Reunião Normal – 18/9/65 – Sábado – Martim Francisco . 10 de 10

Reunião para o Grupo da Martim 1 (Sala dos fundos da Martim Francisco) — 18/9/65 — Sábado — Martim Francisco

Nome anterior do arquivo: 650918--Reuniao_Grupo_da_Martim_Sabado__b.doc

O cetro de fumaça é uma ilusão que o demônio dá de um gosto de estarem todos sentindo-se um só em torno de um ponto que ele indica e que é um deperecimento igualitário e sucessivo de todas as coisas * Na marcha das artes, da literatura, das expressões de cultura, de maneiras, etc., da Revolução para cá, há um caminhar para o nada em que os homens sacrificam seus melhores interesses * Um aprofundamento: qual é o papel do Fundador neste quebranto que se deita sobre as pessoas? * Descrição do processo de deglutição que este visgo do demônio, este quebranto, deita nas pessoas que se deixam arrastar por ele * Descrição das horas de eclipse do quebranto em que algo de toda a ordem natural sobe * O cetro de Nossa Senhora é um cetro todo feito de realidade objetiva, de verdade, de bem, todo feito de saúde, todo feito de toda espécie de apetência para a graça * Em cada membro do Grupo as energias que simpatizam com a Revolução não só são participação do quebranto, mas diminuem a força exorcística do Grupo * A nossa grande arma é nossa “incontaminabilidade” virginal, a nossa intransigência, nosso ódio radical e total * O que o Grupo tem de novo e que nós sentimos, é uma participação concreta dessa incontaminação e dessa intransigência de Nossa Senhora

* O cetro de fumaça é uma ilusão do demônio que dá um gosto de estarem todos sentindo-se um só em torno de um ponto que é o deperecimento igualitário e sucessivo de todas as coisas

A respeito do quebranto, os senhores se lembram que nós tínhamos dito que era uma coisa ligada com a doutrina do cetro de fumaça. O cetro de fumaça era uma certa ilusão que o demônio dava a um número enorme de pessoas e que era um gosto de estarem todos de acordo e todos sentindo-se um só em torno de um ponto que era o ponto que ele indicava e que era essa espécie de deperecimento igualitário e sucessivo de todas as coisas. Esse caminho para o vazio, esse caminho para o nada é a nota característica da civilização moderna. Quer dizer, esse despojar sucessivo por onde toda a ordem do ser, sendo detestada por aqueles que estão debaixo da ação dele, cada vez mais se debilitava a ordem do ser.

E então, cada vez mais se caminhava para o nada absoluto, para o nada total por meio da anarquia, por meio da subversão de todos os valores e por meio de uma igualdade a qual realizada completamente equivale uma expressão do nada, equivale a uma espécie de realização de nada.

Para fazer dos homens que têm muito abandonarem o que têm e loucamente correrem atrás de um nada que é nada, o tal visgo dele, a tal eletricidade dele, o tal encanto que ele põe no fundo das almas e que leva as almas após a ele, vinha uma coisa dessas e todas como que gostando de sugar o fluido que ele poria. E todos se poriam a uma atrás da lição que ele desse, que era uma lição de simplificação completa.

* Na marcha das artes, da literatura, das expressões de cultura, de maneiras, etc., da Revolução para cá, há um caminhar para o nada em que os homens sacrificam seus melhores interesses

Então, quando nós seguimos a marcha das artes, a marcha da literatura, a marcha de todas as expressões de cultura, de maneiras, de civilização nos últimos cem anos ou duzentos, ou quinhentos, mas sobretudo da Revolução Francesa para cá, nós encontramos exatamente isso: [desmandamentos?] sucessivos [para] dessa maneira caminharem para o nada ao longo dos quais os homens sacrificam os seus melhores interesses.

Como eu disse, cedem a todos os caprichos da moda, mudam de gosto do jogo, de gosto dos trajes, de gosto da comida, de gosto da hora de deitar, do gosto de estilo de conversar. Jamais ascetas foram tão desprendidos quanto o homem que está colocado debaixo do visgo do demônio.

Por que ele encontra um gostinho nesse visgo, ele encontra um prazerzinho no império desse cetro de fumaça inconsistente e onipotente, ele encontra nisso um prazerzinho que é uma ponta de prazerzinho preternatural, ele encontra nisso uma ponta de prazer, e essa ponta de prazer é para ele mais gostoso do que todos os prazeres que ele renuncia.

De maneira que não é por uma verdadeira ascese, mas é por essa espécie de inexprimível, de inefável prazerzinho de ser um com esse grande malabarista, com este labioso por excelência que é o demônio e ser um com aqueles que a ele pertencem, que para isso o homem vai renunciando a tudo e vai pelo despenhadeiro abaixo que vai nos conduzindo até a barbárie que os senhores conhecem.

Quer dizer, esta seria a concepção que eu dei da última vez e a partir da qual alguns aprofundamentos me parecem necessário.

* Um aprofundamento: qual é o papel do Fundador neste quebranto que se deita sobre as pessoas?

Há um desses aprofundamentos de que eu gostaria de falar e que é o seguinte: qual é o caminhar disto? É no caminhar nisto que nós podemos compreender bem qual é também o nosso papel.

E neste quebranto — por que eu falei intencionalmente em quebranto; as pessoas ficam sob a ação de um quebranto — neste quebranto que se deita sobre a pessoa, qual é então o papel do Grupo?

Eu falei até a esse respeito, não sei se se lembram da aliança de Nossa Senhora. Que relação tem isto com o culto de Nossa Senhora, e que relação tem isso com o quebranto?

Acontece que não é à toa que aquele da mescalina declarou que determinadas drogas produziram uma ação mais ou menos dessa natureza.

Os senhores tomem uma pessoa que começa a tomar cocaína, qual é a psicologia dessa pessoa e por que é que a pessoa começa a tomar cocaína? Há um certo estado de blazé, há um certo estado cheio de todas as coisas agradáveis da vida, há um certo estado assim em que a pessoa já não encontra prazer novo em nada, e tudo lhe parece mais ou menos desbotado e lhe parecer mais ou menos desinteressante. Não é tanto dizer que ela provou de tudo e gostou, quanto dizer outra coisa: que ela mais ou menos à distância, compreende já o que as coisas lhe dariam se provasse, e compreende que essas coisas não correspondem ao apetite de prazer que ela tem diante de si. O apetite de prazer que ela tem é incompreensivelmente maior.

* O pecado original privou-nos daquela espécie de prazer superlativo de vivermos, de existirmos e de sermos nós mesmos, que se tem a impressão que é um dos mais preciosos prazeres do Paraíso

Ela queria sentir-se numa ordem paradisíaca, numa ordem com uma espécie de bem-estar transcendental, superlativo, perfeito, uma ordem subjetiva sobretudo que viesse muito mais de dentro para fora do que de fora para dentro e que fizesse sentir a pessoa as delícias interiores do seu próprio ser, as delícias interiores de sua própria vida e de sua própria existência e que depois também apresentasse externamente algo de agradável que lhe desse prazer. Mas a principal coisa, eu a centro nisso, são as delícias interiores do seu próprio ser.

Eu tenho a impressão — os senhores compreendem que facilmente essa minha impressão pode ser desmentida, pode não conferir com um estudo de teologia bem feito, quer dizer eu não deito empenho nessa impressão — mas é uma impressão que eu tenho e que eu anuncio en passant de que uma das coisas que o pecado original nos privou foi exatamente — pondo dentro de nós a desordem que nós temos — privou-nos daquela espécie de prazer superlativo de vivermos, de existirmos e de sermos nós mesmos que se tem a impressão que é um dos mais preciosos prazeres do Paraíso.

Quando se fala da beleza circundante do Paraíso Terrestre, se diz uma coisa muito verdadeira, mas todo o prazer que o homem tem do que lhe advém de fora, é um prazer pequeno em comparação [com o] que ele tem e que lhe advém de si mesmo, que lhe advém de seu próprio ser. E no Céu, exatamente, em virtude da união beatífica, o primeiro prazer que nós vamos ter é a superabundância de prazer interno em nosso ser, feito da comunicação com Deus e que nos dá um prazer inefável de nós sermos nós mesmos. É uma espécie de felicidade dentro da própria pele, é uma espécie de felicidade imanente maior ainda do que toda a felicidade que nós encontramos de fora.

* No Céu, nós compreendermos que o maior prazer que teremos é de nossa união com Deus, e aí nós sentiremos aquele prazer interno de sermos nós mesmos, que é um prazer inefável, inexprimível

Alguém poderá me dizer: está bom, mas Deus não é fora?

Exatamente, não é inteiramente isso, a nossa união com Deus é de uma tal natureza que nos toca no que nós temos de mais interior, e no Céu nós compreenderemos que de algum modo, de algum modo é claro, Deus me livre de cair no panteísmo, de algum modo o [ar?] que eu mesmo é Deus, e que o maior prazer que eu tenho é de minha união, e como que minha fusão, com Deus e que aí eu sinto aquele meu maior prazer interno de ser eu mesmo, que é um prazer inefável, um prazer inexprimível. Prazer que de algum modo mesmo sem a união beatífica, mas pela graça de Deus, etc., o homem no Paraíso Terrestre já tinha.

Bem, então há certos indivíduos que mais ou menos sentem isso, sentem isso com mais vivacidade de que outros e que pensam o seguinte: “Se eu tenho isso, eu tenho aquilo, tenho aquilo outro, mas a forma de felicidade que eu apeteceria, não viria do que eu tenho, seria uma felicidade que existiria dentro de mim como um sol. E que a partir de um princípio inviscerado em mim me encheria inteiro, e que eu teria o meu gáudio de mim mesmo e que me tornaria quase um corpo glorioso e translúcido e que mais eu daria felicidade ao que está em torno de mim, do que o que está em torno de mim faria a felicidade de mim mesmo. É uma espécie de querer um gozo de felicidade assim, felicidade que de fato o homem apetece, mas que ele nesta Terra não pode ser.

* Descrição do processo de deglutição que este visgo do demônio, este quebranto, deita nas pessoas que se deixam arrastar por ele

Então, assim a pessoa começa a tomar tóxico, tomar tóxicos exatamente com a idéia de que o tóxico instila nela uma felicidade assim. É o prazer do sonho cocaínico, as imagens, as coisas. O …. descrevia o efeito da mescalina: uma primeira idéia de grande sucessões de prédios, cidades, panoramas, de uma beleza clássica, etc., mas notem bem, não é a sensação do turista, é a sensação que quem acha que essas coisas existem de algum modo em si e que tem uma espécie de experiência de si mesmo e que na experiência de si mesmo encontra exatamente essa forma superlativa de felicidade de pleno deleite King Kong.

Bem, eu tenho impressão de que uma pessoa dessas começando a tomar cocaína, no começo, acha uma delícia, mas depois vem a mão do demônio, mão do vício, no caso, da cocaína e não está dito que o demônio não acentue os sonhos da cocaína em muitos casos, não esta provado isto, quer dizer.

Bem, então vem puxando o indivíduo para uma espécie de situação triturante que é a seguinte: à medida que ele se regala nisso, ele sente que a realidade escapa dele, uma realidade que no começo é para ele uma coisa tão banal, tão insípida que ele se despede dela [sem?] saudades.

Ele está como que num navio onde ele diz até logo como quem diz: “Vai embora, ó realidade prosaica e banal, eu não quero saber de você”. Ele vira as costas à realidade e entra no navio do demônio. Mas à medida em que ele vai se distanciando, ele percebe que ele está saindo do seu ar natural, do seu clima natural, e que esta aventura deliciosa vai destruindo o seu ser, o seu equilíbrio psíquico vai corroendo, as suas qualidades mentais se vão estragando, sua saúde material se vai depauperando, um algo de felicidade que, apesar de tudo, contar com a realidade dá de um modo insubstituível, ele vai perdendo também. E ele vai percebendo que a cocaína o chupa, que a cocaína o arrebenta e que à medida que ele a põe, ela o põe nas delícias dela, nesta mesma medida, ele vai afundando, e ela vai se fechando sobre ele como uma flor malfazeja, de um perfume fortíssimo e que ele abafa e cujas pétalas acabam sendo para ele um verdadeiro cárcere, uma verdadeira prisão.

A partir desse momento ele tem horas de saudades, ele quer voltar, ele pensa então: “Mas que beleza!…” Isto por exemplo, ele está dormindo num quarto, vítima arrasada do sonho cocaínico, sentindo fracasso de toda a sua personalidade e, de repente, passa do lado de fora da sua janela — uma janela que ele vê e deixa passar as claridades matinais de um sol que outrora ele desprezava, mas que hoje para ele é um paraíso que ele queria atingir e que ele não atinge mais — um menino assobiando dando risada, dizendo graça.

Ele pensa: “Se eu fosse esse menino, se eu pudesse ser um molequinho que eu tanto desprezei, e que pobre, maltrapilho anda pelas ruas, mas goza da beleza da natureza até mesmo numa cidade, como eu gostaria! Como a mínima miséria, o mínimo fragmento da realidade objetiva como eu gostaria dela! Mas eu não consigo mais. Eu estou preso nessa máquina de sucção, eu estou tomado por esse vício e ao mesmo tempo as delícias dele são tais que eu não me ‘desprendo’ dele, mas ele me morde as entranhas, ele me destrói no que eu tenho de mais interno e eu odeio a ele!”, isso é o que ele pensa. Então ele vai afundando desesperado mas com repelões de saudades daquela coisa que gradualmente ele vai perdendo.

É mais ou menos assim o processo de deglutição que este visgo do demônio, este quebranto deita nas pessoas que se deixam arrastar por ele. É como a cocaína, o indivíduo vai gostando, gostando, de vez em quando tem saudades, de vez em quando ele olha e diz: “Olha como aquilo que ficou para trás era belo!”

* Descrição das horas de eclipse do quebranto em que algo de toda a ordem natural sobe

Eu vou mostrar para os senhores estigmas dessa saudade:

Oh como era belo aquilo que ficou para trás e que eu não posso alcançar mais, como eu gostaria, mas, helás, aquilo está para trás, irreversível! Aquilo não volta mais, e por causa disso exatamente eu vou cada vez mais me enlear nesta pavorosa delícia em que eu estou”.

Os senhores têm prova disso na saudade da monarquia. Não há republicano que de vez em quando não tem uma exclamação — republicano da era que derrubou a monarquia — que não tenha de vez em quando uma exclamação de saudades da monarquia.

São esses movimentos de nostalgia da saúde, de nostalgia do bem, movimentos esses de que o exemplo mais característico é precisamente do filho pródigo comendo as bolotas dos porcos. Chega um certo momento: “Ah, a casa do meu pai!, aquilo que era coisa!”

De repente, tudo aquilo que ele desprezou passa a ser para ele cheio de luz, cheio de uma beleza inefável, enquanto ele, pelo contrário, compreende que aquilo tudo que ele tinha não era nada, tudo tinha sido ilusão. Há momentos em que esta nostalgia rompe, são momentos produzidos pela ordem natural das coisas, mas acentuadas pela graça, são momentos em que a pessoa vê que o cetro do demônio não é senão fumaça, vê que o tóxico é mentira e que não é senão tóxico, vê que não há senão um vazio pavoroso dentro disso que é preciso fugir a todo custo e a toda lei. E então essa pessoa foge de fato disso, pode fugir, pelo menos tem as graças para fugir, são as horas em que Deus bate na porta, mas a chave só está do lado de dentro, e se a pessoa quer abrir pode. Nosso Senhor está batendo à porta, Nossa Senhora está batendo à porta. Quer dizer, são portanto, as horas de eclipse do quebranto em que algo de toda a ordem natural sobe e então é em função disso que nós devemos dizer alguma coisa sobre nossa presença exorcística.

Acontece que essas eclipses se dão em certos momentos, ao sabor de circunstâncias psicológicas e de desígnios da Providência e interferências da graça. Os senhores estão vendo que há eclipses que têm uma causa sobretudo natural, há outros eclipses que violam todas as regras do natural e que são intervenções claríssimas do sobrenatural, mas enfim existe disso.

Agora, acontece que além desse jogo do natural e do sobrenatural quando uma pessoa tem essa aliança com Nossa Senhora, de maneira que Nossa Senhora comunica a essa pessoa uma participação da graça de sua integridade, de sua intangibilidade, de seu completo e virtual alheamento a qualquer quebranto, quando há qualquer coisa na pessoa que é de tal maneira imaculado e íntegro, de tal maneira intransigente, de tal maneira combativo, com iniciativas contra o demônio que a gente vê que aquilo nem é inteiramente humano, mas que aquilo é uma defluência de graças que Nossa Senhora faz participar. Quando há isto, as pessoas assim ou os movimentos que têm uma graça assim, difusa, a qual os seus membros correspondem de um modo mais completo ou menos, pouco importa, mas que tem uma graça difusa assim, a aproximação deles, por causa dessa osmose da graça é sempre uma coisa comunicativa, a graça presente em um tende sempre a comunicar-se ao outro, então é sempre uma coisa comunicativa.

Então, por causa disso acontece que as pessoas assim sacodem o quebranto. Onde elas entram, onde elas falam, onde elas simplesmente estão, às vezes onde se sente o bater dos passos dela, ou o remoto ouvir da voz dela, algo no quebranto se torce, é algo do acontecer do demônio, daquele mal-estar superlativo que o demônio tem quando ele chega perto da Medalha Milagrosa, quando ele chega perto de uma pessoa que está usando o rosário, ou qualquer outro símbolo de Nossa Senhora. É uma espécie de mal-estar no qual a pessoa quebrantada ou a pessoa que está sob a ação do quebranto, vibra inteira. Não é a pessoa que vibra, é o quebranto que vibra na pessoa, aquela espécie de influência que penetrou por osmose na pessoa inteira, se contorce na pessoa como uma eletricidade.

A pobre pessoa pensar que é ela, é claro que ela tem alguma participação nisto mas é sobretudo como fator extrínseco a ela que vibra e a domina, e aquilo sacode inteiro, produz uma espécie de não sei… sabe esses quadros que representam um demônio fugindo todo assim…, não é? Imaginemos o demônio não fugindo, mas agarrando-se a uma coisa: “Não, eu não entrego, eu não deixo, eu não quero, vai embora, etc., etc.,”, é o que o demônio produz.

E quando esta ação atinge a pessoa numa hora de misericórdia de Nossa Senhora, quando atinge a pessoa na hora das bolotas dos porcos, quando atinge numa hora de recesso, em que o cetro de fumaça, que é a fonte do quebranto, como que se desfaz, a graça entra por aquela fresta aberta e dá a possibilidade de tomar a pessoa inteira, e com isso acontece que a pessoa se muda toda, que ela se inverte toda e que ela pode num momento ser como que exorcizada dessa ação do cetro do demônio e mudar de opinião, mudar de idéia e ser convertida.

E passar para Nossa Senhora como um cordeirinho, ou então iniciar-se um processo interno de abalo, uma conjugação interna que é um sair tumultuoso do demônio. E que a pessoa acaba, afinal de contas, se entregando completamente, e se dá um como que exorcismo pela simples presença da pessoa totalmente incontaminada que nunca transigiu, que nunca deu crédito ao cetro, que nunca sorriu, que não está com espírito preparado para ter aquela anestesia porque está inteiramente e sadiamente repousando na ordem natural e nos dons sobrenaturais e na graça de Deus.

Isso é uma coisa que pode perfeitamente dar-se e isto que se dá, eu estou descrevendo no terreno pessoal de indivíduo para indivíduo, isto é impossível que os senhores não tenham sentido de vez em quando no que diz respeito ao Grupo.

* O cetro de Nossa Senhora é um cetro todo feito de realidade objetiva, todo feito de verdade, todo feito de bem, todo feito de saúde, todo feito de toda espécie de apetência para a graça

Por que ao mesmo tempo que há os eclipses do demônio, existem os plenilúnios, existem os meios-dias de Nossa Senhora. O cetro de Nossa Senhora é o oposto do cetro do demônio, ele é um cetro todo feito de realidade objetiva, todo feito de verdade, todo feito de bem, todo feito de saúde, todo feito de toda espécie de apetência para a graça, cheio de graças.

Isto na vida de todos os dias aparece muito, mas há momentos em que refulge e então há momentos que a gente está em contato com este ou aquele amigo, aqui dentro e, de repente, a gente sente — ao menos isso me acontece — a vocação dele brilhar de um modo especial. O valor de alma que Nossa Senhora pôs dentro dele luzir de um modo particular.

Ou, às vezes, até o grupo que está todo reunido, talvez até na sala do Reino de Maria, e a gente sente que aquela espécie de brilho de intensidade maior, daquele thau difuso que está posto ali, e isto determina na gente uma espécie de entregar-se mais de um amor maior. Esta sensação nós sem perceber, nós a produzimos nos outros.

Aliás, eu tenho a impressão de que os únicos que de fato produzem esta sensação nunca percebem quando estão produzindo. Podem difusamente perceber que estão produzindo, mas nunca percebem quando estão produzindo, pelo menos nunca percebem em si, podem perceber nos outros que estão produzindo, mas nunca percebem em si.

Bem, esses são os tais acenderes do Grupo que pelas obras, pelos livros, pelas conferências, por uma porção de coisas, determinam o aparecimento dessa impressão nos outros.

Então, aqui está esta espécie de presença exorcizante do Grupo, o Grupo entra num ambiente, entra numa cidade, entra em qualquer lugar, o fato de alma se dá irreversivelmente. O Grupo produz o fato de que ele maravilha alguns e produz uma verdadeira maravilha em alguns de fora, que não ousam dizer. Ele produz uma impressão favorável à maneira do encontro matinal a mil e mil pessoas que estão colocadas sobre o quebranto do demônio e que estremunham e que dizem: “Que bonito aquilo, olhe, quand même, quem sabe”.

As repercussões da venda do Bucko estão cheias de comentários que no fundo exprimem isso.

Bem, e com isso o Grupo produz um começo de espatifamento do quebranto que indo de progressão em progressão, com o desenvolvimento do Grupo, e tudo mais, só pode dar em duas coisas: ou uma vitória do demônio, porque um número enorme de pessoas recusa isto e o demônio tem então de Deus a permissão que no caso do Grupo eu estou certo de que não obterá, de triturar, de crucificar, como foi a crucifixão de Nosso Senhor.

Ou então se não obtém isto, aquilo vai como um sol que se vai levantando, vai indo, vai indo, acontece de tudo, saem aparentes desastres, saem catástrofes, podem sair traições, podem sair defecções de toda ordem, ninguém segura aquele sol que se vai levantando e chega até uma Idade Média.

* O suco do fenômeno Revolução, e o suco do fenômeno Contra-Revolução

E o suco do fenômeno Revolução explorando o orgulho e a concupiscência, o suco do fenômeno Revolução é em última análise esse quebranto, que vai progredindo e estendendo sobre as almas o seu manto escuro.

Pelo contrário, o suco do fenômeno Contra-Revolução é essa destruição do quebranto por esta espécie de ação exorcística, ação exorcística esta que vai caminhando e que domina completamente uma sociedade.

* Em cada membro do Grupo as energias que simpatizam com a Revolução não só são participação do quebranto, mas diminuem a força exorcística do Grupo

Ora, eu creio que quanto mais o Grupo, internamente estiver consciente desta doutrina do quebranto e compreende que em cada membro do Grupo as forças ou as energias que simpatizam com a Revolução são coisas não [só] que são participação do quebranto mas são coisas que diminuem a força exorcística do Grupo, porque diminui. Quanto mais o Grupo compreende, pelo contrário, que um grande número de almas privilegiadas em que essa aliança de Nossa Senhora não foi nem quebrada — quebrada foi —, mas nem conspurcada por participação do quebranto e que aquilo se apresenta inteiro e virginal, que tanto mais isso existindo mais o Grupo vence.

* A nossa grande arma é nossa “incontaminabilidade” virginal, a nossa intransigência, nosso ódio radical e total

Então, nós compreendemos porque é que, mesmo numa ordem mais baixa de consideração, que não é da pura teologia, mas nessa ordem histórica, sociológica, teológica, bem, que menos nessa ordem a nossa grande arma não é nem isto, nem aquilo outro, mas é a nossa “incontaminabilidade” virginal, a nossa intransigência total, não temos pacto, não adulteramos com o demônio, não temos ligação com ele, e o odiamos de um ódio radical e total. Nisto é que é uma espécie de participação do que há em Nossa Senhora de Imaculado, nisto é que nós ajudamos a Ela a esmagar a cabeça dele, e nisto é que nós somos a perpétua Contra-Revolução, a contínua Contra-Revolução.

Por que razão é que outros movimentos ultramontanos morreram? Eu creio que eles tinham graças dessas e que as graças dessas neles morreram, e por que essas graças morreram, morreu tudo, acabou tudo. Exatamente Nossa Senhora conosco fez uma aliança tão misericordiosa, que em nós essas graças não morreram, pintemos nós o que pintarmos, pintamos o que já temos pintado, uma bondade d’Ela gratuita destinada nessa hora extrema para o bem da Igreja d’Ela e para a salvação da Igreja d’Ela.

D. Chautard conta isso, no cura de Ars: uma vez um advogado esteve em Ars e quando voltou perguntaram a ele:

O que é que o senhor viu em Ars?

Muito simples, Deus num homem.

É uma espécie de transcendência de quem tem parte com Deus, no Deus com que aquilo tem parte. Está bem, não é numa maneira de um santo, não é uma maneira da presença da santidade, mas é a maneira da presença de um carisma. Se poderia dizer algo assim conosco, quer dizer, nós todos aqui dentro do Grupo, em graus e modos diversos, e o Grupo reunido tem qualquer coisa assim que faz ver qualquer coisa de imaculado, qualquer coisa de íntegro, qualquer coisa que exatamente não teve parte com o quebranto, e que quebra o quebranto, que é a luta contra o quebranto. E é o que faz de fato recuar aquilo que é a força fundamental da Revolução.

A força fundamental é: o demônio reinando através desse cetro, que é exatamente esse cetro que comunica o quebranto do nada, do caminho para o nada, da destruição de tudo, da negação, da catástrofe e do horror.

* O que o Grupo tem de novo e que nós sentimos, é uma participação concreta dessa incontaminação e dessa intransigência de Nossa Senhora

Aqui está exatamente a grande arma deles, e aqui está a nossa grande arma e a noção disto é o fato de nós sermos incontaminados, quase que institucionalmente incontaminado. Incontaminados porque mesmo dentre nós, os que em situação mais triste se encontrarem, amam a ordem incontaminada, amam-na pelo menos nas principais fibras de sua alma e por causa disto eles de algum modo aderem a esta incontaminação.

(…)

de que eu expliquei melhor o processo por onde o demônio devora e o quebranto devora e atrai. Dei a doutrina dos eclipses do demônio, e do domínio do demônio, e dei a doutrina simultânea com o eclipse que são as nossas cintilações e mostrei depois como essa cintilação representa o fundamento de nossa vitória, como é através dela que nós vencemos. Como ela esta difusa em nós, está presente por uma misericórdia inexplicável [de] Nossa Senhora em cada um de nós, excluído ali idéias da santidade — helás, como é que não poderia excluir quanto à minha e quanto a todos nós — mas não sei…, está presente uma idéia de carisma gratuitamente dado.

E mostrei que isto é uma participação da incontaminação de Nossa Senhora, o que tem então de novo é mostrar que nessa influência do Grupo que nós sentimos é uma participação concreta dessa incontaminação e dessa intransigência de Nossa Senhora, e mostrar depois no que é que se baseia verdadeiramente a força de nossa luta, como a força da luta deles.

O Mendonça sustenta: se a mente humana pelo seu próprio dinamismo é tendente a ver grandes conjuntos e que é por uma ação do demônio, do quebranto, quer dizer, não é uma ação do demônio entendida como os livrinhos comuns, mas em termos desse quebranto isto que explica que o homem tenha perdido a tal ponto o seu senso metafísico. De maneira que ele nos fatos já não é tendente a ver todos os fatos, mas é tendente a ver o fato isolado e parcelado, não é essa a sua pergunta?

Eu pelo menos suspeito que seja muitíssimo verdade, e creio exatamente que o homem de vidro, enfim, o homem revolucionário no estágio atual é no mais alto grau o filho desse quebranto, que exatamente produz uma cintilação que a gente não pode explicar de outra maneira.

Eu estava dizendo o esquema de todas essas nossas reuniões, mas assim esquemas dos esqueletos, o esqueleto não é esquema do homem, mas é muito menos do que o esquema do homem.

Bem, o esqueleto dessas reuniões seria o seguinte: que os bens do espírito preponderam sobre os bens do corpo, e entre os bens do espírito, os bens que dizem respeito a ordem universal preponderam sobre os bens particulares e entre esses que dizem respeito à ordem universal, os mais altos que são fundamentalmente religiosos preponderam sobre todos os outros

De maneira que continuamente o homem pelo movimento natural de sua inteligência seria chamado a tomar posição sobre isso. Compreende-se que por… [inaudível] e por ignorância, por uma porção de outras coisas, [que] os homens não tomem posição perante isso, mas não se compreende que toda a escol e toda a elite, aliás, bastante senão intelectualizada pelo menos cientificada, de uma civilização onde se lê enormemente, como é que dentro disso é possível que a quase totalidade dos espíritos da humanidade tenha levantado essas tendas no terreno oposto. Com um horror a isso que é o movimento natural da humanidade.

*_*_*_*_*

1) Nos Sábados à tarde eram realizadas reuniões para os membros do Grupo da Rua Martim Francisco, na Sala dos fundos da mesma sede; e, no domingo, para os membros da Pará, na Sede do Reino de Maria, da rua Pará.