Santo do Dia (Rua Pará) – 9/11/1965 – 3ª feira [SD 342] – p. 6 de 6

Santo do Dia (Rua Pará) — 9/11/1965 — 3ª feira [SD 342]

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Comparação: a primeira vez que uma imagem de Nosso Senhor foi exposta ao povo após séculos de perseguição, e a primeira vez que os estandartes do Grupo são desfraldados na Rua Sabará * Após um período de glória, a Basílica de Latrão foi abandonada * A Basílica de Latrão, que tem como padroeiros secundários São João Batista e São João Evangelista, tem uma nobreza, uma grandeza, uma paz e uma consciência da dignidade que a Basílica de São Pedro não tem * A Basílica de Latrão, na sua dignidade, na sua distinção de rainha autêntica * A mistura do passado com o presente, existente na Europa inteira: monumentos antigos junto com as coisas modernas * A incompreensão dos monumentos é a véspera da sua demolição

* Comparação: a primeira vez que uma imagem de Nosso Senhor foi exposta ao povo após séculos de perseguição, e a primeira vez que os estandartes do Grupo são desfraldados na Rua Sabará

Hoje é festa da Dedicação da Arquibasílica do Santíssimo Salvador, que é chamada Mãe e Cabeça de todas as igrejas, e que é a Igreja de Latrão. A nota é a seguinte:

No dia 9 de novembro do ano de 324, foi o dia natalício, a dedicação da Basílica de Latrão. Em 315 o Imperador Constantino tinha ordenado a construção da Basílica.

Os senhores se lembram naturalmente que Constantino era o imperador que libertou a Igreja e tirou das catacumbas, não é? Então, coerentemente com o seu gesto, ele ordenou a construção da Basílica, no local onde parece se erguia o palácio da sogra dele, da família dos Laterani. Eu não sei se isto é inteiramente indiscutível na historiografia de hoje, mas algum tempo atrás se admite como sendo assim. E provavelmente é.

Esse lugar ficou se chamando a Basílica de Latrão e o Papa Silvestre consagrou a Basílica ao Santíssimo Salvador, cuja imagem, mostrada então aos fiéis, depois de séculos de perseguição, lhes pareceu uma aparição divina.

Os senhores podem imaginar qual foi a emoção, qual foi a alegria dos católicos de Roma quando, depois de séculos de catacumbas, de séculos de perseguição, eles vêem aparecer uma basílica e uma basílica grandiosa em Roma, afirmando o esplendor do culto católico pela primeira vez, na mais importante cidade do mundo. Os senhores podem imaginar a alegria deles quando eles viram ao ar livre e à luz do dia uma imagem grandiosa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Para os senhores terem uma certa impressão disto, os senhores precisam se reportar, por exemplo, a Sabará, a impressão que nós todos tivemos quando vimos nossos estandartes desfraldados ao ar livre em Sabará. A idéia de que ao ar livre e dominando uma cidade por pequena que fosse, nossos estandartes estarem tremulando, era uma coisa que nos enchia de emoção.

Agora os senhores imaginem em Roma, a própria imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo exposta aos olhos de todos e recebida por todos com veneração, e o culto pagão quebrado, proscrito e fora da lei. É algo de parecido com a inauguração do Reino de Maria e com os primeiros momentos do Reino de Maria.

Eu tenho a impressão de que poucas coisas podem dar tanto a idéia do que pode ser uma alegria católica na Terra, como ver a imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo ou de Nossa Senhora, ou então o estandarte do Grupo desfraldado assim a todos os ventos.

* Após um período de glória, a Basílica de Latrão foi abandonada

Continua a nota biográfica:

Os Papas fizeram sua residência num palácio próximo da Basílica. Realmente, o palácio anexo a Latrão foi durante muito tempo residência dos Papas, que se tornou assim sua catedral e que por isso foi chamado cabeça e mãe de todas as cidades, de Roma, e do mundo.

Dois incêndios que sobrevieram no século XIV, e o abandono em que ela foi deixada durante a presença dos Papas em Avignon, os peregrinos que iam a Roma encontravam o gado pastando dentro das Igrejas, por causa da erva que crescia lá dentro. Galinhas, pombos, outros bichos, morando dentro de igrejas e ocupando inclusive os altares…

Os senhores vêm a rotação da História, não é? A Igreja que sai radiosa das catacumbas levanta um imenso edifício, e depois nesse edifício o gado vai pastar, não é? Porque os Pastores estão em Avignon, não é?

Os senhores estão entendendo as ondulações da História.

(…)

* A Basílica de Latrão, que tem como padroeiros secundários São João Batista e São João Evangelista, tem uma nobreza, uma grandeza, uma paz e uma consciência da dignidade que a Basílica de São Pedro não tem

A Basílica foi novamente consagrada, desta vez em honra de São João Batista e de São João Evangelista.

Então a Basílica do Santíssimo Salvador tem esses dois padroeiros secundários. Quem visita Roma — alguns estão aqui que visitaram comigo: Dr. Fernando, o Paulinho, o Arnaldo, o Paulo, o Umberto, etc. — nota uma diferença que chama a atenção entre a Basílica de Latrão e a Basílica do Vaticano.

A Basílica de São Pedro é nova, é “chibante”, é gloriosa, é magnífica, parece construída ontem, tem todo o esplendor da Renascença. Depois que a gente olha, olha, fica no fundo daquilo uma imagem de bodas de noiva.

A Basílica de São João de Latrão é muitíssimo menos sensacional: é muito mais discreta, mas tem um tom de grande dame, tem uma nobreza, tem uma grandeza, tem uma paz, tem uma consciência de sua própria dignidade que a Basílica de São Pedro não tem.

A Basílica de São Pedro é aflita de se mostrar em tudo para obter a adesão daqueles que aparecem lá. A Basílica de Latrão não, está cônscia de si mesma e dizendo: “Na minha naturalidade sou assim. Não me enfeito, não faço permanente, não me pinto. Eu sou o que sou, mas no que sou, sou digna de respeito e de veneração. Se quiserem venham aqui porque eu já …”

(…)

Quer dizer, é outra impressão que se tem com essa basílica, mas a perder de vista.

É interessante isto, porque mostra as duas fases diversas da vida da Igreja. Uma fase em que a gente fica posta em presença de uma espécie de naturalidade, de dignidade, de compostura, e depois é o bafo da Renascença que entra, e com o bafo da Renascença já é outro espírito, e outro modo de se apresentar que se faz sentir.

Entretanto, é uma coisa que corta o coração: a basílica está colocada numa praça com uma confluência de ruas e, portanto, com um trânsito muito intenso. Ela fica sobre uma elevação que é uma elevação muito bem calculada para a altura dela, assim como, por exemplo, o Arco do Triunfo. A elevação do Arco é muito bem calculada para o tamanho, que é um dos encantos do Arco.

* A Basílica de Latrão, na sua dignidade, na sua distinção de rainha autêntica

Assim também na Basílica de São João há uma elevação de terreno esplendidamente calculada. Há um canteiro grande e ali está a basílica com a sua nobreza.

De outro lado, em diagonal, está um tesouro maravilhoso, que é a Sancta Sanctorum, onde tem a escada, a Scala Santa, etc. Nessa Scala Santa há gotas de sangue de Nosso Senhor e a gente sobe a Scala Santa de joelhos. Depois tem um tesouro que nós não pudemos visitar, mas que é magnífico, e que é a Sancta Sanctorum, de que é cópia esse tecido, onde há um tecido de que é cópia esse tecido do Lísio apresentando Cristo Pantocrator que os senhores vêm aí.

Então está ali a Basílica na sua dignidade, na sua distinção de rainha, mas de rainha muito materna, nada de … [inaudível]…, nada de … [inaudível]…, mas de rainha autêntica.

Ao lado, um corre-corre de lambretas, de automovinhos, um ruído de motores de explosão, um formigar de vida moderna, uma passagem de europeus, e turistas do mundo inteiro, mas que pouco olham para a basílica, habitualmente visitada por poucos turistas, erma, deserta, etc. E aí ao pé daquilo, a europalhada que passa, e que então passa correndo, completamente americanizada e pensando em outras coisas..

A gente tem a impressão mais ou menos de uma rainha que com toda a sua majestade e sua dignidade vai de repente para uma raquete, qualquer lugar assim, e se põe num lugar público olhando. Ninguém compreende aquela rainha porque não pode compreender.

Se aparecesse uma mulher do povo, eles entenderiam, eles achariam da mesma maneira, porque não têm mais olhos para ver, ouvidos para ouvir e sobretudo intelecto para inteligir.

* A mistura do passado com o presente, existente na Europa inteira: monumentos antigos junto com as coisas modernas

Então, é o formigamento da Europa nova junto à Europa velha, ainda mantida em monumentos cuja alma já ninguém mais compreende. O que é mais engraçado: por turistas que pensam que vão lá para ver isso, mas que de fato estão pensando no automovinho, no ruído de explosão, enfim, no paraíso da técnica.

Aí os senhores têm então uma espécie de ambientes e costumes das várias Europas. Isso se repete na Europa inteira.

O Arco do Triunfo é napoleônico, ele tem um pouco daquela carranca napoleônica, daquela papada de político de PHP velho, mas não deixa de ser um monumento que incontestavelmente tem mérito, sobretudo quando comparado ao Largo do Arouche. É uma coisa que a gente não se pode negar que tem méritos esse monumento.

Bem, isso fica no rodopio do trânsito. Todo mundo passa por ele e pensa em tudo menos nele. E os próprios turistas vão para lá, mas não pensam muito nele. Pensam no trânsito, pensam em gasolina, pensam no asfalto, pensam nas “fassuras”, pensam no nudismo, pensam na vida moderna, atraídos por uma vaga idéia, um resto de idéia, de que a Europa antiga está aí.

Eu me lembro de um estado de espírito que me chamava muito a atenção, de pessoas velhas de minha família que iam para Santos. Quando se faziam as malas, porque naquele tempo quando ainda era meninote — o Dr. Paulo deve se lembrar disso — a gente fazia malas para ir para Santos, muitas malas, era uma coisa grossa e solene ir para Santos, em que se ia de trem, com carregador, carroça que vinha pegar as malas em casa de manhã, etc., pessoas antigas que diziam que iam lá porque gostavam muito do mar, mas a primeira coisa que faziam era tomar uma casa, porque ainda não haviam apartamentos, que não dava para o mar, dava para qualquer daquelas ruas próximas do mar. A gente ia prestar atenção, uma vez ou outra iam à praia, em vinte dias, umas duas ou três vezes. Eles ficavam no terraço da que casa que não dava para o mar, com uma vaga consciência de que o mar estava ali perto e com um ar assim de quem está fazendo veraneio, se abanando… Quer dizer, é a coisa mais tola que possa haver no mundo, não é? É a última baixa-de-nível que possa haver.

Bem, é a posição que tomam em face dessas coisas antigas o turista de hoje: “Ih! O Arco do Triunfo…”.

Ele, de fato, está pensando em câmbio, em cretinice. Aquilo figura como um fundo de quadro assim, uma espécie de mar hipotético para o que qual ele não olha. Ele apenas gosta de saber que aquilo está lá.

* A incompreensão dos monumentos é a véspera da sua demolição

Não se…

(…)

sobre uma coisa, isto é a véspera da demolição, hein! Porque à força de não entender, acabam fazendo com a Basílica de Latrão assim: “Mas que tal se esse mundo que contém uma porção de objetos, afinal, retrógrados, esses objetos fossem empilhados numa sala e nós instalássemos aqui uma Caixa de Socorro do IAP… e tal?”. Outro então: “Divide o salão em tabiques, depois num tabique coloca em cima das pinturas a fresco afixos grandes explicando mais ou menos qual é o regulamento do sindicato, ou qualquer outra coisa”. Um belo dia, quando aquilo está cheio: “Mas o sindicato não pode mais ficar nesse casarão velho”. Haverá um padre para propor isso, se não for um padre é uma freira: “Vamos derrubar isso e fazer um prédio de cinqüenta andares”, está compreendendo?

Quer dizer, a incompreensão é a véspera da demolição, e se a Bagarre não viesse, os senhores ou talvez eu mesmo assistiria à demolição dessas coisas.

Exatamente Dr. Castilho acabou de contar que o Colégio de Sion vai ser demolido e que a razão dada para a demolição é que aquilo é um castelo e que hoje é muito difícil manter um castelo. Então os terrenos vão ser loteados, as freiras vão receber uma pequena parte, uma parcela X do terreno, e ali vão construir um colégio funcional, de acordo com o espírito do Concílio. O prédio desaparece e é substituído por outro prédio.

Isto de tão simbólico e que se dá com o Sion, não se dará mais tarde com a Basílica de Latrão e eventualmente com o Vaticano também? Qui le sache? Fica a interrogação posta.

Então nós teremos esta tristeza: assistir pegar a imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo, tirar de lá de cima de onde está, colocar num museu qualquer e depois colocar como símbolo de Cristo uma coisa qualquer, um círculo com três anéis dentro, depois, não sei, um triângulo, e diz: “Encarnação do universo”, ou qualquer coisa assim, símbolo de Cristo, está acabado.

Então se consumará a operação “volta às catacumbas”. Quantos vão ficar de fora? Daqueles que voltarem, quantos…

(…)

e brigarão e sairão fugidos.

Se a Bagarre não viesse, o Anticristo está preparando…

(…)

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