Santo do Dia ─ 30/12/65 ─ 5ª feira . 8 de 8

Santo do Dia ─ 30/12/65 ─ 5ª feira

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Os homens providenciais são aqueles incumbidos por Deus de uma missão especial para benefício da sociedade espiritual ou da temporal * Características do homem providencial * Ao contrário do que pensa a mentalidade moderna, o homem providencial sempre passa por reveses * Há algo de imponderável no homem providencial, que faz com que sua missão pareça aos olhos de todos já tocada pela Providência, desde o berço * Um homem que tem “Thau” é, em certa medida, um homem providencial * Neste final de ano devemos fazer a Nossa Senhora este pedido: “Ut mentes nostras ad caelestia desideria erigas, te rogamus audi nos”

É o último Santo do Dia do ano, não é? É a última reunião de sexta-feira, é o último Santo do Dia. Vamos ver se daqui a um ano nós estamos comentando os Santos do Dia, sem dar reunião de sexta-feira, ou se nós estamos esparsos: uns na Zâmbia, outros em Lausanne, outros em Chandernagor, e por aí por fora, não é verdade? E outros em campos de concentração, outros no Céu, outros no Purgatório, vamos ver. Isto ficará para o ano que vem. Vamos ver qual é o comentário que faremos no ano que vem.

En attendant, e como não há especificamente um santo do dia ─ a de hoje é:

Em 1964, foi publicado num jornal do Estado de São Paulo um manifesto ao povo brasileiro sobre a Reforma Agrária, da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, que foi assim o primeiro grande pronunciamento específico da TFP na imprensa a respeito da Reforma Agrária, e que por isso figura em nossos anais.

* Leitura de uma ficha de Léon Gautier a respeito de Carlos Magno

Pediram-me que comentasse uma ficha do Léon Gautier sobre Carlos Magno.

Léon Gautier, muito bom historiador da Idade Média. E ao lado vem um pedido do Luís Solimeo se eu poderia dizer alguma coisa a respeito do papel dos homens providenciais na História, em função do que está na ficha. Vou ler a ficha e pretendo rapidamente atender o pedido.

Alguns pequenos espíritos de nosso tempo…

Léon Gautier era do século XIX

se comprazem em escarnecer dessas almas vastas e elevadas, que entre nós acreditam ainda nos homens providenciais. Entretanto, nada é mais natural, quando se crê na ação de Deus sobre os homens e sobre os povos, do que admitir a missão de certas pessoas na História ─ e que ficam consagradas com o seu nome, e consagradas a esse título. Deus, que poderia governar o mundo diretamente sem intermediários, digna-nos fazer participar da administração de seu imenso império. Para conduzir homens feitos de espírito e de carne, Ele se serve de homens feitos de espírito e de carne. Ele os envia na hora devida, os modela desde toda a eternidade e sem nada lhes tirar do seu livre arbítrio, deles se serve utilizando-os às suas livres virtudes para agir sobre toda uma nação, toda uma raça e todo o mundo. É assim que Deus preparou Carlos Magno, é assim que Ele se serviu dele para reerguer no mundo o reino ameaçado de seu Cristo e os destinos de sua Igreja”.

* Os homens providenciais são aqueles incumbidos por Deus de uma missão especial para benefício da sociedade espiritual ou da temporal

Eu acho que a ficha, com uma precisão acadêmica ao gosto do século XIX diz, se não tudo do essencial, pelo menos muito do essencial a respeito dos homens providenciais. E em sentido definido da palavra, existem portanto, segundo as intenções de Deus, duas espécies de homens.

Todos os homens servem a Providência Divina e portanto, lato sensu, são homens providenciais, ainda mesmo quando eles vão para o inferno, ainda mesmo quando eles suscitam heresias ou eles fazem crime, a contrario sensu eles ainda servem a Providência Divina, porque Deus tira o bem do mal. E, por outro processo, pelo contraste entre o mal e o bem, Ele obtém que o bem se torne mais digno de ser amado, e por esta forma Ele ainda faz bem para as almas.

Assim, portanto, de um sentido muito vago, todo o mundo é providencial.

Mas há um sentido mais providencial, que é este de homens que Ele não incumbe apenas de levar uma vida comum e para se servirem a si próprios, mas de homens que são marcados para realizar uma missão que é: ou em benefício da sociedade temporal, ou em benefício da sociedade espiritual. Mas é evidente que na imensa maioria dos casos os homens providenciais são suscitados em benefício da sociedade espiritual, e não da temporal. Ou da sociedade temporal, mas enquanto isto traz benefício para a glória de Deus nesta vida e na outra, e para a salvação das almas.

* Uma das características do homem providencial é que sua missão é sempre maior do que ele

O que caracteriza um homem providencial?

Ele deve, em primeiro lugar, fazer uma tarefa muito maior do que ele. Não há homem providencial cuja estatura esteja à altura daquilo que ele deve fazer, porque o que Deus exige dos homens providenciais em geral é uma coisa tão grande que não cabe em termos de capacidade humana; e, em segundo lugar, porque essa ação providencial tem sempre um aspecto sobrenatural, que é a operação da graça sobre as almas para a qual o homem pode ser um canal, mas do qual ele não é um autor, porque aquilo que a graça faz nenhum homem pode fazer, de maneira tal que a ação providencial é sempre muito maior do que o homem providencial.

Por isto mesmo nós temos grandes homens providenciais. Deus toma homens de grandes capacidades ─ Carlos Magno foi um deles ─ e se serve desses homens para realizar uma tarefa ainda maior do que ele.

Mas, Deus pode escolher também almas que não sejam grandes almas, que sejam até pequenas almas, mas de que Deus [tira?] o fruto para algo de providencial.

A escola de Santa Teresinha do Menino Jesus, da infância espiritual, tem algo neste sentido. Ela não era propriamente, num sentido humano, ela não era uma grande pessoa. Ela o era apenas em alguns sentidos. Mas ela foi grande no que ela teve de aparentemente pequeno, e foi por aí que saiu a doutrina espiritual da pequena via, que é uma imensa realização na história da espiritualidade, e portanto daquilo que há de mais central na história do mundo, que é a história da Igreja. E que vinha de algo que ela tinha de pequeno. Portanto, o primeiro traço é este: a tarefa é imensamente maior do que o homem providencial, qualquer que ele seja.

* Outra característica do homem providencial é que ele só serve para a realização da missão para a qual foi criado

Segunda coisa é a seguinte: o homem providencial em geral é feito de tal maneira que ele só serve para aquela coisa providencial para que ele foi feito. Se ele quiser fazer outra coisa que não aquilo, em 999 casos sobre 1.000 pelo menos, se não em todos os casos, ele não dá em nada. Quer dizer, ele é todo construído para aquilo, ele é todo feito para aquilo e só presta para aquilo. E se ele não faz aquilo, é como um sal que não salga, e que é feito para ser jogado na rua e ser calcado aos pés pelos transeuntes.

* Terceira característica do homem providencial: uma compreensão, apetência e sensibilidade para sua missão - ex.: Carlos Magno

Outra característica do homem providencial: é que ele tem uma compreensão e uma apetência, e uma sensibilidade para a sua missão que os outros que não são homens providenciais não têm. Ele tem a percepção da coisa, o sentido da coisa, de sua importância, de como ela deve ser, dos meios que se deve alcançar, ele tem os meios para coligar as pessoas para fazerem isto, ele tem as táticas, ele tem os golpes, ele tem os jeitos para conseguir aquilo. O que nós na vida de Carlos Magno vemos de um modo esplêndido.

Ele era o Imperador possante, o Patriarca, o magnífico, que entusiasmava como um Rei. Ele era o guerreiro que metia medo tremendo em todos os adversários da Igreja. Mas, homem tão vovô que quando ele se tornou velho ─ mas um vovô sem debilidades, não é? ─ diziam que a branca barba dele era florida. E a gente pode compreender isto: brilhos, luzes, floridos, na branca barba de um homem que tinha encanecido lutando pela Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, ao mesmo tempo que ele tinha um senso da Civilização Católica que fazia dele um teólogo. Ele intervinha nos concílios, discutia com os Bispos, e sem ser tido por anticlerical, muitas vezes era a opinião dele que prevalecia; e nunca tinha estudado teologia. Eram concílios regionais de Bispos da Gália onde ele aparecia para exigir que a coisa andasse bem. Ele lá tinha as suas desconfianças, ele lá tinha as suas razões. Eu não entro nesse ponto espinhoso da história.

Bem, por outro lado, era ao mesmo tempo um guerreiro tremendo, mas um guerreiro que não era apenas um guerreiro individual, um general, mas ele era chefe de uma família de almas dentro de seu exército. Ele coligou em torno de si os seus famosos pares, que eram umas outras tantas reproduções dele, e esses pares por sua vez coligavam em torno de si todo o exército. E o exército dele era para ele quase que como uma ordem religiosa para o seu chefe, que caminhava rezando e cantando de encontro ao inimigo, com Carlos Magno na frente brandindo a espada, expondo-se a todos os riscos, e sempre pela Igreja Católica e pela Civilização Cristã. Então aqui está outro traço do homem providencial.

* Ao contrário do que pensa a mentalidade moderna, o homem providencial sempre passa por reveses

Agora, outra caraterística do homem providencial é curiosa, e é muito diferente do parece à mentalidade moderna, é a característica seguinte. A gente na mentalidade moderna, sobretudo na minha caríssima geração ultra-nova, um bocadinho vítrea, etc., [tem idéia] de que o homem providencial é um herói de histórias em quadrinhos, e que ele vai fazendo tudo e dá certo, ele tem um olho mágico, é um pouco idêntico com uns dráculos quaisquer que não tem por onde escapar, fica num apuro, sobe num teto com o dedo assim… e ele resolve o problema de cima. Mas, no fim é certo que tudo dará certo, e nunca tem revés.

Ora, o homem providencial é o contrário disso. O homem providencial passa sempre por apuros horrorosos, em que de fato muitas coisas correm o risco de não darem certo, se ele não se esforçar muito e, sobretudo, se ele não rezar muito, e se ele não depuser em Nossa Senhora toda a sua confiança. E esse apuro sério, em que a coisa quase arrebenta, esse apuro faz dele muitas vezes um homem humilhado, um homem perseguido, um homem desprezado e até com todas as aparências de um homem derrotado. Ele não é sempre um homem vitorioso, não é sempre um homem que transformou a cabeça dos outros no solo sobre o qual ele anda, mas muitas vezes a cabeça dele é o solo para os outros andarem.



Bem, mas ele confia na Providência e se ele é fiel ─ muitas vezes o homem providencial não é fiel, então as coisas não dão certo ─ se ele é fiel, então a Providência o assiste, o ampara, o reergue, o anima, e acaba fazendo Ela com que a obra dele dê certo. Esta é uma exigência à qual o homem providencial está absolutamente sujeito: é que a desproporção entre a tarefa dele e ele aparece claramente aos olhos dos outros, e ele se encontra muitas vezes em tais situações que se torna inteiramente claro que se não fosse a graça, ele não conseguiria nada. E que se não fosse a fidelidade dele, ele estava arrasado.

* As margens da história estão cheias de homens providenciais que não cumpriram a missão que lhes foi confiada

Os senhores dirão: “Mas, Dr. Plinio, eu não sei se isso é bem verdade, porque eu vejo todos os homens providenciais na História darem sempre certo”.

Eu digo: é, meu caro, porque a História só dá os homens providenciais que deram certo. De quanto homem providencial as margens da História estão cheias, que fraquejaram, que babaram, que se venderam, que amoleceram, que se deterioraram de qualquer maneira, e que por isso se arrebentaram.

Os senhores dirão: “Bem, mas há alguns que a gente vê que a Providência favoreceu tanto, que como que eles não podiam dar errado”. Eu digo: é verdade, os apóstolos, por exemplo, estavam confirmados em graça. Mas, como isto é raro, não é verdade? E de quanto homem providencial, eu volto a dizer, estão cheias as estradas… Numa destas estradas há uma figueira, e numa figueira dessas um enforcado. E esse enforcado era um homem providencial, que se chamava Judas Iscariotes. Quer dizer, é preciso ter muito cuidado com esta história de homem providencial.

Bem, isto vai tão longe que D. Mayer me disse que, embora sendo teologicamente certo que os Apóstolos estavam confirmados em graça, entretanto eles não sabiam que estavam confirmados em graça. Eles lutavam e pelejavam como se não o estivessem.

* Há algo de imponderável no homem providencial, que faz com que sua missão pareça aos olhos de todos já tocada pela Providência, desde o berço

Há alguma outra característica do homem providencial?

A gente poderia dizer que há uma característica imponderável. Em geral o homem providencial tem uma certa aura, e as pessoas que tratam com ele, desde os primórdios dele, percebem nele uma certa predestinação, percebem nele um fator invulgar, que o coloca meio separado e meio diferente dos outros, e que aparece nele como, por exemplo, a vida aparece na pele humana. Quem é que pode dizer em que parte desta mão está a vida? Mas basta olhar para esta mão para perceber que não é a mão de um cadáver, mas é uma mão viva.

Assim também aparece algo de imponderável no homem providencial que exatamente faz com que a sua missão pareça aos olhos de todos já tocada pela Providência às vezes desde o berço.

Isso é uma coisa tremenda, porque tudo quanto é mega pensa que desde o berço foi preparado para qualquer coisa. É mesmo um dos sintomas mais seguros da megalice, é quando o sujeito é mega desde pequenino, e então começa a achar…

(Sr. –: Mega de nascença.)

Mega de nascença! Havia aqui um fulano muito ordinário, antes das eleições do Juscelino, que dizia assim: “Ladrão por ladrão, votemos no Juscelino, que foi ladrão desde menino”.

O homem providencial tem isso, e o mega tem a tendência de bancar para si mesmo o homem providencial, e de sentir uma certa aura, e de fabricar as características da aura.

Eu fui ─ não revelarei os nomes ─ mas eu fui contemporâneo de homens providenciais que a História eliminou completamente. Eu não tinha nenhuma certeza de que eles fossem providenciais, mas eles tinham… Eles estavam inteiramente certos. Eu assisti à elaboração das técnicas, as épocas eram outras, mas havia uma porção de pontos técnicos para indicar o homem providencial: as mangas, o jeito de segurar as mangas, um jeito na gravata, um ar, um estilo, um quê, etc., etc., que indicavam o homem providencial.

A época do socialismo matou muito disso. Todo o mundo tem vontade de ser de vidro, e o homem de vidro o que quer é não ser providencial: um João Ninguém para afundar dentro de sua própria chacunnière. Mas uns restos de megalice sempre boiam por esse mundo aí fora, etc., etc. De maneira que essa observação sempre vale a pena a gente fazer.

Agora, o que é curioso é o seguinte: o que é que diferencia o mega do homem providencial? É uma coisa que poucos vêem, mas que é uma coisa segura. O mega é todo feito apenas da vontade de aparecer, e a causa para ele é uma bandeirola que ele agita diante dos outros para impressionar bem. O homem providencial, por mais fraco que seja, às vezes até por mais miserável que seja, a gente vai percebendo naquilo, que ele tem alguma missão da Providência, que aquilo ele ama de fato, que ele vê de fato; ele entende de fato. Ele entende com um entender e um ver que são o entender e o ver de amor. E o “Thau” é o signo da vocação, é de um papel relevante dentro da vocação, esse signo nele refulge, às vezes apesar de colunas bem grossas. E é exatamente esse ponto que indica um chamado permanente da Providência para uma coisa grande.

* Um homem que tem “Thau” é, em certa medida, um homem providencial

Os senhores estão vendo que, portanto, eu passei do homem providencial a tratar do homem com vocação. Um homem com uma vocação muito especial, um homem com vocação para o movimento do “Catolicismo”, é um homem providencial?

Eu digo que ele é um homem providencial dentro de alguns limites. Ele não é o “Catolicismo” inteiro, mas se ele tem um verdadeiro “Thau” e uma vocação, ele participa da providencialidade do movimento, e o movimento é certamente um movimento providencial. Ele participa dessa providencialidade. E o “Thau” em cada um é isto. É um chamado muito especial para uma obra muito especial, um chamado para um entendimento superior, que às vezes é feito por gente muito pouco intelectualizada, por um amor mais especial, por uma dedicação mais completa, algo que faz com que o indivíduo fiel ao “Thau” seja tal, que a vida para ele não teria graça nem significado, nem atrativos, a não ser em função da vocação.

Isto seria, vamos dizer, a nota, o fator de dedicação que existe dentro disto. Os movimentos providenciais, nas primeiras levas que os constituem, são formados por homens que em graus maiores ou menores são homens providenciais.

* Neste final de ano devemos fazer a Nossa Senhora este pedido: “Ut mentes nostras ad caelestia desideria erigas, te rogamus audi nos”

Então, meus caríssimos homens providenciais, não só os que estão presentes aqui, mas de outros que ouçam esta fita, qual é a oração que nós devemos fazer a Nossa Senhora no fim do ano?

Ela nos suscitou quando nós não merecíamos, Ela continuou a nos dar as graças que muitas vezes nós não merecemos; Ela teve, portanto, para conosco um amor gratuito e especial, e é o mais alto dos amores, porque não é um amor feito apenas de ternura, mas é feito do dom de uma grande causa, de uma grande bandeira, de um grande serviço, e sobretudo de um grande sacrifício para fazer.

O que é que nós devemos pedir a Nossa Senhora nesta passagem de ano?

Nós devemos pedir o seguinte. Na Ladainha das Invocações existe uma invocação que eu acho que nós deveríamos constantemente repetir, pelos menos aqueles que têm um movimento interior de alma para isto: Ut mentes nostras ad caelestia desideria erigas, te rogamus audi nos ─ “que eleveis as nossas almas aos desejos das coisas celestes, nós vos rogamos, ó Senhor, ouvi-nos”. Quer dizer, atendei ao pedido que fazemos de elevar nossas almas aos desejos das coisas celestes.

O que é esse desejo das coisas celestes? Ele é, evidentemente e fundamentalmente o desejo de ir para o Céu. Mas o simples desejo de ir para o Céu, por mais nobre, por mais santo que seja, não basta para definir inteiramente o conceito de coisas celestes. Na terra nós temos coisas que são figuras das coisas celestes, e é preciso amar na terra esta figuras das coisas celestes para nós, de fato, dizermos que temos apetência das coisas celestes no Céu.

Estas coisas que são à maneira das coisas celestes na Terra, nos foram dadas para nós aprendermos a amar as do Céu. E nós não podemos ir para o Céu se nós não desenvolvermos em nós o desejo destas coisas celestes.

* Só tem verdadeiro amor às coisas celestes quem odeia o inferno e aquilo que na Terra é semelhante a ele

E o desejo das coisas celestes tem como corolário necessário o ódio, mas o ódio implacável, militante, contínuo, meticuloso, inflexível, contra as coisas que são contrárias às coisas celestes. Quer dizer, sem um ódio do inferno não existe verdadeiro amor às coisas celestes, e sem um ódio das coisas que na Terra são à maneira do inferno, não existe verdadeiro amor às coisas que nesta Terra são à maneira do Céu.

E quais são as coisas à maneira do Céu? Eu indico só uma: o Reino de Maria. Qual é a coisa à maneira do inferno? A Revolução. A Contra-Revolução é o movimento que nos deve levar a derrotar a Revolução e a estabelecer na Terra o Reino de Maria, que é a imagem do Céu na Terra. Então, neste caso, o que é que nós devemos fazer, o que devemos pedir a Nossa Senhora?

Elevar as nossas almas, conseguir uma operação do Espírito Santo nas nossas almas por meio da qual nós amemos muito mais e cada vez mais o ideal do Reino de Maria, tenhamos o desejo da implantação do Reino de Maria. E para que esse desejo seja vivo, tenhamos o ódio à atual ordem revolucionária das coisas.

Significa o sintoma de que nós temos esse ódio, não o dizermos de vez em quando três desaforos quaisquer para a Revolução. Isto é uma coisa boa, mas não basta. Também é preciso outra coisa: é preciso o desejo de todos de saírem de sua chacunnière. A chacunnière é o modo pelo qual a gente não tem ódio à Revolução, porque quando a gente está numa ordem de coisas péssima, mas vive bem dentro dela, porque tem caminha, tem comidinha, tem paizinho, tem mãezinha, tem coleginho, tem trabalhinho, a gente não odeia essa coisa. A gente só odeia uma coisa quando a gente dentro dela não cabe, não pode, não quer ficar e prefere tudo a ficar lá dentro. Isto é que é ódio, e fora disto não existe ódio verdadeiro, existe uma imagem de ódio.

Bem, e este ódio para nós representa o quê? Os Macabeus, de que os senhores com certeza já ouviram falar, e que eram os ultramontanos de pouco tempo antes de Nosso Senhor Jesus Cristo, que se levantaram contra os que queriam paganizar Israel, e fizeram uma revolução que foi uma verdadeira guerra carlista, uma guerra da Vandéia antes de Cristo, e que prepararam o Advento de Cristo, os Macabeus se levantaram com esse lema: “É melhor morrer do que viver sem honra numa terra devastada”.

Para nós também, o sentimento que deve ser ativo, que deve ser o sintoma de nosso amor das coisas celestes, é essa idéia: “Eu só me consolo de viver pela possibilidade de fazer a Contra-Revolução, pela possibilidade de ser nocivo, o mais possível, em todos os momentos de meu dia, ser nocivo à Revolução. E quando eu não puder ser nocivo à Revolução, pelo fato de no momento eu não ter algo que fazer, eu rezo, e eu faço de minha oração aquilo que ela é: a mais preciosa arma da Contra-Revolução. E se por acaso eu estou numa situação em que não é o momento, ou não é adequado rezar, ao menos pelo meu ódio eu provo a Deus meu amor. E pelo meu amor eu posso atrair a graça de que venha o quanto antes para nós o Reino de Maria.

Esta idéia, portanto, de que para nós seria melhor morrer ─ para cada um de nós ─ se não pudéssemos viver nos arraiais da Contra-Revolução, e lutando para a derrubada da Revolução, é o que nós devemos pedir a Nossa Senhora. Pedir que Ela nos dê uma forma tão ardente de amor a Ela, que nós estejamos inteiros cheios disto: de que seria melhor morrer do que viver nesta terra devastada, viver sem honra nesta terra devastada que é a terra revolucionária.

Esta é a verdadeira fé, verdadeiro sintoma de que as nossas almas foram elevadas ao desejo dos dons celestes, foram elevadas ao desejo das coisas celestes, e que são portanto almas que caminham para o Céu, que é o Reino Eterno, perfeito, imperecedouro de Nossa Senhora, que nós aprendemos a amar amando o Reino de Maria na Terra.

Esta é a última recomendação para o último dia do ano.

Que Nossa Senhora a todos os ajude.

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