Reunião
Normal – 11/12/65 – Sábado .
Reunião para o Grupo da Martim 1 — 11/12/65 — Sábado
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A tática utilizada por São Luís ao escrever o Tratado é muito semelhante à que usa o Fundador * Objetivos do Fundador com essa conferência sobre o Tratado da Verdadeira Devoção * Nosso Senhor não é conhecido porque Nossa Senhora não é conhecida * O Grupo não cumprirá sua missão se não conhecer bem e praticar a Verdadeira Devoção a Maria * Nossa Senhora quis permanecer oculta aos próprios olhos e aos de toda criatura para brilhar apenas diante de Deus * Deus reservou o conhecimento de Maria aos apóstolos dos últimos tempos * Os anjos encontram honra em servir os servidores de Maria * Foi por meio de Maria que Jesus Cristo veio ao mundo e é por meio d’Ela que Ele reinará no mundo * Numa época em que até na Igreja esta devoção está proscrita, um grupo permanece fiel a ela * Ao reler o Tratado, o Fundador encontra a confirmação de todas suas elucubrações ao longo de quinze anos
* Comentário sobre o Tratado da Verdadeira Devoção à Nossa Senhora
O Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de São Luís Grignion de Montfort.
Eu começo, portanto, uma análise agora, e começo analisando um título que já tem de si uma primeira nota do pensamento fundamental do Tratado, e nós veremos depois se essa nota vai se espelhando aos poucos com vais e vens, até se afirmar na parte final do Tratado.
O título é “Tratado da Verdadeira Devoção”. Em primeiro lugar eu quero focalizar a palavra “tratado” e depois a palavra “verdadeira”.
* A tática utilizada por São Luís ao escrever o Tratado é muito semelhante à que usa o Fundador
Na palavra “tratado”, nós temos o seguinte.
São Luís Grignion de Montfort, tinha em vista fazer um verdadeiro tratado, quer dizer, uma exposição metódica, sistemática, à maneira de um tratado que quer dar a matéria inteira e a quer dar cientificamente de acordo com os mais fundamentais e mais importantes argumentos. A palavra “tratado” antigamente tinha sentido muito especial e significava algo que trata exaustiva e completamente de uma coisa, ou seja, que sustenta uma tese completamente.
E realmente o Tratado dele é um Tratado, quer dizer, o plano muito metódico que nós veremos daqui a pouco em linhas gerais. O plano todo dele é muito metódico, a argumentação é muito profunda e constitui uma síntese magnífica entre o aspecto racional e o aspecto “chama”, porque durante o tempo inteiro ele raciocina, mesmo quando ele exclama e quando a gente sente que ele como que não se contém mais e se prende no mundo das exclamações e no mundo das afirmações que redundam para incutir mais profundamente uma verdade, mesmo neste momento ele é inteiramente racional, ele está o tempo inteiro entregue a uma demonstração, argumentando, e argumentado, aliás de um modo triunfal e indiscutível, mas só a idéia de fazer um tratado fica posta aqui muito bem.
Agora, por que é que o Tratado dele tem essas características?
A gente vê que ele quis fazer uma obra cuja importância ele não ignorava. Ele queria, de uma vez por todas, assentar numa base teológica que não pudesse ser discutível, a tese que ele tinha em vista. E isto porque ele considerava a vitória desta tese — nós veremos daqui a pouco isto na introdução — ele considerava a vitória desta tese como um dos fatos mais importantes da História do mundo e da História da humanidade. Razão pela qual ele queria, então, que isto ficasse profundamente bem demonstrado.
Agora, de outro lado a idéia dele era de, por meio desta argumentação, achatar, convencer e deixar a entender que é jansenista todo mundo que não pensa como ele. Quer dizer, é uma técnica muito parecida com a nossa. Nós afirmamos uma determinada verdade, nós a demonstramos tanto quanto nós podemos com argumentos racionais, e depois nós deixamos de pé a nota da condenação de fundo: “Se vocês negam isto, vocês caem em tal heresia assim”. Quer dizer, ele no fundo sustenta a questão de consciência, como nós sustentamos a questão de consciência, para ele é uma… “Isto é uma verdade a respeito de Nossa Senhora, que eu, Luís Grignion de Montfort, vou dizer. E quem não aceitar isso, cai em tal heresia assim”.
Quer dizer, a técnica é imensamente parecida com as nossas impostações e as nossas técnicas. [Que é o Tratado dele?]…
(…)
…Verdadeira Devoção.
Eu nunca tinha prestado atenção neste sentido. Eu tinha entendido que era o Tratado de uma Verdadeira Devoção a Nossa Senhora. Eu tinha entendido que ele queria provar que essa devoção era uma devoção ortodoxa; contra os jansenistas que diziam que não é. Mas não é a posição dele. A posição é a seguinte: que essa é a Verdadeira Devoção, de tal maneira que as outras devoções, sem serem falsas, ou são rios que correm para este mar, ou não são a Verdadeira Devoção.
Esta devoção que ele apregoa é de tal maneira uma devoção superior a todas as outras, que as outras são como que imagens ou figuras de uma devoção, porque a verdadeira é aquela que ele vai dar. E já na introdução que nós vamos examinar daqui a pouco a gente vê isto. E em Francês o sentido é muito claro, porque não é de uma Vraie Devotion, não é? É do Traité de la Vraie Devotion. E em Francês isso tem, talvez, uma força um pouco maior do que em Português, não é isso? Na linha exclusiva, se essa é “a verdadeira”, entende que as outras não são verdadeiras, senão em função desta, senão visando ela. É isso que ele tem em vista.
Bem, vem depois a introdução.
E a introdução é já tão rica que dá para todo um comentário.
* Objetivos do Fundador com essa conferência sobre o Tratado da Verdadeira Devoção
A minha intenção é de desenvolver a introdução e depois dar o plano geral da obra. Talvez fosse interessante dizer o que é que eu tenho em vista nessa conferência.
Eu tenho em vista duas coisas: Primeiro de nós nos lembrarmos do Tratado de São Luís Grignion, no sentido em que ele quis que o Tratado dele fosse conhecido, quer dizer, que fosse racional e consistentemente conhecido, que fosse, portanto, conhecido por gente que soubesse pegar essas razões e representá-las para si, apresentá-las para outros de um modo definido, de um modo palpável, e não com uma devoção vácua, impalpável, feita sobretudo de sentimentalismo.
Se ele quis que o Tratado dele fosse assim, é que ele queria que os devotos dele tivessem isso bem em mente. E se nós queremos ser verdadeiramente devotos dele, nós devemos portanto tender, pelo menos na medida em que a estrutura de espírito da “geração nova” o permita, nós devemos tender a que isto esteja em nosso espírito assim. E portanto é normal que nós queiramos que isto seja assim.
Segundo lugar, eu quero fazer alguns comentários — na medida em que o tempo permita — que justifiquem apreciações a respeito da época presente, da missão do Grupo, da missão do movimento de “Catolicismo”, da nossa relação como escravos dos últimos tempos. Isso com base no texto, para não ficar uma impressão também assim de umas analogias que eu tirei na reunião, mas que não têm fundamento verdadeiramente no texto. Essas são as duas principais preocupações.
O modo meu de comentar, é tal que os senhores vejam que o comentário que eu estou fazendo está no texto. Quer dizer, eu vou, portanto, embora seja um pouco cansativo, ler no texto as coisas necessárias, para ver que o que eu estou dizendo tem fundamento nele. Quer dizer, se me fosse permitido dizer, eu estaria fazendo uma espécie de pequeno tratado sobre “O Tratado”, é essa técnica que eu quero adotar, a menos que note que fique muito pesada e que as circunstâncias me obriguem mudar de forma de exposição, mas o ideal será que esta exposição entre por este modo. Eu resolvi também dar a “teoria do grupo” durante o comentário e não antes porque toma mais vida. Isso é uma introdução.
* Nosso Senhor não é conhecido porque Nossa Senhora não é conhecida
Na página 23, item 13, ele diz o seguinte. Ele, depois de ter feito uma introdução fogosa, ele tem essa frase que explica todo o prefácio, toda a introdução, que é a seguinte.
“Meu coração ditou tudo o que acabo de escrever com especial alegria, para demonstrar que Maria Santíssima tem sido até aqui desconhecida e que é esta uma das razões por que Jesus Cristo não é conhecido como deve ser. Quando, portanto, e é certo, o conhecimento e o Reino de Jesus Cristo tomarem o mundo, será como uma conseqüência necessária do conhecimento e do Reino da Santíssima Virgem Maria. Ela o deu ao mundo a primeira vez, e também, da segunda, o fará resplandecer”.
Eu acho extremamente importante essa afirmação que vem aqui para demonstrar que Maria Santíssima tem sido até aqui desconhecida.
Aqui o comentador vem com uma nota que é uma nota poca:
“No sentido de: conhecida insuficientemente, como se depreende de todo esse parágrafo da expressão: Jesus Cristo não é conhecido como deve ser”.
É, realmente é isto, mas o “insuficientemente” é em proporções tais, que uma das principais razões pelas quais Jesus Cristo não é conhecido suficientemente é exatamente porque Nossa Senhora não é conhecida suficientemente. Quer dizer, é uma não suficiência que tem tais proporções que uma das principais razões pelas quais Cristo não está reinando no mundo é porque não existe este conhecimento de Nossa Senhora. Quando esse conhecimento de Nossa Senhora existir, Jesus Cristo vai reinar no mundo, porque foi derrubado o obstáculo que impede o Reino de Nossa Senhora no mundo.
Bem, e o Tratado dele se destina exatamente a proporcionar este conhecimento de Nossa Senhora, de maneira tal que o livro dele é, no entender dele, o livro que deve abrir as portas para a era do Reino de Maria, era do reinado de Jesus Cristo, ele tem o conhecimento verdadeiro, e a devoção verdadeira, devoção e conhecimento estes, cuja divulgação tornará Nossa Senhora conhecida e por sua vez tornará Nosso Senhor conhecido, e por sua vez abrirá a era do Reino de Cristo por Maria.
Os senhores estão vendo, portanto, que já de começo, no fim que ele teve em vista na introdução, está claro o pensamento do Reino de Cristo por Maria, ele afirma que é certo que Cristo vai reinar por Maria.
Os senhores viram — se alguém quiser eu leio de novo esse trecho escrito — os senhores viram que ele afirma que é certo que Cristo vai reinar por Maria, e ele diz: “Isto vai ser quando este livro, esta devoção for devidamente aceita”. O que quer dizer: quando este livro for devidamente divulgado, quando circular devidamente.
Bem, se os senhores tomam em consideração a história deste livro que ele escreveu, que esteve guardado durante muito tempo e só no século passado foi mandado para Roma, os senhores estão vendo o que é que sempre se esteve fazendo: é abafar a doutrina que deve tornar Jesus Cristo conhecido por [meio de] Maria, através de Maria e em Maria. E se esteve até aqui prolongando a hora da Revolução, pelo abafamento deste livro. Parece, aliás, que ele mesmo sabia que esse livro ia ser objeto dos maiores ataques do demônio, e que só muito mais tarde haveria de florescer, mas os senhores estão vendo aqui duas coisas curiosas.
* São Luís Grignion tinha a missão especial de ser o apóstolo de Maria
Primeiro, ele podia se perguntar a respeito dos santos anteriores a ele, o que, às vezes, nós nos perguntamos a respeito de correntes espirituais que não a nossa, dentro da Igreja. “Se era isso que era preciso dizer, por que é que os outros não disseram?”
Entretanto, o paralelismo da situação é o mesmo, os outros santos também não disseram isto. É que era dele a missão de dizer isto, o caráter de profeta de Nossa Senhora, o caráter de apóstolo de Nossa Senhora, marcado para ele como não foi marcado para ninguém antes nem durante, e provavelmente nem depois dele, este caráter fica entrelinhas muito bem posto. Ele é o homem que toca a tuba e que lança o som. Que ninguém, nem os maiores que foram maiores do que ele numa porção de outras ordens, não tiveram.
E eu não tenho escrúpulo de com isso estar fazendo uma censura aos outros, porque é uma hora de Deus, é um homem de Deus, é a obra de Deus que produzirá seus efeitos no momento em que Deus quiser, de maneira que não vai nisto uma censura aos outros, é mais ou menos o que nós poderíamos dizer em matéria de ultramontanismo também.
* O Grupo não cumprirá sua missão se não conhecer bem e praticar a Verdadeira Devoção a Maria
Bom, agora, daí decorre uma conseqüência, é que só podem ser — essa conseqüência nós a veremos afirmada a mais não poder, no Tratado — só podem ser verdadeiros apóstolos do Reino de Cristo aqueles que conhecem esta devoção e a praticam. E, portanto, se o Grupo quer se habilitar ao cumprimento de sua missão, se nós queremos resolver problemas que entre nós existem, se nós queremos vencer vitórias sobre inimigos que trazemos dentro de nós, nós devemos é refrescar os nossos conhecimentos desta devoção e praticá-la.
É que por esta forma nós temos a promessa do Reino de Cristo por meio de Maria em nós, não é?
Por outro lado também, uma vez que o Grupo pensa de si tudo quanto pensa no que diz respeito ao Reino de Maria, não é compreensível que nós estejamos fazendo uma obra verdadeiramente autêntica, sem termos o conhecimento completo, vivo, contínuo disto aqui dentro de nós.
De maneira que isto é um convite para nós tomarmos esse assunto muito mais a sério do que temos tomado até aqui. É claro que com as limitações inerentes ao “geração-novismo”. Mas sem embargo disso, um convite muito sério. E é nesse sentido que eu acho que nós devemos considerar o desenvolvimento da matéria que vem até aqui.
Então, aqui está o ponto ápice do prefácio, mas que nós dizemos que já de uma vez, é um ponto ápice do livro. O livro todo se volta para essa tese.
Nós agora podemos começar a análise propriamente dita do prefácio.
* Nossa Senhora quis permanecer oculta aos próprios olhos e aos de toda criatura para brilhar apenas diante de Deus
São Luís Grignion, na primeira parte — esse prefácio tem duas partes — na primeira parte, ele se move em torno de certas idéias da mediação; o desenvolvimento da introdução é o seguinte. Eu vou lendo e vou dando o desenvolvimento.
Primeiro ponto:
Foi por intermédio da Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por meio d’Ela que Ele deve reinar no mundo.
Isso é o primeiro princípio. Quer dizer, é uma afirmação da glória de Nossa Senhora, não é? Mas é uma afirmação anti-sintética, mas ao mesmo tempo hiperbólica. O Reino d’Ela, Ela deve reinar neste mundo e Ela deve reinar porque Ela é o canal pelo qual Jesus Cristo veio até nós. E Ela é a Rainha de todas as coisas. Depois de ter afirmado esta glória, ele vem falar a respeito da humilhação de Nossa Senhora, apesar dessa glória.
Então, a primeira razão dessa humilhação é porque Ela pediu essa humilhação. Então:
Toda a sua vida, Maria permaneceu oculta. Por isso o Espírito Santo e a Igreja chamam-nA de “Alma Mater”, Mãe escondida e secreta. Tão profunda era a sua humildade que para Ela o atrativo mais poderoso, mais constante era esconder-se de Si mesma e de toda a criatura, para ser conhecida somente de Deus.
Esconder-Se a Si mesma quer dizer fechar os olhos sobre as Suas próprias perfeições, não pensar em Si mesma, mas cogitar apenas em Deus Nosso Senhor.
Agora vem uma outra idéia: Ela, além de Se ter ocultado por humildade, Ela teve em Si algo de oculto por causa da insondabilidade que existe nEla, dos mistérios, das perfeições d’Ela.
Para atender aos pedidos que Ela Lhe fez de escondê-lA, de empobrecê-lA e humilhá-lA, Deus providenciou para que oculta Ela permanecesse, em seu nascimento, em sua vida, em seus mistérios, — isso ainda é a primeira parte — na sua ressurreição e assunção, passando despercebida aos olhos de quase toda a criatura humana. Seus próprios parentes não A conheciam, e os Anjos perguntavam muitas vezes, uns aos outros: Qui est ista…? Quem é esta? (Cânt 3,6; 8,5) pois que o Altíssimo lhes escondia, ou se algo lhes desvendava a respeito, muito mais, infinitamente mais Ele ocultava.
Quer dizer, atendendo ao desejo de humildade de Nossa Senhora, de fato Ela ficou posta numa espécie de segredo ou de mistério até mesmo no começo de sua existência, quando os Anjos não sabiam da Encarnação, e viam a virtude d’Ela, e se perguntavam “quem é esta?” Entretanto Ele alguma coisinha dizia, mas da futura Rainha dos Anjos, Ele quase nada dizia aos próprios Anjos.
Deus Pai consentiu que jamais em sua vida Ela fizesse algum milagre, pelo menos um milagre visível e retumbante, conquanto Ele tivesse outorgado o poder de fazê-los.
A idéia é muito bonita. não é? Ele deu a Ela o poder, levado pelo amor que Ele tinha a Ela e pelo desejo de glorificá-lA, porém, Ela não fez uso desse poder, e o Padre Eterno consentiu nisso por causa do desejo que Ela tinha de não aparecer.
Deus Filho consentiu que Ela não falasse, se bem que lhe houvesse comunicado sabedoria divina.
De fato é uma coisa curiosa, Ela é “Sedes Sapientiae”, mas não consta nada do que Ela tenha feito pelo uso de sua palavra, apenas o “Magnificat”. Ela conservou aquela imensa sabedoria para Si.
Deus Espírito Santo consentiu que os Apóstolos e os Evangelistas a Ela mal se referissem, e apenas no que fosse necessário para manifestar Jesus Cristo. E no entanto Ela era a Esposa do Espírito Santo.
Ela quis ser desconhecida, e Ela foi de fato desconhecida, de acordo com o que Ela quis. Ainda aqui continua a mesma ordem de idéias.
* Deus reservou o conhecimento de Maria aos apóstolos dos últimos tempos
Maria é a obra prima por excelência do Altíssimo, cujo conhecimento — ut soli Deo cognoscenda reservetur — e domínio Ele reservou para Si.
Aqui vem então uma idéia nova, é que é uma obra-prima tal, que o pleno conhecimento disso é só para Ele. É como uma magnificência do Reino que é dado só ao Rei conhecer. Então já não é só por causa da humildade d’Ela mas é por causa de uma espécie de, se ousaria dizer assim, de soberano ciúme d’Ele, e porque Ela é tal que em toda a criação, ninguém merece conhecê-lA. É só Ele que merece conhecê-lA inteira. Os senhores vão ver como vai nascer dessa doutrina a idéia de que há qualquer coisa nEla de misterioso. E depois o papel que esse mistério desenvolve ao longo de todo o trabalho. Então:
Maria é Mãe admirável do Filho, a Quem aprouve humilhá-lA e ocultá-lA durante a vida para Lhe favorecer a humildade. Tratando-A de mulher “mulier” (Jo 2,4: 19,26), como a uma estrangeira, conquanto em seu coração A estimasse e A amasse mais que todos os Anjos e homens.
Maria é a fonte selada (Ct. 4,12)
quer dizer, a fonte que ninguém pode abrir, a fonte que só poucos podem usar.
Maria é a fonte selada e Esposa fiel do Espírito Santo, onde só Ele pode penetrar. Maria é o Santuário, o repouso da Santíssima Trindade, em que Deus está mais magnífica e divinamente que em qualquer outro lugar do Universo sem excetuar seu trono sobre os Querubins e Serafins.
Ele dá mais uma nota de mistério. Ele vai, por meio de progressões. Tudo quanto é de Deus é misterioso. E Ele, Deus, de tal maneira está em Maria, que a gente compreende que é uma razão a mais pela qual ninguém pode penetrar inteiramente nEla. O que é um Santuário, onde a glória d’Ele está de tal maneira que ao homem não é digno, não é lícito ao homem transpor o limiar ou pelo menos entrar muito profundamente nesse templo. Porque é o templo onde está o mistério d’Ele, onde está a glória d’Ele.
A idéia então de um mistério de Maria vai nascendo por meio de uma série de tintas sucessivas que ele vai pondo.
E criatura alguma, pura que seja, pode penetrar aí sem um grande privilégio.
Quer dizer, ao mesmo tempo ele afirma que ninguém pode penetrar, mas ele levanta uma ponta do véu, e ele diz, “sem um grande privilégio”.
Logo há criaturas dotadas de um grande privilégio que podem penetrar neste incomparável santuário de Deus que é Nossa Senhora, não é verdade? E ali, nEla, com Ela e por Ela ter um comércio com a glória de Deus que aos outros não é dado.
E então fica enunciado aqui evidentemente, um privilégio que é o maior privilégio que a criatura pode ter. Porque se este é o mais alto santuário, é o lugar da glória maior, onde o mistério é mais impenetrável, penetrar ali evidentemente é o privilégio mais soberbo, mais magnífico, mais excelso, não é?
E ele já aqui dá uma tinta desta idéia dele de que há uma raça especial de privilegiados, chamados a entrar. Essa raça especial de privilegiados são os que têm a vocação para serem os apóstolos dos últimos tempos, e os filhos de Maria. Os senhores estão vendo como isso está insinuado, mas insinuado de modo tal, que em primeiro lugar está dito com todas as letras, e se alguém tiver alguma dúvida, dúvida não pode caber porque está afirmado.
Mas é dito de um modo tal que não chama atenção, de maneira que se uma pessoa não ler isto preconcebida de algum modo de que vai encontrar isso aí dentro, corre muito o risco de minimizar e pensar que isto aí são hipérboles que vão se somando umas às outras sem perceber que essas hipérboles que se somam são de fato uma escada de diamantes com degraus firmes que se diferenciam dos outros precisamente. E que há toda uma doutrina singularíssima e aprovada pela Igreja, e de um santo, a respeito de uma certa predestinação, a respeito de um certo convite que não é idêntico à predestinação para a salvação, mas que é o auge da predestinação para a salvação, e que é exatamente essas almas privilegiadíssimas que entram no santuário misterioso.
Os senhores vejam com que fogo, com que lógica, mas com que tato diplomático esta proposição, que poderia chocar muita gente, e é lançada aí dentro. Eu não tive tempo de ler e tenho uma certeza antecipada de que não terei, os comentários, por exemplo, de D. Siqueira a respeito do livro, mas os senhores não imaginam quanto veementemente desconfio de que ele passa por cima disso e que ele pensa que isso é como as pétalas, que ele joga durante os sermões dele, que caem no chão desordenadamente sem constituir arquitetura e, entretanto aqui está, e está — é curioso — no lusco-fusco, no pórtico já da obra dele e lançando a obra inteira.
E aí a gente vê essa coisa curiosa que é a prudência-imprudência dele. A coisa é puxadíssima, ele a lança logo no começo, entretanto. E, entretanto, ele a lança de um modo tão discreto que a pessoa como que não nota, não é verdade?
Por que isso? Porque a técnica dele é uma técnica assim, de aturdir. Ele lança o paradoxo e depois vai dando justificações. Mais adiante ele lança o paradoxo de novo, e com mais força, e dá mais justificações. Isso é uma forma de um verdadeiro tratado, que é a técnica de fazer nascer o sol do ultramontanismo no fundo das almas. É essa técnica que está implicada aí.
Ele não insiste sobre essa idéia desse privilégio, ele no item 6 passa adiante.
Ele, depois de ter lançado essa ponta, o privilégio, ele volta a falar sobre Nossa Senhora enquanto lugar misterioso. Já não trata dos privilegiados que devem entrar. Então ele diz o seguinte:
* Maria é o paraíso insondável de Deus cujo conhecimento está reservado a seus eleitos
Digo com os santos, Maria Santíssima é o paraíso terrestre do novo Adão, no qual Este se encarnou por obra do Espírito Santo, para aí operar maravilhas incompreensíveis.
Depois dele ter dito que Ela é misteriosa porque Ela é o santuário de Deus, ele começa então a dizer que Ela é misteriosa porque ela é insondável. É um outro título. Então são os três títulos de mistério:
1) Ela quis permanecer oculta.
2) NEla está a glória de Deus de um modo que não permite aproximações.
3) Deus nEla fez coisas tais que Ela se tornou insondável e, portanto, misteriosa também.
O “digo com os santos” é muito pitoresco porque ele faz com os santos o que nós fazemos com as encíclicas. Quando a coisa é mais puxada, ele tem uma pilha de santos para citar . O próprio para desolar qualquer esquadrão de jansenistas e de espíritos das trevas de toda a espécie.
Então, ele diz o seguinte:
Maria Santíssima é o paraíso terrestre…
O que é que tem o paraíso terrestre? Os senhores se lembram que o paraíso terrestre se tornou misterioso, o homem não pode mais entrar lá. Não está mais no alcance do homem nesta vida. Então:
… é o paraíso terrestre do novo Adão, que é Nosso Senhor Jesus Cristo, no qual este se encarnou por obra do Espírito Santo, para aí operar maravilhas incompreensíveis.
Notem as “maravilhas incompreensíveis”.
É o grande, o divino mundo de Deus onde há belezas e tesouros inefáveis. É a magnificência de Deus em que ele escondeu como em seu seio, seu Filho único.
Vejam bem hein! É como no seio da Santíssima Trindade, não é isto? É tão misterioso que tem uma analogia com a própria vida interna e indevassável da Santíssima Trindade; tão digno também que tem uma analogia com a vida da Santíssima Trindade.
E nele, tudo o que há de mais excelente e mais precioso.
Quer dizer, Ele escondeu, como escondeu no seio da Santíssima Trindade, escondeu no seio d’Ela tudo o que há de mais excelente e precioso. Quer dizer, os tais privilegiados podem penetrar dentro dele. Podem penetrar neste lugar oculto e aí podem conhecer o que há de mais excelente e misterioso.
Oh, que grandes coisas e escondidas Deus todo poderoso realizou nesta criatura admirável. Di-lo Ela mesma, como obrigada, apesar de sua humildade profunda: “Fecit mihi magna que potens est” (Lc 1,49).
Agora vem outra tinta que lembra os privilegiados:
O mundo desconhece estas coisas porque é inapto e indigno.
Quer dizer o mundo não não pode saber, não é verdade? É um grupo de privilegiados que sabe disso. Uns não são aptos, outros não são dignos. Muitos não são nem aptos nem dignos, o mundo desconhece essas coisas. Essa é uma sabedoria essa é uma devoção para poucos.
E exatamente o porquê me parece que não é arquitetônico que se faça, por exemplo, um comentário disto e se imprima, porque é para poucos, isso não é para uma divulgação assim para as massas. É um néctar todo especial que se a pessoa não tiver a Fé, uma certa vocação, não entende e pode ficar embirrada, de tal maneira isso é uma coisa diferente e maravilhosa.
Ele continua, é sempre a idéia de que Ela é insondável:
Os santos disseram coisas admiráveis desta cidade santa de Deus e nunca foram tão eloqüentes nem mais felizes, eles o confessam, que ao tomá-lA como tema de suas palavras e de seus escritos.
Aqui está uma insinuação de que o Espírito Santo nunca é tão generoso na efusão de Suas graças como quando se trata desse assunto. Como está dito em ricochete. Bom:
E depois proclamam…
Agora vêm os santos novamente proclamar a insondabilidade…
…que é impossível perceber a altura dos seus méritos, que Ela elevou até o trono da Divindade;
P
ortanto é impossível mesmo chegar até o trono da Divindade! Bem,
…que a largura de sua Caridade mais extensa que a Terra, não se pode medir;
É mais ou menos a mesma idéia de… [inaudível]. Bem,
…que está além de toda compreensão e grandeza do poder que Ela exerce sobre o próprio Deus;
Quer dizer, quando se fala correntemente da onipotência suplicante, essa fórmula não dá todo o conhecimento. Claro que ela contém, mas a gente não percebe. O poder d’Ela sobre Deus é desconcertante, não se pode medir o poder d’Ela sobre Deus porque é um grande mistério “magnum misterium”.
Bem, e que:
…enfim, que a profundeza de sua humildade e de todas as suas virtudes e graças são um abismo impossível de sondar. O altura incompreensível! O largura inefável! O grandeza incomensurável! O abismo insondável!
Quer dizer, tudo quanto dá idéia do misterioso, ele reuniu tudo no fim do parágrafo. As palavras incompreensível, inefável, incomensurável, insondável, essas palavras se agrupam no fim do parágrafo, para nos dar bem a idéia de um mistério de Maria. Ora, vejam, vão mantendo o pensamento dele, e uns poucos entretanto como que podem sondar, como que podem medir, como que, como que, como que. São os poucos privilegiados.
São que privilegiados? Evidentemente os privilegiados da escola espiritual dele, não é? Eu mais uma vez chamo a atenção dos senhores, pode ser uma impressão subjetiva pessoal, mas eu a tenho, é de toda a diplomacia com que isto é dito. Porque são coisas que a um teólogo que nós, na linguagem do MNF, chamaríamos de MVP comum, daria calafrios tremendos, é dito de tal maneira que o bobo não nota, entretanto uma pessoa que faça um exame atento disto, nota. Salta aos olhos desde que alguém tome o trabalho de mencionar, de ligar.
É este o sentido desta introdução tão simplesinha, tão exclamativa, que a gente diria que nela nada há. Entretanto é verdadeiramente magnífica, já essa introdução. É um toque de trombeta à maneira desses anjos aqui.
* Todas as criaturas, de bom ou mau grado, proclamam a Maria Bem-Aventurada
Bem, agora vem uma coisa curiosa ele mostra como de algum modo estas coisas todas ditas transparecem. Ele pula para uma outra ordem de idéias no parágrafo oito que já não é, e sem muita transição, que já não é a afirmação das glórias d’Ela, da humildade d’Ela nem da glória. Os senhores querem ver? Vem aqui:
Todos os dias, de um extremo da Terra ao outro, no mais alto dos Céus, no mais profundo dos abismos, tudo prega, tudo exalta a incomparável Maria.
Vejam os senhores, agora ele mostra como essas coisas tão ocultas transparecem, e já não é uma afirmação da humildade d’Ela, mas da glória, sempre nas tais profundezas.
Os nove coros de anjos, os homens de todas as idades, condições e religiões,…
Religião se chamava, naquele tempo a Ordem religiosa, não é?
…os bons e os maus, os próprios demônios são obrigados, de bom ou mau grado, pela força da verdade, a proclamá-lA Bem-Aventurada. Vibra nos Céus como diz São Boaventura, o clamor incessante dos anjos: “Sancta, Sancta, Sancta Maria, Dei Genitrix et Virgo”
Que linda coisa para a gente lembrar quando o padre diz o Sanctus, não é? A gente, em união com o padre, dizer: Sancta, Sancta, Sancta Maria, Dei Genitrix et Virgo, para por esta forma louvar a Deus que o padre está louvando. Seria muito bonito a gente compor um acompanhamento da Missa, com o pensamento de São Luís Grignion, para se defender contra os eflúvios da outra. É pena não termos tempo para isto, porque seria uma coisa realmente útil para nossa vida espiritual. Bem, continua:
E milhões e milhões de vezes, todos os dias eles lhe dirigem a saudação angélica: “Ave Maria …”
Quer dizer, os santos milhões de vezes dizem Ave Maria a Ela… [inaudível] …no Céu, os Anjos.
Prosternando-se diante d’Ela e pedindo-lhe a graça de honrá-los com suas ordens.
* Os anjos encontram honra em servir os servidores de Maria
É curioso o pedido dos Anjos e dos Santos para “honrá-los com suas ordens”; não é honrar com sorriso, não é honrar com um ato de amor d’Ela, mas honrar com as ordens, e de repente as ordens passam por uma ordem de idéias, que é uma espécie de escaninho colateral, uma coisa que fica dita de passagem. Vocês vão ver o que é que é.
E a todos se avantaja o Príncipe da corte celeste, São Miguel que é o mais zeloso em render-Lhe e procurar toda sorte de homenagens, sempre atento, para ter a honra de, à sua palavra, prestar um serviço a algum dos seus servidores.
É curiosa essa concepção portanto, não é? Nossa Senhora está recebendo a veneração dos Anjos, não é? E a retribuição d’Ela, o ponto de retribuição, é claro que Ela lhes retribui de todos os modos, mas o ponto pelo qual me chama a atenção é isto: os Anjos, e sobretudo São Miguel, o Anjo que lutou contra Lúcifer, o Anjo da Contra Revolução, estão atentos à retribuição de receber ordens d’Ela para vir à Terra servir àqueles quem? Os servidores d’Ela. Mas é evidente que esses servidores são sobretudo o tal creme dos servidores que penetram no privilégio.
E os senhores vêem a doutrina da aliança esboçar-se. Depois isso é certo, isso é claro. Mas os senhores vejam o diáfano e o oculto com que isto é dito e a sublimidade de todo este pensamento, de toda essa linguagem, é uma coisa verdadeiramente magnífica.
Bem, continua ainda sobre as glórias d’Ela:
* Certas glórias de Maria estão reservadas a Seus eleitos proclamar. O louvor a Maria atingirá seu auge no fim do mundo
Toda a Terra está cheia de sua glória, particularmente entre os cristãos, que A tomam como padroeira e protetora em muitos países, províncias, dioceses e cidades. Inúmeras catedrais são consagradas sob a invocação do seu nome. Igreja alguma se encontra sem um altar em sua honra, não há região ou país que não possua alguma de suas imagens milagrosas junto das quais todos os males são curados e se obtêm todos os bens.
Engraçado como ele é diferente dos que tomam posição perante o milagre de Aparecida, etc. Ele vai admitindo que há milagres, ele não admite que cada cura seja um milagre, mas ele vai admitindo como certo que toda espécie de milagres se praticam ali, não é?
Quantas confrarias e congregações erigidas em sua honra, quantos estatutos e ordens religiosas abrigados sob o seu nome e proteção! Quantos irmãos e irmãs de todas as confrarias, e quantos religiosos e religiosas a entoar os seus louvores, a anunciar as suas maravilhas! Não há criancinha que balbuciando a Ave Maria, não a louve; mesmo os pecadores, os mais empedernidos, conservam sempre uma centelha de confiança em Maria. Dos próprios demônios no Inferno não há um que não A respeite, embora temendo.
Depois então da parte oculta, vem a parte gloriosa. Mas quando a gente se pergunta o que é que há de uma parte para outra, a gente percebe que nem tudo da parte oculta a parte gloriosa canta. Senão não seriam poucos os privilegiados que, etc…. Há um jogo assim. Bom:
Depois disto, é preciso dizer em verdade, com os santos:
“De Maria nunquam satis…” Ainda não se louvou, exaltou, honrou, amou e serviu suficientemente a Maria, pois muito mais louvor, respeito, amor e serviço Ela merece.
De Maria nunquam satis, nunca se disse suficientemente a respeito de Maria, não é? Mas dentro do que ele falou a respeito do mistério de Maria, a gente percebe que a grandeza d’Ela é tal que não há o que basta, é por isto que ele diz isto, não é? Mas depois, dá a entender que existe uma devoção que sem esgotar tudo, tem uma certa relação de suficiência com Ela.
E esta devoção, como nós veremos é a devoção dos últimos tempos, é o último louvor de Maria dito pela Igreja na Terra onde a Igreja atinge toda sua grandeza, o Reino de Deus toda a sua plenitude e o fim do mundo chega. Aí haverá um tal ou qual satis. E esse tal ou qual satis é o fim da História do mundo. São, não ilações, e são correlações magníficas que se deduzem com muita segurança daqui do texto.
Depois continua:
* Toda a glória de Maria está em Seu interior, o segredo dos segredos de Deus
É preciso ainda dizer com o Espírito Santo: “Omnis glória eius Filiae Regis ab intus…”
E volta então a idéia, não é? Todos cantam e nunca basta, por quê? Porque Omnis glória…
“Toda a glória da Filha do Rei está no interior…” (SL. 44, 14) como se toda a glória exterior que Lhe dão à porfia o Céu e a Terra, nada fosse em comparação daquela que Ela recebe interior da parte do Criador e que desconhecem as fracas criaturas incapazes de penetrar no segredo de seu Rei.
O segredo dos segredos do Reino. Não é um segredo qualquer, mas é o segredo dos segredos. Nosso Rei tem o segredo dos segredos. Esse segredo dos segredos está em nossa Mãe, e só poucos privilegiados é que chegam e compreendem.
Vejam como portanto, está belamente dito, fortemente dito, mas discretamente dito, sem a pessoa trabalhar não pega a arquitetura toda da coisa.
Devemos portanto exclamar com o Apóstolo: “Nec oculus vidit, nec auris audivit, nec incor hominis ascendit” (I_A Cor, 2, 9).
É mais uma vez a afirmação do segredo. E continua:
Os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, nem o coração do homem compreendeu as belezas, as grandezas, as excelências de Maria, o milagre dos milagres da graça.
Quer dizer, o segredo dos segredos de Deus, é o milagre dos milagres da graça. A graça fez um milagre dos milagres, e esse milagre dos milagres é o segredo dos segredos. É o milagre dos milagres da graça. Coisa muito singular, milagre dos milagres da natureza, e milagre dos milagres da graça. O que é que é o milagre dos milagres da graça? A gente entende. O que é o milagre dos milagres da graça? É uma glória tal que o intelecto humano não pode imaginar e é mistério para o intelecto humano.
Agora, qual é o milagre dos milagres da natureza? É quando sair a história de Esaú e Jacó é que vai se compreender. Antes é prematuro a gente tratar.
Se quisermos compreender a Mãe — diz um santo — compreendei o Filho.
Aqui ele insinua algo do milagre dos milagres. É tal Ela, como mera criatura, se possível, fazer-Lhe, uma mera criatura tal coisa, que até… é isto. Ela é uma versão d’Ele, o que pareceria insondável, não é? Bem…
Ela é uma digna Mãe de Deus…
Agora vem mais uma vez, a recomendação…
“Hic taceat omnis lingua”. “Toda língua aqui emudeça”.
Bem, e passa para frente:
Meu coração ditou tudo o que acabo de escrever, com especial alegria, para documentar que Maria Santíssima tem sido até aqui desconhecida.
* Foi por meio de Maria que Jesus Cristo veio ao mundo e é por meio d’Ela que Ele reinará no mundo
Quer dizer, os senhores estão vendo, que é algo da revelação, do tal milagre dos milagres que vem.
E que é esta uma das razões por que Jesus Cristo não é conhecido como deve ser.
Quer dizer, os senhores estão vendo aqui, é uma espécie de segredo do por quê não vem o Reino de Cristo, que é conexo com o segredo de Maria.
Quando, portanto, e é certo, o conhecimento e o Reino de Jesus Cristo tomarem o mundo,
É certo e [rabacoso?!(sic!)], não?
…será como uma conseqüência necessária do conhecimento do Reino da Santíssima Virgem.
Quer dizer, um conhecimento do Reino de Nossa Senhora, traz como conseqüência necessária o de Nosso Senhor.
Ela O deu ao mundo a primeira vez, e também da segunda vez O fará resplandecer.
Eu termino o comentário aqui. O fim emenda no começo.
Foi por intermédio da Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por meio d’Ela que Ele deve reinar no mundo.
Quer dizer, ele dá uma volta e termina com uma enorme graça, com um enorme a propósito. Ele termina no seu ponto de partida, com muito charme, não é verdade? E tudo envolto assim, no diáfano de enormes luzes, e de um mistério deslumbrante com que logo no começo ele acena.
* Numa época em que até na Igreja esta devoção está proscrita, um grupo permanece fiel a ela
Entretanto, eu creio que muito poucas pessoas lêem isto e conservam uma idéia disto, como verdadeiramente isso deve ser. Quer dizer, de tudo quanto dentro desta arquitetura está.
Os senhores compreenderão, portanto, o seguinte: na época da maior desolação e da maior tristeza, na época em que isto está como que proscrito dentro da Igreja, porque afinal de contas isto foi em boa medida a obra do Concílio Vaticano II, nesta época um grupo permanece fiel a isto, ao menos pela intenção difusa, pela intenção imprecisa, porque como os senhores estão vendo bem, nós temos muito que haver com isto tudo.
Entre esse grupo e estes privilegiados não há nenhuma relação? Entre essa vocação e a vocação de implantar o Reino de Maria não há nenhuma relação? Sobretudo quando nós consideramos que nós somos os apóstolos da Contra-Revolução, os lutadores contra a Revolução, que devem derrubar a Revolução? Então, não é já um privilégio altíssimo nós termos sido chamados a uma tal adesão a isto na nossa super-fidelidade, de maneira que praticamente em toda a Terra, ninguém, enquanto grupo, tem essa adesão que nós temos?
Eu compreendo a resposta: “Dr. Plinio, exatamente aí o senhor se coloca num terreno nebuloso. Porque o que o senhor pode dizer é que muita gente não tem o senso da RCR que o Grupo tem. Mas o senhor dizer que não há muita gente que tem o senso disto, isso o senhor não pode dizer”.
A questão é a seguinte: como nós veremos adiante, isto é misteriosamente muito ligado com o senso da RCR, aquele tal ponto único, de que eu falava uma ocasião aqui, e que caracteriza o Grupo, e que é uma noção, uma visão de algo que é toda a Ordem do Universo, é a chave do Reino de Maria, é com estes princípios e com essas coisas que Nossa Senhora reinará.
Isso é a descrição das harmonias da alma d’Ela, de maneira que as duas coisas não se podem separar. E quem não tem uma noção muito viva da RCR, não tem noção disto.
Uma contraprova está no fato de que a gente vê que São Luís Grignion, tinha uma noção muito viva da Revolução no tempo dele, o que é uma contraprova interessante.
Então os senhores têm aqui também uma primeira insinuação, do que seria uma teoria do grupo. A teoria se baseia neste ponto: é uma graça sem nome e imerecida a fidelidade única ao ponto único.
É uma graça sem nome, essa graça nunca vem sem o chamado para uma grande santidade, a uma grande missão, tão única quanto única é a fidelidade. E é evidente que é, até certo ponto, a penetração do mistério que nós vamos ver e vamos entender au fur et à mesure da exposição.
* Ao reler o Tratado, o Fundador encontra a confirmação de todas suas elucubrações ao longo de quinze anos
Os senhores me dirão: “Por que razão é que o senhor não deu isto quando o senhor, há quinze anos atrás fez o comentário de São Luís Grignion de Montfort?”
Eu estive folheando São Luiz Grignion e, eu sou tendente a fazer com todos os livros que eu leio e que me causam no espírito uma impressão muito profunda, o que eu fiz com o Delassus. Eu li o Delassus, depois eu comentei o Delassus diante de mim mesmo sem ter a noção, tendo a idéia de que ele dizia as coisas que eu comentava. Quando eu fui reler o Delassus, era o Delassus que o Fernando leu depois de mim, e não o Delassus que eu tinha lido. O que trouxe ao Fernando não poucas provações.
Bem, eu reli e estive refolheando São Luís Grignion, não há nada, nada, nada do fenômeno “Delassus”. Eu naquele tempo não via, mas passei, eu entrevia naturalmente, mas não via, mas passei quinze anos, praticamente sem ter relido o Grignion. E ao reler, eu encontro desde logo na introdução um prefácio que corresponde às elucubrações que eu fiz durante esse tempo e enchendo-me de surpresa, porque não pensava que ele justificava tão bem essas elucubrações. Quer dizer, um “Grignion”, ou melhor, o “Delassus” muito menor do que aquilo que sobre ele o Grupo construiu. O “Grignion” incomparavelmente maior do que aquilo que sobre ele o Grupo construiu. Quer dizer, maiores que o “Delassus”, ficamos menores do que o “Grignion”.
A quinze anos eu não saberia dizer. Isto foi se construindo ao longo de quinze anos, de maneira que este comentário é bem quinze anos depois.
Em última análise, porque Jesus Cristo se encarnou era necessário que Ele reinasse afinal, e reinasse de um reino efeitvo e porque a Encarnação veio por Ela, por Ela Ele terá de reinar, esses são os dois princípios que estão subjacentes a essa introdução. Daí o abismo entre o Reino de Maria e a Idade Média e isto está profetizado.
[Nota do copista: “Dr. Luizinho pediu ao Senhor Doutor Plinio que fizesse no momento apropriado a relação entre essa doutrina de São Luiz Maria Grignion de Montfort e a doutrina do “ponto único” com aplicações concretas. O Senhor Doutor Plinio pediu que o lembrasse”]
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1 Estava como “Reunião Normal”. Nos Sábados à tarde eram realizadas reuniões para os membros do Grupo da Rua Martim Francisco, na Sala dos fundos da mesma sede; e, no domingo, para os membros da Pará, na Sede do Reino de Maria, da rua Pará.