Discurso
(Covadonga - B.H. - Minas) (Covadonga - B.H. - Minas) –
15/8/1965 – domingo – p.
Discurso (Covadonga - B.H. - Minas) — 15/8/1965 — domingo
Nome
anterior do arquivo:
Discurso no Covadonga
... [faltam palavras] ... enquanto eu ouvia as palavras do nosso caro Carlos Alberto, eu me reportava, em espírito, a uma época bem distante; 40 anos atrás, numa época que eu creio, exceto o Dr. Paulo e... [faltam palavras] ... Dr. José Fernando, ninguém estava vivo.
E eu me lembro da época em que, com 16 anos, ou com menos ainda 14 anos, 12 anos, eu sentia em mim os primórdios da nossa vocação e eu tinha o desejo de lutar pela derrubada da revolução. A revolução não se apresentava ao meu espírito como um todo ainda articulado, mas eu tinha lido alguma coisa a respeito da revolução francesa e tinha fervido de indignação contra ela. E eu tinha compreendido que todo o mundo nascido da revolução francesa era um mundo mau por participar do espírito da revolução francesa. E de um modo mais confuso, porém, de um modo que me era bastante vivo, eu entendia bem que o comunismo não era senão o último desdobramento disso. O comunismo e todo aquele ambiente de igualitarismo norte-americano – que marcava São Paulo do meu tempo de menino.
Marcava de um modo muito vivo, porque eu assistia dia a dia o cair das últimas tradições, e quem tem bem a noção do outono, não é que quem pega o outono no seu auge, mas quem pega a transição entre ou outono e a primavera, ou melhor, o verão. De maneira que vê as folhas caírem das árvores e vê a transformação da natureza. Eu ainda tinha alcançado o tempo de algumas transformações que, eu creio, os senhores nem sequer calculam bem o que quiseram poder dizer. Por exemplo, das senhoras que – cortaram o cabelo, e senhoras de 30, 40, 50 anos que passam, de repente, a usar cabelos que só os homens andavam. Usavam cabeleiras solenes, grandes, nem sempre muito bem arranjadas. De repente aquilo cai e dá naquele balaio cortado. Depois, as senhoras que começam a fumar. Depois, as saias que se encurtam. Depois, o sufrágio universal que se estende a todo mundo. Depois as senhoras que renunciam sair de casa apenas acompanhadas, para começar a saírem sozinhas. Depois, o hábito de chamar de você: senhores e senhoras, pessoas de sexo diferente, que cai o senhor e a senhora e entra o você democrático para rapazes e moças que apenas estavam se conhecendo naquele momento.
Depois, inovação revolucionária, depois daqueles automóveis franceses, da Renault por exemplo, que eram automóveis... [faltam palavras] ..., ao qual não faltava uma certa solenidade, apareceu o Ford, mas o Ford pequeno, digno precursor dessa baratinha de metal que é o Wolksvagen. Tudo isso marcava uma transição em tudo e marcava a possibilidade de uma queda em tudo, que me deixava indignado. Deixava-me indignado e eu ficava ainda mais indignado com o modo sonolento como os responsáveis por essas coisas as recebiam. Aquilo entrava transformava tudo e ninguém ligava para nada. E eu mais indignado ficava ainda por me sentir inteiramente só e eu compreender que a maior parte das idéias que germinavam em meu espírito eu nem sequer as poderia comunicar a ninguém, ninguém.
Mas ao mesmo tempo, nas minhas elocubrações, que eram feitas sobre tudo na hora de dormir ou de bonde – um longo trajeto de bonde que eu me arranjava para fazer sozinho, de minha casa até o colégio São Luís, e depois na volta também – nessas longas elocubrações que eu fazia eu dizia de mim para comigo mesmo: Não, mas isso tem que cair. Não é possível. Há de haver um momento, há de haver um movimento, há de haver uma ordem de coisas que vai representar o contrário disso. Eu não sabia ainda falar no Reino de Nossa Senhora, mas é claro que já era o Reino de Nossa Senhora que eu esperava.
Nesses momentos eu tentava articular então colegas. Primeiro, meus fraquíssimos, poquissimos e… [faltam palavras] … primos. Foram os primeiros elementos de minha arregimentação, com o fracasso que isso… [faltam palavras] …Depois disso, esse ou aquele colega do São Luis, pintado assim a mão. Fracasso completo. E um tal ambiente de fracasso, que até entendi que não valia a pena fazer nada, porque em toda a vastidão da terra não havia quem pensasse como eu.
Depois disso, faculdade de Direito. E isolamento cada vez mais completo. Mas ao longo desses anos de isolamento, eu pensava: como seria bom um novo movimento assim, assim, que tivesse tais rapazes e que comigo fizessem tais coisas etc., etc., etc. E uma pergunta me vinha ao espírito: Mas pelo menos o meu Imperador como será (?) E na candura de minha alma, eu dizia: Deve ser extraordinário, deve ser um príncipe assim, assim, assado.
Bem, quase tudo foi desilusão nesse sonho, exceto o fato seguinte: em determinado momento aparece o movimento mariano e depois de vinte e tantos anos de espera, as portas de meu… [faltam palavras] …abriram-se e começa então o movimento do “Legionário” e coisas que eu julgava estar sonhando, porque começavam a acontecer como exatamente eu imaginava que podiam acontecer. Então, com pormenores de coincidência verdadeiramente surpreendentes.
Pois bem, eu estava sentado ali na cadeira e estava pensando com meus botões: se naquele tempo eu tivesse podido prever concretamente uma mesa assim de amigos, de amigos todos contra revolucionários – e já não digo o movimento todo de Catolicismo, mas o grupo de Minas, se eu tivesse podido prevê-los uma maravilha dessas, como é o grupo de Minas Gerais, pelo favor de Nossa Senhora: maravilha de espírito, maravilha de atividade, maravilha de obediência, maravilha de organização, maravilha de piedade. Se eu tivesse podido prever tudo isso, eu exultaria e eu acho que poderia dizer como Jó, “que meus ossos humilhados exultariam de alegria”, de tal maneira que me sentiria alegre com a previsão de que era possível… [faltam palavras] …de um plano que de todo em todo se ame afigurava inverossímil; e entretanto no qual eu confiava tanto que se esse plano não se realizasse eu preferia cem vezes morrer.
Os senhores compreendem portanto, que a minha sensação nessa mesa, nesse lugar, para usar uma linguagem muito banal, mas que é a única que se adequa, ou melhor, é a única que se adequa exatamente ao que eu passei, é a de um indivíduo que andou pelo deserto longamente, teve várias miragens e então começou por pensar num oásis assim. Depois, … [faltam palavras] … e o oásis ficou assim e as miragens representavam árvores assim: ele colava a boca na terra e ele encontrava areia. No fim, com uma palmeira e três gotas d´água ele se contentaria. Mas ele não tinha nem a palmeira, nem as três gotas d´água. De repente, ele encontra um oásis, mas quando ele está exausto, mas sempre esperançoso, ele não encontra um oásis, mas ele encontra o começo imenso, insegotável de uma pradaria com toda a possibilidade de se dessedentar, de repousar, de tomar contato com verdores da natureza, os senhores podem imaginar o que significa isso.
Essa pradaria é, sem dúvida, o mundo do Catolicismo. Mas é preciso bem dizer que num prado há lugares particularmente abençoados, lugares particularmente férteis e o grupo de Belo Horizonte figura nessa linha de lugares. Muitas e muitas vezes o Carlos Alberto falava, nas ocasiões em que eu não estou em Minas, muitas vezes eu não estou em Minas, mas Minas está comigo. Em São Paulo, com preocupações, com aborrecimentos, com tanta coisa, a gente para se nutrir e se animar pensa no que vai bem. E o pensamento do meu grupo de Minas distante, mas sempre dando tanta alegria, tanto conforto, tanta esperança, eu lhes garanto que é um dos fatores bem vigorosos, bem… [faltam palavras] …para me ajudar a carregar uma batalha que a cada um de nós tira verdadeiramente todos… [faltam palavras] … de tal maneira é enorme.
Assim, embora os senhores não pensem na direção, o Carlos Alberto falava na participação da direção central do movimento, do reconhecimento que tem da direção central do movimento, afinal de contas não pode se dividir ou desconjuntar, mas ao mesmo tempo um desejar de gratidão que muitas e muitas vezes é o pensamento de Minas Gerais é um dos pensamentos que me sustentam e eu então penso nisso: Se simplesmente Minas Gerais, ou melhor, em Minas Gerais eu pudesse pensar antigamente, quanta alegria…..
Assim, eu não posso deixar de ver tudo quanto se deu aqui, nesses dias, uma vez que estamos aqui numa intimidade que amanhã à noite nós não teremos, eu não posso deixar… [faltam palavras] … aqui, dias de afago de Nossa Senhora, dias de alegria muito grande, em que a cada um de nós ela dá um prêmio e ela nos dá a alegria de nos sentimos juntos, não só nós de São Paulo e nós de Minas Gerais, mas nós de todo o Brasil. Os meus caros cariocas, curitibanos e tantos outros; a nossa Bahia poética e significativa produtiva e fecunda, e tantos outros que aqui estão presentes e que constituem um encontro, - que é uma alegria multiplicada pela alegria. Uma alegria porque estamos todos juntos e porque bem no meio de nós está Nossa Senhora. A alegria que nos sustenta o traço que nos une é a devoção a Nossa Senhora.
Essas palavras sejam, portanto, de um agradecimento sem palavras nem expressões possíveis a ela, que é o canal do todo o bem e a fonte de todo o bem, que é Ela mesma a distribuidora de todas as graças na terra. Tudo que está aqui a ela deve ser atribuído, porque dela veio e nesse momento eu quero que para ela suba o nosso agradecimento indizivelmente comovido a cada vez mais… [faltam palavras] ….
*_*_*_*_*
Covadonga - B.H. - Minas