Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 27/8/1965 –
6ª feira [SD 251] – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 27/8/1965 — 6ª feira [SD 251]
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Sempre há um aspecto delicado e poético nas aparições de Nossa Senhora que leva ao sobrenatural * Ela convida os homens a participarem de suas alegrias, sob o título de Nossa Senhora dos Prazeres * O duplo e inexcogitável prazer da vinda do Messias e da Encarnação do Verbo * Os outros prazeres: Visitação, Nascimento, Adoração dos Magos, encontro no Templo, Ressurreição, Assunção * Lição: pedir a virtude de ter prazer na virtude, no bem e de sentir nesta terra o gáudio das coisas celestes, que os norte-americanos não têm * O prazer da expulsão dos hereges em Guararapes nos dá ânimo para a luta atual, até a Bagarre * O verdadeiro prazer que dá o esforço nas campanhas e o peso de consciência da preguiça
O histórico desta invocação é o seguinte:
Mais ou menos no ano de 1599, aparece numa fonte na quinta dos condes de Alcântara, uma imagem de Nossa Senhora. Os condes a levaram para seu oratório, mas a imagem desapareceu e foi encontrada sobre um poço. Tendo Nossa Senhora se manifestado a uma menina, dizendo que se edificasse uma ermida naquele lugar onde fosse servida e venerada por todos sob a invocação de Nossa Senhora dos Prazeres.
Portugal já festejava os prazeres de Nossa Senhora, sendo, segundo fontes dignas de crédito, a primeira nação a fazê-la, desde o século XIV. Somente com a aparição desta imagem, esse culto realmente se desenvolveu.
O título de Nossa Senhora dos Prazeres provém das sete comemorações maiores alegrias ou prazeres de Nossa Senhora. Manifestada mesma por Nossa Senhora quando de sua aparição a um noviço franciscano, quando passou a ser difundida a devoção de Nossa Senhora da Coroa.
São as seguintes as suas maiores alegrias:
1º quando soube pela anunciação do Anjo que era chegado o tempo da vinda do Messias e que Ela seria sua mãe;
2º ouvindo a saudação de Santa Isabel;
3º quando contemplou seu Filho recém-nascido;
4º quando da visita dos Reis Magos, foram adorar o Menino Jesus;
5º quando do encontro de seu Filho no Templo;
6º quando da primeira aparição de Jesus, depois de sua ressurreição.
7º quando da subida ao céu, em corpo e alma, é coroada Rainha do céu e da terra.
Ela é padroeira das dioceses de Maceió e de Lagos.
* Sempre há um aspecto delicado e poético nas aparições de Nossa Senhora que leva ao sobrenatural
Uma coisa que impressiona muito, nas várias aparições de Nossa Senhora, é o caráter poético e delicado dessas aparições. São sempre aparições ou mesmo milagres deste gênero, muito concludentes, trazendo uma nota sobrenatural muito evidente, muito expressivos, quer dizer, muito inteligentes, mas com aquela nota de delicadeza que vem de tudo quanto é de uma mãe.
Os senhores vejam que coisa bonita, que coisa poética: uma imagem que aparece de repente, nos fundos do jardim dos Condes da Ilha. A gente pode imaginar um daqueles solares descritos por Eça de Queiroz, ainda com vagas reminiscências do tempo das guerras dos mouros, etc., e depois com quinhentos anos de paz portuguesa sobre a fecundidade daquela terra.
Bem, e no fundo daquele solar, a gente pode imaginar como era um conde daquela época, não é? Baixote, abastado, com ar mandão, um bigodão, sério, um cachimbão, um conde da Ilha. E a senhora uma condessa da Ilha, com toda a fisionomia própria, e de repente uma Manuela qualquer encontra no fundo do quintal da ilha, uma imagem: “Oh Sr. Conde, vim avisar que está uma imagem”, etc. E a imagem é levada com devoção para o oratório.
É muito mais bonito isto do que aparecer dentro de um oratório, aparecer nos carinhos da natureza, quer dizer, nos fundos de um jardim português. É uma coisa bonita.
Levam para o oratório, já é uma bonita idéia, está bem, não é? Ela desaparece e aparece sobre um poço. É uma beleza. Quer dizer, pairando sobre um poço, com certeza, não é? É Maria Mons, Maria Fons. Nossa Senhora é uma fonte, não é isto? Ela aparece sobre o poço no fundo do qual está a fonte, não é? Ela é a fonte das águas, Ela dessedenta, etc. Então aí começa a ser venerada a imagem de Nossa Senhora dos Prazeres.
Agora, o que é que isto significa? É um fato de devoção particular, não é um fato oficial. Não aconteceu com nenhum Sr. Bispo, Sr. Arcebispo, Sr. Cardeal, aconteceu com um particular, no fundo da casa de um particular. Mas era uma época de fé e as pessoas sabiam acreditar nessas coisas, porque sabiam discernir a coisa séria da charlatanice. Era uma fé com discernimento, era uma fé que tinha propósito daquilo que queria. De maneira que eles tinham segurança naquilo que acreditavam.
* Ela convida os homens a participarem de suas alegrias, sob o título de Nossa Senhora dos Prazeres
Agora, esta devoção é do quê? É de Nossa Senhora dos Prazeres. Qual a origem desses prazeres? Então vem uma outra coisa. É um devoto franciscano com um cordão, coisa tão inexpressiva quando conduzida por um dos padres do largo São Francisco, mas tão para lá de submissa e de admirável quando conduzida por um verdadeiro franciscano, que está rezando e que de repente aparece a ele risonha Nossa Senhora. E Nossa Senhora que não vem para chorar e [pedir] que participe do pranto d’Ela, mas vem para dar aos filhos uma participação nas alegrias d’Ela. E que então através desse franciscano condescende em dizer aos homens quais são as alegrias da vida d’Ela.
É uma verdadeira notícia biográfica que Ela dá de si para os homens. A gente pode imaginar que prazer irradiava Nossa Senhora ao falar de seus prazeres. E quanto prazer Ela comunicava àquele que recebia d’Ela esta comunicação.
Então vem a nota dos prazeres. Esta nota muito bem feita.
Quer dizer, são sete prazeres muito bem escolhidos. E engraçado que é cobrindo uma certa pista. A gente poder imaginar esses prazeres vistos de um outro modo, mas vistos como eles estão aqui, estão muito coerentes, muito direitos, muito bem postos. E são esses sete prazeres que vale a pena a gente recapitular em uma palavra.
* O duplo e inexcogitável prazer da vinda do Messias e da Encarnação do Verbo
A primeira alegria de Nossa Senhora foi quando Ela soube pela Anunciação do Anjo que era tempo da vinda do Messias e que Ela seria a sua Mãe.
Por que é que ele não diz aqui simplesmente que Ela seria a Mãe do Messias?
É que é um prazer constante de dois prazeres. Não só de Ela ser a Mãe do Messias, mas também desta verdade que está pressuposta aí: saber que afinal o reino do Messias está raiando, que a ordem de coisas pavorosas da gentilidade está acabando, que a era de Nosso Senhor Jesus Cristo vai começar e com isto a satisfação por ser Ela a Mãe do Messias.
A gente pode imaginar que prazer igual há? Não é verdade que Nossa Senhora poderia dizer, Nossa Senhora dos Prazeres poderia dizer a este mundo gozador e que vive idiotamente correndo atrás dos prazeres: “Ó vós todas que passais pelo caminho, parai e vede se há prazer igual ao meu prazer”?
Quem? Quem teve o prazer que se comparasse ao prazer de Nossa Senhora, sabendo que Ela seria a mãe do Messias?
E o que não está dito aqui por uma delicadeza de expressão, mas neste ato de união com o Divino Espírito Santo, em que conheceu que o Espírito Santo suscitava nEla um filho. Quer dizer, o inebriamento de graças sobrenaturais, da união com Deus, a natureza deste êxtase, nunca se poderá saber qual foi verdadeiramente, a glória e conseqüentemente o gáudio que isto trouxe para Nossa Senhora. As maiores visões dos maiores místicos, no mais alto grau, não podem ter dado a eles o prazer que Nossa Senhora teve com esta união mística com o Divino Espírito Santo. É estritamente insondável.
E logo depois o conhecer que o Verbo de Deus nEla se tinha feito carne e que estava habitando entre nós. E começar então Ela, como um tabernáculo, a sua adoração contínua a Nosso Senhor presente dentro d’Ela. Quer dizer é uma coisa inimaginável, o prazer que uma coisa dessas poderia dar.
* Os outros prazeres: Visitação, Nascimento, Adoração dos Magos, encontro no Templo, Ressurreição, Assunção
O segundo prazer é a saudação de Santa Isabel. Por que isto? Porque pela saudação de Santa Isabel a Ela, era o primeiro preito da Humanidade inteira até o fim do mundo, louvando a Ela. “Beatam me dicent omnes generationes — Todas as nações vão me elogiar”.
Então é louvor de Santa Isabel e de São João Batista no seio de Santa Isabel. Um prazer superlativo também.
Depois outro prazer: quando Ela contemplou o Menino Jesus, recém-nascido. É a curiosidade que tem toda mãe de conhecer o seu menino. Mas Ela tinha muito mais do isto: Ela tinha aquela adoração pelo Deus encarnado nEla. E quando Ela a primeira vez viu a face de seu Filho e na face de seu Filho viu o oceano infinito de virtude, de santidade, da divindade, a gente compreende que meditação altíssima Ela fez. Todos os santos juntos nunca fizeram uma meditação assim. A gente compreende então o prazer que Ela possa ter sentido.
O quarto prazer: visita pelos Reis Magos, para adorar o Menino Jesus. Era o começo de todas as nações que veio adorá-lo e era o começo irreversível do reino d’Ele. Quer dizer, todos os povos foram representados pelos Reis Magos. Naquele ato Ela compreendia que começava a se dar um patentear-se do Menino Jesus a todos os povos, que nunca mais haveria de cessar-se. Então prazer gaudio nobis.
Quinto prazer: quando Ela encontrou o Menino Jesus no Templo. Evidentemente da aflição sem nome da perda do Menino Jesus.
Sexto prazer: primeira aparição de Jesus depois da ressurreição. Os senhores podem imaginar a glória com que Nosso Senhor apareceu para Ela, e a alegria d’Ela vendo Ele ressurrecto. Ela sabia que Ele ia ressurgir, mas o triunfo, e depois a grande prova estava para trás, o grande sofrimento tinha passado. O tributo tinha sido pago até a última gota de sangue d’Ele e até aúltima lágrima d’Ela, estava acabado definitivamente. Por todos os séculos dos séculos, um abismo sem fim de glória, de paz e de felicidade. Como não ter um prazer enorme nisso!
Sétimo: quando Ela subiu de corpo e alma ao Céu e foi coroada Rainha do Céu e da terra. Evidentemente porque aí Ela entrou no gozo de Deus. E aí foi para ver definitivo a coroação de todos os outros prazeres.
* Lição: pedir a virtude de ter prazer na virtude, no bem e de sentir nesta terra o gáudio das coisas celestes, que os norte-americanos não têm
Há alguma lição a tirar disso? Eu creio que há duas lições bem diversas, mas cada um tem a sua importância.
A primeira diz respeito ao seguinte:
É que nós devemos compreender que como uma alma como Nossa Senhora renuncia a tudo quanto é terreno, recebe nesta terra uma felicidade celeste, que é o cêntuplo e muito mais que o cêntuplo que a terrena. E se é verdade que nós abandonamos todas as coisas e com isso fazemos um sacrifício de sangrar, é verdade que nós devemos ter a esperança de que de modo inteiramente misterioso e inesperado nós receberemos o cêntuplo nesta terra. E os prazeres de Nossa Senhora nos mostram isso.
Então o que é que nós devemos pedir a Nossa Senhora dos Prazeres? Qual é a virtude que a gente deve pedir?
É a virtude que eu chamaria por falta de nome adequado a virtude antinorte-americana por excelência.
Quer dizer, esta felicidade, esta virtude de encontrar o prazer na virtude, de encontrar a felicidade no bem e de sentir nesta terra o gáudio das coisas celestes, que os norte-americanos não têm. Para eles se não têm uma buzina, um klaxon, um anúncio luminoso, uma lataria e uma televisão, eles não são felizes.
Na ladainha das rogações se não me engano é lá que há uma jaculatória que eu gostaria de recitar o dia inteiro, que eu gostaria que os membros do “Catolicismo” recitassem o dia inteiro, e que se encaixa na devoção a Nossa Senhora dos Prazeres: “Que vós vos digneis elevar as nossas almas ao desejo das coisas celestes”.
Quer dizer, que vós nos deis o gosto das coisas que nesta terra prenunciam o céu e na medida que prenunciam o céu, e que façais com isto nós encontrarmos a nossa felicidade nas coisas metafísicas, nas coisas sobrenaturais, que são o prenúncio do Céu.
Isto está nas ladainhas das rogações. E é estes prazeres, o senso desses prazeres, que nós devemos pedir a Nossa Senhora.
* O prazer da expulsão dos hereges em Guararapes nos dá ânimo para a luta atual, até a Bagarre
Uma outra consideração, e eu serei muito rápido, porque eu terei uma outra coisa a dizer daqui a um minuto, uma segunda consideração é a respeito da vitória de Guararapes.
Os senhores sabem que nós no Brasil tivemos a nossa cruzada. E que a nossa cruzada foi com os nossos irmãos separados, que nos esbordoaram bem, e contra os quais nós contra-esbordoamos vigorosamente. As duas batalhas dos Guararapes foram junto à Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres. “Catolicismo” até publicou a medalha que nos foi mandada pelo Instituto Histórico de Recife. E a vitória segunda dos Guararapes marcou o fracasso dos estrangeiros.
Quer dizer, nós tivemos um dos grandes prazeres da terra que é de ter expulso protestantes daqui de dentro. É um prazer, não é isto? Nossa Senhora dos Prazeres, nos deu este prazer.
Quem de nós não está fervendo do desejo do prazer de esbordoar muita gente e de acabar com muita coisa? Muitos de nós. Eu creio que todos nós.
Isto é um pouco do desejo das coisas celestes. Porque se há uma coisa no Céu, é Nossa Senhora. Embora o demônio não esteja lá, Ela está lá. Ela no trono d’Ela está perpetuamente calcante no pé do demônio, por toda a eternidade. Um prazer d’Ela, uma das alegrias d’Ela, é sentir Satanás ali.
Aí os senhores compreendem bem um pouco desses prazeres.
Na Bagarre nós vamos ter um prazer. E é de ver muita gente sumir — e como, não é? — gemendo, uivando, assim … [inaudível]… fulano de tal, está compreendendo? Levado orquestradamente, etc.
Outro prazer é quando tudo acabar e tudo estiver purificado e a gente sentir que só sobraram os bons, exceto tal resto, do qual eu já saio da minha toca procurando e já matando alguns. E isto é líquido, eu passo a Bagarre fazendo planos de como continuar a matar logo depois da Bagarre. Isto é evidente, eu não tenho outra razão de ser em minha pessoa a não ser esta.
Agora os senhores imaginam a alegria dos sinos, o ar cristalino, a natureza completamente renovada, uma cordialidade entre todos, uma alegria de todos, como uma coisa destas pode ser extraordinária. Pois bem, é um dos prazeres que nos aguarda, no meio de muitas dores. E estes prazeres nos dão coragem para a gente suportar o resto.
* O verdadeiro prazer que dá o esforço nas campanhas e o peso de consciência da preguiça
Os senhores amanhã vão ter um prazer desta natureza, não é? É a venda do “Bucko”, no domingo. Eu devo dizer que uma das coisas que eu gostei mais, todas as vezes que eu fui ver os senhores venderem, foi de ver que os senhores estavam fazendo com prazer. Nada seria pior do que eu chegar a um posto e encontrasse:
— Dr. Plinio, posso ir embora?
— Dr. Plinio, Dr. Plinio, eu aqui sozinho não dou cabo do recado, três já sumiram.
Eu teria vontade de dizer:
— Está bom, meu caro, você pega estes “Buckos” aqui todos, enche aqui e aqui e pula do viaduto, que resolve o caso, está compreendendo?
Se não fosse pecado é o que eu aconselharia.
Mas graças a Deus eu sempre vi muita alegria nisso. Não é a alegria dos pés-cansados, não é a alegria da madrugada, não é a alegria de uma manhã de domingo, que poderia ser passada nas delícias da cama. É a alegria do trabalho, do esforço, da luta, da cara da gente que diz: “Não!”.
Imaginem dois que terminem sua manhã de domingo.
Um que deveria ir vender o “Bucko”, mas optou para o prazer, então não foi, ele se levanta ao meio dia e meia.
Outro que vendeu o “Bucko” termina o dia e volta para casa contente, por duas razões que são muito boas para estar contente: primeiro porque a gente vendeu muito; e segundo porque a gente vendeu pouco e conservou a boa vontade até o fim. Volta, descansa um pouco e diz: “Não, eu estou de consciência tranqüila, Nossa Senhora está alegre comigo e o que resta do domingo eu vou descansar um pouco”. Ainda que fosse para gozar a vida, seria interessante gozá-la no caminho do dever.
De maneira que eu desejo aos senhores um muito bom domingo, com grande prazer na linha de Nossa Senhora dos Prazeres.
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