Santo do Dia (Rua Pará) – 30/7/1965 – 6ª feira [SD 024] – p. 4 de 4

Santo do Dia (Rua Pará) — 30/7/1965 — 6ª feira [SD 024]

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A vida de Santo Olavo, Rei da Suécia, tem semelhanças com a de seu homônimo da Noruega: ambos esforçaram-se para promover o cristianismo nos países escandinavos e foram martirizados * Os Templários, que ao fim estavam péssimos, haviam sido ótimos, pois a corrupção do ótimo é que leva ao péssimo * Os olhos devem se maravilhar ao fixar quem encerra seu corpo no aço e sua alma no armeiro da fé * A referência de São Bernardo ao cavaleiro é a própria imagem da combatividade, e que também deve ser dita de um membro do Grupo — Muitas vezes é preciso ter mais coragem para vencer o respeito humano do que ir para uma guerra * “Ut inimicus Sanctae Mater Ecclesiae humiliare digneris, te rogamus audi nos

* A vida de Santo Olavo, Rei da Suécia, tem semelhanças com a de seu homônimo da Noruega: ambos esforçaram-se para promover o cristianismo nos países escandinavos e foram martirizados

Hoje é dia 30. Nós temos festa de Santo Olavo, rei da Suécia, e aniversário do Dr. Paulo Barros de Ulhôa Cintra.

A respeito de Santo Olavo, nós vimos ontem a festa de Santo Olavo rei da Noruega, agora é Santo Olavo rei da Suécia.

Olavo I da Suécia viveu um século antes do seu santo homônimo da Noruega. Foi convertido por São Ascário, Arcebispo de Hamburgo, durante uma missão que este Santo realizou na Suécia, por volta de 832. O Rei Olavo trabalhou esforçadamente com aquele prelado na catequese de seu povo e na propagação da Fé nos demais países escandinavos. Daí ter incorrido no desagrado de súbditos que ainda jaziam apegados ao culto dos ídolos. Durante um período de fome que assolou o país, foi acusado de responsável por essa calamidade, sob alegação de ter desprezado os deuses da nação e introduzido nela o Cristianismo. Houve levante dos súbditos pagãos a que ele fez frente. Mas o Santo Rei caiu nas suas mãos e foi por eles trucidado em Pirca, onde é hoje Estocolmo, pelos meados do século IX. É enumerado entre os mártires cristãos.

É impressionante a semelhança dessa biografia com a de Santo Olavo da Noruega que vimos ontem. De tal maneira impressionante, que o comentário não faria outra coisa senão reproduzir os comentários de ontem. De maneira que nós passamos diretamente a uma matéria muito interessante que me foi oferecida pelo Glavan, e que é um comentário, uma introdução… não é, Glavan?

(Sr. Glavan: Não, é uma parte das regras.)

* Os Templários, que ao fim estavam péssimos, haviam sido ótimos, pois a corrupção do ótimo é que leva ao péssimo

É um trecho das Regras dos Templários elaborada por São Bernardo.

Quando se fala em Templários, a impressão é péssima. Mas nós devemos não esquecer que os Templários no fim estavam péssimos mas haviam sido ótimos, e que a corrupção do ótimo é que dá no péssimo. Mas se tratava de uma ordem de cavalaria, uma verdadeira ordem religiosa, instituída pela Igreja Católica e cujas regras haviam sido redigidas pelo grande São Bernardo.

Assim, considerada enquanto uma instituição, consideradas as suas regras, considerada enquanto ordem religiosa, ela era muito boa, e o comentário, enfim, o trecho das regras que São Bernardo escreveu sobre ela, o grande Doutor da Igreja, não pode deixar de merecer todo o nosso acatamento e todo o nosso respeito.

É preciso acrescentar a esse propósito que as ordens de cavalaria tinham um sentido militante no sentido material da palavra. Eram ordens feitas para combater de armas na mão, mas enquanto chamadas a representar na Igreja o amor de Deus posto em estado de combatividade, enquanto chamadas a representar na Igreja de Deus especialmente, portanto, o ódio ao mal, o ódio aos inimigos da Igreja levado às últimas conseqüências, o sentido militante da Igreja Católica. Elas devem merecer todo o respeito e toda a admiração de pessoas como nós, que procuramos exatamente sustentar que a Igreja nesta vida é militante, é feita para lutar e que não deve se deixar arrastar pela imagem do irenismo e do comunismo, mas, pelo contrário, precisa hoje mais do que nunca lutar com energia contra seus adversários.

São Bernardo teve essas palavras que foram tiradas do “De laude novae militiae” que se encontra em Madion, na edição do Minho e que foi traduzida pelo excelente historiador austríaco João Baptista Weiss. O trecho é este:

* Os olhos devem se maravilhar ao fixar quem encerra seu corpo no aço e sua alma no armeiro da fé

Na luta corporal não é estranho a nós mantermo-nos cavalheirosamente, mas para poder alcançar a vitória na luta contra a tentação e contra o pecado o mostram os inumeráveis habitantes do claustro. Mas quando o homem se cinge com a espada para essa dupla luta, nossos olhos maravilhados se fixam naquele que encerra o seu corpo no aço, e sua alma no armeiro da fé, que com a máxima “Na vida e na morte eu sou do Senhor”, se atira contra os inimigos da Cruz. Que na vida obedece a Cristo, para o qual é lucro a gente morrer. Alegra-te, oh guerreiro ousado, se vences e vives no Senhor, e alegra-te mais ainda quando cais e vais para o Senhor. Oh vida bem-aventurada, quando se espera a morte como uma doce esperança. Com veste de seda e espora de ouro, e lindos ornatos nas armas, se dirige para a batalha o cavaleiro mundano, espoleado por paixões humanas, pelo desejo de vingança, de glória e de lucro. Mas o cavaleiro de Cristo se lança à luta livre de culpa e cheio de esperança, de sorte que a humilhada Filha de Sion sacuda o pó de sua cabeça e entre no lugar santo da oração.

O cavaleiro de Cristo há de viver na disciplina e na obediência, sóbrio e moderado, sem mulher e sem filhos, sem bens, com corde severo, sem descansar, inimigo do ornato exterior e dos prazeres mundanos. Num cavalo forte e veloz ele há de ir à batalha, não desejando a glória não só para vencer, aguardando a vitória não de suas próprias forças, mas de Deus do Céu. Ele há de aliar a mansidão do cordeiro com a ousadia do leão. Ele há de ser monge e cavaleiro. No templo de Salomão brilhava um esplendor e glória, mas a devoção e a humildade adornam o novo templo de Jerusalém.

* A referência de São Bernardo ao cavaleiro é a própria imagem da combatividade, e que também deve ser dita de um membro do Grupo — Muitas vezes é preciso ter mais coragem para vencer o respeito humano do que ir para uma guerra

Os senhores vêem que é uma coisa verdadeiramente magnífica e que pode ser comentada em algum dos seus trechos.

Ele diz o seguinte: que os olhos de quem tem fé se cingem maravilhados naqueles que põem o seu corpo no aço — é aquelas armaduras todas de aço — e sua alma no armeiro da Fé, não é isto? E com a máxima “Na vida e na morte eu sou do Senhor”, se atira contra os inimigos da Cruz.

Os senhores estão vendo que aqui é a própria imagem da combatividade e que isto a gente deve dizer também de um ultramontano, declarando que ele é só do Senhor se atira, calcando os pés ao respeito humano, calcando o medo de represálias mundanas, calcando o medo de qualquer espécie de juízo pessoal, se atira denodado contra os inimigos da Igreja.

Os olhos de um São Bernardo fitariam maravilhados um ultramontano assim, pela mesma razão pela qual eles fitariam maravilhados um cavaleiro.

Eu digo isto e os senhores dirão: “Não, o cavaleiro punha em risco a sua vida, enquanto pelo contrário nós não pomos em risco nossa vida. Nós só vencemos o respeito humano”.

Eu digo que não é verdade. Muitas vezes é preciso ter mais coragem para vencer o respeito humano do que para ir para a guerra. Quanta gente vai para a guerra só porque fica feio ficar na retaguarda e, portanto, tem mais medo de uma risota na retaguarda, do que do tiro que vai levar na frente, de tal maneira é difícil ao homem contrariar formalmente a opinião daqueles em cujo ambiente ele vive.

São Bernardo, portanto, contemplaria enlevado e maravilhado o católico que, como bom ultramontano, parte na luta a favor da Igreja e contra os inimigos da Cruz.

* “Ut inimicus Sanctae Mater Ecclesiae humiliare digneris, te rogamus audi nos

Mas o cavaleiro de Cristo se lança à luta livre de culpa e cheio de esperança, de sorte que a humilhada Filha de Sion sacuda o pó de sua cabeça e entre no lugar santo da oração.

Quer dizer, o verdadeiro ultramontano lança-se na luta contra o inimigo da Igreja livre de culpa. Ele não tem outro desejo senão o de fazer brilhar a causa da Igreja. Então vem esta referência: “de sorte que, a humilhada Filha de Sion sacuda o pó de sua cabeça”.

O que é aí “a humilhada Filha de Sion”?

É a Igreja Católica. Exatamente a Igreja Católica humilhada, injuriada pelos adversários, encontra no verdadeiro cavaleiro o seu defensor, que arrasa o adversário dela, e ela então sacode o pó que está sobre ela, ela entra no lugar de sua oração, ela entra no lugar de sua glória.

Aqui está a síntese de nossa vocação, é exatamente isto: nós nos encontramos face ao adversário da Igreja e nós partimos en riste contra os adversários da Igreja. Para quê? Para derrotá-los de maneira tal, que a Santa Igreja, humilhada, possa novamente levantar-se e readquirir o domínio a que Ela tem direito sobre todos os povos da Terra.

Na Ladainha das Rogações há esta rogação esplêndida, que faz parte da Liturgia e, portanto, é um pedido oficial da Igreja: “Ut inimicus Sanctae Mater Ecclesiae humiliare digneris, te rogamus, audi nos — Senhor, nós vos rogamos que vos digneis de humilhar os inimigos da Santa Igreja”. Isto não pode ser uma oração e tem que ser uma ação. E ação é humilhar os inimigos da Santa Madre Igreja, pela nossa coragem, pela nossa altaneria, pela nossa disposição de lutar de frente.

Vamos portanto pedir esta graça especialmente no dia de hoje.

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