Santo do Dia (Rua Pará) – 23/11/1965 – 3ª feira [SD 332] – p. 6 de 6

Santo do Dia (Rua Pará) — 23/11/1965 — 3ª feira [SD 332]

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Comparando com os anjos, a vida contemplativa imita as hierarquias superiores, e a vida ativa imita as inferiores * São Tomás diz que melhor é a vida que ao mesmo tempo é contemplativa e ativa, do que a vida puramente contemplativa * O amor à ninharia é uma das coisas mais invisceradas no gênero humano * Quem saboreia ninharias não pode saborear a Deus, pois não é possível gostar simultaneamente de duas coisas opostas * Disse Nosso Senhor que de todas as orações, a que é mais certamente obtida é aquela na qual pedimos o Espírito Santo, o bom espírito, o espírito oposto à bagatela e à ninharia * O espírito mecânico de adoração das coisas da máquina é exatamente o espírito de ninharia, que se afasta de Deus * “Seja avesso em admitir em sua alma coisas destituídas de substância espiritual, para que não lhe façam perder o gosto da devoção e o recolhimento” * “O mais puro padecer traz e produz o mais puro entender” * “Quem opera com tibieza perto está da queda” * Há pessoas que fizeram milagres e foram para o Inferno, mas não há quem tenha sofrido por Deus a vida inteira e que não se tenha salvo

* Comparando com os anjos, a vida contemplativa imita as hierarquias superiores, e a vida ativa imita as inferiores

Amanhã, dia 24, festa de São João da Cruz, confessor e Doutor da Igreja. Co-reformador da Ordem do Carmo com Santa Teresa de Jesus. Século XVI.

Sobre ele nós temos o seguinte trecho de D. Guéranger: é sobre a necessidade de haver contemplativos. Ele foi um contemplativo insigne:

Mas, dir-se-á, que importa, pois, que essa alma se salvará? É verdade, mas nossa inteligência não saberia apreciar a superioridade de uma alma que pudesse ser émula dos querubins e dos serafins, sobre aquela que não poderia ser similada senão às hierarquias inferiores. Uma falsa modéstia, o amor do medíocre não saberia ter legitimamente curso nessas matérias. Importa mais do que se poderia dizer aos interesses da Santa Igreja e à gloria de Deus, que as almas verdadeiramente contemplativas se multiplicas-sem sobre a terra. Elas são a mola oculta e o motor que dá o impulso na terra a tudo quanto diz respeito à glória de Deus, ao Reino de seu Filho, ao cumprimento perfeito da vontade divina. Em vão multiplicar-se-ão as obras, indústrias e mesmo dedicações. Tudo será estéril se a Igreja militante não tiver santos que a sustentarem no estado de contemplação, na via que o Mestre escolheu para resgatar o mundo.

Algumas potências e alguma fecundidade são inerentes à vida presente. Ela tem de si poucos encantos e, portanto, não é fora de propósito acentuar-lhe aqui o mérito.

O que está no argumento muito bonito que D. Guéranger dá aqui a favor da vida contemplativa é o seguinte: é que para provar que em si a vida contemplativa é mais do que a vida ativa, é que a vida contemplativa imita as hierarquias superiores dos anjos, enquanto a vida ativa imita as categorias inferiores dos anjos. E aquilo que é próprio às naturezas superiores é intrinsecamente superior. De onde se chega à conclusão de que a vida puramente contemplativa é mais do que a vida ativa.

* São Tomás diz que melhor é a vida que ao mesmo tempo é contemplativa e ativa, do que a vida puramente contemplativa

Naturalmente, todas essas afirmações precisam ser tidas com granus salis. Porque São Tomás de Aquino trata da questão e parece resolver em sentido oposto. Ele perguntando o que é que é mais, a vida contemplativa ou a vida ativa, diz ele: que melhor é a vida que é ao mesmo tempo contemplativa e ativa.

Quer dizer, os senhores estão vendo que o ângulo em que ele aqui se colocou foi outro ângulo. Ele diz que ter a ação e ter a contemplação é mais do que ter só a contemplação. Isso é evidente. Mas isso não quer dizer que a pura contemplação não seja mais do que a ação, o que é uma coisa diferente.

Eu dou um exemplo que talvez esclareça isso.

Uma pessoa ser — por exemplo, o quê? — proprietária de uma grande fábrica e de uma fábrica pequena, é mais do que ser proprietário de uma grande fábrica só. É claro. Mas o proprietário de uma grande fábrica é mais do que aquele que é proprietário apenas de uma pequena fábrica.

Quer dizer, precisa a gente considerar o ângulo em que a coisa é vista para aprender a harmonia dessas afirmações e dessas proposições.

* O amor à ninharia é uma das coisas mais invisceradas no gênero humano

Aqui há umas sentenças de São João da Cruz em que estão propostas à nossa consideração esta noite e são as seguintes:

Não vos conhecia eu a Vós, meu Senhor, porque queria ainda saber e saborear ninharias. Secou-se meu espírito porque esqueceu-se de apascentar em Vós.

A primeira sentença é uma verdadeira maravilha.

O amor da ninharia é uma das coisas mais invisceradas no gênero humano. E mesmo quando se trata de coisa séria, é considerada do ponto de vista da ninharia.

Vamos dizer, por exemplo, agora o episódio Kennedy. O próprio do homem não é saber qual é o último sentido e qual é o alcance que pode ter uma revisão do processo do Kennedy. O próprio é ficar numa torcida para saber se uma bala matou, se foram duas, se foram três. Acompanhar, detectivar, quer dizer, o aspecto ninharia de um acontecimento que pode ter grandes repercussões, não é verdade?

E a maior parte das pessoas gostam de conversar sobre ninharias.

Os senhores vão — por exemplo, ao quê? — a um restaurante ou a uma praça pública onde tem gente conversando, vão a um veículo de transporte coletivo onde há gente conversando, os senhores examinando, todo o mundo ou fica quieto, pensando em ninharia, ou conversa sobre a ninharia que pensava quando estava quieto. Mas o gosto, o apego, é pensar a respeito de ninharias.

* Quem saboreia ninharias não pode saborear a Deus, pois não é possível gostar simultaneamente de duas coisas opostas

Ora, diz São João da Cruz com muita propriedade:

Não vos conhecia eu a Vós, meu Senhor, porque ainda queria saber e saborear ninharias.

Quer dizer, quem gosta de ninharias, quem saboreia ninharias, não pode saborear a Deus. Por que razão? É porque não é possível gostar de duas coisas opostas ao mesmo tempo, ninguém pode gosta de duas coisas contrárias ao mesmo tempo.

Ora, Deus é infinito, altíssimo, insondável, transcendente. A ninharia é o contrário. É a droguinha, a coisinha, a bagatelinha. É evidente que uma pessoa que gosta de ninharia não tem o espírito voltado para gostar de Deus.

O resultado não é uma atitude de ninharia diante disso: “Ah, então não tem remédio, porque eu gosto tanto de ninharia, que eu nunca me descolarei dela”. O resultado é dizer: “Meu Deus, livrai-me da ninharia, dai-me o vosso espírito, o vosso Espírito Santo que me fará sentir a apetência das coisas grande e me dará o horror da ninharia.”

* Disse Nosso Senhor que de todas as orações, a que é mais certamente obtida é aquela na qual pedimos o Espírito Santo, o bom espírito, o espírito oposto à bagatela e à ninharia

No Evangelho Nosso Senhor diz que de todas as orações, aquela que é mais certamente obtida, é aquela em que nós pedimos o Espírito Santo, em que pedimos o bom espírito, em que pedimos o espírito oposto à bagatela e à ninharia. E isso então é o que se trata de pedir.

É, portanto, uma esplêndida sentença de São João da Cruz.

Secou-se meu espírito, porque esqueceu de apascentar em Vós.

É a mesma coisa.

O que é o espírito que se apascenta em Deus? É aquele que gosta de pensar nas coisas da Igreja Católica, nas coisas da religião católica, na doutrina do Grupo, na vida do Grupo, que são expressões da Igreja Católica, da doutrina católica. Este se apascenta em Deus, quer dizer, é como uma ovelha que se nutre da erva divina, que se nutre das coisas divinas. Aquele que não pensa nessas coisas e só pensa em ninharia, evidentemente o espírito dele se seca.

* O espírito mecânico de adoração das coisas da máquina é exatamente o espírito de ninharia, que se afasta de Deus

Aí os senhores têm o espírito mecânico. O espírito mecânico de adoração das coisas da máquina, é exatamente o espírito da ninharia, que se afasta de Deus.

Hoje à noite nós vínhamos saindo da Rua Martim Francisco para ir ao Coração de Jesus, e um dinossauro com um banco altíssimo para um sujeito guiar, todo pintado de amarelo — dinossauro de metal, evidentemente — descarregou em frente ao Coração de Maria uma máquina escavadeira. Então ele parou, desceu duas tábuas e a máquina começou a descer. Eu presenciei esse fato curioso: os primeiros automóveis que estavam na fila pararam para ver descer o trator ou, enfim, a escavadeira de dentro do caminhão, e para ver se não havia o perigo daquela coisa não virar de costas.

Não tem perigo, já foi mil vezes estudado, a máquina é tão estúpida que não tem nada de imprevisto. De maneira que não há razão nenhuma para essa torcida, que é uma torcida de ignorantão. Ninguém buzinou, ninguém manifestou pressa, houve um suspense: ahhh!

Quando a escavadeira desceu houve uma espécie de alívio, de satisfação geral, um pouco de admiração, não é? Que bicho singular essa escavadeira! Interessante isso! É curioso, é curioso.

Eu nutri mau espírito, não é? E acabou-se.

* “Seja avesso em admitir em sua alma coisas destituídas de substância espiritual, para que não lhe façam perder o gosto da devoção e o recolhimento”

Se queres chegar ao santo recolhimento, não há de ir admitindo, mas negando.

Isso é magnífico.

Quer dizer, os espíritos polêmicos que negam, esses são os que chegam ao recolhimento. Os que se isolam das coisas, que rompem com elas, chegam ao recolhimento. Os espíritos: “Ah! tudo muito bom”, etc., e presta atenção em tudo, gosta de tudo e se abre para tudo, esses são incapazes do recolhimento.

Seja avesso em admitir em sua alma coisas destituídas de substância espiritual, para que não lhe façam perder o gosto da devoção e o recolhimento.

É o mesmo princípio.

A alma que está unida com Deus … [inaudível]… ao demônio como o próprio Deus.

Que linda afirmação!

Realmente, a gente vê que o demônio teme o ultramontano e que o ódio que ele tem contra o ultramontano é um ódio feito de temor. Ele estremece diante do ultramontano, por quê? Porque o verdadeiro ultramontano está unido a Deus.

* “O mais puro padecer traz e produz o mais puro entender”

O mais puro padecer traz e produz o mais puro entender.

Outra proposição magnífica! Quer dizer, só entendem as coisas até o fundo aqueles que sabem sofrer até o fim. Estes compreendem. Os que não sabem sofrer até o fim, não compreendem nada.

Quem se fia de si mesmo é pior que o demônio.

Duro, hein?

E fiar-se de si mesmo quer dizer o seguinte: “Não, isso eu não preciso pedir a Nossa Senhora porque isso eu consigo. Por exemplo, a virtude da castidade. Ah, eu consigo por mim mesmo. É questão daquela linha bem conhecida, a força de vontade, não é? Diante da ocasião sabe que eu sou um colosso? Diante da ocasião, eu não preciso pedir. Vocês são um beatério aí, fica pedindo. Mas eu, com a minha força de vontade e minha inteligência, eu não preciso pedir. Na hora eu enfrento!”.

Quer dizer, se estatela no chão, cai o cavalo e o cavaleiro. E segundo uma expressão arcaica que eu conheci, caía de costa e quebrava o nariz. Quer dizer, a queda era tão grande, que atingia até o nariz. Mas é por quê? Porque se confiava exatamente em si.

* “Quem opera com tibieza perto está da queda”

Quem opera com tibieza, perto está da queda.

É outra coisa evidente.

Algum tempo atrás uma pessoa me dizia, mas no fundo fazia o elogio de si mesmo: “Não, Fulano é tíbio, mas é muito correto”. Eu dizia: “É muito correto, ele está exatamente se dismilinguindo”. É a mesma coisa que pegar um agonizante, olha para ele e diz: “Ele está vivinho e inteiro”. Está vivinho e inteiro, não morreu, mas a vida o está abandonando, o está deixando de lado, não é? Como é que é essa história?

É melhor vencer-se na língua, do que jejuar a pão e água.

É bem verdade.

Mas qual é a maior vitória que a pessoa tem que ter na língua? Primeira é não dizer coisas impuras; mas a segunda coisa é não dizer coisas que representem uma fraqueza diante do século. Agrados, gentilezas, atitudes que dêem a impressão de que somos filhos desse século, isso é que se trata de não dizer. E é essa vitória sobre a língua que se trata de obter.

* Há pessoas que fizeram milagres e foram para o Inferno, mas não há quem tenha sofrido por Deus a vida inteira e que não se tenha salvo

É melhor sofrer por Deus do que fazer milagres.

Como é verdadeiro isso!

Nós encontramos pessoas que fizeram milagres e foram para o Inferno. Nós não encontramos gente que a vida inteira sofreu por Deus e que foi para o Inferno. Não é possível. E o maior milagre, milagre mais evidente, é o milagre moral do homem que sofre de todas as maneiras, mas sofre por Deus e não volta atrás nos seu sofrimento. Esse é que é o milagre.

De maneira tal que nós temos que considerar como verdadeira sentença: é realmente melhor sofrer por Deus do que fazer milagres.

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