Santo
do Dia (Rua Pará) – 3/1/1966 – 2ª feira [SD
157 e 159] – p.
Santo do Dia (Rua Pará) — 3/1/1966 — 2ª feira [SD 157 e 159]
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Como ia se formando a Idade Média: um papa santo envia dois bispos santos em missão * O ambiente simples e fervoroso pela passagem de dois bispos no lugarejo e o discernimento da menina santa * Que contraste com nossos dias: a singeleza com que é admitida a vocação da santa inclusive no convento * Época em que se viajava sem estradas e, sem rádios e tv, comunicava-se através de “radares” de santidade
Hoje é dia de Santa Genoveva, virgem.
Comentário sempre de D. Guéranger, nota biográfica de D. Guéranger, mas uma nota biográfica sempre comentada:
Genoveva foi célebre no mundo inteiro. Ela vivia ainda e já no Oriente conhecia-se seu nome e suas virtudes. Do alto de sua coluna, o estilista Simeão sentava com sua irmã na perfeição do Cristianismo. A capital da França foi-lhe confiada. Uma simples pastora protege os destinos de Paris, como um pobre lavrador, Santo Isidoro, vela sobre a capital dos espanhóis.
A escolha que Cristo dignou-se fazer da jovem de Nanterre para sua esposa foi relatada por um dos maiores bispos da Gália no século V. São Germano de Auxerre dirigia-se à Grã-Bretanha, para onde o Papa São Bonifácio o enviara para combater a heresia pelagiana, aproximadamente no ano de 430.
Estes fatos passaram-se, portanto, há mil e quinhentos e tantos anos.
Acompanhado de São Lupo, bispo de Troyes, que devia compartilhar da sua missão, ele se deteve na vila de Nanterre. E como os dois prelados dirigiam-se para a igreja, onde queriam rezar pelo êxito de sua viagem, o povo fiel rodeou-os com piedosa curiosidade. Iluminado por uma inspiração divina, Germano discerniu na multidão uma menina de sete anos, e foi advertido interiormente que o Senhor a escolhera e a elegera singularmente. Perguntou aos assistentes o nome da criança e pediu que a trouxessem em sua presença. Fizeram-na aproximar-se com os pais:
— Esta criança é vossa? — disse-lhes Germano.
— Sim, senhor — responderam-lhe eles.
— Felizes pais de uma tal filha — respondeu o bispo. Quando esta criança nasceu, ficai sabendo, os anjos fizeram grande festa no Céu. Esta jovem será grande diante do Senhor, e pela santidade de sua vida afastará muitas almas do jugo do pecado.
Depois, voltando-se para a criança:
— Genoveva, minha filha — disse-lhe
— Pai Santo — respondeu ela —, vossa serva escuta.
Volta-se Germano:
— Fala-me sem medo: quererias consagrar-te a Cristo, numa pureza sem manchas, como sua esposa?
— Bendito sejais, meu pai! O que me pedis é o mais caro desejo de meu coração. É tudo quanto quero; dignai-vos pedir ao Senhor que mo conceda.
— Tem confiança, minha filha — respondeu-lhe Germano. Sê firme em tua resolução, que tuas obras sejam conformes à tua fé, e o Senhor juntará a sua força à tua beleza.
E depois desta profecia, ela deu a grande Santa Genoveva, que salvou Paris de um ataque dos bárbaros com o Santíssimo Sacramento e uma das maiores figuras da História naquele tempo.
* Como ia se formando a Idade Média: um papa santo envia dois bispos santos em missão
Os senhores todos conhecem este episódio, com certeza.
Como de costume, nós vamos fazer alguns comentários sobre vários aspectos deste fato.
Em primeiro lugar, vejam quais são as coisas que explicam o admirável florescimento de almas na Idade Média. Vejam os homens que figuram nesta história.
Em primeiro lugar, é o Papa São Bonifácio. O Papa São Bonifácio manda São Germano de Auxerre para ir defender a Inglaterra contra os pelagianos, e São Germano tem como companheiro de viagem um outro santo que é São Lupo, Bispo de Troyes. Quer dizer, são dois bispos, são dois santos, mandados por um papa santo, para defender um país que está ameaçado pela heresia.
Os senhores compreendem o calor da santidade, a intensidade da vida espiritual, o que era afinal de contas este florilégio enorme de santos sobre os quais a Idade Média, ponto por ponto, vinha se construindo.
* O ambiente simples e fervoroso pela passagem de dois bispos no lugarejo e o discernimento da menina santa
Eles vão viajando e passam por uma cidadezinha pequena que é Nanterre. E qual é o resultado? Primeiro passo, não é para o hotel ou para a hospedaria. Primeiro passo não é para um lugar onde possam se divertir. Primeiro passo depois de uma viagem fatigante é ir para a igreja para rezar.
Agora, tal é a iluminação destes personagens, tal é o seu prestígio, tal é a atração que eles exercem, que eles entram na igreja, o povo os rodeia e começa a olhá-los a rezar. Então os senhores têm o povinho fiel, pequeno, os camponesinhos, com o jeito naturalmenbte do que seriam os camponeses no tempo de Santa Joana d’Arc alguns séculos depois, rodeando os dois bispos, que, recolhidíssimos diante do Santíssimo Sacramento, numa pequena capela, estão fazendo uma oração intensa. E o povo olhando assim, maravilhado, não é?
Os senhores vêem como os senhores têm poucas ocasiões de ver assim dois bispos santos, rezando numa capela do Santíssimo Sacramento, e um povinho maravilhado olhando… Poucas vezes isto lhes terá acontecido na vida, não é?
Então, de repente, neste ambiente de fervor, uma graça visível baixa sobre um dos bispos. Quer dizer, visível… não que ela fosse vista com os olhos, mas tornou-se visível por isto: estes dois santos, mandados por um terceiro santo, distinguem aí uma grande santa. E é uma menina de sete anos. Eles chamam, e diante de todo o povo embaixo um deles faz a profecia do que a menina haveria de ser. E começa por dizer assim: “Fique sabendo que no céu houve uma grande alegria quando esta menina nasceu”.
Agora, imaginem a coisa maravilhada de toda a aldeinha. Pois se os senhores forem imaginar uma aldeinha onde isto tudo é notícia, isto tudo é novidade, chegam os bispos, já é uma coisa enorme…
De repente os bispos falam da fulaninha que eles vêem correr pela rua… rua não, por um caminho de cabra qualquer dentro da cidade, eles vêem correr descalça de um lado para outro e esta menina aqui, quando ela nasceu, houve alegria no Céu! Ninguém duvidou, ninguém pediu provas, todo mundo acreditou. Porque são os tais bem-aventurados que crêem sem ter visto. Todo mundo acredita, a menina acredita também, o pai também. É tão natural ter havido alegria no Céu por uma menina santa que nasceu!
Os santos são tão freqüentes, eles são tão numerosos, eles estão com um contato tão contínuo com o céu, que eles sabem o que se passa lá! É natural que eles saibam! É uma comunicação normal!
* Que contraste com nossos dias: a singeleza com que é admitida a vocação da santa inclusive no convento
Como isto é diferente desta distância que nos separa do sobrenatural, desta distância que nos separa do Céu, mas de léguas. E uma coisa para ser admitida como vinda do Céu nós nos armamos de todas as armas da … [inaudível]… para ver se nós conseguimos negar, e só depois, sem grande entusiasmo, é que o homem contemporâneo se resigna de quando em vez a admitir que aquilo vem do Céu.
Pelo contrário, vocês vejam bem a coisa: ele imediatamente resolve a situação da menina. Ele chama a menina, a menina não pergunta por quê, nem nada disto:
— Menina, você quer consagrar-se a Deus?
— Meu pai, é o mais caro desejo do meu coração!
Já sai de lá para o convento! Está tudo liquidado, está compreendendo? E fica um sulco naquela cidade, um sulco de luz. A cidade começa a ter história. Nasce para a História a cidadezinha porque um grande fato sobrenatural se passou nela.
Agora, os senhores estão imaginando o complemento, não é? Ela provavelmente dali mesmo foi levada para o convento. Foi levada naturalmente pelos pais. Chegam num convento onde a prioresa ou a abadessa seria uma Santa Hagadulfa, Hagadonga, ou uns nomes mais esquisitos daquele tampo, mas santa de verdade. Chega lá e diz:
— Eu vim trazer esta menina.
Nunca diz a abadessa:
— Ah, como ela é engraçadinha!
Nunca, não é? Mas:
— Esta menina parece ter o espírito de Deus!
É possível que Santa Genoveva tenha dito:
— Tenho mesmo.
É possível. É possível. E sem a mínima megalice. E é possível que a abadessa dissesse para a mãe:
— Mas por que trazes a menina?
— Ah, porque São Germano de Auxerre e São Lupo de Troyes disseram que a menina tinha assim…
—Ah!
Ela não vai perguntar se tinha atestado timbrado da Cúria nem nada disto. Acredita também, recolhe a menina no convento e já começa a santificar-se por aí.
* Época em que se viajava sem estradas e, sem rádios e tv, comunicava-se através de “radares” de santidade
Aí vem a menina e se eleva como cedro do Líbano. Ela cresce e ela enche o panorama com a sua presença, com seus jeitos, etc. E ela então floresce como uma flor no centro do jardim do Ocidente. Não há imprensa — oh, que felicidade! —, não há rádio, não há televisão, e entretanto a fama voa. Todo aquele pessoal andava a pé naquele tempo e tinha comunicação como a gente nem imagina!
Para os senhores terem uma idéia, um fato me chamou enormemente a atenção no tempo em que eu tinha tempo de ler revistas de história. É que uma das maiores coleções de moedas bizantinas — portanto, de Constantinopla — se encontra nos museus da Noruega e da Suécia. Por quê? Porque aqueles bárbaros de lá desciam a pé, através da Rússia, para vender peles e… artigos de bárbaros em Constantinopla. Voltavam com moedas constantinopolitanas, que eles, não tendo onde guardar, enterravam no chão, nos lugares em que eles sabiam quais eram. Depois… migrações, etc., aquilo ficava no chão. De maneira que há numerosíssimas moedas de ouro dos imperadores de Constantinopla guardadas nos museus da Noruega e da Suécia. E são as melhores coleções.
No Bizâncio isto se dissipou. Entraram os turcos e fizeram uma … [inaudível]… daquelas, não é? Lá na Noruega e na Suécia ficou.
Vocês estão vendo como aquela gente descia, como andava, como se comunicava, não é?
Então, no Oriente, no outro confim do mundo cristão, que é São Simeão Estilita, na Ásia Menor, ouve falar dela. Era o famoso santo que vivia no alto de uma coluna e que nunca descia da coluna. Rezava o tempo inteiro, etc. Era uma forma de verdadeiro eremita. Ele então ouve falar das virtudes dela, e por estes radares que os santos têm para se sentirem uns aos outros, ele compreende que ela era irmã espiritual dele e saudou-a de longe, do alto de sua coluna, a esta flor que nascia no doux pays de France.
Os senhores estão vendo os contatos passando por sobre os mares, por sobre as ilhas, por sobre as cordilheiras, as vastidões desertas e povoadas, e estes dois santos formando uma espécie de arco voltaico de santidade daquela época.
Depois disto, rejubilem-se de viver em 1966, porque é realmente muito bonito e muito agradável!!!
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