Reunião Normal – 6/11/65 – sábado . 13 de 13

Reunião para o Grupo da Martim 1 — 6/11/65 — sábado

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Definição de quebranto * A ação do quebranto num baile de carnaval * Um exemplo de quebranto exercido sobre um bairro de São Paulo * O quebranto do demônio entrou no Ocidente através do atrativo das cortes e das feiras no final da Idade Média * O surgimento de duas concepções da vida: a vida insuportável com delícias e a vida suportável sem delícias * A solidão é o remédio para cortar o quebranto * A pessoa dominada pelo quebranto tem horror ao isolamento e ao repouso * Um erro oposto ao quebranto: o desejo de querer organizar uma vidinha dentro da mediocridade * Os dois modos do brasileiro deformar a vida de repouso * Duas maneiras de viver uma vida mundana na fazenda

Vou tratar da relação entre a teoria do repouso e a “pensão submarina” e o cetro do demônio.

No que diz respeito ao repouso, é preciso dizer que nós compreenderemos bem até que ponto o repouso é o contrário do quebranto, ou até que ponto certas psicologias ou disposições da alma para o repouso podem ser o contrário do quebranto, se nós nos reportarmos bem à idéia do que seja o quebranto.

* Definição de quebranto

Tive ocasião de mostrar aos senhores que o quebranto é uma ação que o demônio exerce sobre as almas através do instinto de sociabilidade, fazendo com que este instinto frua, mas, frua com algum eflúvio preternatural o prazer de todos se sentirem um e de todos estarem pensando do mesmo modo, sentirem do mesmo modo, e, mais do que pensar e sentir do mesmo modo, serem um e participarem em algo ou em alguém de mais interessante, de mais vibrante, de mais dinâmico que, por assim dizer, preside a reunião toda.

Imaginem que houvesse uma conversa nossa com Saint-Simon — não tem nada de quebranto, mas é um exemplo natural que vou dar agora — Saint-Simon, um causeur magnífico, excelente. Naturalmente este homem em pouco tempo nos teria comunicado o gosto de conversar como ele.

Conversa e em pouco tempo ele teria sido o vínculo de união de nossas conversas, de maneira que o nosso prazer de conversar e de estarmos juntos uns com os outros era sobretudo o prazer de estarmos juntos com ele e de vermos como é que ele analisa os assuntos, como é a vida dele, a vida da corte, como ele conta tudo aquilo, como o espírito dele toma todas aquelas coisas.

Uma realidade brilhante na qual ele está imerso e da qual nós estamos fora, [e] como é que esta realidade enquanto vista pelo espírito dele aparece para nós. Seria então um duplo prazer que era o de tomar conhecimento da realidade apresentada por ele, mas era também o de tomar conhecimento dele enquanto apresentante daquela realidade, enquanto sendo a pessoa que nos faz ver isto.



Isto é, ele seria para nós mais ou menos como uma luneta é para o astrônomo, quer dizer, é o vidro no qual aquela realidade aparece mais brilhante, mas o próprio vidro em si tendo um certo atrativo para nossa vista, dando um certo gosto para a nossa vista, dando um certo gosto para a nossa vida; isto seríamos nós com Saint-Simon.

E, esse é um fenômeno de caráter inteiramente natural. Quando nós prestamos a atenção no quebranto, nós notamos que existe qualquer coisa de preternatural do mesmo jeito, mas que não tem como centro uma pessoa palpável e visível, mas tem como centro invisível o demônio que faz com que, atuando sobre várias almas ao mesmo tempo, essas almas sintam o prazer, a atração do contato com um “fluído” que ele põe em todas e, ele presente de modo invisível mas muito real, fazer sentir em todas um gosto, uma satisfação, uma alegria em tratar a coisa debaixo de um certo ponto de vista.

Ainda hoje tive um minúsculo exemplo disso: para contar um episódio soi disant engraçado do filho dela, minha sobrinha cantou uma canção que o filho dela teria adaptado para as condições do divórcio dela, e ela cantou.

E eu vi que era o cantar de quem se punha presente numa sala de festa onde todos cantam juntos e tem aquela alegria de cantarem juntos, de cantarem a mesma piada, pulando do mesmo jeito, sentindo as mesmas coisas etc., e em que se percebe que não existe só o estar junto mas existe um eflúvio, um ponto de atração, um encanto que é maior do que este, que o estarem juntos, mas nesse “juntos” há um “terceiro” com “T” maiúsculo, de [estarem?] junto e que é um terceiro que comunica o gosto daquilo através de uma fruição por osmose de uma espécie de eflúvio sobrenatural que equivale à conversa com uma pessoa incomparavelmente mais inteligente, mais interessante, sobretudo, mais viva e mais atraente do que todas as que estão lá, e que é precisamente o demônio.

* A ação do quebranto num baile de carnaval

Esse fenômeno é muito notável em bailes de carnaval.

Lembro-me que passei uma temporada no Rio de Janeiro em vésperas de carnaval, e na praia do Flamengo à pequena distância do Hotel Regina, havia um club de carnaval.

De maneira que quando eu me deitava à noite ouvia os cantos que chegavam até mim. Naquele tempo a canção era a “Jardineira” e, portanto, faz muito tempo, e eu ouvia e analisava a forma de prazer que eles estavam sentindo naquilo. Via-se então que era uma canção leve, com segundos sentidos imorais e que tem um salzinho normal da imoralidade, etc.

Mas, mais do que aquilo tudo havia uma espécie de embriaguez coletiva e que eles intercalavam àquela canção em certos momentos umas exclamações meio ritmadas: “uu! aa!”. E que no meio disto — não encontro palavras para definir bem a coisa — mas havia a imanência do prazer dado por um outro, de uma eletricidade recebida por um outro, e que era o prazer do convívio e do ser um, mas do ser um e de conviver com uma influência, um bafo que era imanente e ao mesmo tempo além de todos e que fazia propriamente o suco da festa e que dava à festa seu verdadeiro dinamismo.

Os senhores dirão: “Dr. Plinio, que coisa aguada e cândida a que o senhor está dizendo, o que o senhor está dizendo roça pela idiotice. Porque o senhor reduz estas festas sensuais a quase uma espécie de festa religiosa, e, portanto, uma coisa idiota”.

Mas não é nem um pouco o que eu digo. É claro que o próprio prazer sensual ali presente e o prazer báquico da bebedeira, entram nesse fluxo.

E notem bem, não é a sexualidade de um casal que dança mas é uma sexualidade dominando todo o salão, e é uma sexualidade em que todos se fundem num só ritmo de luxúria, e que é algo que no momento é muito mais aliciante do que a simples sexualidade individual, é propriamente disso que se trata, e é isto que dominava este salão.

Anos depois voltei ao Rio de Janeiro e a canção já não era a rancheira, mas era uma canção que tinha outra marcha, outro ritmo, os gritos “u! u! u!…” muito mais acentuados e se percebia a tentação do demônio muito mais forte.

Noutra ocasião vi uma fotografia de um salão de baile de carnaval e o palco onde se situava a orquestra era apresentado como uma imensa boca de um demônio, com uns dentes grandes, e toda a sala pererecando em função psicologicamente daquele demônio que estava lá, e dando a idéia de que todos dançavam dentro da boca do demônio, ou pelo menos sob o bafo dele.

E isto como uma coisa muito engraçada e interessante, realmente espelhando esta espécie de ênfase diabólica que se notava em todo o pessoal lá, e que era esse elemento conjunto do demônio que é o “it”, o elemento de atração do cetro do demônio.

Eu descrevo este fluído para tornar mais claro até que ponto isto é uma espécie de excitação do instinto de sociabilidade, e que se faz no e pelo instinto de sociabilidade, e que naturalmente ataca depois todos os outros instintos do homem, mas faz-se diretamente no e pelo instinto de sociabilidade.

Isto que se dá no carnaval e em certas festas de modo acentuado, dá-se em modo menor e não muito real, dá-se com o quebranto do demônio em todas as coisas comuns.

Quer dizer, onde há um cetro do demônio, a pessoa sente aquele aliciante inebriamento, gosto pela coisa que é um certo “fluído” que muito imperceptivelmente torna deliciosas determinadas coisas que de si propriamente não seriam deliciosas e que constituem então o império do demônio sobre a imaginação e sobre toda a parte sensível do homem, sentidos do corpo e da alma que se inebriam com aquilo e se deixam arrastar por aquilo.

* Um exemplo de quebranto exercido sobre um bairro de São Paulo

Os senhores têm o exemplo característico disso com o (…) eu nunca comentei esse fato aqui porque não houve interesse em comentar. Mas afinal de contas o (…) tinha aquela adoração pelo bairro de Pinheiros.

O que ele descrevia do Alto do Pinheiros, era um bairro onde o instinto de sociabilidade tinha dominado toda a vida, as casas eram abertas, onde todo o mundo era tão amigo de todo o mundo que todo o mundo entrava na casa de todo o mundo, era normal estar-se nas casas uns dos outros. E uma rodinha com a ilusão ridícula de ser a rodinha mais alta de São Paulo.

O (…) acho que fazia um certo ato de fé para acreditar que nós éramos de boa família em função do Alto de Pinheiros que era tão deslumbrante e que fazia com que o (…) encontrasse graça, uma graça supina, que incluía a vida dele naqueles requebros, “nhãnhã-nhã”, aquela voz pastosa com as mocinhas e os mocinhos do Alto de Pinheiros, via-se que aquilo fascinava o (…) a ponto de ele não poder gostar de outra coisa.

O que é que tinha de tão gostoso naquilo, na realidade?

De fato não são gente muito rica e não gastavam muito, pois se comparar esses gastos com os de uma pessoa rica, não eram nada, eram orgias de coca-cola, de pastéis etc.

Por outro lado, os automovecos deles eram de um luxo de Volkswagem, mas o luxo de Volkswagem para deslumbrar não deslumbra ninguém; eram uma gentinha que tinha umas casinhas standards e em que todo o mundo tem mais ou menos a mesma casa.

Bem, o que deslumbrava tanto?

Era o convívio.

E no convívio o que é?

É um jogo de embevecimento recíproco em que a gente via que tinha uns tantos rapazes e meninotas que o (…) achava o supra-sumo do interessante e que provavelmente achavam a mesma coisa do (…)

E então no (…): o Espírito Santo de um lado, que é, se quiserem, o divino anti-quebranto do Grupo e divino atrativo do Grupo, e depois de outro lado o demônio através deste gosto, daquela sociabilidade lá de Pinheiros levando o (…) para o outro lado. E a luta entre as duas influências, sendo que a dificuldade para ele era admitir que houvesse uma luta, e em segundo lugar que essa luta fosse de duas influências não humanas, porque o gosto era admitir que era inteiramente natural, e que Pinheiros segundo a ordem natural das coisas é verdadeiramente uma delícia.

Essa era a coisa do (…)

* O quebranto do demônio entrou no Ocidente através do atrativo das cortes e das feiras no final da Idade Média

Bem, essa coisa do instinto de sociabilidade, essa hipertrofia, tomou na Idade Média uma característica, e que foi a freqüentação da corte real.

Antigamente, nos bons tempos do feudalismo, cada senhor feudal morava no seu castelo e, portanto, com a sua família e seus fâmulos, muito menos com seus iguais e com os seus superiores do que com os seus inferiores.

De vez em quando, na paz dos campos, o castelo era visitado por uma pessoa, um peregrino que vinha de Jerusalém, por um cruzado que vinha da Terra Santa ou que tinha ido lutar na guerra da Reconquista da Espanha, ou um cavaleiro da Ordem Teutônica que ia a Santiago de Compostela etc., ou uma família de senhores menos nobres que vinha fazer uma homenagem ou visita.

Mas, a vida era a vida de todos os dias. Era a vida de comer, beber e dormir, trabalhar, conversar, com tudo suportável e poucas delícias, essa era a vida quotidiana.

Bem, mas à medida que as estradas foram-se abrindo e que o convívio foi se tornando mais largo, à medida também em que a economia foi circulando mais, não foi só a economia que circulou mais, mas foi o convívio social que se abriu mais, e então começam os nobres com muita freqüência irem à corte do rei.

E a corte do rei vista pelo nobre como o conto de fada vivo, quer dizer, o lugar delicioso, de festas lindas, de volúpias magníficas, se bem que castas ainda, se é que a palavra casta se casa com a palavra volúpia, onde todo mundo se sentia dignificado pela presença do rei.

E então ia-se duas ou três vezes por ano à corte do rei, mas o resto do tempo era cada um no seu castelo, e a vida com o “tran-tran” de todos os dias e obedecendo a essa fórmula que estou dizendo, tudo suportável nada delicioso, nada maravilhoso, era o grosso da vida de todo mundo.

Quando as monarquias absolutas começaram a se concentrar, o quebranto começou a se exercer através das cortes muito mais intensamente, e começaram muitos nobres a querer se fixar nas cortes onde a vida de todos os dias não era com tudo suportável e raras vezes coisas deliciosas, mas tendia a ser uma vida de delícias contínuas.

A vida do rei, uma vida deliciosa. Luís XIV chegou a escrever nas memórias dele “Le métier du roi est délicieux”, até o trabalho é delicioso. E aquilo como uma espécie de conto de fadas, de um paraizinho terreno onde a pessoa ia gozar as delícias.

Começou então o trabalho dos reis para concentrar os nobres na corte, e começou a corte a funcionar como uma espécie de paraíso quase irreal, onde todo o mundo queria ir para levar uma vida quase irreal também.

A vida de corte então, ora por coação dos reis que obrigavam os nobres a morar lá e que depois os nobres sucumbiam às delícias da corte, ora por uma atração da corte sobre esses nobres, ainda que o rei não estivesse obrigando, e, portanto, por uma conjunção de causas diversas, a vida da corte passou a ser assim deliciosa e a funcionar nela uma espécie de quebranto.

E esse quebranto foi o principal modo pelo qual o quebranto do demônio entrou na vida do Ocidente, começou precisamente na vida de corte para os reis e para os nobres e para os clérigos de alto coturno.

Para os populinos as feiras da Idade Média. Os Estados Unidos nasceram nas feiras, a mentalidade norte-americana nasceu nas feiras.

* O surgimento de duas concepções da vida: a vida insuportável com delícias e a vida suportável sem delícias

Como é que esse quebranto se exercia?

Criando um vício da incompatibilidade da vida suportável sem delícias com a psicologia de quem estava disposto a levar uma vida só com delícias ainda que se tornasse insuportável.

E aqui as duas vidas começam então a aparecer. Uma é a vida segundo Deus, suportável e com raras delícias; outra é a vida do quebranto que é uma vida com muitas coisas insuportáveis mas cheia de delícias.

Como é que vivia um nobre no seu castelo?

Como um pequeno rei.

Como é que ele queria viver em Versailles?!

Porque no fundo ele estava habituado a isso, em apartamentinhos separados por biombo, e de um lado tinha a cozinha e do outro lado o quarto de dormir, e uma cortina que separava um salão onde eles recebiam.

Quer dizer, cortiço, Versailles em grandíssima parte de sua instalação foi um verdadeiro cortiço. A dignidade do lugar aqui me impede de me desenvolver sobre um assunto que eu apenas levanto, e que é o problema das instalações sanitárias desse cortiço, para terem idéia do prosaico da coisa.

Mlle. Lespinasce, dona de um salão, muito espirituosa, dizia bem o seguinte: “A vida da corte não é deliciosa, a questão é que ela nos impede de achar deliciosa qualquer outra coisa. Não se vive bem nela e nem fora dela”.

É como a grande cidade. Para quem está acostumado, é tal que não se gosta dela, mas não se pode viver sem ela.

E é como todo vício, depois que se está viciado em algo, aquele vício é tal que a gente quereria largar, porque está comendo as bolotas dos porcos, mas não se consegue largar, e então a vida é horrível com aquilo, mas não se consegue viver sem aquilo, é a tirania do vício, a tirania do quebranto do demônio tomado por inteiro, as cortes eram assim.

Começa a nascer então a vida deliciosa, quotidianamente deliciosa, mas horrorosa, insuportável quase.

É o fidalgo que sai do cortiço, desce uma escada e entra num salão que é o mais bonito do mundo, onde ele encontra a nobreza mais fina do mundo, mais bem vestida do mundo, onde a prosa mais quintessenciada do mundo é o divertimento dele. As danças mais bonitas do mundo, as melhores orquestras, as refeições estupendas são servidas, e por outro lado o rei faz as famosas loterias em que os bilhetes eram gratuitos e nunca eram em branco.

De modo que corria a loteria, era distribuição de presentes para todo o mundo, para levar para cima, para o cortiço, mas todo mundo era pobre, dependia da esmola do rei, vivia se apertando no desconforto e na falta de higiene, e na humilhação e na vergonha e tendo que lamber o pé do rei continuamente.

E isso era bom, por quê?

Porque evitava o outro binômio, e era uma vida insuportável cheia de delícias em troca de uma vida suportável e com raras delícias.

Sendo que aqui nesse o binômio se impõe por uma questão da própria estrutura do universo e da vida, quem quer ter delícias não pode ter a vida com tudo suportável, acaba aparecendo as coisas insuportáveis, quem não quer ter delícias, este tem a vida com tudo suportável, tudo aceitável, e desta alternativa não se escapa. Ou é uma vida com Deus concebida como estou dizendo, ou é uma vida sem Deus concebida de outro modo.

* No final da Idade Média, as feiras passaram a ser para o populino o que as cortes eram para os nobres

Agora, acontece que este quebranto para o povinho passou a ser as feiras. As feiras eram uma coisa muito boa do ponto de vista comercial etc., era muito legítimo que nas feiras, além do aspecto comercial e para atrair compradores, houvesse aspecto de diversão, e compreende-se que houvesse a feira da Idade Média, como ela era. Mas, entrou um qualquer quebranto aí por onde a feira passou a ser para o populino o reino do maravilhoso.

Então iam lá para ver o urso que pulava e a comédia, o palhaço, o homem que jogava quinze laranjas etc., um quê de carnavalesco começou a entrar na feira, e nesse quê de carnavalesco e de chanchada, a própria feira, começou a entrar o quebranto do instinto do populino, mas atraído por um gênero de diversão que era para o populino o que era a corte para o nobre.

E assim esse quebranto começou a entrar coincidindo com a habitação das grandes cidades que começam a se formar, porque a grande cidade também tem esse quebranto, cria condições de vida deliciosas e insuportáveis. E é na hipnose dessa delícia ligada à insuportabilidade que as multidões confluem para as grandes cidades, atraídas pelo prazer da cidade.

E o mais engraçado é o seguinte: prazer apresentado por certos sociólogos como prazer legítimo, um direito do homem de aspirar a isto, ir gozar as delícias da grande cidade, é normal, é normal como querer aprender a ler e escrever, como é normal curar-se de uma doença, é o curso normal das coisas.

Então, ir fruir a delícia da grande cidade é um movimento natural e legítimo da humanidade e que a urbanização tem de atender. No fundo é esse quebranto imenso que constitui afinal de contas a alma das grandes babéis contemporâneas.

* A solidão é o remédio para cortar o quebranto

Descrito assim o fenômeno, creio que torno mais fácil fazer entender uma coisa diversa: é que sempre que a pessoa se retira disso para a solidão, ela como que quebra a emprise do quebranto sobre si.

Porque na solidão o instinto de sociabilidade não funciona, pede-se até à alma que desenvolva todos os contrafortes do instinto de sociabilidade, tudo aquilo que não é o instinto de sociabilidade e que é bom.

E que o aceitar da alma, que ela se retire daquilo e que ela viva de si mesma e não dos outros, e com isso o instinto de sociabilidade — que é como que o conduto por onde esse quebranto entra — fica cortado, e então a alma tende para uma forma de vida em si mesma em que o quebranto cessa de existir e em que ela se distancia da coisa.

* A pessoa dominada pelo quebranto tem horror ao isolamento e ao repouso

Aqui está a relação do repouso com o quebranto.

Acontece naturalmente que muitas pessoas quando descansam têm duas formas de descanso: [o] primeiro é o das pessoas que estão muito atingidas pelo quebranto e é de serem tais que elas não descansam, elas preferem cair mortas de apoplexia, de coisas cardíacas, neuroses, a descansar, e só vão descansar quando há alguma coisa de irremediável nelas, contraído por causa da excessiva adesão ao quebranto, da exclusiva diversão do quebranto.

Conta-se da Mme. de Fontanges, que foi concubina de Luís XIV, que ia para os bailes, tuberculosa, e quando saía dos bailes da corte, ia na carruagem deitada e tendo hemoptises, porque ela dançava até o momento das hemoptises e saía nesta hora. A carruagem dela chegava em casa emporcalhada de sangue, e os criados eram obrigados a levá-la para a cama para ela respirar e se refazer um pouco ali, e morreu disso. Mas ela dizia que não conseguia viver fora do baile, fora da festa, fora do ambiente de corte, e que preferia consumir-se precocemente, suicidar-se praticamente, a ter de renunciar a isto.

Para muitas pessoas o repouso é assim: não querem, preferem morrer. Essa mulher o que não queria era ficar sozinha, tinha horror ao repouso.

Se há uma coisa que indica hoje em dia a pessoa dominada pelo quebranto é este horror ao isolamento e ao repouso. Eu não quero dizer que todo horror ao isolamento e ao repouso dê no quebranto mas eu quero dizer que, em geral, o quebranto produz esse efeito e que agrava muito nas pessoas onde essa tendência é natural.

Bem, acresce a isso que muitas pessoas quando vão repousar, quando são obrigadas a repousar, por qualquer razão, procuram levar atrás de si todos os canais de quebranto.

Certa vez uma tia minha foi falar num aparelho de rádio de um doente em Campos do Jordão, na casa particular do doente e que era um moço.

Minha tia descrevia a casa muito elogiosamente porque ela era ultra filha do quebranto, dizia ela como era a casa do moço: uma casa em gosto de casa de campo, mas arranjada com todo requinte, magnífica, com um tom muito alegre, agradável. O moço em trajes-esporte de um bom gosto inglês perfeito, o quarto dele tendo na cabeceira [da cama] um rádio com o qual se podia comunicar com o mundo inteiro ainda que estivesse deitado.

Os senhores vêem que é levar todos os restos daquilo que para ele simbolizava o quebranto, levar isto para Campos de Jordão para ver se na estufa continuava mantendo esse ambiente.

Em que pese uma coisa ou outra, acabava acontecendo que a doença quebrava o quebranto. Havia horas de solidão, horas de medo da morte, e a morte tem uma mão que passa e puxa para longe do quebranto que é uma coisa horrorosa. E [são] essas horas de isolamento em que se quebra qualquer coisa, e em que há uma verdadeira cura do quebranto.

* A dor intensa e a vida no campo ajudam a cortar a ação do quebranto

Percebe-se que na conversão de Santo Inácio de Loyola qualquer coisa dessas entrou, e que ele era muito quebrantado de vida de corte, e foi quando aquele demônio pulou para fora dele que até rachou a parede, por causa daquelas longas estadias com dores. A dor tira muito o quebranto, sobretudo quando é uma dor que dói mesmo, porque há dor e dor, há uma dorzinha que se sente no joelho e coisa e tal, então estica-se a perna põe um ensopadinho ali, depois deitado mesmo joga bridge, fala no rádio etc., isso é uma coisa.

Outra é a dor aguda, cacete, prolongada, espichada e que volta, e que o sujeito acorda durante a noite etc., dor que o Cosmin sentiu numa operação das amígdalas a ponto de dizer depois “Todas as dores morais sim, dor física não quero mais nenhuma”, porque a dor moral dessa gente é dor de tango, não é dor moral, não é a dor física que tortura mesmo.

Fosse alguém serrar a perninha do Bravo que ele não se iba llorando por las calles… E doía mesmo, e está acabado. Ou então doença que humilha, por exemplo o sujeito que fica com um buraco no nariz, ah! Aqui é que a coisa é dura mesmo.

Bom, esta coisa quebra o quebranto, como também quebra o quebranto, por exemplo, vida na fazenda. Por quê?

Porque a fazenda tem uma espécie de “sem-gracez”, tem uma espécie de coisa parada, da boa natureza tão suportável e inteiramente sem delícias, que toma o quebranto e põe de cabeça para baixo.

Olha-se por exemplo uma tarde na fazenda. Agora é sábado são quase seis horas da tarde, os senhores podem estar imaginando a Fazenda Morro Alto, a candura daquelas montanhas, enormes e vazias, aquele gado andando um pouco de um lado para outro, aquele homem que passa e diz “tarde” para a gente e a gente diz boa tarde para ele, tudo é como a gente pode querer, tudo está segundo a nossa natureza ao nosso alcance.

Mas, que asfixiante falta de delícias, nada é delicioso, não se tem a sensação — porque a sensação é que é deliciosa — da notícia chegada a última hora, não se tem a sensação da gente que chega de São Paulo contando algo de novo, não se tem a sensação de muita gente conversando e criando um ambiente “quebrantoso”.

Pelo contrário é aquela calma, aquela pachorra, aquele bom senso, aquela lógica própria ao ambiente do campo, com tanto espaço para tudo, tempo para tudo, tudo quanto aqui é problema, lá não é.

O resultado é que a pessoa fica quase com saudades de fabricar os problemas de São Paulo, e com essa tendência para ver se mata assim um pouco as saudades dos problemas da cidade.

Agora imaginem uma pessoa que não possa vir às sextas e sábados, mas que fica por exemplo seis meses numa fazenda sozinho, e essa fazenda nos bordos do Mato Grosso.

E então ele começa a querer resmungar contra a fazenda:

Eu não posso com esse panorama!

Não, mas ele é lindo!

Está bem, então é a comida.

Não, também é muito boa.

Então é a cama.

Não, a cama é muito boa.

Então o que é que é?

Começa a dar uma espécie de claustrofobia, e sabem o que é a claustrofobia, é a claustrofobia do quebranto, é o peixe fora d’água, que quereria o quebranto e não tem o quebranto, e então fica todo tomado e todo dominado pela coisa. É o efeito do quebranto sobre a pessoa.

Bem, esse repouso num ambiente assim ou em outro qualquer do gênero, é, portanto, o contrário do quebranto.

* Um erro oposto ao quebranto: o desejo de querer organizar uma vidinha dentro da mediocridade

Os senhores me perguntarão: “No que consiste então o perigo da pensão-submarina aí?”

É uma coisa completamente diferente, é um perigo de outra ordem porque de tudo se pode abusar. É o perigo de levar então uma vidinha, dizer: “Eu agora vou levar uma vidinha, e eu vou fazer da coisa suportável e sem delícias uma coisa deliciosa”. E e é mais uma vez o procurar a delícia, é a vidinha do cônsul de Curitiba que tem seu automovelzinho, sua casinha etc., mas vivida então em tom de fazenda.

Como é que se vive isso?

Uns tipos assim, como o Sérgio Ribeiro que foi para Paris e não se habituou lá e teve de voltar, representou bem isto. E é um minguamento de alma por onde a pessoa não podendo ter as delícias da cidade, fecha a sua alma para tudo quanto é grande, fecha sua alma para tudo quanto é excepcional, e quer viver inteiramente na trivialidade e na mediocridade. É o oposto do quebranto, é uma coisa onde a la longue o demônio também pode entrar de outra maneira, mas que equivale à “pensão-submarina”, equivale ao modo pelo qual nós no Grupo queremos organizar a nossa vidinha.

Li outro dia uma coisa que um bispo contava ter visto em Lourdes, eu cito sempre os casos franceses porque só os franceses é que dizem as coisas, os outros não dizem nada.

Quando é que um espanhol ia contar esse caso, que ele passou por Lourdes e viu uma pensão assim intitulada “Gólgota”, “Gólgota” bem grande para atrair os peregrinos e em baixo escrito numa tabuleta “tout confort”.

É picante e diz inteiramente certas coisas. Isso pode ser portanto no Grupo: “Gólgota - tout confort”.

Quer dizer, aqui é Ordem de Cavalaria, nós estamos derrubando a Revolução, nós isso e aquilo, e por baixo o subtítulo: “tout confort”. Quer dizer “Gólgota” sim, está bem, mas na realidade das coisas “pensão submarina”.

Eu recortei esse caso de onde eu li e quero colocar na minha primeira palestra para o simpósio do grupo de (…) porque o Gólgota com todo conforto é a Sede do (…) e daquele confortinho que não é o nosso, é o conforto pequeno.

* Os dois modos do brasileiro deformar a vida de repouso

Algo disso se pode notar na alma brasileira?

Pode, e é o seguinte: o brasileiro tem dois modos de aproveitar, de deformar a vida de repouso. Um modo é o de virar índio e o outro é virar caipira.

Para exprimir o caipira, eu não encontro outra palavra senão a francesa malingre. Ele é tão malingre e tem tanto horror a ser forte, saudável, gostar de coisas bonitas, e afirmar a sua personalidade, que morando no alto de Campos de Jordão, ele arranja jeito de não engordar.

É o único gênero de homem que mora em Campos de Jordão e continua anêmico, com amarelão, não toma as doenças do frio, ele não tem nada a ver com aquele frio, é caipira completo, porque ele respira por protesto e de preguiça só com um quarto de pulmão. Isto é um modo de brasileiro ficar na vida de fazenda.

Então a vida de fazenda se torna sossegada e achinelada, naquele silêncio a gente ouve:

— “Fulaaano”.

Bem, afinal uma voz corta os espaços. Que cântico da glória de Deus vai ser?

Traga meu chinelo do pé “direeeito”. Aquele grande, meu pé “tá inchaaaado”.

Vem o negro velho que leva o chinelo; é o horror.

Bem, esta é uma forma. A outra é a forma de virar bárbaro, é como se o (…) ficasse caipira, virava caçador de onça, mas só quando a onça fosse tirar-lhe a vida, aí não tem remédio, aí faz-se a caçada da onça.

Bem, então é um selvagem “Junqueira” que corre, pula, é um mico.

Para o tipo caipira e mole é o bicho preguiça, para o selvagem e bruto é o orangotango. São as duas modalidades da coisa.

Bem, de uma é a Sede de fazenda esparramadona, com muito mais quartos do que gente.

Quem mora nesse quarto?

Ninguém, desde que a Lica morreu.

Do que é que morreu a Lica?

— “Tisca”

O que é “tisca”?

Ele não sabe que é tísica ou tuberculose.

Está bom, há quantos anos?

— “Ninguém mais entrô aqui desde qui a Lica morreu. Fiquemo tão triste. Só prá rezá no dia da morte dela.

É o toquinho de vela do ano anterior que eles acendem.

É o “tri-último” em matéria de amor de Deus, abaixo de toda crítica possível.

Agora, o outro modo é a Sede de fazenda “Junqueira”, em que se entra pela janela, cinqüenta primos que se chamam, depois montam a cavalo e se tem a impressão de uma horda de bárbaros que vai, não vão em nenhum lugar, é de idiotice.

Aquilo é de pura exuberância nervosa, sem nenhum sentido, desaforos de uns para os outros, brigam entre si, comem apressadamente, comida de “Junqueira” é agressiva, o tempo inteiro um está para dizer um desaforo para o outro, e o desaforo é sempre saber quem é o mais efeminado, mais musculoso. E no meio de mentiras, cada um conta a proeza e a aventura maior.

Naturalmente ordem para nada, todas as salas são quarto de dormir, porque tem objeto de “Junqueira” por toda parte, objetos da sala no quarto, um vaso para pesa-papéis no quarto, depois leva os papéis e fica lá o vaso durante um ano, no meio da desordem completa. E há uma efervescência comum a qual efervescência “Junqueirosa” tem qualquer coisa de visgo do demônio, e é o prolongamento do visgo do demônio dentro da vida de fazenda.

Os senhores vêem bem então o que é que o repouso tem de ver com o cetro do demônio. Eu exemplifiquei com a vida de fazenda porque é o arqui-repouso e a forma de repouso que aqui existe, mas os senhores já têm também alguma coisa de vida de fazenda considerada em função do cetro do demônio.

Há outros modos do cetro do demônio entrar na vida da fazenda?

* Duas maneiras de viver uma vida mundana na fazenda

Há. Há o cetro do demônio consistente no “Junqueirismo”, a caipirice não é cetro do demônio. É outra coisa. Se for demônio é outro demônio, não nos ocupemos com isto, mas há um outro modo: é a fazenda mundana.

Há um modo da fazenda ser mundana em que ela é para quem está dentro como a casa bem arranjada daquele tuberculoso de Campos do Jordão era para o tuberculoso. É uma fazenda que é feita para que um mundano aparecendo lá fique babado e então dê a gente o sacramento de cetro do demônio: “Ah! que fazenda linda!”

Há dois modos de considerar isto: há um modo do meu tempo e há do tempo dos senhores.

No do meu tempo a fazenda “cetro do demônio” é preciso antes de tudo ter uma sede muito bonita, e uma coisa que era nota de mau gosto do meu tempo, precisava ser uma sede com uma nota afrancesada, que acho que não vai com o nosso interior, e que não está bem, depois um lindo jardim, esportes inteiramente equipados à maneira do mundanismo, entre estes esportes naturalmente a equitação ocupando um grande lugar, um modo de apresentar as árvores, a agricultura meio a la cetro do demônio também, isto é, as árvores ainda que não houvessem formigas todas pintadas de branco na base. Era o modo de usar luvas, era agricultura com luvas e que ficava bem porque dava uma idéia de limpo e de propriedade rural do Duc de La Rochefoucauld e que ficava uma beleza.

Por fim, se a fazenda dava para isso, também uma certa produtividade. Então sob pretexto de levar os convidados para passearem de decovile, de fato levava para ver o tamanho da fazenda. E então entrava uma garganteação de que é rico, mas a pessoa deveria dar a entender que era rica não tanto mostrando, mas através do luxo que tinha porque o modo de mostrar riqueza não era crédito bancário, mas era o luxo. Quando tinha luxo se presumia riqueza e era, portanto, uma riqueza de nobre, pessoa fina, isso é que interessava.

Em sentido contrário, na época dos senhores me parece que a primeira coisa da fazenda é mostrar que é bem administrada, bem gerida, e que ela dá bem, até não precisa ser muito rica.

Ter por exemplo grandes terras inaproveitadas não é bonito, mas ter uma terra pequena mas tratada a la grão ducado do Luxemburgo, em que cada palmo foi aproveitado. Coisa linda é dizer: “Bem naquele cantinho ali um técnico que eu mandei vir me ensinou o plantio de um repolho azul que dá um dinheirão vendido lá para o hotel Copacabana. É só esse pedacinho, você quer ver?”

Isto é lindo, aproveitou até aquela nesga de terra, tem de ter contabilidade e outros serviços perfeitamente em ordem, tem de ter assistência social, colono bem tratado, tratado de longe um pouco assim, mas bem tratado, colônia lo que se dice colônia.

Bem, a sede tem de ter algumas coisas perfeitamente bem, por exemplo, encanamentos que cantam durante a noite jamais, horrível para este mundanismo qualquer concessão em matéria de encanamentos, mas não precisa ter sala muito bonita, conforto, terrações, comidona e um ambiente de um fazendeiro que não fica muito na sede e que nem mora muito lá, não é mais a sede delícia, mas a sede conforto.

É como eu imagino o mundanismo no tempo dos senhores.

Não sei se é bem assim?

Os senhores não são mundanos, mas são agricultores, de modo que talvez possam informar melhor a coisa como é.

Este é um modo de ter um mundanismo vicário na fazenda, que representa um mundanismo de segunda água, que quer dizer: “Eu não sou mundano, eu não trago para cá ninguém mundano, mas se um mundano viesse aqui, como ficaria estatelado!”

Então, eu tenho uma espécie de telecomunicação com o mundanismo através daquela vivência mundana, e seria um modo de mundanizar a fazenda.

Então mundanismo e vida de fazenda, quebranto e repouso, estão tratados.

* Esquema da reunião

E dou agora um esquema de tudo que disse:

Tratei de dois temas e passei naturalmente de um tema para outro.

O primeiro tema foi o “cetro do demônio e o repouso” e tratei mostrando o que ele é, que ele tem seu domínio no instinto de sociabilidade.

Dei vários exemplos e considerações e depois passei para a tese de que o repouso sendo uma dormiência do instinto de sociabilidade, o repouso por causa disso mesmo é um elemento negativo do cetro do demônio.

Mostrei depois — e com exemplo na fazenda porque é um lugar e um modo excelente de praticar o repouso — passei para a segunda parte do assunto e mostrei qual é a vida de “submarino” na vida de fazenda e qual pode ser o cetro do demônio, o “Junqueirismo” de um lado sendo o cetro do demônio e de outro lado o prosaísmo caipira.

Tratei de outras formas além do “Junqueirismo”, que era a fazenda mundana do meu tempo e do tempo dos senhores, e com isto está encerrado o assunto.

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1 Estava como “Reunião de sábado”. Nos Sábados à tarde eram realizadas reuniões para os membros do Grupo da Rua Martim Francisco, na Sala dos fundos da mesma sede; e, no domingo, para os membros da Pará, na Sede do Reino de Maria, da rua Pará.