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Santo do Dia (Rua Pará) — 22/7/1965 — 5ª feira 1 [SD 324]
Santa Maria Madalena
* Santa Maria Madalena, de quem Nosso Senhor expulsou sete demônios e foi a primeira pessoa a contemplá-lo ressuscitado, depois de seu arrependimento passou a representar duas coisas: a contemplação e a penitência
Hoje, dia 22, é festa de Santa Maria Madalena penitente. O martirológio diz dela que o Senhor expeliu dela sete demônios. Mereceu ser a primeira a contemplar o Salvador ressuscitado.
No famoso episódio de Maria Madalena, porque tudo leva a crer que era dela que se tratava, quando ungiu os pés de Nosso Senhor, no banquete, naquele episódio há alguns aspectos colaterais que nos dão bem algumas perspectivas da alma e da vida dela e da posição dela no firmamento da Igreja, que seria o caso de nós comentarmos aqui.
Os senhores se lembram bem do fato, os senhores se lembram que Maria Madalena era irmã de Lázaro, e segundo as tradições, os documentos do Oriente, era uma pessoa da alta sociedade porque Lázaro era um homem muito rico e tinha uma categoria de príncipe. Ele era príncipe de um pequeno povo que tinha sido incorporado pela nação judaica ao longo de conquistas, guerras, etc., mas que continuou a gozar, no seio da nação judaica, das honras de príncipe, embora ele não tivesse as funções políticas de príncipe. Ele e, portanto, as duas irmãs junto com ele eram pessoas de alta categoria, mas Maria Madalena tinha decaído muito e tinha se tornado uma pecadora pública.
Catarina Emmerich conta a respeito da vida dela, da conversão dela, da nova queda dela e depois da nova conversão dela, conta pormenores verdadeiramente muito interessantes. Se nós não estivéssemos com a nossa agenda muito carregada, era o caso de consagrar uma noite à leitura e ao comentário da história de Santa Maria Madalena nas revelações de Catarina Emmerich.
Seja como for, Santa Maria Madalena, depois do seu arrependimento, passou a representar duas coisas juntas e que se tornaram claras. Ela representou de um lado a contemplação, e de outro lado a penitência.
Ela representou a contemplação por distinção com Marta, no famoso episódio em que Nosso Senhor disse a Marta (que censurava Madalena porque não estava se ocupando das coisas da casa, e que se limitava a olhar para Ele e ouvi-Lo): “Marta, Marta, Maria tomou a melhor parte que não lhe será tirada!” .
Realmente, então, ela passou a representar a pura contemplação, a contemplação não tanto unida à vida ativa, mas a contemplação enquanto estado puramente contemplativo, destacado da vida ativa, e vivendo exclusivamente voltada para a contemplação. Ao mesmo tempo, pelo seu arrependimento enorme e pela fidelidade que ela teve depois que seu arrependimento se tornou definitivo, pela sua fidelidade ao pé da Cruz, depois pelo fato de ter sido ela a primeira que teve notícia da ressurreição de Nosso Senhor, ela não representou apenas a contemplação, mas a penitência. A penitência na sua glória, a penitência no estado do maior perdão, a penitência no estado da maior intimidade com Nosso Senhor.
A tal ponto que com o exemplo da vida dela e de outras vidas de santos, se pôde pretender da parte de alguns teólogos que o estado de penitência ainda é mais bonito que o estado de inocência. Uma penitência séria, uma penitência profunda.
Depois, em terceiro lugar, ela representou também a afirmação dos direitos da inocência e dos direitos de Nosso Senhor.
* Judas, que censurara Santa Maria Madalena pelo suposto “desperdício” de perfume, enforcou-se por desespero, e não por arrependimento; enquanto a alma desta estava pronta para presenciar a Ressurreição, a dele caía no inferno
Em que sentido os direitos da inocência e os direitos de Nosso Senhor?
Os senhores se lembram do episódio: Nosso Senhor na casa do fariseu, ela entrou e quebrou um vidro de perfume e começou a ungir com esse óleo os pés de Nosso Senhor. Então Judas teve uma censura a esse respeito e Nosso Senhor justificou a atitude dela, etc.
Aí nós vemos a penitência e, juntamente com a penitência, a contemplação numa espécie de discussão, numa espécie de irredutível oposição de espírito, em relação a uma coisa diferente: é o espírito sem arrependimento nenhum de Judas.
Judas é o contrário do arrependimento. Judas não teve arrependimento, ele teve desespero. O ato pelo qual ele se enforcou na figueira não foi um ato de arrependimento, foi um ato de desespero.
Depois, enquanto ela como contemplação e como penitência representava uma renúncia a todos os bens da terra, Judas como ladrão, Judas como traidor, e traidor por dinheiro, representava o apego aos bens da terra.
A oposição das figuras de Santa Maria Madalena e de Judas, fica uma oposição flagrante, que vai até a Cruz e à Ressurreição.
Enquanto ela estava ao pé da Cruz, ele era o apóstolo maldito, ele era o homem execrando, que pelo contrário encaminha Nosso Senhor para a Cruz. E enquanto Santa Maria Madalena é a primeira a presenciar a Ressurreição, ele se enforca a si mesmo. E a alma dele cai porcamente no Inferno, enquanto Santa Maria Madalena está pronta, disposta para presenciar a Ressurreição de Nosso Senhor.
As antíteses são tremendas, entre um e outro, e os espíritos são diferentes também. E nos compete então fazer uma análise dos nexos que existem, que ligam os traços desses espíritos.
Quer dizer, que nexo há entre arrependimento, pura contemplação e desapego dos bens do mundo, de um lado, e de outro lado, impenitência final, desespero, apego aos bens do mundo, enchafurdamento dentro da vida prática, da vida ativa, completamente como fazia Judas, rouba até, homem que naturalmente fazia negócios porcos, e roubava para fazer negócios porcos? Que paralelismo existe entre uma coisa e outra?
* Santa Maria Madalena e Judas são comparáveis respectivamente a Jacó e a Esaú, quanto à consideração dos bens espirituais e materiais
Nós falamos há algum tempo atrás — eu creio que foi aqui — a respeito de Esaú e de Jacó, o espírito de Jacob e o espírito de Esaú.
Santa Maria Madalena nos aparece inteiramente no espírito de Jacó. Quer dizer, superior, voltada para as coisas do espírito, voltada portanto para as coisas de Deus, e portanto indiferente às coisas materiais do mundo.
Judas é o tipo do Esaú. Ele não vende só o direito de primogenitura por um prato de lentilhas; ele vende seu Salvador por trinta dinheiros, o que é uma coisa muitíssimo pior. Depois ele tem um desespero que ainda é uma progressão disto. É o homem que não tem um verdadeiro arrependimento, em cuja atitude não existe nenhuma forma de virtude. Não é verdade? Existe apenas mal que se enforca por esta forma, que afinal fracassa desse modo totalmente, depois de ter cometido os piores crimes.
* O halo preto que distingue a cabeça de Judas em pinturas medievais exprime bem o filho da perdição e da iniqüidade, o apóstolo maldito cuja cabeça está cercada de trevas
Nessa projeção do auto do Divino Infante, que foi passada há dias atrás aqui, há até uma coisa que eu pediria, quando houver tempo, quando isto não custe sacrifício, para examinar bem.
Pareceu a D. Sigaud — ele me disse assim num sussurro, e me pareceu que é verdade — que numa daquela cenas, que eu creio que são do Gioto, de Judas tratando com Nosso Senhor, aparece Nosso Senhor com um halo dourado e Judas com um halo preto.
Esta história de halo preto em torno da cabeça, exprime bem o filho da perdição, o filho da iniqüidade, o apóstolo maldito, cuja cabeça está toda cercada de trevas, não é isto? Como a fronte venerável de Nosso Senhor, a cabeça sacrossanta de Nosso Senhor está cercada de um halo de luz.
Então nós poderemos dizer que Santa Maria Madalena está cercada de um halo de luz e que Judas está cercado exatamente com um halo negro.
(…)
* Uma pessoa profundamente arrependida perde o apego às coisas da Terra que lhe foram ocasião e motivo de pecado, e por isso facilmente chega à contemplação
Então que nexo existe entre essas três coisas, o espírito de contemplação, o espírito de arrependimento, e depois esse desprendimento das coisas desta terra, esta afirmação de que as pompas devem ser para o Céu? O nexo é muito fácil de a gente compreender.
Uma pessoa de qualquer desses pontos parte para o outro. Uma pessoa profundamente arrependida, com arrependimento eficaz, perde o apego às coisas da terra que lhe foram ocasião e motivo de pecado, e porque perde o apego destas coisas da terra, facilmente vai para a contemplação. A pura contemplação e a renúncia das coisas em que ela pecou levadas ao último extremo são o próprio da penitência. A penitência verdadeira não se limita a separar-se daquilo por onde pecou, ela execra aquilo por onde pecou. E por isso coloca entre aquilo por onde pecou e si mesmo a maior das distâncias. Esta é a penitência verdadeira.
Agora, por isto mesmo convinha a esta penitência tão grande separar-se completamente do mundo. Não ficar apenas no estado de uma vida contemplativa e ativa, mas ficar no estado da vida puramente contemplativa, em que tudo foi abandonado, em que qualquer forma indireta de contato com a matéria execrada do pecado foi cortada também e que então não resta outra coisa senão a contemplação. Contemplação que por sua vez, nascida da penitência e nascida do desapego, faz compreender a excelência das coisas do Céu, faz compreender que todas as coisas da terra foram feitas para as coisas do Céu, e que portanto é justo e é bom derramar um ungüento nos pés sacrossantos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ainda mesmo quando haja pobre que precise desta esmola.
* Crítica à destruição do Convento do Sion para dar lugar a um outro prédio conforme o espírito do Concílio Vaticano II: a beleza do convento devia-se à dignidade das religiosas como esposas de Cristo, e não à das pessoas das freiras em si
Como seria bonito um discurso a esse respeito para os padres do Concílio Ecumênico Vaticano II…
Eu acabo de dizer aqui que o Dr. Adolpho foi convidado por uma comunidade religiosa de São Paulo que possui um esplêndido convento antigo — os senhores sabem qual é, é o Sion, os senhores podem já conhecer — para fazer as plantas de um novo convento, porque o atual vai ser arrasado, para construírem um convento mais simples, segundo o espírito do Concílio Ecumênico Vaticano II.
Uma das objeções que poderia fazer a esse horror — porque aqui seria uma enciclopédia de objeções contra isto, não é? — seria precisamente esse: o convento não tem essa beleza para hospedar senhoras freiras enquanto freiras, mas é a dignidade de esposa de Cristo, é a dignidade intrínseca de uma família religiosa constituída pela Santa Igreja para o estado da perfeição. É a dignidade do estado religioso que está envolvida nisso. Sem falar na capela que é a residência de Nosso Senhor Jesus Cristo.
E é o espírito de Judas que leva a pessoa a não compreender isto e a querer para a Igreja uma pobreza indecorosa, como também para Nosso Senhor achar que o ungüento derramado aos seus pés estava ruim. Nós vemos como essas coisas se ligam.
Agora Judas.
* É admissível que Judas tenha sido uma pessoa em estado de graça quando Santa Maria Madalena era pecadora, mas almejou uma carreira humana colateral à de apóstolo e por fim se desesperou, enquanto ela saiu do pecado e se santificou
O que é que pode ter levado esse miserável a ter tanto apego ao dinheiro? Um apego que naturalmente chegou ao ódio de Nosso Senhor, porque ninguém faz uma traição dessas só por lucro, sem ódio. Acaba sendo um ódio que domina o próprio espírito de lucro. O que é que levou esse miserável a roubar as esmolas que foram coletadas para os pobres, ele que era o defensor dos direitos dos pobres na hora de derramar o perfume aos pés de Nosso Senhor? O que é que levou esse miserável a fazer uma coisa destas, senão porque quando ele estava junto a Nosso Senhor e ouvia as prédicas de Nosso Senhor e os milagres de Nosso Senhor, o seu espírito saía de lá e ele começava a pensar em Jerusalém, na praça ou no templo, onde estavam os tão finos, simpáticos e inteligentes fariseus, a querer ser importante naquela sociedade de Jerusalém e achar que ele perdia algo de sua carreira humana seguindo a Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem os fariseus desdenhavam como um homem sem importância? O que é que o levou a isto senão o desejo de se tornar rico para ter uma carreira colateral à de apóstolo, e ser um homem considerado importante nas ruas da cidade e nas praças da cidade?
Foi porque ele não se reteve nas contemplações de Nosso Senhor e começou a aspirar as coisas do mundo que ele caiu em pecado. E o pecado chegou até o extremo que nós vimos. E esse pecado chegando até o extremo, conduziu à sua conseqüência: foi o desespero. Quer dizer, Judas então se enforcou na figueira maldita.
Tudo isto é lógico, e são duas lógicas: exatamente a lógica do halo de ouro, e outra lógica do halo preto.
O que impressiona é que a gente é levada a admitir a possibilidade de que em determinado momento Judas esteve em estado de graça e Maria Madalena em estado de pecado mortal. E que ela saiu do pecado, para subir até onde ela subiu, e ele desceu da condição de apóstolo, da condição de apóstolo pela qual ele tinha sido convidado por Nosso Senhor e de uma hora em que Nosso Senhor não só Nosso Senhor o amou, porque Nosso Senhor o amou até o fim, mas em que ele amou a Nosso Senhor, ele desceu desta condição, para ser o vendilhão que havia de vender Nosso Senhor.
Vejam o que é tremendo: quanto pode subir uma alma que está no lodo, e quanto pode cair uma alma chamada para o que há de melhor.
A gente imaginar que isto foram dois itinerários que se cruzaram, é uma coisa que arrepia a gente, que enche a gente de terror.
* Se Judas tivesse para com Nossa senhora um mínimo de instinto filial, de simpatia, de amor, teria ido procurá-La quando voltou a si, conseguindo através d’Ela o perdão, tal como o conseguiram São Pedro e Santa Madalena
Para terminar o comentário, todos os que têm tratado deste particular dizem o seguinte: Judas com certeza não tinha devoção a Nossa Senhora. Se ele tivesse para com Nossa Senhora um mínimo de instinto filial, um mínimo de simpatia, um mínimo de amor, ele quando caiu inteiramente em si teria ido procurar por Ela e teria pedido a Ela que arranjasse a situação dele. Mas naturalmente ele tinha raiva d’Ela, tinha antipatia por Ela. Ele A detestava. O Evangelho diz de um modo tremendo que o demônio tinha entrado nele, e o demônio tendo entrado nele, afastava-o quanto possível de Nossa Senhora.
Qual é o resultado? Ele não foi à fonte das graças. Ele tinha antipatia por Aquela que era a fonte das graças e por isto fez a sua perdição.
São Pedro depois de ter renegado, talvez tenha tido a tentação do desespero. Mas é certo moralmente que ele foi a Nossa Senhora. E indo a Nossa Senhora, ele que também tinha pecado muito, pois bem, ele foi fiel, ele deu no grande apóstolo, o primeiro papa da Santa Igreja Católica.
Santa Maria Madalena nos aparece sempre intimamente unida a Nossa Senhora, fazendo parte do cortejo de Nossa Senhora, parte do cortejo de Nossa Senhora em todas as horas e sobretudo na hora régia da vida de Nossa Senhora, que é uma hora em que Nosso Senhor Jesus Cristo com dores indizíveis disse “consumatum est e neste momento Ela por fim aderiu a esta entrega de Nosso Senhor Jesus Cristo e se tornou a corredentora do gênero humano.
Nós podemos imaginá-la junto a Nossa Senhora na hora da piedade, quando Nossa Senhora tinha Nosso Senhor Jesus Cristo sobre seu colo.
Nós podemos imaginá-la indo com Nossa Senhora para o cenáculo naquele momento tremendo em que Nossa Senhora ficou inteiramente abandonada, Nosso Senhor no sepulcro, o Colégio Apostólico vacilante, a cidade de Jerusalém entregue a terremotos com os justos da antiga lei andando de um lado para o outro. Nossa Senhora nessa situação tão pouco conhecida e que tem tanta relação com a história eclesiástica do Brasil sobre a invocação de Nossa Senhora da Soledade.
Nossa Senhora completamente só. Eu tenho a impressão de que não lhe faltou a assistência de Santa Maria Madalena. Santa Maria Madalena estava junto d’Ela, e porque estava junto a Nossa Senhora, um rosário de glórias, cada uma maior do que outra, cada uma mais extraordinária do que outra.
Reverta tudo isto no seguinte:
É impossível, quando nós vemos tudo isto, nós não estremecermos com a nossa própria fraqueza. É impossível. Mas é impossível também que nós não nos sintamos concertados com este ponto: por mais fraco que o homem seja, desde que ele se apegue muito a Nossa Senhora, peça muito a Nossa Senhora por sua própria perseverança e peça a Ela que ampare, que nunca abandone, ele encontra aí um ponto de firmeza, ele encontra aí um ponto de solidez. A última das pecadoras aproximou-se de Nossa Senhora e se tornou uma penitente gloriosíssima. Um apóstolo que era distante e frio de Nossa Senhora, se tornou o filho da maldição e da perdição, que Dante coloca no Inferno metido dentro da boca de Satanás com as pernas para fora, o eternamente triturado. Quando nós podemos imaginar no Céu Santa Maria Madalena posta bem perto do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria, agradecendo os favores imerecidos de que ela foi repleta.
Aí os senhores têm então uma consideração a respeito da vida de Santa Maria Madalena.
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1) Nota do conferidor: A data (22/06/1965) no microfilme parece estar errada, pois a festa de Santa Maria Madalena é em 22 de julho; e já existe outro “Santo do Dia” em 22/06/1965.