Santo do Dia (Rua Pará) – 11/11/1965 – 5ª feira [SD 138 e 340] – p. 4 de 4

Santo do Dia (Rua Pará) — 11/11/1965 — 5ª feira [SD 138 e 340]

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São Martinho de Tours, exemplo de santo cuja conversão e apostolado foi de fundamental importância para o nascimento de uma nação para a cristandade * Um fato célebre em sua vida, de maior significado na Europa bárbara do que no Brasil: o desapego cristão ao dividir seu manto com um pobre, ato cristão que se contrapõe à dureza pagã dos romanos, em cujo exército estava engajado * O desejo de converter seus parentes pagãos levou-o de volta à terra natal, de onde posteriormente retornou à Gália, tendo fundado um mosteiro e feito milagres que o tornaram célebre * No tempo de São Martinho via-se povos correrem atrás dos santos, e santos chegarem a contragosto ao episcopado por insistência dos povos

* São Martinho de Tours, exemplo de santo cuja conversão e apostolado foi de fundamental importância para o nascimento de uma nação para a cristandade

Hoje é dia 11, é festa de São Martinho. Para se compreender bem o elemento de unidade da vida de São Martinho, é preciso considerar que eu tenho falado aqui dos santos que são fundadores de nações, dos santos que são missionários, que são evangelistas, que são reis, que são príncipes, e de cuja conversão e de cujo apostolado decorre o nascimento de nações inteiras para a Cristandade.

Este santo que se encontra nos primórdios da vida religiosa de um povo, e depois que esta vida religiosa começa a se consolidar, aparecem santos com outra missão, têm uma missão definida de fazer alguma coisa que continue o trabalho iniciado. Então eles lançam uma ordem religiosa, eles fundam universidades, eles são grandes pregadores que animam as almas, etc.

E há outros santos que têm uma missão curiosa, que é de “fazer um pouco de tudo”, e de, sem corridinha, sem dispersão e nem falta de distância psíquica, portanto muito “geração antigamente”, se enrolarem, enredarem em toda espécie de acontecimentos. De maneira que eles sustentam a boa causa em toda parte onde ela precise de um auxílio, e por mais diversas que sejam as condições que esse auxílio lhe é requerido, são por assim dizer os “factótimos” de Deus, aqueles que fazem por Nossa Senhora tudo quanto Ela quer.

Se os senhores analisam assim a vida de São Martinho, os senhores a compreendem. Do contrário ela fica um conjunto de informações biográficas, sem maior sentido unitário.

Eu passo a ler então os dados biográficos da vida dele que D. Guéranger apresenta:

Martinho nasceu na Panonia, na Hungria no ano 316.

* Um fato célebre em sua vida, de maior significado na Europa bárbara do que no Brasil: o desapego cristão ao dividir seu manto com um pobre, ato cristão que se contrapõe à dureza pagã dos romanos, em cujo exército estava engajado

Os senhores vêem então em que época remota, em que terras naquele tempo semibárbaras e remotas. Panonia naquele tempo era qualquer coisa como selva Amazônica, ou pior ainda.

Engajado muito cedo nos exércitos romanos, ele não é senão quando partilha seu manto com um pobre nas portas de Amiens.

Ele entrou no exército romano e tinha alguns destacamentos lá, e por causa das transferências internas do exército romano ele foi transferido da Panonia para a Gália, que é a atual França.

Não se sabe quando ele se converteu, mas em determinado momento vê-se que ele é catecúmeno, quer dizer, que ele está se preparando para receber o batismo. E aí se deu o famoso episódio de ele estar montado a cavalo, num período muito frio, ele encontra com um homem que lhe pede o manto e ele divide o manto com o pobre.

Esse episódio tem muito maior significação na Europa que no Brasil.

Meus olhos caíram incidentalmente no Dr. Luizinho. Dr. Luizinho esteve na Itália, visitou o convento de São Marcos em Florença, e ele se lembra como se sofre de um frio sério, é de machucar na Europa. Isso em Florença; quanto mais nas más estações do ano na França.

Então ter um manto não é como para nós, por exemplo. Fulano não tem um manto, tem dois, três, quatro, cinco pulôveres, que quando está com frio entra correndo numa casa e fecha, tem sofás, tem automóvel. Quer dizer, o frio é uma coisinha assim que incomoda um pouquinho, e depois a gente empurra de lado. Ainda mais esse nosso relativíssimo frio brasileiro, não é?

Lá a coisa é muito séria, andar léguas a cavalo sem manto ou com meio manto, o frio é uma coisa tremenda. E esse gesto de São Martinho comoveu toda a Idade Média como uma expressão própria de uma caridade cristã, que era oposta à dureza pagã do romano. De maneira que então esse episódio foi por assim dizer o primeiro feito simbólico da vida dele, que em toda a Idade Média (vitrais, moedas, iluminuras, quadros, etc.) se foi repetindo junto com a devoção que havia com relação a ele.

* O desejo de converter seus parentes pagãos levou-o de volta à terra natal, de onde posteriormente retornou à Gália, tendo fundado um mosteiro e feito milagres que o tornaram célebre

Batizado, ele deixou o exército, e vai estudar então com o grande doutor das Galias, Hilário de Poitiers. O desejo de converter seus parentes que eram pagãos conduziu-o à Panonia.

Os senhores estão vendo a vida dele como é cheia de viagens e de cargos que ele aceita, que ele perde, que ele pega outros. Ele era um legionário romano que passou da Gália para a Panonia, que deixou de ser legionário e que foi estudar teologia ou filosofia com Hilário de Poitiers. Ele um “botucudo” da Hungria.

Ele volta para a Hungria para converter seus pais, mas depois ele volta à Gália de novo e funda ali um mosteiro de Negligeau, que é um dos mais famosos mosteiros da França.

Os seus milagres o tornam célebre, e os discípulos vêm povoar a sua solidão. Ele passou a ter uma vida contemplativa, pratica muitos milagres e depois de ser um santo à procura dos homens, ele foi para um exílio onde foi um santo procurado por homens.

* No tempo de São Martinho via-se povos correrem atrás dos santos, e santos chegarem a contragosto ao episcopado por insistência dos povos

Por ocasião da morte de São Hilário, ele foge dos habitantes de Poitiers que queriam tê-lo como bispo. Os habitantes da Turíngia vão ser daqui a pouco muito mais hábeis. Em 371 confiscam-no por uma espécie de esperteza e o levam a ordenar-se sacerdote para ser bispo.

Bem, não é um episódio muito comum em nossa época, padre fugindo do episcopado. Não é também um fenômeno muito comum em nosso século, povos indo atrás de bispo santo, candidato santo ao episcopado. Nem os santos são tão comuns em nosso século.

Os senhores estão vendo, estamos no século IV, numa época chamada de decadência e de miséria, mas onde os santos pululam e os povos vão correndo atrás dos santos. Como isso é diferente do pseudoprogresso, do pseudo-esplendor da época contemporânea.

Ele se torna então bispo. Entretanto, ele se lembra que a vocação contemplativa continua nele. Ele funda então Marmoutier, um convento a três quilômetros de Tours, da que é a diocese dele. Esse mosteiro se torna centro de estudos, um seminário, e uma pepineira de bispos, quer dizer, muitos futuros bispos se formam ai. Trabalho muito importante, porque de um bom seminário sai um bom clero e um bom episcopado.

Os senhores então vendo, então, o selvagem da Hungria, colocado à testa de um seminário, formando um futuro clero, fazendo milagres. É um ex-soldado romano. Vejam como a vida dele veio mudando e que ele foi fazendo mais ou menos tudo.

Muitas vezes ele vai à solidão de Marmoutier, onde Nossa senhora lhe aparece e o demônio o persegue de todas as maneiras. É o próprio daqueles que se isolam. Aqueles que se isolam são aqueles a quem Deus mais freqüentemente aparece, mas também são os mais perseguidos pelo demônio.

Santo Inácio de Loyola diz que a prova de que um retiro vai bem é quando uma alma consegue muitas graças extraordinárias, mas ao mesmo tempo é muito perseguida pelo demônio.

Compreende-se então que no retiro dele, na solidão dele, isto acontecesse.

Seu zelo pelos povos transborda os limites de sua diocese. Ele é visto nas dioceses vizinhas e até em Artois, na Picardia, Trèves na Bélgica, e até na Espanha, e por toda a parte sua palavra sustentada pela sua caridade e milagres faz maravilhas.

Então este homem passa a ser missionário sem deixar de ser bispo, e percorre as regiões mais distantes numa época em que isso é muito incômodo, fazendo verdadeiras maravilhas pela palavra e pelos milagres. Porque ele continua a ser um grande taumaturgo.

Esse amor de Deus o leva a Flandres em novembro de 397, para ali estabelecer uma concórdia entre os monges, problema sempre difícil, e foi ali que ele morreu na paz de Deus, velho de mais de oitenta anos.

São estes santos que põem em ordem as coisas que os outros santos fundaram. Os senhores vêem que é uma grande vida quando ela é considerada debaixo desse ponto de vista.

Nós vamos ter no domingo que vem uma venda apenas parcial do “Bucko”. Eu achei conveniente não fazer no domingo que vem a não ser parcial, estando eu fora.

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