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Conferência no Instituto de Educação — 15/8/1965 — domingo

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Conferência Pública no Instituto de Educação de Belo Horizonte

Sr. Dr. Antônio Ferreira Rodrigues, DL. Presidente da seção mineiro da Sociedade Brasileira Tradição, Família e Propriedade, … [ilegível] …D. Betrand de Orleans e Bragança, Exmo Sr. Pio Porto de Menezes, representante de Dr. Osvaldo… [faltam palavras] … prefeito de Belo Horizonte, Cr. Cap. José Lázaro Rodrigues Guimarães, representante do Dr. Gal. Comandante do LID 4, senhores do Diretório Nacional da Sociedade Brasileira Tradição Família e Propriedade, senhores membros da seção Mineira do Diretório Mineiro da Sociedade Tradição Família e Propriedade, minhas senhoras e meus senhores:

As referências tão amistosas e tão extensas… [ilegível] …Dr. Rodrigues houve por bem fazer a minha… [ilegível] … nessa noite essas referências tão generosas poderiam ser sintetizadas em uma só referência, … [ilegível] …rápida e que a todas abrangeria: Um homem se mede em grande parte pelos amigos que tem. Ter o pugilo de amigos que me honram com sua amizade em Belo Horizonte e dos quais são símbolo o presidente, o secretário e o tesoureiro da secção de Minas Gerais da Sociedade Brasileiras de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, é um padrão de honra para mim, é uma causa de alegria e de satisfação que eu coloco entre as mais insignes. Eu faço questão de instruir, nessa longa enumeração, como homenagem de confiança e reconhecimento a tão prestantes, tão diletos e tão exímios amigos.

Isso dito, passo a tratar da matéria de que deveria tratar na noite de hoje e que trata de um assunto de um interesse tão grande que a simples presença, em um dia de trabalho, a esse local, de um auditório como o vosso, para tomar conhecimento de matéria tão árdua, já prova bem a atualidade e a importância do assunto. Trata-se de saber, minhas senhoras e meus senhores, se em face do comunismo há uma via de coexistência e de colaboração, ou se a única atitude possível da parte daqueles que lutam pela civilização cristã, e que lutam por um Brasil verdadeiramente brasileiro, é a luta. Questão que sobre todas se impõe no momento atual, porque não há dúvida de que a encruzilhada do mundo contemporâneo é essa. Nós temos diante de nós o perigo comunista e a questão é de saber se o mundo de amanhã vai ser comunista ou vai ser anticomunista; se ele vai ser edificado sobre os fundamentos do comunismo ou se, pelo contrário, ele rejeitará esses fundamentos, caso no qual um porvir magnífico para ele se delineia, porque quando uma coletividade humana rejeita um fundamental falso, ela ipso facto se firma no fundamento verdadeiro. E nós que, infelizmente, … [ilegível] … muitas vezes sobre os fundamentos verdadeiros nesse ato de opção que no aguarda se tomarmos a atitude da recusa completa e total, nós firmaremos as nossas próprias raízes e então o Brasil caminhará para ser aquela grande nação cristã que foi sonhada pelos portugueses, pelo missionários, pelos brasileiros das antigas gerações, aquela grande nação cristã que sem favor nenhum, ao lado das suas co-irmãs da América Latina, será o centro do mundo de amanhã.

É portanto, o futuro próximo do Brasil, mas é também o futuro próximo do mundo sobre o qual pesa com tanta força o futuro do Brasil, é esse que está em jogo num tema que se enuncia em palavras tão rápidas e tão simples: comunismo, colaboração, coexistência, ou então luta. E é sobre esse tema que eu vou vos dizer umas palavras na noite de hoje, com a convicção que o tema é árduo, de que o tema é árido, mas de que a importância da matéria, a vossa vigilância e a vossa atenção darão possibilidade de que ele se estenda adequadamente, de maneira a nos dar um aspecto total da solução a ser dada a esse importante problema.

Para que nós compreendamos o problema da colaboração com o comunismo, é necessário, antes de tudo, que nós nos coloquemos na posição em que os comunistas se acham, e que nós possamos entender os problemas mundiais a partir do prisma comunista. E como é que se colocam esses problemas?

Nos diríamos, a primeira vista, que a atuação do comunismo é brilhante. Se nós tomarmos em consideração que o manifesto de Karl Marx foi publicado, em números redondos, há cem anos atrás e de papel em que as linhas desse manifesto estavam, saía um tal número de guerras e de revoluções, que o comunismo ocupa hoje uma grande parte do globo e domina uma grande parte da humanidade, se nós consideramos que o domínio comunista começa no muro da vergonha de Berlim e ele ao longo do Elba e do Danúbio, e que ele se extende depois pela Rússia, pela China até a Indochina e ameaça ganhar, no momento, a Malásia e a Indonésia; se nos calcularmos que o comunismo abriu uma ferida no continente americano e essa ferida se chama a infeliz nação cubana; se nós tomarmos em consideração que, sem serem explicitamente comunistas,outras nações da terra estão também em regime que já é próximo do comunismo; se nós pensamos no Egito, na Argélia, na Tunísia, se nós pensamos na Bolívia, nos compreenderemos então que nesses cem anos a expansão do comunismo foi colossal. Se a isso nos acrescermos que o desenvolvimento da ciência colocou nas mãos do bárbaro moscovita a bomba atômica e que o chinês, pervertido ao comunismo, também já afirma possuir a bomba atômica e a brande sobre o ocidente, nos temos então a sensação de um poder avassalador e nós imaginamos que os dirigentes soviéticos se encontram no ápice de seu poder e se acham já senhores do mundo.

Mas uma análise mais detida do problema comunista uma análise mais exata do que valem esses resultados aos olhos do próprio pensamento comunista, nos induzirá a considerações de ordem diferente. E é a partir dessas considerações que o tema da colaboração com o comunismo verdadeiramente se formula segundo os seus verdadeiros termos.

Realmente nós podemos dizer que o comunismo obteve todas as vitórias que a força e a astúcia lhe poderiam dar foi por meio da força que ele derrubou o regime czarista e se impôs no Rússia. Foi por meio da força que ele penetrou na Europa oriental e ali estabeleceu o seu domínio. Foi por meio da força e de astúcia que ele se estabeleceu na China. E por meio da força que ele continua a se propagar. Ele obteve, por meio de astúcia, a tremenda vitória do tratado de Yalta; ele obteve por meio da astúcia a tremenda catástrofe para o ocidente que foi a adoção da política de Marschall na China.

Mas para o comunismo, de que valem essas vitórias obtidas pela força e pela astúcia? Para o comunismo, o que significa propriamente o ter coberto com seu poder uma tão grande parte da terra? Para compreendermos bem isso, temos que tomar em consideração o que é o comunismo.

A vista da leitura dos jornais quotidianos fala-se em Partido Social Democrático, em União Democrática Nacional, em Partido de Representação Popular, em Democracia Cristã e fala-se também em comunismo. E as pessoas têm a ilusão de que o que Partido Comunista é um partido como outro qualquer e que não é senão uma agremiação de caráter político que existe no terreno político como existem as outras agremiações. E esse é um primeiro erro que importa fortemente desmentir. O comunismo não é sobretudo um partido político. O comunismo é, sobretudo, uma seita filosófica. Uma seita filosofia quer dizer é um conjunto de pessoas que tem uma filosofia própria. Essa filosofia envolve uma visão do universo; essa visão do universo envolve o desejo de configurar todas a instituições políticas, sociais e econômicas do mundo segundo um determinado modelo. E para os comunistas, a evolução, que é a própria trama da história e que impõe à história o seu rumo, e evolução é um fato universal. Ou se dá a evolução no mundo inteiro rumo ao comunismo, ou a natureza, que é o grande agente da evolução, não encontrou verdadeiramente o seu caminho. De maneira que é preciso, então, conseguir que toda a natureza seja integrada nesse movimento. Para conseguir que a natureza seja integrada nesse movimento, é necessário conseguir, de outro lado, que todas as nações nele sejam integradas; que todos os… [ilegível] … se tornem comunistas por convicção. Porque enquanto os homens não se tornaram comunistas por convicção, a ideologia comunista não terá penetrado nas profundezas da humanidade e não terá produzido na humanidade aquela forma especial de transformação indispensável para que a humanidade evolucione. O problema comunista do ponto de vista político não consiste tanto em dominar uma determinada parte da terra, mas consiste em persuadir os homens; e o domínio da terra não é outra coisa, para os comunistas, senão um meio para a persuação dos homens. De maneira que a pergunta que se coloca para o comunismo, ao cabo de cem anos de vitórias realmente grandes obtidas pela força e pela astúcia, o problema é o seguinte: nós, comunistas, conseguimos persuadir com nossas teses comunistas a humanidade? Nós conseguimos convencer os homens de que o comunismo é a doutrina verdadeira, é a filosofia verdadeira que deve, de fato, reger a evolução nincrônica, simultânea e proporcionada de todas as partes da humanidade, para o ideal que o comunismo tem em vista?

Ora, quando nós imaginamos um comunista que se faz essa pergunta, nós devemos reconhecer que a resposta, para aos comunistas, é singularmente decepcionante. E singularmente decepcionante por quê? A Doutrina comunista, ao cabo de cem anos, durante cem anos fez uma propaganda intensa. Essa propaganda intensa contou com todo o dinheiro necessário; ela contou com toda a técnica necessária; ela teve liberdade de se expandir nos países do ocidente, como bem entendeu. Ao cabo nesses cem anos, o que acontece? É que os comunistas, nos países do ocidente, não ganharam uma só eleição. Sistematicamente durante cem anos convocaram-se eleições. O partido Comunista tem Liberdade de registrar os seus candidatos. Ele os registra. Os seus candidatos dizem nos trabalhadores manuais, os seus candidatos dizem aos pobres: Vede todas essas riquezas. Essas riquezas serão vossas, se vós nos elegerdes. Os pobres vão às urnas com os ricos, e nunca o partido comunista alcançou uma vitória. Nunca os pobres disseram: nós queremos saquear os ricos. A maioria dos pobres nunca disse isso. Nunca ela deu os votos aos comunistas. Os comunistas foram sistematicamente derrotados. Quer dizer, mesmo quando se dirigiram àqueles que teriam um falso interesse, é verdade, mas um interesse veemente em atender aos reclamos do comunismo, mesmo nesse caso os comunistas não conseguiram resultados ponderáveis. Muito pelo contrário, cada vez eles tiveram da maioria da população, uma negativa formal.

Alguém poderia dizer: Mas, professor, não se trata bem disso. Para os comunistas trata-se de conquistar o poder com uma maioria, por um golpe de força. Depois eles modulam a opinião pública. Eles não a modulam durante o regime democrático. Primeiro, não se pode conceber bem porque não a modulam no regime democrático. Em última análise, o regime democrático lhes dá toda a liberdade de falar, lhes dá toda a liberdade de argumentar. Por que não convencem? Porque não arrastam as massas atrás de si? Porque, de cada vez que uma eleição se convoca, há um fracasso? Depois, em segundo lugar, é verdade que tomando conta do poder, eles convenceriam as massas? O que aconteceu nos lugares onde eles tomaram conta do poder? Se nós pensamos na Rússia, onde se faz um turismo dirigido e onde o turista não pode falar com uma pessoa do povo, onde não pode visitar qualquer coisa porque eles têm medo que o povo diga horrores; se nós pensamos que a Rússia é uma espécie de imenso campo de concentração do qual não se pode sair e no qual não se pode entrar; se nós pensamos no Muro da Vergonha e no número enorme de pessoas que com o risco da vida fogem desse esquisito paraíso, nós seremos levados a achar: que realmente eles não convenceram ninguém dentro do país mesmo onde eles conseguiram vencer.

Pior ainda, e isto é mais dignificativo: eles não só não conseguiram convencer, mas não conseguiram organizar. Um pouco por toda parte do mundo bolchevista se determinam movimentos de pessoas descontentes. E para atenuar esse descontentamento, os bolchevistas o que fazem? Anunciam que vão mitigar o regime de propriedade coletiva através de concessões à propriedade privada. Mera manobra, com veremos adiante, mas que é assim mesmo muito significativa. Porque ao cabo de 50 anos de implantado na Rússia, de 20 anos de implantado na Europa, o regime comunista, para sobreviver é obrigado a pedir um apoio a uma força adversa, em princípio de mesmo que ele combate. E é fazendo incongruências na sua própria doutrina, que ele espera obter algum resultado de organização. Isso é o fracasso dos fracassos .

Talvez os senhores já se tenham posto diante da idéia do que seria para o mundo um proceder contrário dos comunistas. De repente abria-se a cortina de ferro, permitia-se que todo mundo entre, que todo mundo visite a Rússia. A gente vai falar com os operários: operários, médica, satisfeitos risonhos, tranqüilos… [ilegível] …muito bem. Depois que tomam conta do poder isso aqui é um paraíso. Olhem minha casa, olha a casa daquele, meu senhor, entre por toda parte, examine que quiser, o senhor verá como nós somos felizes. Rejeições contrárias pela [ONU?] liberdade plena. … [ilegível] …a favor do comunismo. Os senhores querem melhor propaganda para o comunismo? Por que os comunistas não fazem essa propaganda? … [ilegível] … eles não fazem perfeitamente… [ilegível] …fazê-la… [ilegível] …Porque eles não convenceram os povos que eles presentemente estão dominando.

Dentro dessa perspectiva, o verdadeiro problema para o comunismo consiste em saber o seguinte; que fazer para, de fato, ganhar a batalha da opinião pública? O que fazer para, de fato, convencer, dentro de nosso país e fora de nosso país as pessoas que, até agora, nós não conseguimos convencer? E então, debaixo desse ponto de vista, nós notamos a fundamental e congênita fraqueza do comunismo.

Essa observação de feita, nós devemos então dizer que os comunistas devem, nos seus altos conciliábulos, afirmar o seguinte: que de um lado eles estão dispostos a conservar todo o aparelhamento de fraude e de força que até aqui lhes valeu tanto recurso; mas que, de outro lado, eles querem também organizar e montar um aparelhamento novo, aperelhamento esse que lhes dê algo que a fraude e a força não lhe deram; um sistema de persuasão diferente. E é no sistema de persuasão comunista que nós devemos fixar as nossas vistas para entender qual é essa colaboração de que os comunistas falam.

Qual é o sistema até aqui adotado pelos comunistas? O sistema é o seguinte: eles fundam numa determinada cidade um centro comunista. Esse centro ou é fundado por gente que vem de fora, ou é fundado por pessoas do próprio local que lêem livros comunistas, se tornam comunistas e se põe em contato com a direção comunista a partir do momento que esse centro está funcionando, começa a entrar… [ilegível] …proselitismo ativo. Esse proselitismo consiste em… [ilegível] …comunista, esse afirmar comunista. … [ilegível] …fazer a propaganda do comunismo, em publicar jornais comunistas etc. Dentro de algum… [ilegível] …dessa cidade, um certo número de pessoas [se tornam comunista?] De que a experiência prova e que… [ilegível] … já estão agregados ao partido comunista e o partido não cresce mais, ou cresce muito pouco. Então, o problema não é de destruir esse partido comunista. Mas o problema é de fazer a crítica desse processo de propaganda. Com efeito, se essa propaganda não deu resultado, e é uma propaganda explícita, clara, a razão principal está em que o nome do comunista causa horror a muita gente. E que por isso, ao mesmo tempo que afirmando-se-comunistas, eles ganham todos simpatizantes, afirmando-se comunistas, eles fecham as portas,ou melhor, fazem fechar-lhes as portas por parte de todos aqueles que lhes tem antipatia. E então, em vez de uma propaganda explicitamente comunista, em vez de uma propaganda declaradamente comunista, ou melhor ainda, ao lado de uma propaganda explicita e declaradamente comunista, é preciso que se adote uma outra forma de propaganda, que não seja nem explicita nem declarada, na esperança de por essa forma levar as pessoas a uma verdadeira colaboração com o comunismo. E sem que as pessoas percebam, levar as pessoas a serem comunistas. Então, a tática antiga era declarar que o comunista é comunista e propor [aos?]não comunista que fique comunista. A tática… [ilegível] …é que alguns não declarem que são comunistas …[ilegível]…do qual aqueles a quem elas se ….[ilegível]…

[ilegível]…de palhaço, sempre bem humorado, Kruschev, e com Kruschev o comunismo adotou um new look. Não mais a cara dura e enigmática de Molotov; não mais o… [ilegível] …, o não característico dos diplomatas comunistas, mas o sorriso, a gentileza por toda parte, as visitas, as cortesias. Algo parecia mudar .

Ao mesmo tempo em que isso se dava, havia evoluções na Rússia e pequenas notícias de todo lado insinuando que na Rússia começa a haver alguma liberdade, e que a Rússia não, é, portanto, mais aquela senzala ou aquele campo de concentração que nós imaginávamos. Ao para dessas circunstâncias, começa a Rússia a propor uma colaboração com os ocidentais, afirmando que é preciso fazer uma coexistência e que essa coexistência deve evitar a guerra, que é um grande mal, e evitando a guerra, que é um grande mal, estabelecer um regime de colaboração para o bem comum entre os países comunistas e não comunistas. Por sua vez, essa mudança de atitude da Rússia, foi seguida de um fato muito curioso. E esse fato foi a abertura mais acentuada e mais pronunciada do que nunca, de uma divisão nas fileiras dos ocidentais. Muitas vezes, entre os ocidentais começaram a se erguer, dizendo que a coexistência com o comunismo era possível, que a coexistência com o comunismo era desejável, que essa colaboração era… [ilegível] …talvez um meio de estabelecer uma… [ilegível] … que nunca mais houvesse guerra mundial e, além de não haver guerra mundial, talvez nunca mais houvesse conflitos ideológicos, porque os conflitos ideológicos [iam?] desaparecendo.

Qual foi o modo pelo qual isso se travou? Começou a aparecer uma ala de comunistas declarando o seguinte: nós, comunistas, não queremos perseguir a religião, nós não queremos [fechar?] o culto. Nós pedimos apenas aos católicos que renunciem o direito de… [ilegível] …a partir do momento que eles cessem de lutar pelo direito de propriedade, a partir desse momento, os comunistas não perseguirão mais os católicos. E como a propriedade privada é uma coisa da terra e não é do céu, como afinal de contas, se poder ir para o céu sem a propriedade privada, nós comunistas chamamos sobre nós a responsabilidade de sugerir o seguinte: Renunciem à propriedade privada e terão toda a liberdade religiosa. Se vocês dizem que são perseguidos por nós, não digam que essa perseguição vem por causa da religião. Digam que é porque vocês são asseclas dos proprietários; vocês tratam de uma causa econômica e não de uma causa religiosa. Vocês são fariseus. E com isso os comunistas procuram colocar muita gente do seu lado. Pior ainda: conseguem embair muitos os católicos, que sem perceber o que há de capciosos e de falso nessa tática, começam então a sorrir para o comunismo. E aqui está então uma divisão aberta entre os adversários do comunismo, em que uma parte dos adversários do comunismo começa a aceitar uma colaboração com o comunismo no momento mesmo. E essa coincidência é das mais chocantes – no momento mesmo em que ao comunismo convinha isso para iniciar a sua tática de embair a opinião mundial.

Outro aspecto do problema é que diz respeito ao diálogo. Os comunistas lançam certas palavras que já têm um conteúdo filosófico, ou então… [ilegível] … contudo social vago, mas muito bonito. Por exemplo, coexistência pacífica; por exemplo, justiça social; por exemplo, luta contra os privilégios. E eles procuram despertar na própria sociedade burguesa pessoas que se afirmam a favoráveis a uma coexistência pacífica, que se afirmam tais, mas em termos tais, com tanta demagogia, com tanta indignação que verdadeiramente não se sabe se é a favor disso que essas pessoas estão lutando ou se não é à causa comunista que eles querem servir.

Esse processo de agir vai produzindo, ou melhor, vai produzir então uma ação psicológica em cadeia, da qual eu vos darei alguns traços daqui a alguns instantes. Aí se trata da tática chamada da baldeação ideológica inadvertida. Os senhores conhecem bem no que essa tática consiste. A baldeação é uma expressão muito corrente: é a operação pela qual uma pessoa que está num trem que toma um rumo, deixa esse trem e toma outro trem que toma outro rumo. Uma baldeação ideológica é o abandono de uma ideologia para adotar outra ideologia. E a baldeação ideológica inadvertida se dá quando a pessoa faz a baldeação sem perceber que está fazendo a baldeação. E a baldeação como se faz, nesse caso? É um sistema muito conhecido: em primeiro lugar, os comunistas colocam uma preocupação qualquer e exageram o cume dessa preocupação. Vamos dizer, por exemplo, a luta contra os privilégios. Todos nós sabemos que um privilégio pode ser algo de justo, e pode ser algo de injusto. Nós sabemos também que quando o privilégio é injusto, ele é odioso como são odiosas todas as injustiças. Nós sabemos também que quando um privilégio é odioso é virtuoso lutar contra ele. E então se a toma uns tantos privilégios odiosos que existem hoje e então se começa e falar contra os privilégios. Mas se começa a falar contra os privilégios sem dizer bem exatamente que privilégios são, falando de privilégios num sentido genérico e lançando frases como essa: Afinal, o senhor é favorável à manutenção dos privilégios injustos de hoje em dia? Ou então outra frase: o senhor quer que os privilegiados continuem a esmagar aqueles que não são privilegiados? E com frases dessas, cria-se um ódio contras os tais privilégios que a gente, no ar, nem sabe bem exatamente quais são mais depois disso, começa então a falar de privilégio como se a propriedade privada fosse um privilégio. E então a pessoa que começou a protestar contra os privilégios injustos, sem perceber é levada a protestar contra a propriedade privada. Depois, então, vem a terceira fase da luta: não é mais protestar contra a propriedade privada, mas é dizer que todo indivíduo que luta pela propriedade privada, é um favorecedor das injustiças. E que pelo contrário, o comunista é o verdadeiro amigo da justiça e que se encontra mais amor à justiça entre os comunistas do eu entre os anticomunistas. E ao cabo de algum tempo a pessoa sem perceber, está vivendo com os comunistas, está colaborando com os comunistas e, por fim, acaba fazendo o jogo do comunismo. E então houve uma baldeação ideológica inadvertida porque a pessoa começou por se afirmar comunista, ou melhor, começou por se afirmar anticomunista: mas ela vai andando, vai andando e quando ela dá acordo de se ela está comunista sem a ter percebido a volta que estava dando.

A mesma coisa a coexistência pacífica. Alguém pode ser contra a coexistência pacífica? Distingo: se a coexistência pacífica é o não haver guerra, nós devemos ser a favor da coexistência pacífica. Mas é uma coexistência pacífica armada até os dentes; é uma coexistência pacífica com uma luta ideológica incessante. Vem os comunistas e dizem: não. Ou então vem os inocentes úteis do comunismo talvez não tão inocentes, certamente muito úteis e dizem: não; nós vamos ser a favor da coexistência pacífica. Mas a coexistência pacífica é uma colaboração. E para haver colaboração é preciso vir balé russo par cá, é preciso ir estudantes brasileiros para o Rússia; é preciso vir professores russos lecionar aqui; é preciso fazer propaganda russa com mais na embaixada russa etc. e com isso se vai desarmando aquela muralha de oposição de um lado e do outro e quando a gente se dá de acordo…[ilegível]…coexistência pacífica se transformou, num último análise, a colaboração.

Há, assim, portanto, na série de slogans que vão transferindo para a área próximo do comunismo aquele que não são comunistas; para área do comunismo, aqueles que estão próximos do comunismo. E por essa forma se consegue um abrandamento, uma distensão, se consegue um afrouxamento da resistência do ocidente, muitos ficam comunistas, de um lado e, de outro lado, muitos deixam de lutar contra a comunismo. E por essa forma, o comunismo ganha sua mais sua assinalada vitória. Ele não conseguiria isso com uma doutrinação explicita. Ele não conseguiria isso com uma reação enérgica e violentA. Ele consegue isso por meio de brandura. E então o que foi a colaboração com comunismo? Não foi outra coisa senão um meio lançado pelo comunismo para amolecer as muralhas que ele não conseguia derrubar; para derrubar os obstáculos que outra hora para ele eram uma intransponíveis, ele terá por meio de uma mágica maravilhosa, eliminando o adversário posto a adversário anestesiado a sorrir para ele,. E ele terá penetrado na cidadela na qual, até então, ele não podia penetrar.

O que se deve pensar a respeito dessa tática? Qual é a atitude que em face dessa tática se deve tomar? A atitude que se deve tomar é…[ilegível]…de luta, é uma tática de guerra, oculta em palavras blandissimas. O verdadeiro dever daqueles que lutam pela tradição cristã, consiste em denunciar essa tática, consiste em mostrar o que ela tem de perigoso, consiste em de todas…[ilegível]…as formas e apresentar diante do…[ilegível]… e, sobretudo, se apresentar diante do adversário, e sobretudo se apresentar diante do…[ilegível]…e dizer-lhes: esses são fases de uma teórica…[ilegível]…de uma tática e explicar no que a tática consiste. Então, mais essa imensa manobra…[ilegível]….terá perdido uma grande batalha do século XX. E, portanto, preciso, mais do que nunca que em face da alternativa comunismo-colaboração, ou melhor, comunismo-luta ou coexistência, nós saibamos dizer, com toda a energia e com toda a força: comunismo: luta, sim; coexistência, não.

Minhas senhoras e meus senhores. Esse dever que a todos nós se impõem, impõe-se especialmente ao estado de Minas Gerais. São recentes os dias gloriosos em que o estado de Minas Gerais foi a cidadela da reação brasileira contra a bolchevização do país. Minas Gerais mostrou, nesse momento, verdadeiramente o que era. E embora as palavras Tradição, Família e Propriedade não se tivessem ainda desfraldado sobre esse estado, os atuais componentes do núcleo de Tradição Família e Propriedade, em articulação com outras forças vivas do estado de Minas Gerais, souberam criar as condições psicológicas que tornaram possível o grande movimento para o qual os mineiros acudiram a uma, o grande movimento em que ao lado dos mineiros e baseados nos mineiros, os brasileiros todos souberam dizer a um governo que insinuava a colaboração com o comunismo, souberem dizer: coexistência, não; luta, sim. E a tradição, a família e a propriedade eram os três grandes ideais que moviam a sociedade mineira em peso nessa luta e isso se notava sobretudo pelo papel preponderante que a mulher mineira, cujo coração é um santuário de tradição, cuja família é um santuário de familiaridade e cuja propriedade é o fundamento da moralidade e da tradição do lar, a mulher mineira soube ela mesmo, rezando heroicamente o rosário diante dos asseclas de um presidente que caçoara do rosário, soube ela mesma, de um modo empolgante, desencadear a reação do Brasil. Foi ontem a festa de Santa Clara de Assis. A história nos narra que quando a cidade de Assis estava sitiada pelos sarracenos e o pequeno convento de São Damião, que era a sede dos frades franciscanos estava também cercado, houve uma mulher que saiu de Santíssimo Sacramento empunho de se apresentou diante dos sarracenos e todos fugiram. Era a grande Santa Clara, a matriarca das franciscanos. E quando eu numa roda de amigos fazia o elogio dessa santa, eu pensava de mim para comigo: algo de perecido fez a mulher mineira. De Rosário em punho ela avançou e todo o Brasil em torno dela; de Rosário em punho, ela disse diante do comunismo: cooperação, não jamais. Nós preferimos a morte, mas nós não queremos uma coexistência feita de ilusões, feita de fraude e cheia dos piores resultados para amanhã. Nós preferimos a luta, porque a luta é a característica de todos aqueles que querem viver piedosamente com Nosso Senhor Jesus Cristo. Tenho dito.

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