Santo do Dia – 19/10/1965 – p. 4 de 4

Santo do Dia — 19/10/1965 — 3ª-feira

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São Pedro de Alcântara nos mostra a necessidade da penitência; a finalidade da vida não é o prazer; procurar só o prazer torna a vida insuportável; alguns vícios modernos: fumo, cinema.

* Penitência e impenitência * Finalidade da vida * A vida não foi dada para o prazer * Quem só procura o prazer, leva vida desagradabilíssima * Deixar de fumar * Vício do cinema

São Pedro de Alcântara

Hoje é festa de São Pedro de Alcântara, Padroeiro principal do Brasil, padroeiro também de nossa Família Imperial, franciscano, século XVI. A respeito de São Pedro de Alcântara. Dom. Guéranger comenta:

Se todos Santos são admiráveis nem todos são imitáveis. De bom grado nós repetiremos com os companheiros de Santa Tereza que o mundo não é mais capaz de uma tal perfeição. E que as saúdes estão por demais abaladas para pretender a ela. Entretanto o Evangelho que é eterno contém conselhos que são sempre oportunos e nos rediz: ”Se vós não fizerdes penitência vós perecereis todos.” Fazendo eco ao Seu Divino Filho, Nossa Senhora em suas mensagens na terra, sobretudo depois de um século, se comprove em dizer as mesmas palavras:”Penitência, penitência, penitência”. Bernadette em Lourdes, e depois os felizes videntes de Fátima transmitiram a mensagem celeste e esses últimos o explicaram muito recentemente. Não será sem interessa saber exatamente o que o Senhor espera para nos perdoar e para desviar do mundo os castigos por demais merecidos por pecados tão numerosos e graves. Deus deseja grandemente a volta à paz. Mas Ele está penalizado de ver um tão pequeno número de almas em estado de Graça e dispostos a renunciar a tudo o que Ele pede e aderir à sua lei. E é precisamente a penitência que Deus exige agora, é o sacrifício que cada qual se impõe para viver uma vida justa em conformidade com sua lei.

* Penitência e impenitência

Essas considerações sobre a penitência vêm exatamente porque São Pedro Alcântara é um santo extraordinariamente penitente. E então Dom Guéranger achou oportuno fazer aqui algumas considerações sobre a penitência. É preciso dizer o seguinte: que essas considerações sobre a penitência são muito verdadeiras e marcam, elas deitam seu ponto de incisão na seguinte coisa fundamental: a definição do homem impenitente comporta dois graus: há um tipo de homem impenitente que é impenitente porque ele acha que ele deve gozar a vida e está nesta vida só para gozar. Não se preocupa com mais nada. Então para ele a virtude e todas as dificuldades que a virtude trás consigo para ele, ele não quer aceitar, portanto, ele recusa toda e qualquer forma de penitência. Isto é uma primeira modalidade de impenitente.

Mas há uma segunda modalidade de impenitência que é igualmente contrario a nossa vocação, e por ser uma modalidade que vem disfarçada com aspecto de virtude ela mais facilmente nos ilude. E é a seguinte idéia: Não, os sofrimentos necessários para não pecar eu quero. Mas nem um outro sofrimento. Quanto ao mais eu quero gozar inteiramente minha vida. E tenho direito de gozar minha vida. Porque minha vida me foi dada para ser gozada. De maneira que apostolado eu faço na medida em que eu não achar muito desagradável, enquanto eu queria; porque não é obrigatório para mim porque eu sou leigo. E esforços de qualquer natureza desagradável eu não faço por que não são necessários para mim. Eu me limito a não fazer pecado. Quanto ao mais eu vivo completamente folgado.

* Finalidade da vida

Que tem esta impressão na maior parte dos casos e na grande maioria dos casos não se mantém fora do pecado. E acaba por sua vez caindo no pecado. Porque há um desvio completo da idéia da finalidade nesta vida. A finalidade desta vida não foi dada ou não consiste em que nós apenas gozemos dentro dos limites da virtude. A vida nos foi dada para conhecer, amar e servir a Deus neste mundo. E entre os serviços que nós podemos prestar a Deus, um dos mais insignes sobretudo em nossa época, é lutar por ele. Servir, amar em toda medida do possível. Para isso é que nós existimos.

* A vida não foi dada para o prazer

E, sobretudo para isso é que nós recebemos a admirável vocação para o grupo de Catolicismo. Quer dizer a vida não foi dada para o prazer. A vida foi dada para o heroísmo. A vida foi dada para a luta. E nós devemos considerar um ou outro prazer que nós nos proporcionemos apenas por uma coisa transitória, para descansar e para recomeçar a luta. E a prova que nós temos de que o prazer é bom ou de que ele é mau é exatamente julgando de acordo com este critério: se eu tenho um prazer terminado o que eu estou mais disposto à luta, a seriedade, a mortificação, esse prazer é bom. Se pelo contrario terminado o prazer eu estou mais mole ou estou menos desejoso de seriedade de coisas elevadas, então esse prazer é ruim. Porque todo prazer não é senão um interstício para nós servimos melhor a Nossa Senhora. Todo descanso não [é] senão um interstício para servirmos melhor a Nossa Senhora. Mas como filhos da Igreja Militante nossa finalidade é de lutarmos a vida inteira. E de agüentarmos todas as aridezes e todas as dificuldades da vida militante.

Os senhores imaginem um soldado que esteja sentado na trincheira num momento de intervalo de luta, vamos dizer, num armistício de Natal, olhando para o campo: “Que bonito esse campo, que lugar pitoresco, onde foi aberta essa trincheira, etc”. Alguém diz para ele: “Fulano, vem cá, você tem que se preparar para a luta amanhã”.

Ah, eu não. Eu estou aqui por piquenique. Tudo quanto não foi desertar do inimigo e trair em favor do inimigo eu faço. Esse negócio de andar para frente de passar o dia inteiro lutando, não. Eu cumpro o meu dever mínimo de soldado. Eu não entrego uma palma de território nacional.

Com um homem desse se perdem todas as guerras.

* Quem só procura o prazer, leva vida desagradabilíssima

Agora, nós somos soldados da Igreja Militante, e nós somos soldados, sobretudo de Nossa Senhora nas fileiras do Catolicismo. Nós devemos ter em mente que a vida não nos foi dada para o prazer. A vida nos foi dada para o dever. Agora acontece uma coisa. Os senhores se crêem que é bem verdade. Aqueles que querem levar uma vida dada para o prazer acabam levando uma vida desagradabilíssima. Não [há] coisa pior do que a vida empregada para o prazer. E esse prazer terreno, sobretudo quando ele é um prazer imoral, não passa de uma mentira. Nos primeiros momentos, nos primeiros períodos dá uma satisfação pseudo-inebriante. E depois acabou-se. Não resta mais nada.

Pelo contrario, a vida vivida no dever, esta vida dá alegria de alma que já nesta terra constitue o cêntuplo que agente deve procurar. A respeito de todos os prazeres ruins eu li outro dia um dito de uma senhora francesa. Eu adapto um pouco o dito, não é bem assim, a respeito de grandes cidades modernas. Então perguntaram a ela se as grandes cidades modernas não dão prazer. Diz ela: “De nem um modo. O efeito das grandes cidades modernas, o único efeito é: a gente se sente infeliz nas grandes cidades modernas, e as grandes cidades modernas nos fazem sentir infeliz nas pequenas cidades.”

* Deixar de fumar

É bem isso. E não passa disso. Está dito nesta concisão francesa, e não sobra mais nada. Está descascado o caso. Tudo quanto é vicio é assim. Eu me lembro que quando eu era mocinho, eu não pertencia ainda a um movimento católico, infelizmente, pelos 25 anos mais ou menos, eu fumava desbragadamente. Uma das coisas que me dava mais ódio, é que no fim eu não encontrava mais prazer em fumar. O prazer de fumar para mim era fazer cessar o desprazer que eu tinha em não fumar. De maneira que eu olhava os outros em torno de mim, e eu dizia: “Estes podem ficar satisfeitos e olha a cara deles como estão satisfeitos sem estar chupando “maconha” continuamente. Eu miseravelmente, não. Para sentir bem-estar preciso estar tabulando “maconha” continuamente”.

Meus caros fumantes não me levem a mal, mas tenham a certeza de que o que eu estou dizendo é a pura verdade. Bem, tudo quanto é coisa que não está bem é do tipo desse gênero. Cinema, os senhores conversem com gente que está habituada a ir constantemente ao cinema. Sabe o que acontece? O cinema não os diverte, mas eles não podem divertir-se sem ir ao cinema. De maneira que eles ficam “cinemando”, não podem fazer outra coisa.

* Vício do cinema

O Professor Furquim me comentou de um colega dele, vagamente colega meu também, na Universidade Católica, cujo domingo é: vai ao cinema, sai, vai outro, sai… até à noite, a noite terminou o domingo, está acabado. Nós conhecemos um líder ultramontano europeu que me parece também que infelizmente tem esse péssimo costume, dois cinemas num dia. Agora os senhores pensam que o pessoal acha agradável o cinema? Não, porque acha desagradável não estar “cinemando”. A gente pergunta: “Gostou do cinema?” Pergunte para qualquer sujeito que esteja calejado no cinema. Mocinha boba que vai pela primeira vez no cinema, não. Ih… Mas pegue uns três ou quatro elementos de cinema. “Gostou do cinema?” “A qual! Estava lindo!” Mas um “lindo” gélido. “A tal fita estava boa?” “Esplendido!” Mas é um “esplendido” assim; está compreendendo. É a mesma coisa que perguntar para um fulano que detesta cidade grande: “Que tal é a avenida principal da cidade grande?” O sujeito diz: “Que linda!” Mas no fundo sente mal da cidade pequena, quer dizer ele corre em toda uma concatenação de desgraça, isto e o efeito da im…

Isto são considerações que devemos ter, pedindo a Pedro Alcântara que nos dê aquele senso de mortificação, sem o qual a gente não pode ter o desejo nem das coisas espirituais religiosas nesta terra, nem das coisas celestes, que são prefiguradas nesta terra pelas coisas espirituais e religiosas.

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