Santo do Dia ─ 21/11/65 ─ Domingo . 6 de 6

Santo do Dia ─ 21/11/65 ─ Domingo

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Trecho de São Francisco de Sales sobre a viagem e a visita de Nossa Senhora ao Templo na idade de três anos * Nossa Senhora não conheceu as limitações que as outras crianças experimentaram: Já nasceu com o uso de sua inteligência * Na Sagrada Família, pode-se contemplar as reversibilidades da grandeza com a simplicidade nos gestos da vida quotidiana * Os Anjos se debruçavam no parapeito do Céu para ouvir o cântico de Nossa Senhora em sua peregrinação ao Templo * A história do Templo atingiria seu ápice no momento em que Nossa Senhora entrasse nele. A primeira e a segunda visita de Nossa Senhora

Hoje é festa da Apresentação de Nossa Senhora. No livro de Régamey Les Plus Beaux Textes Sur la Vierge, nós encontramos as seguintes reflexões de São Francisco de Sales:

* Trecho de São Francisco de Sales sobre a viagem e a visita de Nossa Senhora ao Templo na idade de três anos

É um ato de admirável simplicidade o desta gloriosa criança que presa ao regaço de sua mãe … [inaudível] … idade, não o fazia como as outras crianças de sua idade; embora falasse já com sabedoria.

Ela fica como um suave cordeiro junto à Santa Ana pelo espaço de três anos, após os quais foi conduzida ao Templo, para aí ser ofertada como Samuel que também foi conduzido ao Templo por sua mãe e dedicado ao Senhor na mesma idade.

O meu Deus, como desejaria poder representar vivamente a consolação e suavidade dessa viagem, desde a casa de Joaquim até o Templo de Jerusalém! Que contentamento demonstrava essa criança vendo chegar a hora que ela tanto desejara!

Os que iam ao Templo para adorar e oferecer presente à Divina Majestade, contavam ao longo da viagem. E para isso o real profeta Davi compusera expressamente um salmo, que a Santa Igreja nos faz repetir todos os dias no Ofício Divino. Ele começa pelas palavras: “Beati Imaculati in via”. “Bem-aventurados são aqueles, Senhor, que caminham na tua via sem mácula, sem mancha de pecado.

Então, a via quer dizer na observância dos teus mandamentos.

Os bem-aventurados São Joaquim e Santa Ana cantavam então esse cântico ao logo do caminho e nossa Gloriosa Senhora e Rainha, com eles.

O Deus, que melodia! Como ela entoava mil vezes mais graciosamente que os Anjos! Por isso ficaram eles de tal forma admirados que, aos grupos, vinham escutar essa celeste harmonia e, os Céus abertos, inclinavam-se nos alpendres da Jerusalém celeste para olhar e admirar essa amabilíssima criança.

Eu quis vos dizer isso, embora rapidamente, para que tenhais com que vos entreter o resto desse dia considerando a suavidade dessa Virgem. Também para que fiqueis comovidos escutando esse cântico divino que nossa gloriosa Princesa entoa tão melodicamente. E isso com os ouvidos de nossa devoção, porque o muito feliz São Bernardo diz que a devoção é o ouvido da alma.

* Nossa Senhora não conheceu as limitações que as outras crianças experimentaram: Já nasceu com o uso de sua inteligência

Esse trecho tem toda a doçura e tem todo o suco das coisas de São Francisco de Sales. E me dá vontade de fazer aqui a leitura desse salmo, se ele não for um salmo muito logo.

Mas alguém tem aqui esse salmo, não?

Podemos vê-lo amanhã. Quem sabe alguém traz aqui o livro dos salmos e nós lemos amanhã, porque nos é gratíssimo saber que esse foi um salmo cantado por Nossa Senhora.

O fundamento teológico de tudo quanto está dito aqui é a Imaculado Conceição de Nossa Senhora.

Como Nossa Senhora, desde o primeiro instante de seu ser, foi concebida sem pecado original, ela não tinha as limitações inerentes ao pecado original. E entre essas limitações está o fato da pessoa nascer sem uso da sua inteligência. A pessoa nasce inteligente, mas sem o uso da sua inteligência. Esse uso só vem mais tarde como desenvolvimento do corpo. Com Nossa Senhora, não. Ele teve, desde o seu primeiro instante, o uso da sua inteligência. E naturalmente altíssima. De maneira que nEla se reuniam, num contraste admirável, o que em Nosso Senhor toma uma sublimidade que chega a ser sublimemente desconcertante.

Reuniam-se na infância d’Ela, como na infância de Nosso Senhor, aspectos aparentemente contraditórios. De um lado Ela tinha uma contemplação que, a meu ver, ainda era maior que a dos maiores Santos da Igreja, quando ela estava ainda nos primeiros passo de sua vida. Mas, de outro lado, ela mantinha toda a atitude de uma criança. E não fazia uso externo disso, querendo, por humildade, viver como uma criança qualquer vive.

De maneira tal que, quem tratasse com Ela, a não ser por alguma expressão de olhar, por alguma coisa assim, teria a sensação de estar tratando com uma verdadeira criança comum, igual a todas. É como Nosso Senhor Jesus Cristo, que queria ser nutrido, que queria ser guardado, que queria ser pajeado como uma criança, embora Ele fosse Deus, soberano Senhor e Rei do Céu e da Terra. E que em todas suas manifestações externas era como uma criança.

* Na Sagrada Família, pode-se contemplar as reversibilidades da grandeza com a simplicidade nos gestos da vida quotidiana

Os senhores podem imaginar na vida quotidiana de São José e de Nossa Senhora, podem imaginar na vida quotidiana deles a hora, a chegada da hora em que era preciso dar leite para Deus? A chegada da hora em que era preciso trocar de roupas a Deus? E a pessoa pegar Deus e colocar a Deus sobre uma mesa e vestir Deus com uma roupinha? E ver Deus, que eles sabiam que era Deus, e que estava ─ A Segunda pessoa da Santíssima Trindade ─ hipostaticamente unida à natureza humana, estava nos esplendores das alegrias da majestade e da grandeza da divindade e, ao mesmo tempo, estava naquela criancinha que ria, não só fazendo que não entendia, mas com uma certa autenticidade nesse não entender, embora entendesse? Que dizer, o que isso representava de aturdir?

Pois bem, algo disso se dava também com São Joaquim e Santa Ana. Eu não sei se eles sabiam que Nossa Senhora ia ser a Mãe do Verbo Encarnado. É possível que soubessem, é possível que não soubessem. Mas certamente sabiam que era uma menina designada a altíssimas coisas com ordem ao Messias. Então essa menina ali presente, levando toda a vida de uma criancinha, mas tendo em si a contemplação magnífica de um grande Doutor da Igreja.

Então, nós compreendermos como ajustam esses aspectos, da benignidade extrema de Deus Nosso Senhor, da extrema afabilidade, de extrema acessibilidade, de extrema bondade de Nossa Senhora com uma grandeza que os maiores homens da terra não são senão uma minúscula figura de grandeza.

Agora, por que isso? Porque exatamente Nossa Senhora quis que as coisas fossem assim e que, rainha incomparável, era ela, ao mesmo tempo, menina simplicíssima. E menina tão simples que a sua vida externa era de qualquer criança. O que, aliás, Santa Teresinha num trecho a respeito do modo de fazer sermões sobre Nossa Senhora, comenta muito bem dizendo que ela gostaria de fazer um sermão à maneira dela. E que era mostrar em Nossa Senhora, todo esse lado de bondade, de simplicidade, de acessibilidade, a ponto de ser uma criancinha que se punha no colo, que os parentes que chegavam lá punham no colo. E que possivelmente, logo que foi capaz de servir um pouco as pessoas, servia. Trazia água, fazia uma pequena atenção etc., e era a Rainha do Céu e da Terra. Não é isso?

Esses contrastes harmônicos têm uma tal beleza em si mesmos, que eu até digo que a gente desdoura o assunto, tratando dele por demais longamente. Porque eles têm qualquer coisas de insondável, que é melhor a gente se manter em silêncio do que propriamente a gente falar.

* Os Anjos se debruçavam no parapeito do Céu para ouvir o cântico de Nossa Senhora em sua peregrinação ao Templo

Ora, foi Nossa Senhora, nessas condições, e segundo uma tradição muito generalizada, aos 3 anos de idade já, levada ao Templo. E no caminho do Templo, como os judeus costumavam ir cantando no caminho do Templo. Lindíssimo!

Os senhores sabem que Jerusalém, ou melhor, o Templo, os senhores sabem que em Jerusalém na Judéia era um só. Eles tinham sinagogas para se rezar, para se fazer umas certas orações, mas o templo com sacrifícios, era só o de Jerusalém.

E os judeus de toda a nação, de todo o território judaico, mas também os da Diáspora dispersos pelo mundo inteiro, vinham periodicamente à Jerusalém para participar do sacrifício do templo. E como era a alegria de ir aonde se manifestava a glória de Deus e as consolações de Deus, e que era o vínculo entre o Céu e a Terra, então era bonito que eles fossem cantando. Como tantas vezes acontece em romarias antigas ─ as de hoje eu não sei com é que são e nem sei se hoje há romaria ─ Mas as pessoas iam contando.

É preciso dizer também que os métodos de locomoção modernos conspiram contra o canto. A gente não pode imaginar uma pessoa num subúrbio da Central, partindo para Aparecida, e o trem a todo galope, e as pessoas cantando dentro. Quer dizer, é bom, é melhor do que não cantar. Mas como é mais bonito ir a pé, pousando de quando em quando, parando, cantando, tocando para frente! Como isso tem outra plenitude humana, tem outra harmonia natural do que o canto assim.

Pior ainda é canto enlatado dentro do ônibus. Esse eu não sei, eu sou pouco viajante de ônibus, mas eu tenho a impressão que é impossível. Cantar dentro de ônibus eu tenho impressão que há uma tal conjugação da lataria contra a harmonia, que a coisa se torna impossível, presumo eu.

Os senhores podem imaginar que beleza, quando chegava o mês da visita do Templo de Jerusalém os judeus de todos o lados irem cantando para o Templo e a nação judaica se encher, nos seus caminhos, de cânticos de todos os lados.

Então, São Francisco de Sales imagina aqui isso que é certo, é normalmente certo, que quando Nossa Senhora foi, foi cantando com São Joaquim e Santa Ana.

Então, o cântico da menina, cantando com uma voz inefável, cantando o cântico que Davi, por inspiração de Espírito Santo, compôs para essa circunstância.

Agora, com uma finura de tato extraordinária, São Francisco de Sales não fala da impressão que esse canto produziria aos homens. Porque precisamente como Nossa Senhora não manifestava a sua grandeza, era possível que ela não cantasse com toda a perfeição com que ela sabia cantar. Porque o cântico de Nossa Senhora teria que ser “o cântico”. Antes dela e depois dela, ninguém cantou melhor ou ─ melhor, porque tão bem não foi. ─ que Nosso Senhor Jesus Cristo. E depois disso, nenhum cântico foi cântico. Porque isso é cântico. Nosso Senhor Jesus Cristo também cantou.

Então, a gente faz imaginar outra coisa: é Nossa Senhora cantando e os Anjos ouvindo o cântico de Nossa Senhora. Por quê? Porque eles ouviam as harmonias de alma com que ela cantava. E essas harmonias de alma os extasiavam. E ele então, como se compara o Céu a uma cidade, a Jerusalém celeste, ele dizia que dos alpendres, ou dos terraços da Jerusalém Celeste, os Anjos debruçavam para ver Nossa Senhora cantando pelos caminhos da judéia. E era para eles, então, um gáudio inexprimível, embora os homens ignorassem aquele canto.

Eu confesso que eu não conheço pensamento mais apropriado para essa circunstância, nem mais bonito do que isso. Eu acho que um pensamento mais belo do que esse só poderia haver no momento em que a gente imaginasse Nossa Senhora entrando no Templo.

* A história do Templo atingiria seu ápice no momento em que Nossa Senhora entrasse nele. A primeira e a segunda visita de Nossa Senhora

O Templo de Jerusalém na sua majestade, na sua majestade sacral, na sua grandeza, ainda habitado pela glória do Padre Eterno, onde realizavam sacrifícios, o lugar mais sagrado da terra. E o estremecimento de alegria de todos os Anjos que pairavam no Templo no momento que Nossa Senhora entrava no Templo pela primeira vez, como uma rainha naquilo que lhe é próprio; como a jóia entra no escrínio onde deve ser guardada.

E o momento em que eles sabiam, então, que a grande história e ao mesmo tempo, a grande tragédia do Templo ia se realizar. Qual era essa história? O Messias ia entrar no Templo. Qual era essa tragédia? O templo ia recusar o Messias. Qual era o fim dessa tragédia? Aquilo que Bossuet ─ eu creio que falei disso outro dia aqui ─ chama magnificamente, “as pompas fúnebres de Nosso Senhor Jesus Cristo” quando ele diz que Nosso Senhor Jesus Cristo morreu e que logo que ele expirou o Padre Eterno começou a preparar as pompas fúnebres dele.

Então, os funerais dele, o céu se obscureceu, o sol se toldou, o Templo e a terra tremeu, e, diz Bossuet, que o anjos sacudiram o Templo com indignação. A meu ver, não é verdade, eles receberam ordem de entregar o templo aos demônios, e os demônios fizeram ali uma espécie de Sabat, festa de judeus apóstata, à maneira de cem mil gatos selvagens soltos dentro do Templo, qualquer coisa desse gênero, como abominações de toda ordem e que fizeram estremecer o Templo. Aí é o fim da história do Templo.

Mas, apesar de tudo, o Templo conheceu sua plenitude. conheceu sua plenitude na segunda vinda, célebre, de Nossa Senhora ao Templo. É quando ela veio trazer o Menino Jesus e Ana e Simeão, que representavam a fidelidade, receberam a Nossa Senhora e ao menino Jesus. Aí os fiéis reconheceram o enviado e se fechou ao elo entre os justos da Antiga Lei e a promessa que se cumpria.

Pois bem, Nossa Senhora entrando no Templo no momento de sua apresentação para apresentar-se, Nossa Senhora, evidentemente, realizava o primeiro passo nessa plenitude da história do Templo de Jerusalém.

O que os Simeãos e as Anas que houvesse por lá devem ter sentido nessa hora, o que as graças, as fulgurações do Espírito Santo que deve ter havido no Templo nessa ocasião, ninguém poderá dizê-lo, a não ser no fim do mundo. Mas façamos, sigamos o conselho do suavíssimo São Francisco de Sales: fiquemos com toda esses recordações na nossa alma e vamos pensar nelas suavemente e alegremente, tanto quanto possível.

Nesses horrores dessa São Paulo de hoje ainda existe um lugar onde se podem reunir cerca, não sei bem, eu calculo mal, mas, digamos, de cem pessoas que fazem sua alegria e sua distensão ao cabo de um dia de luta, em pensar nessas coisas: Nossa Senhora cantando pelos caminhos; Nossa Senhora entrando no Templo de Jerusalém e dos alpendres da Jerusalém Celeste, os mais altos Anjos embevecidos com a alma dessa menina.

É uma meditação muito adequada para o dia da Apresentação de Nossa Senhora.

Eu pediria então, se alguém pudesse me trazer esse salmo. Talvez fosse interessante para amanhã. A própria sessão do Santo do Dia poderia fazer esse favor. Teria, então, preferência sobre o santo do Dia de Amanhã.

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