Santo
do Dia (Rua Pará) – 22/12/1965 – 4ª feira
[SD 156] – p.
Santo do Dia (Rua Pará) — 22/12/1965 — 4ª feira 1 [SD 156]
Nome
anterior do arquivo:
O Reino de Maria será uma época mais medieval do que a Idade Média, e é normal que o Grupo continue a existir, para o fortalecimento dela * O desejo do Sr. Dr. Plinio: que os últimos fiéis, que segundo alguns teólogos não morrerão no fim do mundo, sejam membros do Grupo * Uma eventual deterioração do Grupo, precedendo o fim do mundo, não seria total * A tendência de convergir para a chacunière é o maior perigo para a vida do Grupo * A grande provação no Reino de Maria será, quando tiver acabado a luta, a tentação de ir para a chacunière * De onde sai a Cruz, entra o demônio * O Reino de Maria é o reino de Nossa Senhora nas almas * No idioma alemão há dois verbos diferentes para o “comer”, usados conforme se trate do homem ou dos animais * O Sr. Dr. Plinio descreve o mau uso das poltronas como assentos
Hoje há a festa de Santa Cecília, mas não é uma festa que nós tenhamos mais especialmente incluída no nosso calendário.
Não sei se alguém queria me sugerir algum assunto para tratar ou eu falo alguma coisa sobre Santa Cecília ela mesma. Alguém dos senhores mais moços quereria sugerir algum assunto para tratar, está a disposição?
* O Reino de Maria será uma época mais medieval do que a Idade Média, e é normal que o Grupo continue a existir, para o fortalecimento dela
(Sr. –: O grupo iria até o fim do mundo?)
Esta é uma pergunta do outro mundo!
Vamos dizer a coisa de maneira seguinte: na “RCR” se afirma o princípio de que quando a Revolução é derrotada e a Contra-Revolução vence, e que quando a Igreja vence, em cada vitória dela, ela volta mais firme do que ela era antes.
Isto tem uma porção de razões de ser, uma das quais é a seguinte: é que tudo quanto se reconstitui, ou se reconstitui mais forte, no ponto onde se quebrou, ou não dura.
Nestas condições, é preciso que nós tenhamos no Reino de Maria uma época que seja mais medieval do que a Idade Média, que seja mais ultramontana do que a Idade Média, e que os princípios constitutivos da Idade Média se apresentem com um desdobramento e com uma firmeza enormemente maior do que na Idade Média tiveram.
Agora, se há um grupo que tem por missão derrubar a Revolução e implantar esta nova Idade Média, é o normal que este grupo continue, durante o Reino de Maria, para o fortalecimento e a caracterização até as últimas conseqüências dos predicados que caracterizaram a Idade Média, e que devem caracterizar o Reino de Maria.
Se nós temos recebido, por bondade de Nossa Senhora, o espírito necessário para ver o mal da Revolução até as suas últimas conseqüências, nós devemos ter o espírito necessário para obter o bem da ordem da Contra-Revolução até as últimas conseqüências. Se nós tivermos tido a destreza necessária e a força necessária para derrubar a Revolução, devemos ter a destreza e a força necessária para implantar e pôr de pé a ordem de coisas da Contra-Revolução. E neste sentido, o normal é que o Grupo ainda continue como uma família de almas, mesmo depois de implantar o Reino de Maria.
Com que características, com que pormenores, é uma coisa que seria talvez prematuro dizer. Mas, enfim, com a plenitude de seu espírito, com a plenitude de seus métodos e investidos da tradição de todos os serviços prestados no passado, e sobretudo com a plenitude de sua sujeição e de sua união a Nossa Senhora.
Isto é propriamente a posição do Grupo.
* O desejo do Sr. Dr. Plinio: que os últimos fiéis, que segundo alguns teólogos não morrerão no fim do mundo, sejam membros do Grupo
Agora, acontece o seguinte: se isto é verdade e se nós devemos levar o espírito da Contra-Revolução até as suas últimas conseqüências, últimas, propriamente últimas, o mal que vai haver depois é tão grande que depois dele é só acabar com o mundo, por aí a gente vê que é razoável e arquitetônico que haja o fim do mundo depois de haver a plenitude do Reino de Maria, o Grupo durará até o fim do mundo. Eu quero crer que seja normal. Eu quero crer que seja arquitetônico.
Os senhores sabem que haverá alguns fiéis que não vão morrer, segundo muitos teólogos, no fim do mundo. Eles estão em luta contra o Anticristo, Nosso Senhor vem, e eles passam diretamente para o Céu. Eu não tenho outro desejo de que alguns desses sejam membros do Grupo.
Desejo. Daí a dizer que é certo, a diferença é grande.
Aqui é o que eu queria dizer para responder à sua pergunta.
* Uma eventual deterioração do Grupo, precedendo o fim do mundo, não seria total
(Sr. Siqueira: […] Não seria necessário a todo o Grupo se ensabugasse, mas, enfim, uma parte dele até o fim do mundo constituiria uma parte tão pequena, que só esta pequena parte viria até o fim do mundo.)
Isto eu acredito bem que seria normal, que seria razoável. Seria razoável não quer dizer que vai acontecer, mas é razoável. Seria normal que não caísse esta ordem de coisas sem haver uma deterioração interna naquilo que então seria o Grupo. Mas essa deterioração interna eu quero crer também que não seria total. Não é verdade.
É isto. Isto parece que não haveria.
(Sr. Wilson: …)
Quer dizer o seguinte: V de um auge.
Não sei se já viu fotografias de pico de montanha. Quer dizer que a montanha chega a um pico e depois muitas vezes dentro do pico tem outro pico menor. Há auge e Auge.
Tudo leva a crer que o Auge do auge seja dos homens que sob o manto de Santo Elias, devem lutar contra o Anticristo no fim do mundo. Tudo leva a crer.
Será a última beleza da Igreja. Uma beleza cheia de sangue, cheia de dor, mas cheia de fidelidade, de uma glória tão grande, que Nosso Senhor virá diretamente a terra para colhê-la.
Há mais alguma pergunta?
* A tendência de convergir para a chacunière é o maior perigo para a vida do Grupo
(Sr. –: …)
Eu não sei que escritor francês — eu preciso ver isto, eu não sou como Julinho Mesquita, eu não sei citar autores — escreveu uma frase magnifica, descreveu a ordem, dessa maneira: “Le Roi, dans son royaume; e gentilhomme dans sa gentilhommière; et chacun dans sa chacunière”.
Este conceito da chacunière, quer dizer de alvéolo, onde o cadaunzinho anônimo cabe. Ao sol da ordem de Deus de fato não há anônimos, mas onde se pode ser pequeno sem ser anônimo. É um conceito muito bonito.
Mas a grande tentação, para a maior parte dos homens, é quando eles recebem uma vocação autêntica, querem fugir da vocação para irem para a chacunière. O mega que imagina uma vocação falsa, este quer fugir da chacunière para brilhar. O que tem a vocação autêntica, sente o peso da vocação autêntica, e então quer fugir para a chacunière.
Eu tenho a impressão de que a tendência a não ser um herói, a tendência a não ser um santo, a tendência a não renunciar a tudo desinteressadamente para servir a Nossa Senhora, a tendência para não crer nos imponderáveis e nos inverossímeis do Grupo, esta tendência resulta na convergência para a chacunière. E esta convergência para a chacunière a meu ver é o que dá exatamente o maior perigo para a vida do Grupo.
* A grande provação no Reino de Maria será, quando tiver acabado a luta, a tentação de ir para a chacunière
Eu sei bem que há perigos muito maiores, muito mais graves para a vida espiritual, mas o que eu quero dizer é que o perigo que assola mais nos membros do Grupo é este.
Tudo me leva a fazer crer o seguinte:
A grande provação por ocasião do Reino de Maria será quando tiver acabado a luta ou a gente ver o brilho do Reino de Nossa Senhora, e então uns tantos dizerem: “Arre! que eu possa retomar o que eu tinha interrompido antes da guerra e que eu vou ser o chacunzinho. Eu vou para a minha casinha, eu vou arranjar uma vidinha, eu vou [tomar uma] guaranazinha, um chopezinho, uma mortadelazinha, um chinelinho, uma caminha e um inferninho”, está compreendendo?
Esta impostação, eu acho muito perigosa.
Eu a senti uma vez, mas de um modo tremendo, em minha vida. Eu era meninote e tinha muitas idéias contra a chacunière.
Eu fui uma vez falar com uma senhora alemã (fui com minha governante alemã) que morava na mesma rua do que eu, mais para baixo, na Rua Barão de Limeira. Era uma casa modesta, mas cheia de um conforto que só o alemão sabe pôr nas coisas. E que até as cortinas parece escorar conforto. É o de lo último alemão. Estava tudo tão arranjado, que eu abri a porta e entrei naquilo, me saltou uma coisa no espírito, parece assim como uma bala. Disse: “Que grandezas, nem nada: a fórmula é desta mulher. É aprender a fazer uma casa assim, ser pequeno funcionário público, meter um pequeno chinelo e levar assim a vida. Assim é que é que se deve viver agradavelmente, o resto é bobagem”.
Bem, eu reagi, graças a Deus minha vida tomou um outro rumo. Mas eu conheço bem esta tentação. E eu acho que esta tentação pode depois desvirtuar o Grupo. É o grande perigo.
Não sei se respondi adequadamente à sua pergunta.
* De onde sai a Cruz, entra o demônio
(Sr. Caram: …)
É uma forma de alaranjamento.
Por que a forma? Estas coisas a pessoa nunca diz para si mesma tão claramente, quanto eu estou dizendo. A pessoa arranja umas composições.
Se isto é sem espírito de luta, é sem espírito de cruz. E sem este espírito de cruz, onde saia a cruz, entra o demônio. É assim que a coisa começa.
* O Reino de Maria é o reino de Nossa Senhora nas almas
(Sr. –: A provação da Civilização Católica como sociedade.)
É ordem temporal católica, não é? É o Reino de Maria, é o reino de Nossa Senhora nas almas. O reino mais pleno do que nunca de Nossa Senhora na Igreja. E o Reino de Nossa Senhora na sociedade temporal pela observação na sociedade temporal de todas as leis da Igreja, de todo o Decálogo e de todos os princípios constitutivos da ordem Universal. Isto é o Reino de Maria. Estes são os elementos que compõem o Reino de Maria.
Não sei se minha resposta responde à sua pergunta.
A tentação da sociedade é a seguinte:
Nós católicos devemos comunicar muito brilho à sociedade temporal, o amor aos modelos ideais que fazem na terra a imagem do Céu. É muito fácil perder esse senso sobrenatural e começar a gozar este brilho pelo brilho. E daí então vir a decadência.
Eu estava conversando hoje com um amigo a respeito, por exemplo, de uma boa refeição, conduzida por ultramontanos. A boa refeição feita por ultramontanos não é a refeição do gastrônomo: “Agora apertei nos dentes um grãozinho de caviar, que deu uma gotinha de um salgadinho delicioso”. Outro diz: “Olha, esta torrada está num ponto maravilhoso”. E outro diz: “Eu acabo de beber um golinho de vinho”. Isto é o contrário da refeição ultramontana.
Como é a refeição ultramontana?
A refeição ultramontana é antes de tudo uma alegria de estarem juntos, e a alegria de ter uma conversa que é uma conversa elevada como tema. Portanto, uma conversa próxima ou remotamente de fundo religioso. É levada com estilo e é levada com ambiente, portanto. A comida não é senão um acompanhamento no qual o irmão corpo, na medida do que lhe é próprio, acompanha esta alegria preponderante da alma.
De maneira que em todas as grandes épocas da história, uma grande refeição tem por principal prazer e por centro uma grande conversa. E a comida é um elemento precioso, mas secundário. A bebida é um elemento precioso, mas secundário.
É como uma música. Durante uma refeição a gente pode tocar uma música, ninguém vai dizer; comendo, mastigando uma batata: “Olha, aquela notinha não!”. A música é um fundo musical. Tudo é fundo musical para o prazer do espírito do convívio durante a refeição.
Portanto, a refeição de prosa baixa e alto comentário culinário, esta é refeição de ultramontano.
Mas você percebe bem como no brilho da civilização católica se pode inverter os valores. Os valores de espírito começam a diminuir e os valores matéria começam a se firmar. Primeiro ainda retamente, logo derrapam. A coisa cai.
* No idioma alemão há dois verbos diferentes para o “comer”, usados conforme se trate do homem ou dos animais
Em alemão há a distinção entre dois verbos muito bonita: essen e fressen. Essen é o animal; fressen é o comer do bicho.
O Essen é um prazer que a gente tem quando sobretudo tem o prazer do espírito. O resto é fressen. Mas a tendência do homem depois do pecado original é 90% para fressen e 10% (quando as coisas correm muito bem) para essen.
O problema para nós não é tanto de jejuar, mas de explicar o que é o essen. Querer e admirar o essen. Não cair no hábito do fressen. No comer e em tudo mais. Porque no tudo mais dá nisto.
Há um modo fressen de estar na sede da Pará, que é, por exemplo, o seguinte — eu devo confessar, já tenho visto coisas mais ou menos parecido com isto:
* O Sr. Dr. Plinio descreve o mau uso das poltronas como assentos
Um modo pelo qual alguns dos nossos, me perdoem a palavra, mas se escarrapacham nessas poltronas de couro que está aí na sala da lareira. A gente tem a impressão que é Netuno no meio das águas. Gozando as molas, o liso do couro, meio boliando. Uma espécie de aeronáutica sobre molas. Aeronáutica no ar. É uma coisa que priva a alma de superiores operações e que já vai correndo para baixo.
Há uma espécie de pára-quedismo em couro e portanto muito sem risco que eu tenho visto, que a gente se joga nos nossos sofás. Mas é uma pára-queda. Caem e a gente vê aquelas molas fazerem assim… e uma cara satisfeita beata, se agitando no meio das ondas de couro.
Não é o melhor que nós podemos … [inaudível]… são os perigos que há de inversão de valores entre o espírito e o corpo.
*_*_*_*_*
1) Nota do conferidor: A data parece estar errada, pois comemora-se a Festa de Santa Cecília em 22/11. Por outro lado, já existe outro “Santo do Dia” em 22/11/1965.