Santo
do Dia – 20/11/1965 – p.
Santo do Dia — 20/11/1965 — sábado
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Maternidade Divina de Nossa Senhora
Hoje é festa da Maternidade da Bem Aventurada Virgem Maria, novena de Nossa Senhora Aparecida. Amanhã é a festa de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira principal do Brasil e aniversário de nascimento do nosso querido José Gustavo. Vamos dizer alguma coisa a respeito da Maternidade da Bem-Aventurada Virgem Maria.
A importância da maternidade divina de Nossa Senhora para a piedade católica, e mais especialmente para nós por causa da devoção especialíssima que devemos ter a Maria Santíssima, é que todas as graças extraordinárias por Nossa Senhora recebidas, que fizeram dEla uma criatura única em todo o universo e na economia da salvação, tem como título e ponto de partida para sua razão de ser, o fato de Maria ser Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas, envolvido nesse fato, a idéia ou a afirmação da Igreja, de que Ela é Mãe de Deus.
Podemos ver como na Obra de Deus estabeleceu-se uma espécie de hierarquia, e como todas as coisas de Deus são matizadas, contrafortizadas e nuencées. [Mafiada?]. O espírito revolucionário é a favor das simplificações. O espírito contra-revolucionário pelo contrário, ama o matiz, e quando vê alguma coisa, algo antitético, difícil de compreender, ama aquilo porque compreende que naquela aparente antítese há, no fundo, uma verdade muito bonita, uma verdade insuspeita, que se vai acabar por compreender.
Desde pequeno eu me habituei a ver na Igreja coisas assim: tive surpresas quando [há?] certas coisas esquisitas na Igreja que me deixaram confuso. Mas, depois aprofundava a observação e percebia que quanto mais esquisito era o que via, tanto mais bonita era a explicação que ali havia. Habituei-me então à idéia de que toda objeção que se pode fazer a Igreja, é como os pequenos furos que na praia [existem?]. O furo insignificante, do qual sai um borbulho. Cava-se mais e aparece caramujo. Assim também na Igreja: sabendo-se esperar tudo que é esquisito, que não se entende bem, ou que parece antitético e contraditório, explica-se quando, Nossa Senhora nos faz entender aquilo, [pegamos?] perola, verdadeira maravilha. Isto é próprio da Igreja. Numa coisa eriçada de contradições, encontra-se sempre algo de harmonia profunda, que esconde uma verdade.
Que afirmação pode parecer, para um espírito cartesiano, mais absurda, do que Mãe de Deus? Uma pessoa que nunca teve ensino de doutrina católica, abismar-se-ia sabendo que a Igreja Católica ensina ser Deus eterno, puro espírito e, ao mesmo tempo, que Deus tem Mãe. E logo Mãe! Surge essa Mãe! Surge essa Mãe, quando nem se sabe quem é o pai de Deus. Mãe material, carnal, de um ente espiritual; Mãe temporal de um ente eterno. Vê-se aí uma série de contradições. Tratando-se da Igreja em tudo quanto julga-se absurdo, não há absurdo. Existe uma harmonia profunda e superior presa a um princípio extraordinário. A questão é esperar para compreender.
Deus infinito, eterno, perfeito, cria os anjos. Abaixo dos anjos, cria os homens. Mas a Encarnação, a união hipostática, é estabelecida não com anjos, mas na natureza humana. Parece uma contradição pois a dignidade superior dos anjos pediria que a união hipostática fosse feita com anjos e com o mais alto dos coros angélicos. Deus estabelece a união hipostática com uma natureza humana, assume a natureza humana.
Estabelece a união hipostática e, estabelecendo-a num grau menos elevado que a dos anjos, faz maravilha maior que se fizesse essa união com os anjos. Se fizesse a união hipostática com os anjos. Se fizesse a união hipostática com o anjo, bem dignificaria apenas a criatura espiritual. Mas, fazendo união hipostática com a natureza humana, Ele dignifica os anjos porque o homem, enquanto tem alma, participante da dignidade espiritual dos anjos, e dignifica ainda todo o reino da matéria, pois o homem é também feito de matéria. Assim todo o cosmos se dignifica, muito mais, porque o homem, enquanto tem alma, é participante da dignidade espiritual dos anjos, e dignifica ainda todo o reino da matéria, pois o homem é também feito de matéria. Assim, todo o cosmos se dignifica, muito mais, com a aparente incongruência da união hipostática feita com a natureza humana, do que se fosse ela feita com uma natureza Angélica.
Criatura de Deus, assim dissemos, estabelece-se algo que tem um certo aspecto de hierarquia: acima de tudo Deus, infinito, incomparável a qualquer criatura; depois, a Humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, no qual a condição criada é aceita em união hipostática com a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, e disposto a seguir uma pura criatura, Nossa Senhora. Após Nosso Senhor Jesus Cristo há naturalmente um abismo. Porém de algo desse abismo, no alto do que vem depois, sem colocar uma criatura humana que é o plus ultra de tudo quanto pode ser a mera criação, Maria Santíssima, Sua Mãe.
Estabelece-se uma certa hierarquia, admirável, mas toda semeada de contrafortes. Embora não haja propriamente intermediários entre Deus e o homem, num certo sentido que pode significar um ato de aliança, essa pura criatura, Maria Santíssima é algo de intermediário entre Deus e o homem, é o espelho mais perfeito que de Deus possa ser uma mera criatura. Nossa Senhora, Mãe de Deus é a Rainha dos Anjos, Rainha dos homens, Rainha do céu e da terra, revestida de todas as outras qualidades, de todas as outras graças, de todos os outros títulos que Ela tem, inclusive da mediação universal, e pelo fato de ser Ela Mãe de Deus. A Maternidade de Nossa Senhora de algum modo, [é] a própria raiz, a própria essência da devoção marial.
Isto é tão verdadeiro e tão ortodoxo — salvo censura do Frei Jerônimo — que, há uns vinte anos, eu quis fundar a Congregação de Santa Teresinha, e convidei uns filhos de Abraão Ribeiro, os filhos do Tito [?] Ribeiro de Almeida e outra flores que vicejavam no bairro de Santa Teresinha, para essa congregação. Confabulam, sem que eu saiba, já infectados pelo vírus litúrgico… etc. O Ribeiro de Almeida diz: “A congregação chamará Nossa Senhora, Mãe de Deus”. Eu achei irrepreensível. E perguntei: “Mas por que você escolheu esse título que é pouco usual?”. Resposta: “Porque [afirmar no entanto?], afinal, em Nossa Senhora, apenas importa ser Ela Mãe de Deus, e que derrama graça, virtude e qualidade”. Não é nada, é desequilíbrio. O mesmo é dizer que na árvore só deve considerar o tronco, a galharia, as flores, os frutos, nada mais importa. Uma vez que se deve aceitar a doutrina, procura-se despojá-la de toda essa complexidade, de toda essa variedade de títulos de invocação, para ficar só o tronco. É a influência do espírito simplificador, liturgicista, protestante, revolucionário em fim que sob o pretexto de ir às raízes, rejeita a galharia. O espírito católico é o oposto: venerar imensamente esse título de Nossa Senhora, respeitando-o como merece ele ser respeitado, mas sequioso de tirar desse título todas as suas conseqüências. Ele volta-se para as mil invocações já existentes e as novas que se criarão até o fim do mundo, para cultuar Nossa Senhora debaixo de mil aspectos, sempre decorrentes da Maternidade Divina.
Ainda sobre essa invocação podemos considerar um ponto muito importante. Nossa Senhora como Mãe de Deus é, a título especial, Mãe dos homens e, portanto, nossa Mãe. A mais preciosa graça que podemos receber em matéria de devoção a Nossa Senhora, é quando Ela condescende em estabelecer, por laços inefáveis, com cada um de nós, uma relação verdadeiramente materna. Isso pode-se dar de mil maneiras diferentes. Mas geralmente, Maria Santíssima revela-se verdadeiramente nossa Mãe, quando nos tira de algum apuro de um modo especial que nos fica gravado indelevelmente, ou quando Ela nos perdoa alguma falta, particularmente imperdoável, por uma dessas bondades que só é dado às mães tê-la. Jesus Cristo curava a lepra, de maneira a não ficar nada. Realmente, nada naquela falta merecia ser perdoado, nada ali tinha atenuante, tudo pedia somente a cólera de Deus, porém ela como Mãe, com seu poder soberano, indulgente como só as mães podem ser, com um sorriso, apaga tudo, elimina o passado que fica queimado e completamente esquecido.
Nossa Senhora concede às vezes essas graças de um modo tal que na vida inteira fica na alma marcada com fogo, é fogo do Céu, não fogo da terra e, menos ainda do inferno, a convicção de que podemos recorrer a Ela mil vezes, em circunstâncias mil vezes mais indefensáveis, e sempre Ela nos perdoará de novo, porque abriu para nós uma porta de misericórdia que ninguém fechará.
É propriamente do que a nossa família de almas vive. Um crédito de misericórdia aberto por Nossa Senhora, mas de misericórdia como poucas vezes terá havido. Não merecendo, causa alguma…, Ela tem ainda para nós mais um sorriso, mais uma perdão. “Porque eles eram fracos, eu lhes abri uma porta que ninguém poderá fechar”, diz o Apocalipse. Muito legitimamente podemos ver aplicadas essas palavras ao Imaculado Coração de Maria e no Coração Materno de Maria para conosco.
De maneira que, propriamente, quando se fala no grupo e quando se fala na graça especial do grupo, não se deveria falar na graça especial enquanto merecida por nós. Isto é conversa fiada com C e F maiúsculos. Mas enquanto dado por Nossa Senhora, enquanto dado e imerecido, eu não conheço verdade mais palpável, mais digna do nosso amor e de nossa gratidão. Para dar uma imagem criada muito reles, mas que me vem agora ao espírito, nós estamos para Nossa Senhora, como o Brasil está para com os Estado Unidos: pagamos empréstimo, contraímos novo empréstimo em que andam incorporados os juros do empréstimo anterior; estamos completamente entalados. Só que Ela nos trata como os Estados Unidos estão muito longe de nos tratar. Se Nossa Senhora nos der a graça, no fim desse nosso dia, estejamos nós contentes ou não conosco ao cabo dessa semana, ou ao cabo desse dia, se Ela nos der a graça de ter no íntimo da alma um sentimento de confiança, não porque tenhamos razão de estar contentes conosco, mas porque sabemos como Ela é boa — se Ela nos der essa graça, tenho a impressão de que o dia e a semana foram inteiramente pagos.
Existe um antigo adágio que diz: “Mas vale cair em graça do que ser engraçado”. Quando um rei, ou um potentado, acha graça em alguém, é melhor do que, de fato alguém ter graça. Se o potentado achou graça, todas as coisas passam como se fossem engraçadas. Porém, adianta ter graça, quando o potentado não acha graça? Como acontece conosco em relação a Nossa Rainha, Maria Santíssima. Não temos graça, mas caímos em graça. Deve ser para nós motivo de alegria e satisfação.
Amanhã temos a festa de Nossa Senhora Aparecida. É muito bom nós nos recomendarmos à sua intercessão. Se me lembrarem amanhã, vou falar alguma coisa a respeito das maravilhas do lado ultrabrasileiro de Nossa Senhora Aparecida.