Santo do Dia (Rua Pará) – 15/10/1965 – 6ª feira [SD 143] – p. 7 de 7

Santo do Dia (Rua Pará) — 15/10/1965 — 6ª feira [SD 143]

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Santa Teresa conheceu a provação de se ver condenada e rejeitada em nome e pela autoridade do Vigário do Esposo, como predito no Apocalipse: foi dado à besta fazer guerra aos santos e de os vencer * Santa Teresa, depois de viver vários anos como religiosa carmelita em conventos relaxados, foi tocada pela Graça e iniciou a reforma na Ordem * A reforma teresiana, que deveria encontrar o entusiasmo universal, enfrentou uma oposição tremenda até mesmo das autoridades eclesiásticas, inclusive de Roma * Santa Teresa apelou para Felipe II, Rei da Espanha, o qual interferiu junto ao Núncio Apostólico, que evitou o destroçamento da Ordem do Carmo * Um comentário sobre a frase célebre de Felipe II sobre a aparente derrota da Invencível Armada: “Eu mandei minha esquadra combater homens; ela foi derrotada por elementos” * O Sr. Dr. Plinio demonstra concordar com a impressão de Santa Teresa a respeito de Felipe II: um santo * Longe de considerar Felipe II como um derrotado, é ele um vencedor para todos os séculos, só pelo fato de ter evitado que a reforma teresiana fosse destruída * O Soneto a Cristo Crucificado, de autoria de Santa Teresa: uma verdadeira maravilha * Só se ama verdadeiramente uma doutrina quando se ama todos os paradoxos a que tal doutrina pode se prestar * As reflexões de Santa Teresa aplicam-se atualmente à Santa Igreja Católica que está chagada, ferida, crucificada, que só não morrerá porque é imortal

Eu vejo que por uma coincidência feliz é uma santa de língua espanhola que se comemora hoje: Santa Teresa de Ávila.

* Santa Teresa conheceu a provação de se ver condenada e rejeitada em nome e pela autoridade do Vigário do Esposo, como predito no Apocalipse: foi dado à besta fazer guerra aos santos e de os vencer

Diz o comentário de D. Guéranger:

Teresa sofreu toda a espécie de privações. Mas sofreu uma privação pior do que as privações humanas. Um dia Deus pareceu faltar-lhe. Como antes dela São Felipe Venício, como depois dela São José Calazans e Santo Afonso de Ligório, ela conheceu a provação de se ver condenada, rejeitada, ela e suas filhas e seus filhos em nome e pela autoridade do Vigário do Esposo. Era um desses dias preditos desde há muito “onde foi dado à besta de fazer guerra aos Santos e de os vencer”.

O espaço nos falta para contar esses incidentes dolorosos. Para quê contá-los? A besta não tem nesses casos senão um modo de proceder que ela repete no décimo século, no décimo-oitavo século, e sempre.

Ele escreveu no décimo-nono, nós já podemos falar no “décimo-vigésimo”

Como também a besta tem sempre o mesmo objetivo, Deus também tem permitindo o mesmo objetivo, que é de conduzir os seus a este alto grau de união crucificante com Aquele que quis ser o primeiro a saborear a amargura desta borra de vinagre, e que pôde dizer dolorosamente mais do que ninguém: “Meu Deus, meu Deus, por que Vós me abandonastes?”

* Santa Teresa, depois de viver vários anos como religiosa carmelita em conventos relaxados, foi tocada pela Graça e iniciou a reforma na Ordem

Realmente é com palavras muito eloqüentes que D. Guéranger conta aqui o martírio de Santa Teresa.

Os senhores sabem que ela era carmelita calçada, quer dizer, do ramo de carmelita de que nós somos terceiros, e quis fazer uma reforma da Ordem do Carmo, reforma esta que tinha em vista precisamente a restauração de um espírito de mortificação e de penitência que há muitos séculos se tinha acabado. Papas anteriores sucessivamente vinham dando mitigações e mitigações, que os conventos da Ordem do Carmo estavam transformados em verdadeiras pensões. As carmelitas passavam fora o tempo que queriam, voltavam quando entendiam. No Carmo, durante o dia no claustro, se ouviam canções, dessas canções tocadas por guitarra, que eram as canções amorosas, muito freqüentes na Espanha daquele tempo. As monjas recebiam visitas em quantidade, a comida era regalada, a obediência era nula, do espírito verdadeiramente de Santo Elias não restava mais nada.

Então, depois de anos de relaxamento, como religiosa ela resolveu — tocada pela Graça — emendar-se e resolveu então iniciar a reforma teresiana, constituindo mosteiros carmelitas verdadeiramente observantes e austeros.

* A reforma teresiana, que deveria encontrar o entusiasmo universal, enfrentou uma oposição tremenda até mesmo das autoridades eclesiásticas, inclusive de Roma

Essa obra, que deveria encontrar o entusiasmo universal, encontrou uma oposição tremenda. Todo o Inferno moveu-se contra ela, o que quer dizer que de parte da Terra se moveu também, porque grande parte da Terra está sob a direção do Inferno. E entre outros elementos que contra ela se moveram, foram as carmelitas calçadas irmãs dela, os carmelitas calçados irmãos dela, além das carmelitas e dos carmelitas moveram-se também outras autoridades eclesiásticas e, por fim, até Roma. E houve um determinado momento em que já estava muito adiantada a obra da reforma teresiana, já estavam fundados os carmelitas descalços, ela já tinha muitos conventos, quando chegou um decreto de Roma emanado através do Padre Geral dando ordem para dissolver a reforma dela, e obrigar todas as religiosas dela a voltarem para as casas relaxadas.

Era uma vitória do relaxamento contra a observância, era uma vitória da moleza contra o zelo, para falarmos em termo moderno era uma vitória da democracia-cristã sobre o ultramontanismo.

Isto foi uma coisa tremenda. E foi um dos piores dias da vida dela.

* Santa Teresa apelou para Felipe II, Rei da Espanha, o qual interferiu junto ao Núncio Apostólico, que evitou o destroçamento da Ordem do Carmo

Ela rezou tremendamente e passou cartas para toda a Espanha pedindo para agir. E entre estas cartas, foi uma para o Felipe II, que ela chamava “nuestro Santo Rey Felipe”. E Felipe II mandou chamar o Núncio Apostólico para perguntar o que era aquilo.

Felipe II, personagem sumamente intimidador… ele metia tanto medo (é uma glória isso, uma das maiores glórias de um varão é meter medo; o Ben Karne acha que é ser simpático, eu acho precisamente o contrário), que em geral quando as pessoas entravam na saleta do Escorial onde ele trabalhava, ele era obrigado a dizer “sosegaos”, porque a pessoa ficava toda assustada.

Contam os memorialistas — os senhores vão ficar muito surpresos com o que eu vou dizer, mas são as verdades implacáveis da História — que o Núncio também teve medo. Deu a paura peninsular nele, e ele concordou com tudo quanto Felipe II queria. E com isso Felipe II evitou a derrocada da Ordem de Santa Teresa.

Esse encontro de dois grandes personagens, Felipe II e Santa Teresa, Santa Teresa apelando para Felipe II, como um “heresia branca” ficaria nodoso com isso, apelar para o Rei para o Rei intimidar o Núncio Apostólico! O “heresia branca” nessa hora, coisa pavorosa…

Então Felipe II que chama o Núncio e que detém o destroçamento da Ordem do Carmo, dando origem portanto a um dos fatores… permitindo que se desenvolvesse um dos fatores mais ativos da Contra-Reforma, e que viesse daí todo o rio de glórias para a Igreja que veio com a existência do Carmo reformado, e basta dar o nome de Santa Teresinha do Menino Jesus para não ter que dizer mais nada, tudo isso apostolado de Felipe II, nos faz ver assim desses encontros de pessoas extraordinárias da história da Igreja, que dão impressão de constelações no céu do firmamento da Igreja.

* Um comentário sobre a frase célebre de Felipe II sobre a aparente derrota da Invencível Armada: “Eu mandei minha esquadra combater homens; ela foi derrotada por elementos”

Eu não posso deixar de fazer este comentário:

Costumam historiadores revolucionários, sem nenhuma forma de imparcialidade, tratar da Invencível Armada como sendo o fracasso de Felipe II. Quando a Invencível Armada foi vencida, Felipe II teve um comentário só. Esse comentário é sublime, e os historiadores revolucionários não compreendem esse comentário. Para não dizer que ele não tinha sido derrotado, ele só teve essa frase: “Eu mandei minha esquadra combater homens; ela foi derrotada por elementos”.

Quer dizer, não houve derrota. Foi uma coisa que Deus permitiu para castigo da Inglaterra, mas foi muito bem feita.

Ele tinha essas frases extraordinárias. Quando vieram anunciar a ele a Batalha de Lepanto, ele estava rezando. Contaram a coisa toda para ele, e ele para indicar o domínio, a distância psíquica que ele guardava, ele teve esse comentário apenas: “Que grande perigo correu Don Juan”. Mais nada.

Quer dizer, soberania sobre si mesmo, uma coisa fabulosa, não é? É um grande homem.

* O Sr. Dr. Plinio demonstra concordar com a impressão de Santa Teresa a respeito de Felipe II: um santo

Bem, Santa Teresa dizia mais: dizia que ele era santo. Ninguém pode me proibir de dizer isto também.

Eu gostaria muito de ter um busto de Felipe II que eu vi numa escada do Escorial. Escada do Escorial não, do pátio. Eu nunca vi nada que parecesse, que tivesse mais physique du rôle de Felipe II, um busto de mármore muito bem tomado desta altura assim, com a cabeça de Felipe II, mas como não se vê em nenhuma fotografia nem nada. É uma dessas cabeças…

Uma das glórias de um homem — eu posso dizer porque eu não tenho isso — é ter uma forma de cabeça expressiva. Há homens cuja forma de cabeça já diz tudo. Assim era Felipe II: aquilo era honestidade e obstinação. Depois, uma cara com olhar olhando assim, parecendo dizer “sosegaos” nos lábios, enquanto o olhar tirava todo o sossego.

Eu sei que em nenhum museu do mundo se vende nada. Eu tive a fraqueza de perguntar qual era o preço desse … [inaudível]. O guardião:

Não, senhor … [inaudível].

Pensei: “Uma miniatura de Felipe II, é melhor não brigar com ele”, e abaixei imediatamente as minhas exigências, as minhas esperanças.

* Longe de considerar Felipe II como um derrotado, é ele um vencedor para todos os séculos, só pelo fato de ter evitado que a reforma teresiana fosse destruída

Enfim, em suma aí está, de passagem, a figura de Felipe II, e é bom enquadrá-la ou fazê-la ver na luz de Santa Teresa de Jesus.

Eu falava da Invencível Armada.

Então apresentam-no como um rei derrotado. Um rei que simplesmente tivesse evitado que a reforma teresiana fosse destruída já seria um rei vencedor para todos os séculos, simplesmente por este fato. Porque isso vale muito mais do que dominar a Inglaterra. É ter uma Ordem de Contemplativos verdadeiramente penitentes, que rezam verdadeiramente, e que são pára-raios de Deus para evitar os castigos que caem na Terra. Isto vale muito mais do que a Invencível Armada.

* O Soneto a Cristo Crucificado, de autoria de Santa Teresa: uma verdadeira maravilha

Alguém me pôs aqui a poesia que exprime tão bem a alma de Santa Teresa de Jesus (foi a sessão de documentação histórica) que é aquela famosa poesia dela “Soneto a Cristo Crucificado”. Eu não ouso ler isto aqui porque tem argentinos presentes e minha pronúncia é para além de infame. Quem sabe se um dos argentinos…

Clause, você não quer ler isto aqui, alto? E assim nós podemos…

No me mueve mi Dios a quererte el cielo que me tiene prometido

Ni me mueve el infierno tan temido para deixar por esto de ofenderte

Me mueve, Señor… verte clavado numa Cruz escarnecido

Mueveme tu cuerpo tan herido

Mueveme tus afrontas e tu muerte

Mueveme así tu amor en tal manera, que aunque no hubiera Cielo yo te amara e aunque no hubiera inferno te temera.

No me tienes criado por que te quiera, púes aunque espera no esperara lo mismo que te quiero te quisiera.

Eu acho que os senhores todos entenderam: é uma verdadeira maravilha.

Gostaria de acentuar a dinâmica do soneto.

É um soneto antidemocracia-cristã e antiecumênico a mais não poder. Porque é um soneto que começa com um requinte, começa dizendo uma coisa que espanta e que caminha depois de espanto em espanto até o sumo do espanto, deixando basbaque o tonto que não tem espírito sobrenatural, o que é uma das belezas do espírito espanhol.

Senhores, vejam, eu comento em português a coisa assim:

Não me move, meu Deus, para querer-te o Céu que me tens prometido

Não me move o Inferno tão temido para deixar por isso de ofender-te

O burguês bobo que lê isso aí, diz assim: “Mas como? Eu exatamente tenho medo de ofender-te por causa do Inferno, eu te amo por causa do Céu, e este soneto começa a dizer que não é isso que me move”. Quer dizer, já é uma afronta ao espírito tímido, vulgar, ordinário. Já começa a vencê-lo.

Depois continua:

Tu me moves, Senhor

Move-me o ver-te cravado na Cruz, escarnecido

Quer dizer, então: esse soneto é o esbofeteamento do egoísta. Para o tipo egoísta diz: “Bom, o que me move a mim para amar-te chagado, escarnecido? Então eu não amo a nada? Eu não te amo por vantagem minha? Eu tenho que te amar neste estado de humilhação?”. É uma segunda afronta, mas é uma segunda vitória do amor, é um segundo hino de adoração.

Depois continua:

Move-me ver teu corpo tão ferido

Move-me tuas afrontas e tua sorte

Quer dizer, acaba então falando da morte. É o ferido, é o machucado, é o arruinado, é o morto… Eu não faço questão de ouro, não faço questão de prata, não faço questão de glória, eu não faço questão de glória, eu não faço questão de nada, vou dizer mais: nem do Céu eu faço questão, nem do Inferno, como elemento determinante único do meu amor, ou como elemento principal do meu amor. Como elemento colateral sim, como elemento principal não. Principal para amar é aquilo de que todos os homens têm horror: escárnio, feridas, sangue e morte. É isso que eu amo-te.

Senhores, estão vendo como vai subindo, e o paradoxo como vai ganhando altura? E toda a audácia da alma cristã, da verdadeira alma católica como se faz sentir aí. Ele continua… ela continua (a gente diz “ele” subconscientemente, tão másculo é isso):

Move-me por fim teu amor

E de tal maneira, que ainda que não tivesse Céu eu te amaria, e ainda que não houvesse inferno eu te temeria.

Isso é magnífico, é uma espécie de réplica, confirma, é um arrebite no paradoxo inicial. A gente vê que a pessoa fica assim meio tonta e diz: “Bem, está bom, então eu fico sabendo: ainda que não houvesse Céu eu te amaria, ainda que não houvesse Inferno eu te temeria. E isto por causa das tuas chagas, etc.”.

É uma beleza como audácia, não é isto?

Não me tens que dar para que eu te queira, pois ainda que eu não esperasse o mesmo que eu te quero, eu te quereria.

* Só se ama verdadeiramente uma doutrina quando se ama todos os paradoxos a que tal doutrina pode se prestar

Isso é o ponto final, diz o último, não é?

Pode dar-me, eu aceito, eu espero teus dons, eu os quero, mas ainda que não désseis eu te quereria. Quer dizer, é o amor puro, na sua manifestação mais desinteressada, mais grandiosa, mais cavalheiresca, enfim, mais sobrenatural e mais admirável.

A gente sente aí a alma católica fervendo, tão diferente desse ecumenismo aguado, dessas concessões, deste “amor ao bom senso”. A gente só ama verdadeiramente uma doutrina quando a gente ama todos os paradoxos a que esta doutrina pode se prestar. A gente ama as formulações mais excessivas e mais estridentes dessa doutrina, e a gente ama mais do que todas as outras.

É assim que a gente ama qualquer coisa. E não é com essa espécie de endeusamento idiota… Idiota não, pior: traidor, de um “bom senso” assim mais ou menos de encomenda.

* As reflexões de Santa Teresa aplicam-se atualmente à Santa Igreja Católica que está chagada, ferida, crucificada, que só não morrerá porque é imortal

É bom nesta hora triste da Igreja que nós estamos atravessando, nós considerarmos que estas reflexões, estas palavras, se aplicam também à Santa Igreja Católica. A Santa Igreja Católica está chagada, a Santa Igreja Católica está ferida, a Santa Igreja Católica está crucificada, e ela só não morrerá porque Ela é imortal. Porque todas as razões de morte nesse momento coincidem nEla.

Então, tomando o Corpo Místico de Cristo, que é um outro Jesus Cristo, nós podemos dizer também para a Igreja Católica: “Não me move, ó Santa Igreja, para querer-te, o Céu que tu me prometeste. Nem me move o Inferno tão temido para deixar por isto de ofender-te”.

Realmente, a Santa Igreja Católica nós não devemos ofender, nem é por amor ao Céu, nem só por medo do Inferno, mas por um amor gratuito, filial, tão amoroso que tem fibras de adoração pelo meio à Santa Igreja Católica como instituição.

Depois continua: “Tu me moves, ó Santa Igreja. Move-me o ver-te cravada em uma Cruz, escarnecida. Move-me o ver-te teu corpo tão ferido. Move-me tuas afrontas e tua aparente morte. Move-me, por fim, o teu amor e de tal maneira que — e isto é bem verdade — nós em relação à Igreja Católica ainda que não houvesse o Céu nós amaríamos a Santa Igreja Católica, ainda que não houvesse Inferno nós a temeríamos. Não me tens que dar para que eu te queira, pois ainda que o que eu espero não esperasse do mesmo modo, ó Santa Igreja, eu te quereria”.

São esses os sentimentos em relação à Santa Igreja que nós devemos ter nos dias tristes… Vamos com isso consagrar nossas orações de hoje ao grupo de “Catolicismo” em Buenos Aires.

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