Santo do Dia (Rua Pará) – 17/11/1965 – 4ª feira [SD 174 e 340] – p. 5 de 5

Santo do Dia (Rua Pará) — 17/11/1965 — 4ª feira [SD 174 e 340]

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São Gregório: santo, profeta, taumaturgo * Há milagres que podem ser acusados de “sugestionismo”, mas não o da mudança de lugar de uma montanha, tal como outros feitos através de São Gregório * Para se conseguir milagres, pode-se pedir mesmo as coisas que não são muito importantes — Pedir muito, com insistência * Se Deus atendeu os pedidos de bagatelas feitos por são Gregório, é certo que atenderá os pedidos de coisas muito mais importantes * São Gregório expulsava os demônios de dois tipos de local: dos ídolos e das pessoas — Devemos fazer jaculatórias ao passar frente a templos não católicos * Ao fim da vida, havia dezessete hereges em sua diocese, ao contrário do início de seu episcopado, quando havia dezessete cristãos

* São Gregório: santo, profeta, taumaturgo

Hoje é dia 17, festa dos bem-aventurados Roque González e companheiros, mártires do Rio Grande do Sul, jesuítas.

É também festa de São Gregório Taumaturgo, a respeito do qual diz D. Guéranger:

Gregório nasceu em Neo-Cesaréia, por volta de 213. Ele foi discípulo de Orígenes e se tornou bispo de sua cidade natal. Ilustre por sua doutrina e sua santidade, ele o foi ainda mais pelo número e pelo brilho dos milagres extraordinários que o fizeram chamar o Taumaturgo e o tornaram, segundo o testemunho de São Basílio, comparável a Moisés, aos Profetas e aos Apóstolos.

Por sua oração ele moveu do lugar uma montanha que o atrapalhava para construir uma Igreja.

Isto é resolver o problema!

Ele secou uma lagoa que era para seus irmãos uma causa de discórdia.

Isto é que é resolver o problema também, não é?

Ele deteve as inundações do rio Icus que devastavam os campos, enterrando no rio seu bastão, e imediatamente tirou raízes e se transformou numa grande árvore, formando um limite que o rio nunca mais excedeu.

Muitas vezes ele expulsou os demônios dos ídolos e dos corpos e realizou muitos outros prodígios, pelos quais multidões de homens foram conduzidos à fé de Jesus Cristo.

Ele possuía também o espírito dos profetas, e anunciava o futuro. No ponto de deixar a vida, como ele se informasse do número dos infiéis que permaneciam em Neo-Cesaréia, lhe responderam que não era senão de dezessete. E dando graças a Deus ele disse: “Esse é o mesmo número dos fiéis no começo do meu episcopado”.

Ele escreveu vários trabalhos que, como seus milagres, ilustraram a Igreja de Deus.

Ele morreu entre 270 e 275.

* Há milagres que podem ser acusados de “sugestionismo”, mas não o da mudança de lugar de uma montanha, tal como outros feitos através de São Gregório

Os senhores estão vendo aqui, é um grande santo, não é verdade?

Nos cabe analisar um pouco a natureza desses milagres para nós entendermos alguma coisa da missão dele.

É interessante que no enorme conjunto de santos, na grande variedade de santos, a Providência que sempre faz com que a quase totalidade de santos opere milagres, entretanto escolhe alguns santos para fazer operar muitos milagres. Isto tem uma razão de ser profunda, porque os milagres operados em grande grau, em grande número pela mesma pessoa, indicam mais a estação extraordinária de Deus. Porque, que uma pessoa faça um ato miraculoso, já é inverossímil; mas que uma mesma pessoa faça muitos e muitos, é muito mais inverossímil ainda. De maneira que esses milagres dão muito mais glória a Deus.

E aqui está um homem que parece ter sido escolhido para mostrar que todos os dons dos milagres do Antigo Testamento, todo o dom dos milagres da Igreja primitiva, ainda se conservava no século III em que ele viveu.

O que esses milagres têm de interessante é que nenhum deles pode-se explicar pela sugestão.

Eu posso compreender em última análise um maluco que diga que até uma cura de Lourdes é feita por sugestão. Um doido pode dizer isto. Mas nenhum doido pode dizer que uma montanha ficou sugestionada e que por isso mudou de lugar. Nenhum doido pode dizer que um lago secou.

Ah?

Alguém diria:

Ah! não, não, não é bem isso não. Ele sugestionou as pessoas que o viram.

A sugestão não dura a vida inteira. Está um monte aqui, o monte vira para lá… É uma sugestão das pessoas que viram; quando passa a sugestão, onde é que está o monte? O monte voltou para o lugar, não é verdade?

O lago que estava molhado, está bom, eles tiveram a impressão que o lago secou. Mas quando passa a impressão, o lago deveria estar molhado de novo. Não, depois a lagoa secou, não é verdade?

Depois aquele crescimento imediato de uma árvore porque ele meteu o bastão dentro da água, como é que é esse crescimento aí? Depois que passou a impressão, eles deveriam de ver o bastão e não a árvore. Ora, viram uma árvore crescer imediatamente a ponto de mudar o curso de um rio.

Os senhores estão vendo que são milagres desses categóricos, milagres desses incontestáveis, não é verdade?

* Para se conseguir milagres, pode-se pedir mesmo as coisas que não são muito importantes — Pedir muito, com insistência

A Providência deu-lhe um dom de milagres para que se compreenda assim como a Igreja é divina. Mas foi só para isso? Não foi. Os senhores vejam para que razões esse santo pediu esses milagres.

Primeiro, uma montanha que tinha que ir embora, para ele poder ter um lugar cômodo para construir uma igreja. Os senhores estão vendo que foi um prodígio enorme que foi feito por ocasião de um pedido que não era muito importante. Porque se afinal de contas se não pode construir uma igreja aqui, constrói lá. Não é irremediável que uma montanha esteja atrapalhando a construção de uma igreja.

Por que a Providência deu a ele a graça de operar esse milagre a propósito de uma coisa que parece de não ser de primeira importância?

É para mostrar como Deus é paterno. Como a Providência é materna para conosco, os milagres não se operam só quando estamos com angústia, presos pela garganta pelas maiores tragédias. Mas Deus é Pai, Nossa Senhora é Mãe, e nos dão graças muito grandes, mesmo quando nós não estamos na última angústia, com uma liberalidade magnífica.

E o “Livro da Confiança”, que ainda agora nós estivemos lendo no simpósio do Rio de Janeiro, insiste neste ponto. É preciso pedir mesmo coisas que não sejam muito importantes, pedir muito, pedir com insistência, essas coisas são concedidas.

Aqui os senhores estão vendo um milagre enorme, feito só para simplificar a vida de um santo, só para que um desejo dele pudesse mais comodamente se realizar.

Os senhores vêem que outro milagre, não é? Os irmãos dele estavam brigando por causa de uma lagoa e ele secou a lagoa. É um milagre que é uma espécie de malicioso castigo nos irmãos, não é? É isso, vocês estão se estraçalhando pela posse dessa lagoa, a lagoa seca e não é de ninguém, não é verdade? É no fundo uma briguinha de família.

Provavelmente se ele passasse uma boa descompostura nos irmãos dele resolvia a coisa da mesma maneira, é um episódio íntimo, é uma coisa interna que não tem nada mais de trágico. Foi feito o milagre para isso.

* Se Deus atendeu os pedidos de bagatelas feitos por são Gregório, é certo que atenderá os pedidos de coisas muito mais importantes

O terceiro milagre era para evitar as inundações de um rio. Mas é uma coisa também que a Humanidade poderia continuar a existir se esse rio transbordasse, não é verdade?

Agora, isso a que nos deve conduzir?

À idéia que se para bagatelas dessas um santo pode ser atendido, nós podemos ser atendidos também quando pedimos coisas muito mais importantes. Porque quem faz o mais, faz o menos. E se é mais extraordinário fazer um milagre por uma bagatela, é menos extraordinário fazer para uma coisa que não seja bagatela.

Portanto, pelas necessidades da nossa vida espiritual, quanta montanha tem que ser removida, quanta lagoa tem que ser seca, quanta inundação que transborda e tem que ser remediada! E com quanta confiança nós devemos, portanto, nos dirigir a Nossa Senhora pedindo a Ela esses favores!

Os senhores dirão:

Ah, Dr. Plinio, antes fosse como o senhor diz. Mas a questão é que nós não somos São Gregório Taumaturgo. Ele era um santo, e ele conseguia.

Eu digo:

Ele está no céu, peça para ele. E está ao nosso alcance, para quem olha as coisas sob o ponto de vista sobrenatural é tudo tão simples. Não consegue porque eu sou eu e não sou São Gregório Taumaturgo. Peça para ele, ele está no céu e hoje é festa dele. Vamos pedir para ele hoje.

Mas já passou a festa dele, é mais de meia-noite.

É verdade, mas ele fará um milagre ainda maior. Vamos pedir para ele essa graça.

É preciso agir com as coisas do Céu com esta santa liberdade, eu diria quase com essa santa candura. Os senhores não calculam quanta coisa se recebe por essa forma. E é este o incitamento a que se presta esta vida de santo.

* São Gregório expulsava os demônios de dois tipos de local: dos ídolos e das pessoas — Devemos fazer jaculatórias ao passar frente a templos não católicos

Notem bem que ele era sobretudo… aqui há uma insistência em que ele expulsava os demônios. E ele expulsava os demônios de duas espécies de lugares: em primeiro lugar dos ídolos, e depois das pessoas.

Esta idéia de que o ídolo tem demônio e que é preciso expulsar o demônio por detrás do ídolo, é uma idéia muito pouco ecumênica. Porque como todas as religiões são boas, não há demônio em nenhum ídolo.

E eu aproveito para dizer que assim como os antigos padres da Igreja diziam que havia demônios nos ídolos, e muitíssimas razões havia, é preciso a gente tomar muito cuidado com uma coisa: é muito normal que haja demônios também nas igrejas não católicas.

Quando a gente passa em frente de uma igreja não católica, uma igreja protestante, uma mesquita maometana que tem lá naquela Av. do Estado, ou então igrejas cismáticas, etc., lembrar-lhes desse ponto: de fazer uma jaculatória ao Anjo da Guarda. Ninguém sabe o perigo que a proximidade que esses antros de heresia traz.

Isto é muito bom porque defende a nossa alma contra o demônio, e é muito bom porque incute um verdadeiro espírito de objetividade do que diz as igrejas erradas, a heresia, etc. Esse espírito é mais necessário do que nunca.

* Ao fim da vida, havia dezessete hereges em sua diocese, ao contrário do início de seu episcopado, quando havia dezessete cristãos

No fim, a vitória desse santo não ecumênico, quando ele pergunta: “Quantos hereges há em Neo-Cesaréia?”. Resposta: “Dezessete”. Alegria dele: “Quando comecei meu episcopado havia dezessete católicos”.

A situação tenha então virado completamente. Era o nunc dimitis dele. A obra dele estava feita, estava consagrada e ele morria entregando a Deus a diocese dele.

A festa dos Bem-Aventurados Roque González e companheiros, mártires do Rio Grande do Sul, jesuítas, nos leva também a pedir especialmente o apoio deles.

O apoio deles em que sentido?

Em primeiro lugar porque sendo um sangue vertido dentro do fluxo da história do Brasil, nós temos uma relação especial com isso. Em segundo lugar por um princípio homeopático, que eu prefiro não declinar aqui: nós poderíamos bem pedir a eles que nos dessem a graça de nos defender de todas as maquinações dos irmãos de hábitos hoje em dia… simillis simillis curantur.

Eu acho que é uma excelente intenção para a noite de hoje.

Então aqui fica o comentário do Santo do Dia. Vamos então encerrar.

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