Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 4/1/1966 –
3ª feira [SD 157 e 159] – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 4/1/1966 — 3ª feira [SD 157 e 159]
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Uma vocação especialíssima que manifesta a pujança da graça, em busca do isolamento, do sobrenatural * “Oh bem-aventurada solidão, oh única bem-aventurança” condição para o desenvolvimento e índice de civilização * Tem-se horror do isolamento porque é sério; o devaneio é maior ainda quando se sai da solidão * O isolamento involuntário é um privilégio, um chamado incompreendido à maior união com Nosso Senhor * É privilégio de Nossa Senhora frutificar um isolamento, sem o qual haveria apego e risco de perdição * Dois exemplos mostram como a predileção de Nossa Senhora nem sempre é aceita * Certas almas têm um santuário interior intransponível * Uma confirmação a contrario sensu na Rússia * Sem recolhimento, nada de grande se faz na Igreja — O desejo de Amparo, e muitas outras, serem casas de retiro nossas
Amanhã é a festa de São Simeão Estilita. Estilita vem da palavra grega … [inaudível]… que significa “coluna”. Foi em cima de uma coluna que São Simeão passou a maior parte de sua extraordinária vida.
Nascido entre as fronteiras da Silícia e da Síria, guardava os rebanhos de seu pai quando, tendo apenas 13 anos, ouviu recitar este versículo do Evangelho: “Ai de vós que rides agora porque gemereis e chorareis”. Consultado sobre o sentido desta palavra, um ancião explicou-lhe que a felicidade eterna só se obtém com sofrimento e que é na solidão que com mais segurança se consegue. Impressionado por estas palavras, o jovem se juntou a outros eremitas da vizinhança, vivendo mais tarde num mosteiro. Importunado entretanto pelos visitantes indiscretos, Simeão resolveu fugir-lhes, vivendo daí em diante no alto de uma coluna. Lá permanecia de pé, sem qualquer abrigo, exposto às intempéries e absorvido em oração contínua. Morreu em 459 com 69 anos de idade, quando se inclinava para começar suas orações.
* Uma vocação especialíssima que manifesta a pujança da graça, em busca do isolamento, do sobrenatural
Aqui é um dos fatos maravilhosos que aconteceram nos primeiros séculos da vida da Igreja e que constituem assim uma espécie de última manifestação de pujança da graça diretamente comunicada pela presença de Nosso Senhor Jesus Cristo ao mundo. Em todas estas graças desses períodos, a gente vê ainda algo de incomparável valor de presença real, visível e invisível de Nosso Senhor Jesus Cristo na terra.
Como os senhores estão vendo bem, trata-se de uma vocação especialíssima. É uma vocação especial debaixo de todo ponto de vista, porque uma pessoa procurar fugir do mundo subindo ao alto de uma coluna é realmente fazer o papel de estátua. E fazer o papel de estátua, para o mega nada mais de perigoso. Ainda mais um que fica em pé a vida inteira. Nem é acocorado, nem sentado prosaicamente, nem bocejando, nem dormindo no alto da coluna, mas em pé e rezando no alto da coluna. Vocês podem imaginar como isso aí é uma coisa singular, uma coisa extraordinária.
Além do mais tem o seguinte: a gente percebe por esta narração que ele subiu ao alto da coluna para evitar os visitantes. Ele estava num mosteiro, os visitantes eram muito abundantes, muito numerosos, e ele então quis evitar os visitantes. E por causa disso então ele saiu do lugar onde ele estava e foi para o alto de uma coluna. Porque naturalmente tinha de ser uma coluna muito alta para os visitantes não chegarem embaixo e… não podia fazer confidências, nem nada, e talvez poderia defender-se de muitas consultas e muitas coisas complicadas.
Os senhores estão vendo que é uma via extraordinária da graça, e que era um homem que estava chamado por Deus por sua contemplação contínua, ostensiva a mais não poder, porque é propriamente isso ostensivo. Ostensivo a mais não poder e uma via de oração especial em que em nenhum momento praticamente deixava de rezar, fixar a atenção desses povos para a importância da oração para a importância da vida sobrenatural, e convidá-los para o isolamento e para o abandono das coisas da terra.
E a respeito disso exatamente eu gostaria de falar uma palavra sobre o isolamento.
* “Oh bem-aventurada solidão, oh única bem-aventurança” condição para o desenvolvimento e índice de civilização
Os antigos falavam muito de isolamento. São Bernardo tem aquela famosa palavra “Oh, beata solitudo, oh sola beatitudo — Ó bem-aventurada solidão, tu só que és uma bem-aventurança”. Só se é verdadeiramente feliz quando se está isolado. E realmente nós poderíamos dizer que um índice para medir o valor de uma civilização é o gosto pelo isolamento.
Numa civilização onde as pessoas levam partes da vida isoladas e, por outro lado, há muitas pessoas que levam a vida isoladas voluntariamente a vida inteira, essa civilização tem certos valores, tem certas possibilidades de desenvolvimento que certamente não existem na civilização onde as pessoas gostam de estar desde a manhã até a noite juntas o dia inteiro.
Assim, por exemplo, o norte-americano.
O norte-americano detesta o isolamento. Ele quebra o isolamento pelo rádio, pela televisão, por tudo o que nós sabemos. Como, aliás, o brasileiro e o homem do século XX por toda parte está quebrando. Mas a casa dele não é feita para ficar, é uma pura “moradeira”. Não é uma casa propriamente como se diz. Ele dorme lá. Ele dorme, come, bebe, e sai correndo. Quando ele come e bebe em sua casa!
Bem, mas esta idéia de estar sozinho e de deixar então as vozes da solidão subirem, de se isolar dos outros e inevitavelmente pensar, pois na solidão inevitavelmente se pensa, esta idéia é uma idéia que só ocorre a civilizações que têm algum valor.
Os senhores tomem, por exemplo, a China antiga. A China antiga e também o Japão antigo, não eram nem um pouco altas civilizações, mas se tinham civilizações, tinham muito de alto.
Pois bem, um almirante japonês católico, que se dava comigo, contou-me numa ocasião que quando apareceram os primeiros trapistas na China e no Japão, o gênero de vida dos trapistas entusiasmou tanto aquela gente, que havia pessoas que procuravam meter-se na Trapa sem serem católicos, pelo gosto de levarem vida de trapistas.
Ele me contou um caso então do Japão. Eu não me lembro bem se era na China, onde tinha uma Trapa perto de um lago. É claro que a Trapa tem de estar perto de um lago, não é? Porque o lago é uma espécie de solidão na qual se unira o céu e na qual se uniram as margens, não é?
Na Trapa, que estava perto de um lago então, uma moça chinesa ou japonesa atravessou de barco até a Trapa e foi lá pedir licença para ser trapistina. Explicaram que não, que eram homens e depois que não convinha, etc. Ela: “Ah, sei, pois não”. Voltou no barquinho, atirou-se no meio do lago e suicidou-se. Portanto, não deixava por menos.
Ora, quantas hoje se suicidariam se ficassem trapistas?
* Tem-se horror do isolamento porque é sério; o devaneio é maior ainda quando se sai da solidão
Os senhores compreendem a enorme inversão de valores, a enorme diversidade das coisas. Agora, por quê? Porque é uma coisa que é fatal: as pessoas passando um tempo no isolamento, depois do primeiro tempo de isolamento em que a pessoa quase que ainda se lembra da época em que não estava isolada, começa, de fato, a pessoa a estar só. E aí são as vozes do abandono, as vozes do silêncio, as vozes da tristeza, a nostalgia da companhia, uma porção de outras coisas que começam a subir, e começa a pessoa [a ser] obrigada a mais seriedade. Porque a razão pela qual tanta gente tem horror do isolamento é que o isolamento é sério.
O homem sozinho tem de ser sério. Ainda que ele depois se entregue a devaneios e maluquices, não são da superficialidade, da tontice e da falta de seriedade, do que teria o mesmo homem se ele tivesse vivendo na companhia de todo mundo.
* O isolamento involuntário é um privilégio, um chamado incompreendido à maior união com Nosso Senhor
Ainda há uma fórmula de isolamento que ainda é uma fórmula de isolamento mais importante. E que é, não o do isolamento do indivíduo que vive fora do mundo, o indivíduo que fica doente por exemplo, do qual ao cabo de algum tempo todo mundo vai se isolando, se despedindo e que fica completamente só, mas existem as fórmulas de isolamento do mundo também. Gente que, por disposição de Deus, acaba sendo colocada em certa posição em que não se liga com ninguém, a quem os outros também não procuram e que fica isolado no meio da multidão, isolado no meio dos outros. E às vezes sob a forma de uma provação, pode até dar-se a eventualidade de um isolamento dentro do Grupo. Não se encaixa, não faz amigos, não é bem interpretado, não é bem conhecido.
As pessoas, quando essas coisas se dão, se desesperam. Intimamente arrancam os cabelos. Não compreendem o dom de Deus que entra nisso, o convite de desapego que entra nisso, o convite para ser mais de Nosso Senhor, percebendo que não encontra encaixe entre os homens e o privilégio que há nesse isolamento. O privilégio que há exatamente em que a pessoa assim seja chamada para uma maior união com Deus Nosso Senhor, uma maior união com Nossa Senhora.
Essas almas assim são as almas exatamente que Nossa Senhora chama, são as almas que Nossa Senhora bate à porta pela voz da adversidade e pela voz de uma espécie de desapego obrigatório.
* É privilégio de Nossa Senhora frutificar um isolamento, sem o qual haveria apego e risco de perdição
Tanto mais que se dá essa coisa que eu tenho observado em minha vida: que as pessoas que caem nesses estados de isolamento, em geral são pessoas que se não fossem isoladas, seriam excessivamente apegadas. De maneira que a Providência lhes tira do caminho, com dor para elas, aquilo que entretanto para elas é uma verdadeira condição de desapego, de salvação.
Então, para estes vários graus de isolamento, a pessoa [precisa] compreender isto e pedir a Nossa Senhora que frutifique ou faça frutificar este isolamento, que faça compreender esta espécie de solidão de alma em que está, como realiza bem o “oh beata solitudo, oh sola beatitudo”. E como há ali uma possibilidade não só de perder apegos, como de ficar mais humilde, de ficar mais dúctil, de ficar mais amável, de tomar mais distância das coisas, de adquirir um espírito mais nobre, mais elevado.
Tudo isso são coisas que exatamente nesse isolamento se dão. E a pessoa deve tomar a cruz do isolamento e carregá-la sobre as costas, mas com amor, compreendendo que nisto há um verdadeiro privilégio de Nossa Senhora.
* Dois exemplos mostram como a predileção de Nossa Senhora nem sempre é aceita
Os autores espirituais às vezes falam — e depois têm muita razão de falar — na graça que há em a pessoa perder dinheiro ou a pessoa perder saúde. Pode ser uma graça muito preciosa, [porque] pode ser que a pessoa se desapegue muito.
Eu ouvi falar isto outro dia de uma senhora fora do Grupo que se queixava que ela não consegue fazer amizades. Todo mundo que ela procura, tira o corpo dela, ela fica sozinha, as amigas dela brigam com ela, embirram com ela, etc. Enfim, é uma vida muito dura para ela, que é uma senhora que mora fora do Brasil. Eu estava pensando com meus botões: “Se ela compreendesse o que isto significa, se ela entendesse a predileção que há de Nossa Senhora nisso, seria uma coisa extraordinária”.
Eu conheço o caso de um rapaz que saiu de um dos grupos do “Catolicismo” existentes por este mundo afora. Era um rapaz que merecia ter saído: prepotente, orgulhoso, de um contato insuportável. Ele me contou que, vivendo fora do “Catolicismo”, entrou num ônibus de repente, encontrou com um que era do Grupo ao qual ele tinha pertencido. E este “um” levantou-se, tratou-o muito amavelmente, e andaram um trechozinho de ônibus pequeno juntos, porque este “um” tinha de sair pouco depois. Disse que quando aquele saiu, que era uma brisa perfumada para ele: “Oh, mas que coisa boa, veja como ele me tratou bem, que amável que ele foi”, etc. E eu comentei para ele, disse: “Meu caro, você como teria destratado este homem outrora, porque você estava nadando de amigos, vivendo no meio de amigos. Agora que você está isolado, você faz assim. É bom que você tome na cabeça para você se adelgaçar, para você ficar mais flexível, para você ficar mais humilde e tomar mais o senso das realidades profundas e das realidades absolutas”.
Esta é uma consideração, portanto, que deixo feita aqui para os senhores.
* Certas almas têm um santuário interior intransponível
Eu gostaria de acrescentar uma coisa: é que no fundo, toda alma que é verdadeiramente, ou que pelo menos tenha intenção de ser verdadeiramente de Nossa Senhora, no fundo é uma alma isolada. No fundo é uma alma isolada porque, por mais que a gente se aproxime dela, percebe que entre o contato da vida externa e ela há uma camada de solidão. E que esta camada de solidão é intransponível por qualquer intimidade, por mais íntima que seja, e aquilo é uma espécie de santuário interior no qual aquela alma habita.
Exatamente o ter este isolamento é a grande missão de São Simeão Estilita, é uma coisa para a qual devemos voltar os nossos olhos, compreender bem isto.
* Uma confirmação a contrario sensu na Rússia
Eu termino com uma consideração a respeito da Rússia.
Eu li um artigo a respeito da Rússia Soviética — esta coisa que eu reputo horror dos horrores — que independente de questão de crise de habitação que os obriga a construir habitações muito pequenas, porque eles não podem dar habitações grandes para todo mundo, independente disso, eles têm como política dar para todo mundo como habitação o necessário apenas para dormir, como ideal de que até as refeições sejam tomadas nos lugares coletivos e que os lugares de lazer coletivos sejam muito grandes, para evitar o mais possível que as pessoas estejam sós. Porque o próprio do regime comunista é fazer com que todo mundo esteja com todo mundo o dia inteiro.
Isto é propriamente o regime comunista. É o contrário da doutrina católica, da moral católica na Civilização Cristã, que faz as pessoas apetecerem o isolamento.
* Sem recolhimento, nada de grande se faz na Igreja — O desejo de Amparo, e muitas outras, serem casas de retiro nossas
Estas palavras são um pouco vagas, eu sei bem. Notem bem o seguinte: sem retiro, sem recolhimento, sem períodos de grande reflexão, nunca se fez nada de grande na Igreja. Por isso exatamente é que uma das coisas de que eu mais gostaria, era de que nós tivéssemos uma casa de retiro, uma casa de isolamento para nós.
E, de fato, até certo ponto a Fazendo tem, felizmente, evoluído neste sentido. Quer dizer, nos sábados e domingos, ela funciona em parte como uma ocasião, um lugar de descanso para os membros da Martim e da Pará que vão lá muito ocupados, muito cansados, mas nos dias de semana sobretudo — e a tendência é que nos domingos e nos sábados esteja também assim — a Fazenda vai tomando este caráter de isolamento.
No começo, antigamente, na Fazenda, era todo mundo estar com todo mundo, desde a manhã até à noite. O contrário disto era mau espírito. Muitas vezes a prosa tinha acabado e ainda estava todo mundo junto com todo mundo. Aos poucos isto foi mudando, e foi se fazendo um regime de cela na Fazenda. Uns se isolam no respectivo quarto, outros se isolam no jardim, outros se isolam naquele terraço da frente, outros se isolam na compenetration hall do Dr. Fábio, outros se isolam provavelmente naquela sala de pedra que está por debaixo da compenetration hall e que está no momento, segundo fui informado, sendo isolada de cima para poder servir mais para compenetração.
Quando houver missa lá, e também o Santíssimo, a capela ficará mais convidativa para outros tantos isolamentos. E este é o sentido profundo da Fazenda e da atmosfera que Dr. Sérgio, Dr. Fábio e os outros estão querendo comunicar à Fazenda.
Como eu gostaria de nós termos vários lugares destes onde as pessoas pudessem ir se isolar onde elas pudessem um pouco ser elas mesmas, porque a Fazenda é evidentemente pequena para tudo isto.
E o sentido que nós devemos comunicar a isto, a este nosso desejo de isolamento, é este sentido de aproximar-nos de Deus e, por aí, enfim, começarmos nosso programa interior. Duplo isolamento: isolamento material, mas isolamento espiritual no meio dos outros. E na aceitação da cruz, da incompreensão e da cruz do isolamento — e às vezes até da cruz do maltrato — quando a gente está de fato no meio do mundo, dos filhos das trevas, e muitas vezes também porque são provações misteriosas que a Providência pode permitir até no meio de amigos dentro do Grupo.
Estas seriam as considerações na festa de São Simeão Estilita.
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