Santo do Dia – 1/1/1966 – p. 4 de 4

Santo do Dia — 1/1/1966 — sábado

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* Circuncisão e imposição do nome de Jesus * O sangue da circuncisão poderia remir a humanidade * Misterioso desígnio do Pai na Paixão de Jesus * Deus é insondável * Força dos nomes Jesus e Maria * O nome da coisa deve designar sua natureza * O simples nome de Jesus ou de Maria atrai graças * Salve Maria! Conscientizar o valor dessa saudação

Hoje é festa da Circuncisão de Nosso Senhor Jesus Cristo. A este respeito diz o Evangelho1:

Naquele tempo, quando se completaram os oito dias para ser circuncidado o Menino, puseram-lhe o nome de Jesus, como O havia chamado o Anjo, antes que fosse concebido no seio materno.

Em honra das cinco letras do Nome de Jesus e pela virtude das cinco chagas, Nosso Senhor prometeu à sua fiel serva, Irmã Maria… [faltam palavras] …de São Pedro, carmelita de Tours, de conceder cinco graças especiais às pessoas que usarem sobre si esse Nome, com fé e devoção:

1) Ele as preservará dos raios; 2) das ciladas e da malícia do demônio; 3) de uma morte súbita e imprevista; 4) Ele as fará trilhar facilmente o caminho da virtude; 5) conceder-lhes-á a perseverança final.

Sobre o Nome de Jesus há a seguinte frase de São Paulo, na Epístola aos filipenses:

Deus também O exaltou e Lhe deu um nome que supera todo nome, para que, ao nome de Jesus, se dobre todo joelho dos que estão nos Céus, na terra e nos infernos.

* Circuncisão e imposição do nome de Jesus

A respeito da festa de hoje, como vemos, há dois fatos correlatos: a circuncisão de Nosso Senhor e a imposição do nome de Jesus. Era próprio à cerimônia da circuncisão que se desse o nome por ocasião dessa cerimônia, o que ficou no batismo católico, em que a criança recebe o nome no momento em que é batizada. Havia também no ato da circuncisão, como há no batismo, uma primeira consagração da criança a Deus; no momento em que a criança nasce para a vida sobrenatural — e que é seu verdadeiro nascimento — recebe um nome, porque aquele que nasceu é que tem direito a um nome.

* O sangue da circuncisão poderia remir a humanidade

Sobre a Circuncisão há uma coisa que maravilha todos os teólogos e que nos deixa ver um pouco os hábitos de Deus, ou o que se poderia chamar a psicologia de Deus: o Sangue vertido na Circuncisão teria sido suficiente para resgatar todo o gênero humano. Uma simples gota do Sangue preciosíssimo de Jesus Cristo tem valor infinito. Ora, Deus, por um desígnio misterioso e a respeito do qual os teólogos não chegam a ver o fundo, Deus não quis que a Redenção do gênero humano se desse no momento em que esse Sangue sacratíssimo foi assim vertido; Ele quis que o mérito desse Sangue como que ficasse suspenso, e que a Redenção de gênero humano [não] se operasse efetivamente. [mas] Depois de um dilúvio de sangue vertido por Nosso Senhor, depois de Ele verter na Cruz todo o Sangue de seu corpo sacratíssimo, de maneira tal que a última lancetada que Lhe foi dada tirou o último resto de Sangue que Lhe restava; Deus quis que todo esse Sangue fosse vertido e em sofrimentos insondáveis…

* Misterioso desígnio do Pai na Paixão de Jesus

No entanto Deus poderia ter evitado, à humanidade de Jesus Cristo, essa imensidade de dores, mas Ele não quis evitar por um desígnio misterioso e secreto, e isso de tal maneira que Nosso Senhor, no Horto das Oliveiras, fez a oração: “Se for possível, que se afaste de Mim esse cálice; mas, se não for, faça-se a vossa vontade e não a minha”. Era como se quisesse dizer (não é esse o sentido da oração): “Se fosse possível, no mistério arcano que há em Vós e que só Vós conheceis, se fosse possível evitar que todo esse Sangue seja derramado, que se faça isso”. Mas nem diante da oração da onipotência da humanidade de Jesus Cristo, nem diante dessa oração Deus se deixou dobrar, e Ele quis que a expiação fosse com uma abundância, ou melhor do que abundância, com uma torrente de sangue infinito, para operar aquilo que uma gota de sangue infinito poderia operar. Vê-se quanto mistério há em Deus aí.

* Deus é insondável

E o ensinamento que se pode tirar disso é a grandeza de Deus: como Deus é insondável, como tudo que se faça n’Ele é superior infinitamente à nossa mente. E Ele, deixando entrever seus próprios mistérios e sua insondabilidade, deixa-nos entrever nossa própria pequenez e sua grandeza; enche-nos de respeito diante disso, de um respeito que é um auge de veneração e, ao mesmo tempo, de amor, e que é exatamente esse Deus tão grande, que d’Ele não podemos ter idéia; mas nos enche também de desejo do Céu, porque na visão beatífica desse Deus infinitamente grande podemos compreender como pode nos encher de torrentes de felicidade.

* Força dos nomes Jesus e Maria

Haveria agora uma outra consideração sobre o Nome de Jesus. Ao Nome de Jesus — como também ao Nome de Maria —, a Igreja e muitos santos atribuem uma virtude própria. Quase que se poderia dizer aí que é uma palavra talismã, mas num sentido completamente diferente do que é aplicado no “Diálogo”. No “Diálogo” é usado no sentido malfazejo e depois no sentido natural da palavra, enquanto que os nomes santíssimos de Jesus e Maria são usados no sentido sobrenatural da palavra… Esses próprios Nomes enquanto pronunciados, enquanto escritos sobre um papel, podem atrair as bênçãos e as graças de Deus sobre a pessoa que tocar naquele papel, podem afugentar o demônio.

Um estandarte com esses Nomes — por exemplo, o de Santa Joana D’Arc trazia tais Nomes — é um meio de afugentar os demônios, de atrair as boas graças de Deus, de conquistar a boa vontade dos anjos etc., e, nesse sentido sobrenatural, são palavras talismãs.

* O nome da coisa deve designar sua natureza

Como se pode conceber isto? De acordo com a ordem natural e própria das coisas, o nome de uma coisa deve designar sua natureza mais íntima, e os orientais têm uma certa idéia disso — quando não dão às pessoas nomes como os nossos; por exemplo, alguém aqui pode chamar Plinio e esse nome não quer dizer nada. Mas eles dão nomes com um sentido próprio. Eu me lembro que Mme. Nhu, parece que o sentido de seu nome, era “Chuva de Primavera”. São nomes poéticos para indicar algo da nota dominante daquela alma. Mas é um esforço vão, porque, depois do pecado original e da torre de Babel, essas coisas se romperam e a linguagem humana não tem mais essa precisão. A verdade, entretanto, é que nos ficou essa vaga idéia de que entre o nome e a natureza da coisa ficou essa relação.

* O simples nome de Jesus ou de Maria atrai graças

E no caso de Jesus e Maria, que estão colocados acima de toda lei possível, essa correlação é verídica, e o Nome santíssimo de Jesus e o Nome imaculado de Nossa Senhora trazem consigo bênçãos, trazem graças especiais, porque são o símbolo, são a expressão misteriosa e inefável da realidade santíssima que n’Eles existe… Então podemos compreender porque Deus prometeu a essa alma, aqui citada, tantas graças aos que usam com freqüência os Nomes de Jesus e Maria.

* Salve Maria! Conscientizar o valor dessa saudação

Nós temos essa prática com muita freqüência, e é na nossa saudação “Salve Maria”. É uma saudação na qual se repete, a todo momento, o Nome de Nossa Senhora; o tornamos presente entre nós, e o tornamos uma forma de saudação. Em vez de dizermos ao outro: “Bom dia”, dizemos: “Que Nossa Senhora seja glorificada”. O “Salve” é isto: uma saudação, uma honra, uma glorificação, um ato de amor a Nossa Senhora. Os senhores percebem, então, como é bom usar com freqüência o “Salve Maria”. Por aí os senhores devem conscientizar melhor o valor dessa saudação que estamos usando. E ao conscientizar o valor da saudação, os senhores podem adquirir mais méritos nisso. O “Salve Maria” não deve ser pronunciando às pressas, nem de forma atrapalhada, mas como uma oração que lucraria em ser dita com mais piedade, com mais unção, com mais propósito, porque, às vezes, a gente se esquece de Nossa Senhora e transforma o “Salve Maria” num “Bom dia”.

A coisa tem um alto valor próprio, que devemos ter em mente. Então, uma insistência para um máximo de piedade ao pronunciar o “Salve Maria”, em vista do valor do Nome de Nossa Senhora ou em vista do valor infinitamente maior do Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Este é o primeiro sábado do ano. Se o primeiro sábado do mês é particularmente grato a Nossa Senhora, quanto mais o deve ser o primeiro do ano. Mas não há considerações especiais a fazer a este respeito.

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1 O Senhor Doutor Plinio se refere ao “Pequeno Evangelho do Santo Nome de Jesus”.