora do mundinho dele, eu tenho a impressão que não entra na cabeça do Fidelis, não é isto? Bem. Como é que a gente assusta, como é que a gente pega esta gente assim? Não é fazer sociologia, porque convém fazer sociologia, daqui a pouco eu vou dizer qual é o papel da sociologia dentro disto, mas convém, ao lado disso, fazer uma pequena prospecção da psicologia do sujeito para criar dentro dele uma mentalidade, um estado de espírito que o ponha em contradição consigo mesmo, mas uma contradição que ele não perceba que foi posta por alguém, que ele tenha a impressão que nasceu na cabeça dele … [faltam palavras] … umas coisas assim mais ou menos no seguinte ponto … [faltam palavras] … por exemplo, eu sou um rapaz direito, converso, etc., a alturas tantas uma certa compaixão de tanta gente que vive na grande cidade e que tem fome, que tem dificuldades, etc., mas espera um pouco, caso contrário mingua o humanitarismo dele & Cia. Ltda., de maneira que … [faltam palavras] … um pouquinho, o rapaz que há por aí, que afinal de contas vai se perdendo assim; todo mundo fala em assistência social, eles pensam nos corpos, eles não pensam nas almas, mas muita gente está perdida por aí, nem você nem eu fazemos nada, nem ninguém faz nada, perde-se assim … [faltam palavras] … porque colocam em contradição consigo mesmo, de uma porção de lados eles entram em contradição consigo mesmo.

Bem, depois, mais adiante uma outra ocasião, uma conversa assim: “Os comunistas, eles são péssimos, etc., eles têm muita … [faltam palavras] … eles têm força de ação muito grande”. “Não, inteiramente não. Se você, eu, os outros como nós fizéssemos mais do que dizer em sentido contrário, como estaria bem isto aqui.”

Quer dizer, é uma coisa que morde também, que faça ver, numa outra conversa, por exemplo, uma coisa assim: “Afinal, a gente quer obter muita graça de Deus; a esmola obtém muita graça; a melhor esmola é a esmola do bom conselho. A gente dá um bom conselho a alguém para obter uma graça, para qualquer coisa que queira. Como é bom!”

Bem. É preciso estudar. Assim a gente poderia dar uma série de outras coisas típicas.

Outra, é por um lado completamente diferente. Dizer o seguinte: “O mundo de hoje é meio incompreensível para os de nossa geração. Parece que eles não entendem muito as coisas. Tal coisa é incompreensível, tal coisa …[falta palavra] … é verdade, etc.” Um …[falta palavra] … pouco os olhos dele para o que ele não vê: a incompreensibilidade do mundo para o geração nova. “Bem, isso, afinal de contas a gente, o único meio para a gente sair disto é a Religião, está compreendendo? Porque hoje em dia a Religião resolve esses problemas (255). O resto não resolve, compreende?” Etc.

O sujeito compreende que está se ralando com alguma [coisa], porque esses tipos todos parecem de vidro, mas eles têm algumas [coisas] que [os] ralam. Eles sentem que não funcionam, que a coisa não dá certo, e cada um pensa que é só ele, e que os outros no fundo da [“facha”?] … [faltam palavras] …

Bom, e por aí compreende? E pôr, dar um pouco de razão às coisas. Bom, procurando uma série de coisas assim, e nas frestas da conversa, compreende? E aí seria preciso quase que fazer um pouco de simpósio. Então, vocês mesmos procurem reunir-se, decidir-se sobre coisas do gênero, compreende?

Então, aqui deveria haver uma lista de cinqüenta coisas destas, para ir lançando, compreende? Eu garanto que isto dá vitalidade ao apostolado, dá movimentação e dá como pegar o sujeito, a raiz tem esta fonte de vida, não é mais aquela superfície lisa, e penetra com terra; ela faz a ação da verruma e entra qualquer coisa na psicologia do sujeito. Tenho a impressão de que a coisa é assim.

Outra coisa que pega é, por exemplo, uma formulação, eu não garanto que pega. Dizer: “afinal de contas hoje em dia o dinheiro vale tudo. Ah, é verdade! A gente consegue tudo, compra tudo, é uma pena, etc.[?] É verdade, quanta gente corre atrás do dinheiro exageradamente, etc., perde o caráter por causa do dinheiro … [faltam palavras] …Bem, a verdade é a seguinte também. Tudo quanto é tradição antiga em que haviam valores que valiam mais do que o dinheiro, tudo isto acabou, não se dá mais importância, é uma coisa errada. Ora, a cultura, por exemplo, hoje em dia. Hoje cultura e inteligência dão menos prestígio do que um automóvel, é uma coisa inteiramente errada, onde já se viu uma coisa destas? Deveria ser de outro modo.”

Garanto que o sujeito topa a parada. Veja bem, depois de algum tempo de martelar nesse ahhham… entra a doutrina. A não ser a doutrina, o que é que é,[?] e é para a Contra-Revolução, mas o que traz com que entrar na cabeça do sujeito[?] é a … [faltam palavras] e isto seria uma primeira coisa sem a qual eu tenho a impressão que o nosso apostolado volta sem conseguir muito.

Então, a meta seria conseguirmos cinqüenta pontos desses e uma dezena … [faltam palavras] …Bom, eu sou aberto a lhe dizer em que o tempo mudou muito e que eu não compreendo muito bem, etc.

Mas me digam com franqueza se querem perguntar qualquer coisa.

(A respeito do ponto de impressionabilidade e apatia que o senhor fala no “Diálogo”…espaço em branco)

Eu acho que seria interessante que se pudesse fazer mimeografada uma série de sugestões para a pessoa ler e ver essas sugestões na hora do apostolado, antes do apostolado, na linha do que foi feito [com] aquela lei dos acompanhantes, a coisa parece … [faltam palavras] …nos acompanhantes … [falta palavra] …esta (290).

(D. Bertrand: Uma medida de ordem prática que se poderia fazer seria uma folha mimeografada com uma série de sugestões que a pessoa veria, leria, antes de ir fazer os apostolados, mais ou menos como foi feita aquela lista dos acompanhantes. Para mim, antes de exercer a função de acompanhante, fez muito bem reler aquilo.)

Uma exploração do perigo comunista, umas coisas assim, dizer: “Eu tenho pena” (porque essas coisas têm que começar numa pena idiota; é preciso cuidado no modo de dizer isto, porque nós temos pena, mas não é esta pena humanitária, idiota, nós temos a pena sobrenatural, católica, etc.) dizer então: “Eu tenho muita pena das nações por trás do Muro de Berlim, o “muro da vergonha”, que coisa horrorosa, etc., etc. Sobretudo eu tenho pena por causa do susto que essa gente deve ter tido. Porque tem ali um mundo de gente que há vinte anos atrás se considerava tão garantido de não ficar comunista como nós aqui.”

Pára um pouco e diz: “Nós, hein? Quanta incerteza!”

Depois, segundo degrau: “Bem, ainda bem que nós lutamos, fazemos qualquer coisa. É pena tanta alma vulgar que não luta.”

Mais adiante um pouco, diz: “Bom, que essa história pelo menos o sujeito tem vistas estreitas, ele não vê o perigo. O que há de fazer? É um medíocre.”

Isto, fingindo que o interlocutor é companheiro da gente. Entretanto, ele só entende o mundinho dele, não compreende outra coisa. O resto do caminho, vocês estão vendo.

Por exemplo, aqueles “Ambientes e Costumes” que você mostrou do pessoal fugindo do Muro de Berlim, para mostrar numa conversa é excelente, para dar um frisson desses. De repente passa e diz: “Antigamente diziam que a América Latina não era contagiável com isso. Entretanto, hoje Cuba é uma maçada, é um osso aquilo. Esses guerrilheiros aí. Enfim, vamos ver.”

Isso no papel deve ser escrito assim. Eu não quero dizer que cada um vá dizer essas palavras, mas é uma inspiração, uma sugestão para dizer coisas quejandas, mais ou menos desse tipo. Dizer tudo que ele quer que não aconteça e apresentar a ele, subconsciente, como provável que aconteça, porque desmonta o mundinho dele.

Você pensou que você é um rapaz que gosta de ler, etc., etc.? Na Rússia, filho de intelectual tem de ser sempre operário e só filho de operário é que pode ser intelectual. Que tristeza uma coisa dessas! … [Falta palavra] …tinha um filho operário, etc., etc.” Quebra um pouco o mundinho dele. Importa entrar na chacunière e pôr os corrosivos dentro da chacunière.

(Sr. Gregório diz algo que não se consegue ouvir.)

Vai e é uma coisa que dificulta a nossa ação, mas isto é uma coisa que eles não podem ver com desconfiança. De maneira que se pode em boa medida ainda aproveitar-se do perigo comunista. É apenas quanto ao fato de que isso é uma tapeação, etc., etc., só muito mais tarde se poderá dizer.

(Sr. José Lúcio pergunta se se deve abandonar o modo tradicional de fazer apostolado.)

Falta este — devem ser feitas as duas coisas — falta este para completar o tradicional. O tradicional é indispensável para o que eu vou dizer daqui a pouco. Em última análise, como o comunismo tem uma baldeação ideológica inadvertida e a atuação explícita, nós vamos fazer a mesma coisa.

A segunda etapa não é para atrair o indivíduo, mas é para lutar contra a família quando a família não quer que o sujeito faça apostolado, se dedique ao Grupo, etc., etc. e começam os primeiros arranhões com a família. Aí deve ser uma coisa mais ou menos desse gênero: “É gente, infelizmente, muito preocupada só com seus problemas, que não vê o dia de amanhã, que não se incomoda a não ser com suas complicações domésticas e que não vê os problemas nacionais. Então falta o senso patriótico da civilização católica.” Pondo a palavra “patriótico” no meio, que não é uma palavra boa, é uma palavra revolucionária, ela diz muito. Porque o sujeito não tem o senso do Brasil, o senso da civilização católica do Brasil, só pensa em si mesmo. Naturalmente a gente vai insistindo um pouco e mostrando para eles como é. É uma segunda etapa.

Então, há uma primeira etapa que é a etapa da tração, e a segunda etapa por esse processo é a organização da resistência com fórmulas dessa.

Por que [o] outro tipo de apostolado é indispensável? O outro tipo de apostolado é indispensável, em primeiro lugar porque se dá a doutrina católica verdadeira. Rezando antes e com intenção sobrenatural, o outro tem uma graça, seja ele de vidro ou de celulóide, ele tem uma graça para ver aquilo. Ele pode rejeitar, pode acontecer o que acontecer, mas ele tem uma graça e a gente deve portanto dizer.

Em segundo lugar, se o sujeito tem uma graça suficiente para ver aquilo, de vez em quando cai uma graça superabundante e num ponto qualquer brilha de repente aos olhos dele. Depois de ter falado um ano, dois anos, três anos, um ponto de repente brilha, e quando esse ponto brilha é toda uma vida nova que começa para o sujeito, de maneira que falando, falando, falando até chegar o momento em que Nossa Senhora queira fazer brilhar um ponto. Pedir a Nossa Senhora o momento do brilho é exatamente o que nós devemos fazer neste tipo de apostolado.

Então, o tradicional é muito necessário, apenas prestando atenção para o fato de que ele deve ser completado, dinamizado pelo processo de que eu acabo de falar. O tal processo deveria ser estudado com a experiência de vocês ainda mais.

Isto seria uma primeira idéia.

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