Reunião para o grupo da Martim – 7/8/1965 – Sábado [ RN 152] . 12 de 12

Reunião para o Grupo da Martim 1 — 7/8/1965 — Sábado [ RN 152]

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Nós temos a tendência de esquecer a grande missão do Grupo e considerá‑lo apenas como um meio para salvar nossas almas * Nós esquecemos mais facilmente dos grandes princípios fundamentais do que das bagatelas * “Nós devemos ter muito nitidamente em vista a idéia de que já estamos derrubando a Revolução” * Foi‑nos dada a graça de amar a Deus em imensos horizontes, pois nossa via é a dos horizontes demasiadamente grandes * O que nos leva a fazer o que fazemos é a certeza de que derrubaremos a Revolução e implantaremos o Reino de Maria * Nossa Senhora permite que tudo fique reduzido a zero para mostrar que a vitória vem da intervenção d’Ela

* Nós temos a tendência de esquecer a grande missão do Grupo e considerá‑lo apenas como um meio para salvar nossas almas

Há membros do Movimento que têm a tendência de se esquecer das finalidades do Grupo, e de ver no Grupo senão um processo… [ilegível] …uma instituição de subsistência da própria salvação espiritual. Essas pessoas fazem como uma tripulação de submarino que tivesse saído para abater uma esquadra de guerra, para uma operação heróica etc., e que entretanto durante o caminho se esquecesse desse objetivo, e então levam uma vida como deveria levar em um submarino durante uma excursão.

Quer dizer, ar confinado, tudo muito bem arranjadinho… quadradinho, problemas internos de subsistência. O que é preciso fazer para poupar o ar, como é que a gente deve comer, o que é preciso fazer no submarino para conservar a saúde etc. Nenhuma preocupação com a finalidade guerreira.

E aquele submarino, no interior do qual deveria reunir um ambiente de heroísmo, nascentes de purezas do verdadeiro idealismo, se transforma numa espécie de pensão subaquática e que os pequeníssimos problemas de subsistência trivial, acabam dominando tudo.

A que horas jogar, a que horas comer, pequenos apertõezinhos, intriguinhas ridículas etc. [ilegível] …de luta e espírito de combate, o senso do heroísmo… [ilegível]… o Grupo dentro do mundo da Revolução, faz papel até certo ponto de um submarino nas imensas águas do oceano.

Nós vivemos confinados entre nós, exclusivamente entre nós, vendo‑nos várias vezes por dia. Se nós perdemos a noção da finalidade para o qual nós estamos ordenados e toda a Vocação nossa se destina, se nós perdemos essa noção ou se pelo menos ela se desfigura muito, isso passa a ser uma espécie de submarino.

Quer dizer, é uma questãozinha de arranjar uma coisa, de liquidar um negócio com uma pessoa, pequenas transações internas, pequenos pontos de amor próprio, pequenos acontecimentos e mais nada.

E este modo de ser desnatura completamente o Grupo, faz morrer a Vocação, e é portanto absolutamente o contrário de nossa santificação.

Para compreendermos a natureza do Grupo, nós temos que acreditar no seguinte: que o Grupo não é como subconscientemente a gente seria levado a crer, que o Grupo não é exclusivamente nem é principalmente uma situação destinada a promover a nossa formação interna. O Grupo é destinado antes de tudo e fundamentalmente para derrubar a Revolução.

É claro que nós vamos dentro do Grupo procurar sobretudo a nossa salvação eterna, mas a função para a qual eu fui destinado não é essa.

É mais ou menos como uma Ordem de Cavalaria. A Ordem de Cavalaria não foi destinada principalmente para a salvação eterna dos cavaleiros — ela foi destinada para defender as fronteiras, defender os mares da invasão maometana, e na medida do possível, pelo contrário, rechaçar os maometanos e libertar o Santo Sepulcro e as cristandades perseguidas, e apoiar até os missionários em novas nações onde eles nunca estiveram, para garantir a liberdade de expressão [dos] Ministros de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso que foi fundada uma Ordem de Cavalaria.

É possível e acessoriamente [que] uma Ordem tenha outras finalidades, de estalar qualquer coisa, mas a Ordem não foi fundada nem sequer para a salvação dos seus membros, embora os seus membros estejam ali para se salvar. E para a própria salvação dos membros de uma Ordem de Cavalaria, a condição é que eles queiram realizar as finalidades da Ordem.

De maneira que nem sequer se dissociam as duas finalidades, da própria salvação de um lado e a realização da obra que se tem em vista, porque a salvação se consegue tendo por um dos elementos fundamentais conhecer perfeitamente, admirar ardentemente, desejar eficazmente e promover de fato o fim que se tem em vista.

Quer dizer, é para isso que a Ordem existe.

E a mesma coisa é aqui conosco, quer dizer, há aqui um primeiro erro que nós devemos colocar de lado, e que me parece que muitas vezes, ao longo dos tempos etc., embora a coisa seja muito sabida, se desnatura e entra no olvido.

Isto é o próprio de todas as instituições, e é o próprio da miséria humana é de esquecer do fundamental que [teja?] em vista os acessórios.

* Nós esquecemos mais facilmente dos grandes princípios fundamentais do que das bagatelas

Muitas pessoas dirão: “Mas, Doutor Plinio, uma coisa tão fundamental assim, o senhor receia que nós esqueçamos?”

Eu tenho vontade de dizer: Meu caro precisamente por ser fundamental, se não fosse fundamental, se fosse uma dessas bagatelas que toca com a mão a toda hora, a gente não esqueceria. É mais fácil a gente esquecer disso do que um cinzeiro, é mais fácil a gente esquecer isso do que uma lapiseira, é mais fácil a gente esquecer isso do que um par de óculos, porque isso aqui, se eu for ler, eu preciso disto aqui, não esqueço.

Mas um princípio fundamental, eu posso esquecer, precisamente porque é de uma utilidade menos palpável, menos direta, menos prática do que são as grandes verdades fundamentais. De onde acontece que precisamente essas noções, a gente se esquece.

Eu me lembro que eu contei aqui, que algumas dezenas de anos depois da morte de Santo Inácio, se fez na Companhia de Jesus uma espécie de inquérito para saber se os “Exercícios Espirituais” por quem eram conhecidos.

Quase ninguém na Companhia conhecia os “Exercícios Espirituais” de Santo Inácio de Loyola. Isto umas dezenas de anos depois da morte de Santo Inácio, no tempo em que a Companhia era um grandíssima instituição. Para os senhores verem com que facilidade os coisas se esquecem, e para, portanto, compreenderem, e quero tratar da seguinte questão:

* “Nós devemos ter muito nitidamente em vista a idéia de que já estamos derrubando a Revolução”

Muitas vezes as pessoas não esquecem disto inteiramente, mas esta convicção de que nós fomos feitos para derrubar a Revolução e que de fato a derrubaremos, porque a convicção tem que ser dupla, de que nós fomos feitos para a coisa, primeiro, e que de fato realizaremos a coisa, em segundo lugar.

Esta dupla convicção nós devemos [ter]. Esta dupla convicção se apaga em nós às vezes, ou se apaga quase completamente deixando apenas o rastro para uma idéia muito ligeira seguinte.

Nós fomos feitos para combater a Revolução, é verdade, por isso nós temos esses meios de ação que usamos, grupos, movimentos, livros, relatórios para a Europa, relações exteriores etc., etc. Portanto, estamos cumprindo nossa finalidade, porque nós estamos dando cutucões na Revolução.

Se a Revolução não cai, não tem tanta importância, em primeiro lugar porque nós não temos os meios para derrubar, e em segundo lugar, porque muitas pessoas não corresponderam a nosso apostolado. Mas nossa finalidade está esgotada com as coisas que nós estamos fazendo e, portanto, nós podemos continuar até o fim da vida fazendo o que estamos fazendo que nossa finalidade está esgotada.

Esta tese é fundamentalmente errada, ela corresponde a uma visualização “diminuinte” e “poquificante” das nossas coisas. A tese oficial é diferente.

É que nós vamos de fato derrubar a Revolução por um desígnio de Nossa Senhora, primeiro ponto. E segundo ponto, que as ações que nó estamos pondo desde já, são ações que tendem a derrubar a Revolução e que são o começo da derrubada da Revolução.

Quer dizer, nós, de fato, estamos abalando a coluna, as ações pequenas que nós pomos, são ações que estão montando os andaimes, que estão dando os primeiros golpes que estão preparando a derrubada da Revolução. Mas a ação pela qual nós preparamos a queda da Revolução não é senão em termos, final de um conjunto de ações que já começou, mais ou menos como um arquiteto [que] começa a esboçar o terreno e que depois deita o alicerce.

Bem, o arquiteto nessas condições já está começando a construir o prédio. É claro que ele ainda não deitou os alicerces, ele está preparando o terreno, mas já é o começo da construção.

Bom, assim também nós, se bem que nós não podemos dizer que a estrutura no mundo revolucionário já esteja abalada por nós, é, entretanto, fazendo o que estamos fazendo que começa a obra, e com a preparação do terreno, é como a colocação dos andaimes, e digamos, já com a colocação das primeiras pedras. E portanto, nós devemos nos persuadir, nós devemos ter muito nitidamente em vista a idéia de que nós já estamos derrubando a Revolução. E não vai por menos, é assim que a gente deve ver.

* Foi‑nos dada a graça de amar a Deus em imensos horizontes, pois nossa via é a dos horizontes demasiadamente grandes

Qual é a repercussão moral dessa convicção? Convicção essa cuja fundamentação eu nesta reunião pretendo dar ainda melhor do que devo. Qual é a repercussão moral?

É que a pessoa que está certa de que, por exemplo, participando desta reunião ela derruba a Revolução, a pessoa que esteja certa de que fazendo essa reunião está derrubando a Revolução, faz isso com uma alegria, com um entusiasmo, com uma plenitude de atividades que não fará se tiver a idéia que está fazendo apostolado.

Eu confesso… por exemplo, eu hoje estou muito cansado, eu confesso que se eu achasse que esta reunião era apenas para fazer bem para uma dezena de almas — que eu aliás prezo sobremaneira — talvez me passasse pelo espírito, em uma tarde pelo menos daquelas que eu estou tão cansado, não fazer reunião e dar uma razão que todos compreenderiam: “Que me desculpem hoje eu não vou fazer reunião”.

Eu diria assim, eu não invocaria nenhum pretexto, eu não me firmaria em nenhum artifício, eu diria isto.

E eu tenho impressão que a grande maioria se sentiria à vontade com minha declaração. Pois bem, por que é que eu faço a reunião? Por que essa idéia nem me passa pela cabeça?

Porque eu sei que são almas propulsoras, almas que têm uma Vocação colossal, que se trata para mim de acender para tocar para a frente a Contra‑Revolução. Eu sei, portanto, perfeitamente o que eu devo fazer aí, com uma alegria de alma, com um interesse renovado, em razão do ódio que eu tenho à Revolução, pelo amor que eu tenho ao Reino de Maria, que eu faço isso, que eu faço muito mais do que isso.

Senão evidentemente havia um éffondrement, senão no meu apostolado, dentro do modo de eu exercer, porque aquilo que é a mola propulsora de meu apostolado evidentemente se apagaria ou diminuiria de chama.

Isto é humano, é natural, é até virtuoso porque o esforço que a pessoa deita deve ser proporcionado ao fim que tem em vista. E os melhores fins de apostolado quando não são dessa imensa grandeza, devem ir nas proporções comuns de um homem esforçado, não devem ser feitas para tirar de um homem o último fôlego e a última gota de sangue, isso são só os fins extraordinários.

Quantos de nós, mais ou menos, quando têm coragem para suportar direções espirituais do outro mundo, para aturar situações extraordinariamente difíceis, para contornar os arquipélagos de problemas complicados, contornar situações para chegar a um determinado fim etc., encontram o alento nessa visão mais ou menos consciente ou mais ou menos subconsciente, mas encontram alento nisso!

Por outro lado, o ritmo com que Deus quer tocar o nosso amor a Ele é assim. É manter esse amor sempre aceso nessa dimensão e não nos foi dado a graça — e esse ponto é muito importante — de amar a Deus em horizontes menores. Outros que têm vocações menores terão a graça de amar a Deus em horizontes menores, mas para nós foi dada a graça de amar a Deus em imensos horizontes. E não nos será dada a graça de O amar em pequenos horizontes, porque nossa via é outra, a nossa via é dos horizontes demasiadamente grandes, dos horizontes imensamente grandes.

* O que nos leva a fazer o que fazemos é a certeza de que derrubaremos a Revolução e implantaremos o Reino de Maria

De maneira que nós temos de conservar esta convicção de que, por exemplo, fazendo um número de “Catolicismo”, ou uma reunião do MNF, ou cuidando das fitas, ou das direções espirituais, ou da construtora, ou da comissão do exterior, ou de tudo mais — e ver: “Nós, nisto estamos abalando a Revolução, estamos pondo uma série de causas e efeitos sucessivos que terão como fim derrubar a Revolução”.

Se nós não temos isso em vista nós perdemos o pé e a nossa ação perde o mérito, perde a eficácia, porque está fora do rumo sagrado.

Esta é a tese que nós devemos ter constantemente em vista e devemos renovar.

Se a gente vai considerar apenas um caso individual, a gente continua a fazer, mas não faz com a mesma chama e sobretudo não faz com a mesma graça, porque a graça nos foi dada para cuidar da causa da Igreja acima de todas as coisas, e desta causa da Igreja, a causa da Contra‑Revolução, e acima de todas as coisas, de tal maneira que mesmo as coisas mais santas, mais justas, mais dignas, mais forçosas empalidecem diante dessa consideração, como por exemplo, quando o sol aparece, todas as estrelas deixam de se tornar visíveis.

Assim também razões de amizade pessoal, razões de estima, razões de comiseração, razões do que for, todas essas razões valem, todas essas razões pesam, mas assim como o sol não elimina as estrelas mas brilha tanto que ele nem deixa ver as outras, assim o objetivo de derrubar a Revolução e de assegurar a implantação do Reino de Maria, este objetivo prepondera sobre todos os outros. E a certeza de que a gente está alcançando este objetivo, é essa certeza que nos leva a fazer aquilo que nós estamos fazendo.

E eu digo mais: eu creio que seria um exercício muito interessante e muito útil, se cada um de nós, ao iniciar uma ação de apostolado, se lembrasse disto e [pedisse] a Nossa Senhora que Ela nos desse a graça de manter em nossa alma, bem acesa, a convicção de que [o que] nós estamos fazendo é uma ação que vai derrubar a Revolução, e que essa convicção estivesse ao longo de toda a ação que nós estamos fazendo ali, para ser agradável a Ela e para estar na linha de nossa Vocação.

Talvez, por exemplo, como oração para ser colocada quando se chega aqui no Grupo ou talvez como ponto para meditar no fim de nosso dia quando nós estamos diante do estandarte e o coro canta um canção a Nossa Senhora, é a meditação ideal para esta ocasião, é nós nos lembramos que nós temos em vista, que no dia que está se acabando, nós concorremos para abalar a Revolução, e que nas ações do dia seguinte tudo vai concorrer para abalar a Revolução.

Diante de nosso estandarte e ouvindo um louvor a Nossa Senhora, nada melhor do que ter isto em vista e fazer um oração neste sentido para Ela manter em nós essa convicção.

É propriamente, aliás, o que traduz a atmosfera do cerimonial diante do estandarte, é isto. De maneira que seria uma esplêndida consideração para fazer nesse cerimonial e nesta ocasião, seria até uma coisa a sugerir no Santo do Dia aos rapazes que participam de nossa reunião e da nossa cerimônia.

* Apesar dos parcos meios de que dispomos, nós arrancamos rugidos da Revolução

Agora, isso dito, eu gostaria então de analisar algumas dificuldades que se opõe a nós para nós termos isso em vista e é sobre essa dificuldade que eu vou falar agora. Isto equivale… o que eu vou dizer agora [é] dar uma prova de que é verdade que nossas noções são capazes de derrubar a Revolução.

Se isso que eu estou dizendo é uma coisa muito verdadeira, que nós abalamos a Revolução, há uma porção de aparências no sentido contrário. E eu acho interessante explicitar as ações dessas aparências e depois analisá‑las.

A primeira coisa que parece depor contra a tese que eu estou desenvolvendo é que, em geral, nós lidamos com pessoinhas, não tanto que nós sejamos pessoinhas, mas mesmo assim, na ordem dos valores revolucionários de hoje, nós não somos pessoas de primeira plana, seremos talvez pessoas de primeira classe. Mas dentro da classe, nós não somos pessoas de primeira plana, nós não somos da primeira plana da primeira classe, não é isso.

Mas é que sobretudo essas pessoas com quem o Grupo lida, eu tomo o Grupo como unidade lidando para fora, essas pessoas com quem o Grupo lida são umas pessoinhas. Isso dá uma impressão de ninharia, de coisa insignificante. Nós nos reunimos para derrubar a Revolução e ficamos agradando gente de lo último e arranjando uns fiapos de relações para nos equilibrarmos um pouco. Isso não dá impressão do contrário exatamente da Contra‑Revolução?

Bem, nós poderíamos percorrer os serviços de “Catolicismo”, um por um, todos eles estão inclinados desse defeito, desse inconveniente. E eu me lembro de um… uma ocasião me disse isto: “Eu não faço o tipo do apostolado que você está fazendo porque eu não posso aceitar o trato de gente assim — isto é dito meio incisivamente, aliás é do estilo do personagem, mas era isto — o trato com essa gente, seja emprego de tempo à altura sua ou à altura minha, de maneira que esse é um gênero de atividade que eu não tenho chama para desenvolver”.

Nessa visualização se acrescenta a questão de nossos meios, além da pequenez de nossos meios, ainda tem outra coisa: é que esses meios são desdenhados pelas pessoas que têm prestígio, as pessoas influentes, importantes, sabendo que nós usamos esses meios, eles dão gargalhadas.

O que, essa gente? É isso? Eu vou dormir tranqüilo, esses nunca abalaram a Revolução. Eles pelo menos se estivessem fazendo uma tele‑emissora, ah, bom ainda vai, mas isto não abala a Revolução, abala a Revolução… que fez uma estação de rádio magnifico a que atinge toda esta zona e atinge até uma parte do sul de Minas, esse homem abala a Revolução. Eles, D. Maurício da Rocha, ofereceu para eles essa rádio e eles não tiveram condições de assumir a rádio, eles são eles.

Esses pigmeus estão pensando que eles abalam a Revolução, nunca isso aí. Um homem superior como eu olha para isso com desdém, jamais… jamais… eles não entenderam nada, são uns coitados, são uns fanáticos”.

Uma outra coisa que acentua esta impressão de desamparo é a seguinte: é que essas pessoas com quem nós temos que agir e esses meios de que nós dispomos são pessoas desconexas, e meios desconexos.

Nós temos dois bispos na América do Sul, muito simpáticos a nós. Um, é um velho Monsenhor Gomes, nas selvas da Colômbia, provavelmente cercado de guerrilheiros mais sanhudos que possa haver. E outro nas orlas do Oceano Pacífico, um velho Mons. Sifuentes, com uma cara de palhaço desiludido, que queima os últimos anos de sua existência numa diocese onde governa cercado do respeito parado que se volta para todos os bonzos.

Estes são os nossos dois braços na América do Sul.

Vai ver que Mons. [Balmes?] já teve um derrame, está com um olho apertado, arrastando uma perna, e monsenhor Sifuentes vai seguir de perto. E depois, como tudo isso é cavado, como para conseguir menores coisas com esta gente tem que fazer agrados de toda a ordem. Se pelo menos dissesse que eles estão olhando para nós admirados, entusiasmados, ainda vai, mas, pelo contrário, como isto é cavado, como isto é difícil.

Estas ninharias são ainda cavadas e nossa vida é feita de cavar esses obstáculos… Isto ainda desconcerta mais, ainda abate mais.

Eu nem sei se é saudável estar continuando essa enumeração porque quando a gente se coloca diante disso, é possível que haja até uma espécie de abatimento diante dessa coisa.

Nós temos dois bispos; como é preciso agradá‑los, e depois de ter feito toda espécie de agrados, os prodígios que o Henrique faz — por exemplo — que o Henrique faz na Europa para agradá‑los, o que é que dá? Dá uma ninharia, dá uma coisinha. Então como é que se pode pretender que esses Grupo pode abalar a Revolução?

Eu devo dizer que antes de tudo está provado que pode, está provado que pode porque não tem dúvida que em suas ocasiões concretas, com os meios minúsculos de ação que nós temos e auxiliados exatamente por esta gente que assim a gente vai cavando, a própria palavra cavar não está à altura deste lugar, mas eu a uso porque é o único jeito de indicar o prosaico do esforço feito nesse sentido.

Está bem, com esta gente e com esses meios, em duas ocasiões nós demos dois golpes e a Revolução rugiu. Quer dizer, está provado que estes meios podem produzir algo de sério contra a Revolução. Eu não falo do exemplo muito remoto do “Em Defesa”, mas eu falo da questão da Reforma Agrária e eu falo da questão do Chile. São duas ocasiões em que positivamente se arrancaram rugidos da Revolução.

E ainda ontem à noite naquela notícia que a Revolução pretende fazer uma propaganda da Reforma Agrária no interior porque ela tem medo de sabotagem das informações, é prova que há uma cristalização séria no interior, que eles têm medo de agir e que eles depois de terem procurado pôr uma pedra sobre o lado argumentação do assunto durante muito tempo, eles voltam novamente, procuram argumentar e procuram discutir, para fazer andar uma máquina que eles sentem que sem isso não anda.

Os senhores estão vendo através disto, os senhores estão vendo perfeitamente que foi dado um golpe sério na Revolução. O caso do Chile é um caso tão recente e tão vivo que eu não tenho obrigação de dizer nada.

* A Providência quer que juntemos os sete pães e os sete peixes para realizar o milagre. O binômio conjuração‑ocasião

Quer dizer o seguinte, que a Providência quer que nós alinhemos esses meios pequenos, como Nosso Senhor quis que houvesse sete peixes e sete pães para a multiplicação dos pães. Ele podia ter criado esses pães, mas Ele não criou, Ele quis que houvesse sete para que como desdobramento desses sete, a multidão toda fosse saciada. E nós estamos na fase do alinhar os sete pães e sete peixes.

Quem é que haveria de dizer que o padeiro que fez esses sete pães e o pescador que [pescou] esses sete peixes, acumulou os meios necessários para produzir o milagre da multiplicação?

Entretanto, Nosso Senhor quis que houvesse isto e assim estamos nós. Nós temos um Sifuentes, nós temos um D. Maurício, não tem dúvida, não é nada, mas a Providência faz andar os acontecimentos de tal maneira que em determinado momento uma palavra de D. Maurício congela uma manobra de todo episcopado brasileiro, e foi o caso da Reforma Agrária, e que uma palavra do Monsenhor Sifuentes congela toda ação do Cardeal Silva Henrique na nossa operação no Chile.

Quer dizer, essas coisas com um espírito de Fé enorme e um sacrifício enorme, a gente vai conservando, prolongando, organizando, díspares, caóticas, sem possibilidade humana de uma inteiração, a Providência depois faz com que se movam inesperadamente, e um dia através disto, nós consigamos afinal de contas um resultado que acaba sendo um resultado muito importante.

A amizade de Monsenhor Sifuentes, a amizade de Monsenhor Maurício, foram muito importantes. Quer dizer, entra aqui o quê? Entra uma doutrina que nós devemos ter em vista e que é a da providencialidade de nossas obras expressa através de um binômio que seria o binômio conjuração‑ocasião.

Nós vamos fazendo esta conjuração ao longo, esperamos passo a passo defendendo todo o [kilowatt?] de influências que possamos ter na mentalidade de todo capiau e de todo o rebotalho. Hernesto de Paulo e outros junto do qual possamos ter uma certa ação.

Bem, isso tudo fica dormente e sem efeito durante muito tempo, mas quando arrebentam as ocasiões, a pelota vai parar nas mãos dessas pessoas por ação da Providência, e a Providência premeia. Nossa Senhora premeia nosso ato de Fé, premeia a nossa fidelidade, premeia o esforço que nós fizemos confiando contra toda a esperança, fazendo com que esta gente se encontre no posto necessário para fazer para nós aquilo que nós tínhamos necessidade.

De maneira que essa máquina, em condições comuns, não move nada nas crises, move muita coisa que move através dessas coisinhas que ela alinha, que ela ajeita e através das quais ela move o mundo.

De maneira que a conjuração pela qual nós vamos dispondo gradualmente as pessoas e as coisas na medida que podemos, e de repente há ocasião, que por uma mudança de circunstâncias faz com que se abra uma crise na qual nós somos poderosos e que nossa voz toca um jogo, uma luta dentro da crise, que em última análise, as pessoas vão exercer uma influência grande.

De maneira que por esse binômio conjuração‑ocasião, nós acabamos podendo muito, mas por um jogo inteiramente da Providência que quer que nós façamos esse apostolado de coisinhas.

* O nosso apostolado é, no início, um apostolado de ninharias

É o apostolado das ninharias, das coisinhas, com as pessoinhas, e em que conseguir um apontador de lápis pode ser um ponto importante, e o que todo o mundo a gente agrada, a gente se… [inaudível] …a gente arranja etc., etc, na medida do que pode.

Porque depois se abrem crises. Nessas crises a nossa voz levando esse pouquinho de vozes, porta‑se como se fosse um brado pela aplicação dos métodos RCR, que são os métodos providenciais para isso.

Daí, de lançar a nossa voz, nasce uma luta e nessa luta a Providência faz com que essas pessoinhas arregimentadas pela conjuração possam ter uma posição chave para vencer de fato a luta, de maneira que se põe aí uma espécie de jogo providencial, que eu tenho certeza que vai num crescendo.

Nós vamos pela Comissão do Exterior articulando cada vez mais no mundo Maurícios da Rocha, que no fundo têm muito de articular Maurícios da Rocha na Comissão do Exterior. É um homem no Canadá, Santa Maria na Austrália, é um homem em Portugal, é isso, é aquilo, é um imenso “bric‑a‑brac” de pessoas mais importantes ou menos que nós pomos num regime, Mons. Pará, Mons. Joaquim, no fundo é isto.

Bem, em certo momento, isso produz o seu resultado e então, é através deste processo que nós compreendemos qual é o jogo que a Providência quer fazer conosco, o que é que a Providência exige de nós, e como cada vez mais as crises vão crescendo. Nas crises, a nossa voz vai portando e essas pessoinhas se encontram nas condições de nos prestar um serviço. Quer dizer, é assim, assim, assim, e a coisa lá vai.

Bem, e isso que parece insignificante, e que é insignificante, é preciso dizer logo que é insignificante na ordem natural das coisas, e na ordem providencial acaba sendo colossal e é por isto e por esta via que nós devemos ter a certeza que nós estamos abalando os esforços da Revolução.

Já está caracterizado através dos tempos esse sistema, portanto, isto é um sistema e é um sistema onde Nossa Senhora entra com noventa e tantos por cento diretamente e o restante indiretamente. Mas é um sistema, nós devemos compreender este sistema.

O sistema é sempre este, e é uma coisinha que a gente começa por fazer sem que apareça toda a possibilidade que ela tem, encontra dificuldades de toda ordem, de repente, abre‑se um campo para ela, e ela começa a jogar dentro da conjuração de um modo muito maior que a gente supunha, depois deste jogo jogar de um modo maior do que a gente supunha, a gente acaba vendo que esta conjuração, ela própria numa crise joga muito mais do que a gente supunha.

Quer dizer, é um sistema, é a coisinha que cresce dentro de nosso próprio âmbito, depois de crescer dentro de nosso próprio âmbito, essa coisinha chega ao fim, ela não transcende o seu âmbito, mas vem uma crise e a gente vai ver, isso transcende e vai até onde a gente não imaginava.

O Bucko, quando nós começamos… do Bucko podíamos ter a idéia de dar o que deu? Não foi uma espécie de uma pequena empresa na pequena boutique do José Fernando, uma coisa ultra‑improvisada do pé para a mão, minúscula etc., etc., até onde deu até onde pode dar?

Essas coisinhas são assim e se nós não quisermos aceitar a marcha do minúsculo para o grandinho, e de repente na crise o salto do grandinho para o imenso, nós não teremos compreendido nada do que a Providência quer fazer de nós. Quer dizer é sempre assim, a coisa é sempre essa e nesta visão tudo quanto nós fazemos acaba sendo verdadeiramente imenso, quer dizer a nota da coisa… [inaudível] …isso.

* Nossa Senhora permite que tudo fique reduzido a zero para mostrar que a vitória vem da intervenção d’Ela

Por que Nossa Senhora quererá fazer isso?

É uma pergunta que se poderia fazer. Também aqui a resposta é simplíssima; Nossa Senhora faz isto… o De Maistre tinha esse pensamento: sempre que Deus quer praticar as suas grandes intervenções, Ele quebra tudo e deixa que tudo fique reduzido a zero. Depois que está tudo reduzido a zero e fica provado que só Ele pode intervir, então a partir desse momento Ele começa a intervir. Aí as coisas são grandiosas. Nunca se poderá dizer humanamente falando que nós podemos abalar a Revolução, se a tese fosse esta que eu estou sustentando, seria a tese mais ridícula do mundo, mas Nossa Senhora quer isto conosco.

Nós damos sete pães e sete peixes, Ele desses sete pães e sete peixes faz a maior maravilha possível. Nós damos as pessoinhas e os pequenos meios, e o pequeno movimento tão direitinho e tão perfeitinho quanto possível, mas ainda minúsculo, Ela se incumbe de dar um alto falante para nossa voz ser ouvida no Universo inteiro, esse alto falante é a crise e Ela se incumbe de fazer que essa maquininha [faça um jogo imenso?] que vai até onde nós [sabemos?] a queda da Revolução.

Aqui está o princípio por onde Nossa Senhora é que fez tudo, de tal maneira fez tudo que no ano de 1965, depois de tantos anos de cooperação, eu tenho que fazer uma laboriosa conferência dessa para dar um pouco de entusiasmo no manejo de nossos pequenos meios. Até este ponto vai!

Bem, isso para quê?

Para provar que Nossa Senhora fez tudo e que sem Nossa Senhora não teria sido nada e absolutamente nada. A verdadeira grandeza está nisso.

Então, fazendo a recapitulação, eu comecei por caracterizar desta vez um erro diverso do erro que foi dado na reunião passada.

Na reunião passada é o erro de esquecer as nossas obras pensar que nós não nascemos para derrubar a Revolução. Na reunião de hoje o erro é de outra natureza, não é de esquecer as nossas obras, mas de achar que elas são uns cutucões na Revolução, já isto basta, está bem bonzinho e se não abala, a culpa não é nossa. Nos contentamos com isso.

Então contra esse erro bem enunciado, a tese verdadeira: abala e derruba a Revolução. E que essas ações em concreto são um começo de causa e efeitos que derrubam a Revolução.

Para demonstrar a tese, eu adotei o método de São Tomás que me vai parecendo cada vez mais o método normal do pensamento humano. São Tomás sempre que ele quer demonstrar algo, ele levanta a pergunta: “Tal coisa é assim?” Depois: “Parece que não”. Diz ele depois: “Mas parece que sim”. E vem os argumentos prós. Então diante dos argumentos pró e contra, ele faz uma análise.

Eu então disse que parece que não.

Primeiro pessoinhas, depois coisinhas, depois método muito duro, muito cavado, depois pessoinhas e coisinhas desconexas, portanto, parece que essas coisas não derrubam a Revolução.

Outro lado da questão: Razões por que derrubam. Entretanto parece que sim, por quê?

Porque parece que nossa Vocação exige que pensemos que derrubo, nós só exercemos bem quando pensamos que derruba, logo parece que derruba.

Agora a solução do problema é esse: a experiência nos mostra que de si não derruba, é uma gagueira pensar que derruba.

Agora concretamente falando nós vemos que há um sistema que é de arregimentar as pessoinhas, fazer uma conjuração por meio de coisinhas, tudo impotente na época normal. Esse é o primeiro dado; impotente só não, ridiculamente impotente.

Segundo dado é a crise. Sobrevêm crises em que a fraqueza congênita da Revolução fica posta à mostra e a RCR nos faz ver essa fraqueza e a RCR nos sugere métodos de ação que exploram essa fraqueza, e por esta forma uma maquinazinha muito pequena pode de fato obter algo de enorme.

Então a conjuração minúscula — eu sublinho a palavra conjuração — na ocasião — eu sublinho a palavra ocasião — porta e toma alcance.

Mas dentro da crise não basta falar, é preciso lutar, é preciso jogar e este jogo a Providência faz de tal maneira que é tal, que a pelota cai na mão das pessoas da conjuraçãozinha, e elas então vencem a luta. Isso é algo da experiência. Nós temos duas experiências grandes, podemos apresentar como uma das experiências pequenas fora do Grupo.

Terceiro elemento, isso que se verifica fora do Grupo se verifica na vida interna do Grupo. Esforcinhos minúsculos e em coisas pequenas que de repente começam a portar e produzem resultados grandes.

Portanto, regra geral: do menor para o maior, do minúsculo para o imenso, os ponderáveis e os verossímeis condenam o nosso tentâmen, pelos imponderáveis e pelos inverossímeis nosso tentâmen é vitorioso.

Bem, essa experiência é demonstrada, explicada pela Teologia. Há uma via que é a via de Nossa Senhora, quando Ela quer agir, reduz tudo a nada e Ela só é que age, é o nosso caso.

Um exemplo do Evangelho para corroborar: por que é que Nosso Senhor quis sete peixes…

[Termina o texto]



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1) Nos Sábados à tarde eram realizadas reuniões para os membros do Grupo da Rua Martim Francisco, na Sala dos fundos da mesma sede; e, no domingo, para os membros da Pará, na Sede do Reino de Maria, da rua Pará.