Santo do Dia – 19/8/1965 – p. 10 de 10

Santo do Dia — 19/8/1965 — 5ª-feira [SD 282]

Nome anterior do arquivo: 650819-2Santo_do_Dia_5__a.doc

* Exame de consciência do Ultramontano * Vivo realmente para o ideal? * Esse ponto em ordem, tudo em ordem * Sintomas para diagnosticar * Outro ponto: quando censurado, alegra-se? * Que atitude quando recebe uma ordem * Como executa os serviços * Delega o trabalho a outrem * Termômetro se está em condições de fazer exame de consciência * Primeiro: doutrina ultramontana, devoção a Nossa Senhora * Ponto chave: Nossa Senhora medianeira de todas as graças * Mediação e realeza de Nossa Senhora * Corolário: tudo em Maria, com Maria, por Maria * Mediação e escravidão * Imaculado coração: escravidão no aspecto maternal * Apetência das conseqüências extremas * Pensionista ou combatente no submarino * Linda?! De um amor cheio de ódio * Grupo: conjunto de pessoas que disseram sim * Amamos quem Nossa Senhora mantém na aliança dEla * Aceitação de uma hierarquia de valores * Sublimidade do Grupo * Quando se vê a vocação de modo claro * Grupo e pureza * Amor crescente à pureza * Confiança na graça

* Exame de consciência do Ultramontano

Qual o verdadeiro exame de consciência do “ultramontano”?

Eu entendo que a pergunta quer dizer o seguinte: há os exames de consciência comuns. O “ultramontano” tem um exame de consciência para fazer sobre o “ultramontanismo”?

Tenho a impressão que o exame de consciência do “ultramontano”, para se fazer assim em ponto como são feitos os exames de consciência, é interessante fazer da maneira seguinte: perguntar, pôr os deveres mais difíceis do “ultramontano” e fazer perguntas a respeito desses deveres.

* Vivo realmente para o ideal?

E a primeira pergunta é essa: Eu, dentro do Grupo, que espécie de vida estou levando? Eu sou uma pessoa que leva uma vida inteiramente para os ideais, e dentro da qual a vidinha concreta das coisas burocratas, das conveniências pessoais, de meus pequenos interesses está completamente superado e apagado, ou sou uma pessoa que vive dentro do Grupo de acordo com aquela metáfora do submarino, como um pensionista de submarino, preocupado completamente com as pequenas coisinhas menores e com os ideais e os problemas elevados colocados de lado? Esta é a primeira de todas as perguntas, não porque teoricamente ela seja mais importante, mas praticamente é a mais importante.

* Esse ponto em ordem, tudo em ordem

Quando este ponto está em ordem, todo o resto pode ser tocado em ordem. Quando este ponto não está em ordem, nada anda verdadeiramente numa ordem verdadeira. Pode andar em pseudo-ordem, mas em ordem verdadeira não anda.

* Sintomas para diagnosticar

Eu tenho a impressão de que os sintomas para isto são fáceis de encontrar. Quando aparece uma doutrina nova e a gente tem interesse por esta doutrina nova, quando a gente tem interesse em comentar uma doutrina nova com antigos, com novos, uma doutrina antiga com novos, isto quer dizer que a gente tem interesse doutrinário. Quando, pelo contrário, as questões de doutrina estão interessando pouco, mas a gente é muito novidadeiro das novidades pessoais do Grupo: quem foi viajar, quem é que comprou um automóvel, quem é que passou no exame, quem é que brigou com quem, depois pequenos problemas pessoais, muita preocupação em saber se no alojamento onde a gente está, a porta do armário da gente range ou não range, a gente inteira range porque a porta do armário range, e coisas dessa natureza. Isto é psicologia de pensionista de submarino. A psicologia de combatente — não indiferente a estas coisas — mas trata-as como se fosse completamente secundário.

Este é o ponto principal.

* Outro ponto: quando censurado, alegra-se?

Se os senhores querem um aspecto colateral para um exame de consciência disso, os senhores tomem um outro ponto: quando a gente recebe uma censura que a gente percebe que é merecida, que atitude que a gente toma? Há uma primeira atitude que é a melhor de todas: cara alegre “oh, que coisa realmente bem apanhada; eu realmente tenho este defeito; eu gosto de ver como está bem apanhado etc.”

Bem, quando há uma segunda atitude que é bem menos boa, e a atitude é a seguinte: ouvir e ouvir com certo tédio: “ah, ah, que, sei, sei, você está dizendo que eu tenho este tal defeito, sei, sei, sei, este tal defeito, aquela porta do armário. O defeito, ah! Sei, sei, aquele defeito.” Não fica zangado, não, porque não se importa. Se se quebrasse a porta do armário ele ficaria muito mais zangado.

A atitude ruim é a seguinte: “É verdade que ele apontou bem o meu defeito. Ele terá pensado nos dele? Se ele pedisse, eu bem teria que dar, apontar os defeitos para ele.” Essa é a atitude ruim. Ele é intimamente ligado com a questão do pensionista do submarino, porque o pensionista não gosta de receber advertência. E quem não gosta de receber advertência é pensionista. São coisas inteiramente reversíveis.

Então, para o exame de consciência na ordem prática das coisas, para o “ultramontano” colocar isto na primeira linha na ordem prática, é muito importante e muito útil.

* Que atitude quando recebe uma ordem

Segunda coisa é a seguinte: Que posição a gente toma quando recebe uma ordem? Porque quando se recebe uma ordem, há uma certa coisa assim: eu recebo uma ordem, está bom. Não precisava mandar. Bastava pedir que a gente faria bem direitinho. Os senhores estão percebendo o sujeito mandando, ainda mais com um dedo duro por cima de mim. Não, o bom é que mande. Porque exatamente tem o mérito da obediência. Há casos de santos que quando recebiam de seus superiores uma recomendação, eles pediam aos superiores para darem ordens para eles fazerem. O superior respondia: “Não, mas o senhor vai fazer, para quê?” “Não, vale a pena porque eu fazendo por obediência tem mais mérito do que eu fazer por minha própria vontade.” Os senhores estão vendo como isto diz algo.

* Como executa os serviços

Outra coisa que está dentro deste círculo, que é a disposição da alma, que eu vou tratar de outra vez. Bem, a outra coisa é a seguinte: O hábito de fazer o serviço que a gente recebe, logo dando preferência aos mais cacetes, tudo isto se põe junto, e um “ultramontano” que quer servir bem a Causa, isto deve ser assim; um “ultramontano” poca é da maneira seguinte: ele recebe três serviços para fazer, ele pensa um pouquinho e vê qual é que ele está com mais vontade de fazer no momento, esse ele faz logo. O outro serviço ele coça a cabeça e diz: “Tal serviço assim, bem, eu vou fazer um dia; sabe de uma coisa? Vou guardar aqui nesta gaveta o bilhete que me deram para fazer, porque um dia eu mexo nesta gaveta e encontro este bilhete e aqui eu me lembro de fazer.” Resultado, não mexe na gaveta, porque fica um medo subconsciente da gaveta, porque a gaveta tem o bilhete. A miséria é assim mesmo. E então, o sujeito já não mexe naquela gaveta; um dia ele mexe na gaveta e encontra o bilhete e diz: “Ah! Tinha aquilo para fazer; mas aquele meu chefe assim não vai compreender que eu não tenha feito; porque ele não compreende que eu não tive culpa; eu me esqueci porque guardei. Eu fui zeloso que guardei nesta gaveta aqui para não perder. Eu não tive culpa, ele não vai acreditar e vai me passar um pito, e eu não gosto de levar pito. Então, sabe qual é a verdade? Eu fico quieto e ele não me pergunta; eu toco meu barco comodamente para frente.” Há coisas destas.

* Delega o trabalho a outrem

Bem, o pior sistema não é este, é o sub-estabelecimento de procuração. É a cascata, não é? Eu mando alguém fazer alguma coisa, este alguém recebe e diz: “Puxa vida! Que batata quente. Bem, eu estou muito ocupado” — não chega para mim e diz que está muito ocupado — “eu não tenho tempo para fazer, pega um fulano que vai passando, e diz: Fulano, para onde você vai? Eu vou para o trabalho. Escute aqui, você quer me fazer uma coisa? Hoje à tarde você vai me fazer uma coisa pequenininha. Você pega uma cadeira e põe nos ombros e leva-a da Brigadeiro até o Largo São Francisco. Você quer me fazer este favor?” O sujeito diz: “Ah!!! Está bem, pode deixar que eu dou um jeito”.

Esta expressão concretamente eu ouvi. Quer dizer, não é que eu vou fazer, eu mando outro fazer. Bem, então a gente procura um, instintivamente menos ocupado. Ora, há um fenômeno natural por onde as ocupações correm atrás dos capazes. É claro, porque se os incapazes deixam as coisas caírem no chão, os capazes pegam. E então, a gente vai pegar, é fato, um desocupado, mas um desocupado que está desocupado, porque ele foge das ocupações:

Fulano, você anda com muito trabalho, você que anda com muito trabalho no momento?

Diz ele:

Um pouquinho.

É a saída, ­também a resposta eu já ouvi; eu tenho a minha pequena antologia… Um pouquinho quer dizer: “diga o que é, que eu direi se eu faço ou não faço.”

Então, a resposta é a seguinte — e para valorizar e para ver se o indivíduo engole o abacaxi:

É uma coisa que o Dr. Plinio estava querendo.

Bem, então, o sujeito, que e incapaz, encostado, não gosta propriamente de prestar serviço, mas aparecer tendo prestado serviço e na primeira hora não mede o trabalho que a coisa dá e diz:

Pode deixar, eu faço.

Bom, então olha aqui, você faz assim etc., etc.

Depois que ele foi embora, o sujeito diz:

Bem, o que é mesmo que o Dr. Plinio está querendo? Não sei bem o que é, não entendi.

Vai e pensa um pouquinho e diz:

Homem, sabe de uma coisa? Isto é difícil, mas eu não sei bem como é que eu vou me arranjar.

Bom, chega e pega um outro sub-estabelecente, é um novato:

Fulano, você quer me fazer tal coisa assim?

O novato diz:

Você quando me explicar. [?]

Está bom. Eu te explico qualquer dia.

Os senhores querem saber qual é o resultado? Eu, algum tempo atrás dei uma incumbência aqui para fazer. Esta incumbência consistia em pagar “X”. Eu não a encaminhei aos canais comuns, de maneira que isto não é uma censura aos canais comuns, eu dei esta incumbência, eu não me lembro mais a quem. Afortunado o alguém que está aqui, eu mandei o Roberto Kallás fazer uma sindicância; ele me diz que a fez bem cuidadosa, mas não conseguiu saber quem é o autor da coisa. Se ele estiver aqui, todos os meus perdões, mas tem um incitamento muito digno em não repetir. Eram duas coisas para pagar, era uma coisa para pagar que constava de dois talões. Bem, a coisa nem sei que voltas deu, foi andando, andando, e um dia chega o zelador e toca a campainha: “Dr. Plinio, aqui está uma correspondência para o senhor, mais estes dois papéis que eu encontrei na caixa do correio.” Um qualquer, não sabendo o que fazer da coisa, passou pelo apartamento e jogou na caixa.

Isto aqui são sintomas que eu dou; eu conheço casos e saídas, — os senhores me perdoem as palavras — mas umas saídas porcas para casos assim. Porque a gente vai ver, são serviços importantes que vão rolando, rolando, no fim sai uma coisa monstruosa qualquer, do gênero não sei, da gente mandar pegar um pacote na casa de Fulano, e o sujeito em vez de trazer o pacote, traz o Fulano.

* Termômetro se está em condições de fazer exame de consciência

Esta é a razão pela qual eu dei estas coisas, porque isto são termômetros de que a pessoa está em condições de fazer bom exame de consciência. Conforme estas disposições tem sinal positivo ou tem sinal negativo, as disposições para bom exame de consciência são umas e outras, e antes da gente fazer o exame de consciência, devemos fazer um exame de consciência do exame de consciência.

* Primeiro: doutrina ultramontana, devoção a Nossa Senhora

O “ultramontano” deve fazer o exame de consciência em dois pontos capitais: primeiro na sua fidelidade à doutrina “ultramontana”, e em segundo lugar, nas suas fidelidades nos deveres do Grupo e como membro, dos deveres que ele tem com membro do Grupo.

Em relação à doutrina “ultramontana”, o ponto de toque e a coisa mais sensível que o “ultramontano” deve ter é, em primeiro lugar, a preocupação fundamental da devoção a Nossa Senhora. E a pergunta que ele deve fazer a este respeito não é a seguinte: se a devoção que ele tem a Nossa Senhora é suficiente. Esta é uma pergunta mal lançada, porque nenhuma devoção a Nossa Senhora é suficiente. Não há o que baste até o fim da vida; um homem que ache o seguinte: “Eu hoje em dia, acho que tenho bastante devoção a Nossa Senhora.” Não entendeu nada, e praticamente não tem nenhuma, porque de Maria, diz São Bernardo: “de Maria nunquam satis”, nunca há o que baste a respeito de Nossa Senhora, e nós devemos estar sempre em progresso em devoção a Nossa Senhora. Se nós não estivermos em progresso e acharmos que atingimos a medida, então nós não compreendemos que de Nossa Senhora pode dizer, feitas as reservas necessárias, aquilo que São Francisco de Salles dizia de Deus. São Francisco dizia que a medida de amar a Deus consiste em amá-Lo sem medida. Feitos os descontos necessários, nós podemos dizer que a medida de amar a Nossa Senhora consiste em amá-La sem medida.

No que é que nós vamos medir a nossa devoção a Nossa Senhora? Nós devemos, naturalmente, ver se os atos de piedade habituais que nós fazemos a Ela realmente nós continuamos a fazê-los e se não há uma diminuição no que nós poderíamos chamar a boa rotina de nossos atos de devoção a Nossa Senhora, não tem dúvida nenhuma.

* Ponto chave: Nossa Senhora medianeira de todas as graças

Mas não é isto que basta, é preciso nós compreendermos duas coisas. Primeiro, que há um ponto da doutrina de São Luis Grignion de Montfort, que é o ponto chave da doutrina dele, e que nós devemos ter em vista e aprofundar cada vez mais, e que este ponto é o seguinte: Nossa Senhora como Medianeira de todas as graças. É uma verdade de Fé que já não se pode negar sem pecado mortal, mas que ainda não é um dogma e que ia ser proclamado dogma por Pio XII em vez da Assumpção, quando certas influências se fizeram sentir e não foi proclamado dogma da Mediação Universal. Mas continua uma verdade de Fé que sem pecado mortal não se pode negar.

* Mediação e realeza de Nossa Senhora

E eu acho que no Reino de Maria, se isto não se fizer antes, a primeira coisa que há para se fazer é proclamar o dogma da Mediação Universal de Nossa Senhora. Esta verdade de Fé diz que todas as graças que nos vêm do céu, vêm por meio de Nossa Senhora, e que tudo aquilo que nós pedimos aos céus é por meio de Nossa Senhora que devemos pedir. Esta afirmação equivale a colocar Nossa Senhora como Rainha do Céu e da terra. Porque se tudo tem que ser pedido por meio d’Ela, em última análise vem o que Ela quer e não vem o que Ela não quer, e Ela tem, portanto, um verdadeiro governo sobre todas as coisas que existem abaixo d’Ela e, portanto, sobre todas as coisas que existem abaixo de Deus, porque Ela está cima de toda a criação e até do universo angélico. E a realeza de Nossa Senhora é co-idêntica com este título com a Mediação Universal, mesmo porque Nossa Senhora não pode ter outra realeza. Sendo que Deus possui em sua fonte originariamente em sua plenitude perpétua inalienável, todo poder sobre todos aqueles que Ele criou, ou o poder de Nossa Senhora é um poder dado por Ele, e um poder de mediação, ou não é poder nenhum. De maneira que não há verdade de Fé que exprima de modo tão enérgico a realeza de Nossa Senhora, quanto à doutrina da Mediação Universal.

* Corolário: tudo em Maria, com Maria, por Maria

E essa Mediação Universal tem uma repercussão na nossa vida espiritual, que é a seguinte: fazer tudo em Maria, com Maria e por Maria. As nossas orações, nós termos sempre em mente, que Nossa Senhora deve estar rezando a Nosso Senhor. Que se Ela não estiver rezando conosco não adianta nada e, portanto, quando nós rezarmos, rezarmos por meio d’Ela, pedindo a Ela que se una a nós, para apresentar a Deus nossos atos de adoração, fazendo com que esses atos se completem os nossos atos tão “pocas” de adoração, sejam completados pelos atos d’Ela, pedindo a Ela que adore a Deus por nós, que dê ação de graças por nós, que Lhe dê reparação por nós, faça petição por nós, que a nossa voz chegue a Deus misturada com a voz d’Ela e por meio d’Ela e que Ela é que seja a medianeira das graças para nós. Quer dizer que nós queremos receber por meio d’Ela aquilo que nós sabemos que só por meio d’Ela nós receberemos.

* Mediação e escravidão

Daí exatamente a idéia de São Luis Grignion de Montfort da escravidão a Nossa Senhora. O escravo de Nossa Senhora é aquele que, cônscio da Mediação Universal, querendo levar ao último ponto da coerência a sua posição perante a essa Mediação Universal, se faz escravo de Nossa Senhora. E assim com n’Ela reconhece sua Soberana, d’Ela recebe tudo e por meio d’Ela encaminha tudo, assim a Ela dá tudo e se faz escravo d’Ela, de maneira que até os méritos das suas indulgências e das suas boas obras são para as almas que Nossa Senhora destinar e não para nós mesmos.

Quer dizer, há um inteiro desnudamento nosso nas mãos de Nosso Senhor como o escravo nas mãos de seu senhor. E o viver esta filialíssima escravidão, o viver isto, é precisamente o que se deve desejar, para estarmos em dia com a devoção a Nossa Senhora. Então, é nessas condições que nós devemos praticar, quer dizer, é tendo isto em vista é que nós devemos perguntar se essas verdades são a luz que ilumina toda a nossa vida espiritual.

* Imaculado coração: escravidão no aspecto maternal

Nós tivemos há dias a festa do Imaculado Coração de Maria. O Imaculado Coração de Maria nos apresenta esta escravidão no seu aspecto mais maternal, no seu aspecto mais bondoso. Nós somos escravos de nossa Mãe. Não somos escravos apenas de uma rainha em abstrato, mas de uma Rainha que é nossa Mãe. Mas é essa inteira escravidão da alma que é o primeiro ponto de interrogação do “ultramontano”.

* Apetência das conseqüências extremas

Segunda coisa que o “ultramontano” deve perguntar em seu exame de consciência, em matéria de doutrina, é se ele tem a apetência das conseqüências extremas de nossa doutrina. Quando eu falo das conseqüências extremas eu não [falo] exatamente das conseqüências extremas tolas, mal pensadas, que segundo o nosso jargon acabam sendo chamadas “milecanescas”, mas é da verdadeira apetência, do verdadeiro extremo, quer dizer, o extremo bem pensado, mas que por isso mesmo vai mais fundo e mais longe do que qualquer outra forma de extremismo.

Quer dizer, se diante de uma verdade qualquer da doutrina “ultramontana”, nós temos o desejo de saber qual é a última conseqüência daquilo. Isto é um sinal de fervor. É um sinal de tibieza, é um sinal de decadência ou é um sinal de progresso que ainda não está como devia ser o nós não termos esta apetência e termos assim, uma espécie de tendência de “moderantista”?

O que é que eu chamo aqui o “moderantista” ? Mais uma vez, não é aquele que quer evitar o “milecanismo” contra-indicado, mas é aquele que diante da posição boa e da posição biseculo [bissexta?] procura assim tomar uma atitude dita: compreensiva.

Coisa característica é a seguinte: a gente ouve falar, por exemplo, de reforma agrária. Então, vem o sujeito e diz: “não, realmente a reforma agrária é uma coisa muito ruim etc., etc., etc., reconheçamos que há muita pobreza por aí.”

Bom, é preciso reconhecer que há muita pobreza, mas esta frase solta no ar dá a entender: “bem, então é preciso dar um certo desconto na tese da reforma agrária.” Este, “reconheçamos que”, tem em si o caruncho de todas as negações. Não porque eu não deva reconhecer, porque o livro “RAQC” reconhece e é claro que seria uma tolice não reconhecer. Mas há um espírito nesse “reconheçamos” que, que é assim vago e que deixa assim para longe a idéia de uma bagatelização da tese que acaba de ser afirmada, e na bagatelização a gente não pode ir.

Quer dizer, entender bem. Perguntar àqueles que nos orientam e nos dirigem, perguntar no que consiste, por que estas palavras muito resumidas possam dar uma noção disto. Perguntar no que consiste a diferença entre: o aceitar os verdadeiros contra-fortes de nossa doutrina e o moderantismo falso. E desejar a nossa doutrina com todo o rigor, não dando quartel nenhum ao espírito da Revolução. Isto é outra coisa a respeito da qual o “ultramontano” deve se interrogar.

Outra coisa sobre a qual ele se deve interrogar é: Qual é o interesse que ele tem a respeito da doutrina.

* Pensionista ou combatente no submarino

Os senhores já viram aqui esta distinção, e eu já falei disto por alto, entre o pensionista do submarino e aquele que está no submarino para combater. A primeira característica do pensionista é que ele não se incomoda com doutrina; para ele doutrina é o mundo da lua. O verdadeiramente importante para ele, por exemplo, na Rua Pará [Sede], não é o de saber se foi dado uma boa doutrina no Santo do Dia, mas se foram arranjados os dois cordões para os tocheiros que estão ao lado do estandarte. Ninguém deseja mais ardentemente os cordões para os tocheiros ao lado do estandarte do que eu. Já tenho empenhado, insistido com o Soleta, isso, aquilo, aquilo outro. Com aquela insistência que a gente faz para as coisas complicadas, encrencadinhas e que têm que sair, não tem dúvida. Mas é a insistência das coisas perfeitamente secundárias, porque em comparação com a doutrina isto não tem valor nenhum. Isto que em si vale e que tem que ter — nós não podemos ter dois tocheiros eternamente amarrados com barbantes, mais ou menos como o nosso gigante está deitado eternamente em berço esplendido, bem, nós não podemos [ter] dois tocheiros amarrados com arame a vida inteira, portanto, acaba com o arame e vamos pôr o cordão dourado — bem, isto, entretanto, é ninharia. O que é preciso é olhar para os pontos doutrinários. Odiar a Revolução e amar a Contra-Revolução. E como é próprio do feitio humano, perceber melhor o mal do que o bem, e a bem dizer muitas vezes notar o bem à luz do mal.

Então, por causa disto, mais é sinal de amor de Deus e de espírito “ultramontano”, ódio à Revolução do que uma expressão de amor ao bem que tomasse assim um ar meio bonachão: “hummmm, que lindo!”

* Linda?! De um amor cheio de ódio

Uma vez eu vi uma pessoa comentar, fazer isso: “Que linda é a “RCR” que o senhor escreveu!” Fiquei com vontade de bramir: “Se há uma coisa que ela é, é não ser linda, não. Não a injurie.”

Eu acrescentaria mais: Não a prostitua, porque se há uma coisa que é linda, não é ela; pelo contrário, é sem graçona, é toda doutrinária, é meio parecida com um motor — me permitam dizer, que na medida em que um motor é sem graça… — é toda parecida com um motor em que tudo está emparafusado com bielas, vira-brequins, é [fisioso?] e outros adornos. É, portanto, toda uma coisa precisa, raciocinada e que não fala à imaginação. Ela será bela, mas de uma beleza que não se chama de linda, no sentido de lindinha, quase açucarada de adocicada. Deus nos livre. Quer dizer, é de outro jeito, é de um amor cheio de ódio, em que o amor se prova pelo ódio. É assim que verdadeiramente nós devemos viver nossa Contra-Revolução”.

* Grupo: conjunto de pessoas que disseram sim

Bem, passando, porque eu quero terminar com esse exame de consciência hoje, passando para outra ordem de idéias e tornando muito sumário o que eu estou dizendo, eu gostaria de acrescentar o seguinte: em relação ao Grupo, há duas coisas que nós devemos considerar: primeiro, nós devemos nos lembrar que o Grupo tenha lá os defeitos humanos que tiver, é o conjunto das pessoas que foram chamadas e que disseram sim — o sim será maior ou menor, será mais completo ou menos completo, disseram sim — que estão reunidas em torno desse sim, em nome desse sim e vivificadas pelo valor desse sim e que, portanto, é uma instituição grandiosíssima, pelo valor desse chamado, pelo valor desse sim, e que ainda que haja neles misérias humanas, haja defeitos, haja coisas de toda ordem, pelas quais cumpre não fechar os olhos, a vista dominante não pode ser esta.

* Amamos quem Nossa Senhora mantém na aliança dEla

Aqui dentro do Grupo, pelo contrário, a nota dominante é o amor, e nós temos que, então, reconhecer e amar e estimar, como um verdadeiro irmão nosso, todo aquele que está dentro do Grupo, ainda que com ele tenhamos incompreensões, dificuldades temperamentais, queixas pessoais ou coisa de qualquer outra natureza. Primeiro, porque Nossa Senhora o chamou, e segundo, porque ele disse [sim] a Nossa Senhora. E Nossa Senhora o mantém na aliança d’Ela. E porque Nossa Senhora o mantém na aliança d’Ela, nós o amamos, porque aquele a quem Nossa Senhora ama, nós devemos amar também. Há um ditado muito chulo, muito comum, que diz: “amigo de meu amigo, amigo é.” Eu poderia dizer que aquele que é amado por minha Rainha, minha Senhora e minha Mãe, eu como escravo d’Ela, não tenho outra coisa para fazer senão amar de todo o coração. Lamentando, embora, que possa ser de outra maneira, pouco importa, ele é verdadeiramente meu irmão.

* Aceitação de uma hierarquia de valores

Daí, entretanto, não se cifra tudo quanto é a posição do “ultramontano” dentro do Grupo. Porque este sim traz atrás de si a aceitação de uma hierarquia de valores. Esta hierarquia de valores é uma hierarquia que é toda a nossa doutrina, que é o amor ao sublime, que é o ódio ao igualitarismo, o amor a todas as hierarquias, o amor a todas as ordens verdadeiras, nas suas respectivas hierarquias, e é isto que um membro do Grupo aceita, pelo menos parcialmente em sua alma, quando ele diz sim a Nossa Senhora.

E amar isso que nele existe pelo menos parcialmente é um ato de amor verdadeiro, é um ato de amor profundo, pelo amor ao que esses valores representam. Então, daí vem para com o Grupo uma atitude, que visa não mais o conjunto das pessoas do Grupo, mas algo que está além disso e que é mais do que isso. São as pessoas, mais a vocação em torno da qual essas pessoas estruturam, e esta vocação com as finalidades da vocação.

* Sublimidade do Grupo

E é isto que faz do Grupo algo verdadeiramente sublime e pairando acima das fraquezas humanas. Paira acima porque esta vocação está acima de todas as fraquezas que dentro do Grupo podem existir. E por que está acima? Por causa da pessoa que chama, que é Nossa Senhora, e por causa dos ideais que este chamado significa. Por esta forma nós temos então verdadeiramente a idéia da grandeza do Grupo como instituição. Como instituição o Grupo é muito mais do que a soma das pessoas. É a soma das pessoas em torno de uma vocação e é inspirada e animada por esta vocação.

* Quando se vê a vocação de modo claro

Quando a gente vê isto bem claro, a gente no Grupo é paciente, é pronto a perdoar, é pronto a ter a bivalência, é pronto a estimar, eu não recuo diante da palavra: é pronto a servir. E no pronto a servir é pronto a permitir que abusem da gente, porque se não for para permitir que abusem de nós, não existe Grupo. A gente tem que compreender aqueles que estão mais fracos, aqueles que estão numa posição mais difícil, aqueles que estão sofrendo mais, aqueles que são menos bons e que, porque são menos bons, abusam. E isto é preciso receber com bondade, é preciso receber com paciência e com amor. Por amor a essa vocação que é exatamente o sol sublime e resplandecente da vida do Grupo.

Eu falei do igualitarismo, e por igualitarismo os senhores estão vendo que eu estou falando de hierarquia, estou falando de humildade.

* Grupo e pureza

Uma palavra a respeito da pureza. O Grupo, institucionalmente falando, leva ao último limite possível o amor à castidade. E por causa disto, porque ele fomenta até sob todas as formas e como via preferencial e normal dele o celibato, o Grupo resplandece com todas as belezas da virgindade. Não a menor, vejam bem, da castidade praticada; mais do que isto, da castidade compreendida. Porque casta, há muitas solteironas por este mundo aí afora, mas que não compreendem bem a castidade que praticam. A castidade tem que ser amada como uma virtude da alma a propósito das coisas do corpo, como uma excelência do espírito a propósito da carne. Assim é que a castidade tem que ser amada. E é como Nossa Senhora a ama; e nisso nós nos parecemos com Nossa Senhora, que esmagou a cabeça da serpente, que é a Virgem das virgens, que representa a pureza etc., etc. Bem, e que é a este título também o contrário da Revolução.

* Amor crescente à pureza

Quer dizer, neste ponto também, ainda que possa haver para desgraça nossa alguma coisa a lamentar possivelmente em algum membro do Grupo a este respeito, é preciso ver o seguinte, que há um chamado permanente ao perdão, há um chamado permanente a reintegração rápida na pureza, há um chamado permanente para o amor crescente à pureza. Não basta ter um amor estático à pureza, mas um amor crescente à pureza, e este amor crescente à pureza faz de nós semelhantes a Nossa Senhora, e então os escravos dignos de sua Senhora.

Perguntarmo-nos, portanto, como é que vamos na luta contra este outro agente da Revolução que é a impureza, é uma coisa elementar do estado de espírito do “ultramontano” e do exame de consciência do “ultramontano”.

* Confiança na graça

Eu termino com uma consideração. É que nós nos devemos lembrar que nada disto se consegue sem a graça e que, portanto, a vida de oração, a vida dos sacramentos é feita para obter isto. Se nós não nos devemos orgulhar de ser… [faltam palavras]… e esta confiança na oração é outra virtude a respeito da qual nós nos devemos interrogar. Qual é o sinal de que a oração deve ser mais confiante? É que quando nós consentimos nas baixas, ter baixa na falta de confiança, consentir na baixa pode ser falta de confiança.

Então, aqui está o último ponto, representado pelo nosso cavaleiro com a palavra “Fidúcia”, que tão gloriosa repercussão teve no Chile; aí está o nosso cavaleiro com a palavra “Fidúcia” a nos indicar um último ponto do exame de consciência do “ultramontano”.

*_*_*_*_*