Santo do Dia – 6/1/1966 – p. 4 de 4

Santo do Dia — 6/1/1966 — 5ª-feira

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Epifania de Nosso Senhor

Tem os seguintes comentários a respeito da vocação e dignidade dos Magos.

A estrela enunciada por Balaão tendo se levantado sobre o Oriente os três Magos cujo coração se tinham aberto à espera do Messias Libertador, sentiram antes de tudo a impressão de amor que os levava a Ele.

Eles receberam a nova da alegre cinda do Rei dos Judeus de um modo místico e silencioso. A diferença dos pastores de Belém aos quais a voz de um anjo convidou para ir ao Presépio. Mas a linguagem muda da estrela é explicada em seus corações pela ação do Pai Celeste que lhes revelava Seu Filho. Nisto sua vocação foi mais alta em dignidade do que aquela dos pastores, que segundo as disposições divinas na antiga Lei, nada conheceram há não ser pelo mistério dos anjos, mas se a graça divina se dirigiu imediatamente a todos os corações pode-se também dizer que ela os encontra fiéis.

Os magos falando a Herodes exprimiram a simplicidade de sua pressa: “Nós vimos sua estrela e nós viemos para adorá-lo. Esses reis dóceis deixam, portanto, de um momento para outro sua pátria. Suas riquezas, seus repousos para caminharem em seguida da estrela”.

O poder de Deus que os tinha chamado, os reunia em uma mesma viagem em uma mesma fé. Os perigos da vigem os cansaços de uma estrela de que eles ignoravam o termo, o temor de se dispersar contra si as suspeitas do Império Romano, nada os fez recuar. Seu primeiro passo, seu primeiro repouso foi em Jerusalém. É pois, nesta cidade sagrada que em pouco tempo será maldita que eles chegam, eles gentios, para anunciar Jesus Cristo e declarar que Cristo veio. Com toda a segurança, toda a calma dos apóstolos e dos mártires, eles professam seu desejo firme de adorar o Messias. Eles obrigam a Israel depositária dos oráculos divinos a confessar um dos principais caracteres do Messias: seu nascimento em Belém. O sacerdócio judeu preenche sem ter visto a compreensão, seu ministério Sagrado.

Herodes se agita em seu leito, e medita projeto de carnificina, mas é tempo para os Magos deixar a cidade infiel que já recebeu por sua presença o anuncio de seu repúdio. A estrela aparece no Céu e os solicitam de tomar novamente seu caminho. Mais alguns passos eles estarão em Belém aos pés do Rei que eles vieram procurar.

Este comentário de D. Gueranger é borbulhante de idéias. Idéias profundas das quais cada uma mereceria verdadeiramente uma conferência.

A primeira idéia é uma comparação entre os Magos que foram procurar o Menino Jesus guiados pela estrela, e os pastores. Mas é uma comparação que procura o valor de procedimento de uns e de outros perante o Natal pelo modo pelo qual foi noticiada a uns e outros o advento de Jesus Cristo.

Então ele diz:

O advento de Jesus Cristo foi enunciado aos pastores pelos Anjos. Foi mencionado aos Magos certamente por uma estrela que estava no Céu. Mas esta estrela que estava no Céu eles souberam que ela significavam a vinda do Messias, como? Em virtude de comunicações internas de caráter místico e silencioso feita pela graça de Deus na alma de cada um, que fez que, quando a estrela chegasse eles soubessem que era aliás anúncio do Messias que vinha. E então tocados, por um movimento que era uma fidelidade à voz interna do Padre Eterno na alma deles; e tomou por isto eles então acreditaram na estrela. E como a estrela se movia eles foram atrás da estrela.

Então os senhores têm dois processos; um é o anúncio de fora para dentro, os pastores ficam sabendo por um fato externo a eles e um fato altamente miraculoso um fato extraordinário, os pastores ficam sabendo que o Messias nasceu. Pelo contrário os Magos ficam por um fato interior, por este fato interior que a estrela apenas esclarece um pouco mais é que eles ficam sabendo que o Messias nasceu.

Então D. Gueranger pergunta: O que é que tem mais mérito seguir os Anjos ou seguir a voz interior?

Segundo o “heresia branca”seria os Anjos. Porque para o “heresia branca” quando aparece um Anjo é porque o sujeito é santo e a prova da santidade é que viu um Anjo e mais ainda teve a emoção santificante de ver o Anjo. Naquele ah!, fica santo de uma vez. Já é santificante. É um suspiro santificante. Sujeito já fica com cara de imagem sulpiciana. Ah! E lá vai, compreende? De maneira que então mais importante, mais prova se santidade é ter recebido o anúncio de um Anjo e corresponder.

Depois tem outra coisa que é a seguinte, é que é mais “milecanesco” a gente ver o Anjo do que a gente ter uma voz interior porque voz interior quantos tem? Depois a gente lá sabe se é voz interior ou não? Pode haver dúvidas. Anjo não! É uma coisa provada, certa garantia e depois Deus mandou um Anjo para falar com aquele anjo, oh! La! La! Não é pouca coisa, para falar com Nossa Senhora, Ele mandou Anjo também.

Enfim, é importante, não é verdade? Voz interior é a vida de todos os dias é uma coisa apagada, é uma coisa sem graça desbotada então muito mais vale a pena receber um anuncio pelos Anjos e é mais fiel quem segue o anúncio dado pelos Anjos.

D. Gueranger mostra que isto é falso. E ele é um grande teólogo e é um grande especialista na consideração de temas destes. Ele mostra que a operação interna da graça numa alma vale mais do que qualquer fato externo, e que a fidelidade à voz interior vale mais do que a fidelidade a um anúncio exterior e que por causa disto aqueles que não viram o Anjo mas creram nesta voz interior e a voz interior evidentemente não é uma coisa assim: “Chiúúú´”, não é um cochicho, mas é um jogo de espírito provocado pela graça, que percebe, que discerne, que pondera iluminando pela graça chega às conclusões impregnadas de espírito de fé, então!

Isto é diretamente um fruto do Espírito Santo e que a fidelidade a isto é mais árduo, mas ao mesmo tempo é mais meritório do que a fidelidade dos pastores ouvindo a voz dos Anjos. Depois a gente poderia dizer: “Bom, mas estas vozes interiores às vezes enganam”. É bem verdade que enganam, mas qual é a conseqüência? É que Deus faz mal em falar [com] a gente por voz interior? Quem ousaria censurar Deus? Se Deus não faz mal, a conseqüência é que a gente não deve ouvir? Deixa Deus ir falando?

Há uma frase na Escritura que diz: “Se hoje ouvir a sua voz, não endureçais os vossos corações”. E portanto, não fazer ouvido mudo à ação interna da graça na alma. Mas é saber discernir. Saber discernir como? Com o auxílio que o próprio Deus dá para isso.

Bom, isto tem uma aplicação para nós? Tem.

O que é que é melhor, a gente saber por uma revelação que o “Catolicismo” é um movimento predestinado ou é melhor nós sabermos isto pelo jogo interno de nosso senso católico, de nosso amor à Igreja, de nosso espírito de fé, e sendo uma expressão, um efeito da presença do Espírito Santo em nós. Nos leva a perceber isto com clareza, a depositar nossa fé nisto, sem nenhum milagre externo, tenha visto. É evidente diante da doutrina de D. Gueranger que muito vale a pena crer assim do que por um milagre externo.

E assim se aplica bem a palavra de Nosso Senhor a São Tomé: “Tomé tu creste porque viste, bem-aventurados os que não viram e creram”. É fecundíssimo este pensamento. Outro pensamento de que é de um porte que de qualquer natureza nos interessa menos, e por causa disto sobre ele eu me estenderei menos também; é o que ele mostra muito interessante sobre a degradação do povo eleito.

Nascido o Messias o povo eleito deveria receber o aviso de que o Messias nasceu. E esse aviso deveria ser dado em Jerusalém e no Templo. O normal é que todos os Sacerdotes reunidos no Templo num momento em que uma nuvem áurea entrasse dentro do Templo e que um cântico angélico se deixasse sentir eles tivessem confirmação daquilo de que já suas almas estavam dizendo que os tempos já tinham chegado à sua maturidade, que os fatos conferiam com descrição das profecias e que afinal de contas o Messias ia nascer. Qual o que! Foi preciso que viesse de longe os reis Magos, gentios, pagãos, alheios à nação, filhos portanto de povos reprovados e condenados. Que eles viessem a Jerusalém para anunciar em Jerusalém que o Messias tinha nascido.

Quer dizer, é o cúmulo da degradação para Jerusalém. Não deicida, hein! Nunca! Nunca! Mas enfim, para Jerusalém, que para o qual não faltava nada para ser deicida.

Agora, interessante é o resto da coisa, a reação dos sacerdotes, os sacerdotes confirmaram que o Messias deveria nascer em Belém. E confiando que o Messias deveria nascer em Belém, afirmaram uma das características de que de fato aquele era o Messias. E, portanto, sem quererem prestaram um testamento de que o nascimento que se ia operar, operava-se nas condições previstas pelas profecias. Então involuntariamente os sacerdotes serviram a causa de Jesus Cristo. O resto é por miséria.

Herodes ordenou a matança, quis eliminar o Menino. Não consta que ninguém na Sinagoga tenha se revoltado contra isto. Nem creio que a Sinagoga, já então tão pacifista, se incomodasse com derramamento de sangue dos inocentes, se só se incomodaria com o derramamento de sangue comunista, não é? Ou naquele tempo de pagãos! E o Resultado é que começou então a luta da Sinagoga com Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele estava no berço e já ele estava dividindo. Já estava fazendo polêmica, já Ele não era a causa, mas era o motivo de um morticínio. O primeiro sangue derramado por Ele, foi derramado quando Ele ainda era Menino, e Ele estava no Presépio.

Pedra de escândalo para quem revelasse as cogitações de muitas almas. Para construção e edificação e para a perdição de muito como disse bem depois o Profeta Simeão. Estas são as considerações que me parece a propósito fazer a respeito do dia de Reis.