Santo
do Dia (Rua Pará) – 20/7/1965 – 3ª feira [SD
027 e 262] – p.
Santo do Dia (Rua Pará) — 20/7/1965 — 3ª feira [SD 027 e 262]
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União de alma: concórdia na ação e na vida quase diária, fonte das maiores graças * O Sr. Dr. Plinio governa o Grupo sem regulamentos: apenas o bom espírito desenvolvido no calor da devoção a Nossa Senhora é suficiente * Santo Elias tinha uma graça sobrenatural, mas tinha também uma mentalidade e um bom espírito que era o fruto da correspondência à Graça, que ele comunicou em duplicidade a Santo Eliseu ao ser arrebatado * São Vicente de Paulo era o santo da combatividade, mas ao mesmo tempo da caridade, da compaixão, o que parece uma incoerência à opinião corrente de que a combatividade e a compassividade são incompatíveis * Não é possível amar o bem sem odiar o mal: qualquer amor ao bem que não redunde em ódio ao mal não é amor ao bem
* União de alma: concórdia na ação e na vida quase diária, fonte das maiores graças
São tantos os santos do dia que haveria de comentar que começando já essa parte de nossa reunião um pouquinho tarde não vai ser possível tratar de todos.
Ontem foi dia de São Vicente de Paulo, e eu tenho uma razão especial para fazer um comentário a respeito disso, a respeito dele.
Além disso, hoje é dia de Santo Elias, profeta, primeiro chefe e pai da Ordem do Carmo. Grande foi seu zelo pelos direitos de Deus, numa época de quase total apostasia do povo eleito. Arrebatado aos Céus num carro de fogo, voltará ao mundo para derrotar o Anticristo. Século IX antes de Cristo.
Ainda hoje, em nosso calendário, haveria a reportar São Jerônimo Emiliano, a respeito do qual D. Guéranguer dá um sumário biográfico muito substancioso.
Mas eu gostaria de falar, pelo menos, de São Vicente de Paulo e, depois, de Santo Elias, pois o dia de hoje é dele.
Muitas vezes eu tenho perguntado qual é o fator, qual é a razão da união de alma, que caráter caracteriza tão especialmente o movimento de “Catolicismo”; união de alma que se traduz depois numa concórdia na ação e numa concórdia na vida cotidiana, que é uma das nossas maiores graças.
Várias vezes recebendo aqui visitantes da Europa, mais de um me diz na saída: “Agradeça a Deus essa união que reina aqui e peça sempre que Ele continue a dá-la”. E isto é muito explicável que me digam, porque infelizmente os movimentos de direita na Europa não estão apenas fracionados, não estão apenas reduzidos a pedaços, nem a pedacinhos: estão simplesmente esfrangalhados. E assim se compreende que eles se impressionem com aquilo que há de compacto e de maciço dentro de “Catolicismo”.
* O Sr. Dr. Plinio governa o Grupo sem regulamentos: apenas o bom espírito desenvolvido no calor da devoção a Nossa Senhora é suficiente
Isso me faz lembrar um sacerdote da paróquia de São Vicente, perto de Santos, que se perguntava uma vez se eu não podia entregar nosso regulamento para ele ver. Eu disse:
— Não temos regulamento.
Ele, acreditando pouco no que eu disse, disse o seguinte:
— Não, eu queria que o senhor me desse pelo menos um artigo do regulamento que atribui poderes ao senhor, para ver como é que o senhor mantém aquilo unido.
— Não tem regulamento, não tem esse artigo de regulamento.
— Mas como é que é isso?
Eu, na hora, nem soube o que responder. Porque essa união é uma graça tão grande e é um fato tão natural, que nem me passou pela cabeça como explicar isso. Mas eu tenho impressão de que a verdadeira explicação tem alguma relação com o assunto de Santo Elias.
Quero dizer o seguinte: quando há um mesmo espírito, e quando esse espírito procura ser e é inteiramente bom, inteiramente ortodoxo, quando nele não entrem infiltrações de preferências pessoais, de manias, de caprichos individuais, mas nele a alma procura conhecer e aceitar inteiramente a revelação no magistério de Igreja como foram feitos, e modelar-se segundo o ensinamento recebido, em vez de modelar o ensinamento recebido segundo si mesmo, quando reina esse espírito, quando esse espírito se desenvolve ao calor da devoção a Nossa Senhora, existe algo que é então mais eminente ainda do que uma humilde doutrina. Porque a doutrina é como que uma formulação, ou uma expressão, uma projeção do espírito. Mas o espírito é algo que está mais profundo do que a doutrina, e que é a profissão ardorosa, entusiástica, sem restrições, incondicional de alguns princípios supremos, dos quais todos os outros princípios decorrem por via de conseqüência.
Isto exatamente é o espírito. Esse é o bom espírito. E é a união nesses princípios, e a união inteira da inteligência e da vontade nesses princípios, que traz a adesão nos outros princípios secundários e que faz também a coesão na ação.
* Santo Elias tinha uma graça sobrenatural, mas tinha também uma mentalidade e um bom espírito que era o fruto da correspondência à Graça, que ele comunicou em duplicidade a Santo Eliseu ao ser arrebatado
De maneira que temos aqui a importância do que é unidade de espírito. E nós vemos essa união de espírito realizada exatamente — como D. Sigaud, aliás, lembrava ontem — com Elias e depois com Eliseu.
Elias tinha um espírito, quer dizer, tinha uma graça sobrenatural, mas ele tinha também uma mentalidade e um bom espírito, que era o fruto da correspondência à graça, que ele comunicou, no momento de subir até o lugar onde ele espera a hora do cumprimento de sua missão histórica, ao seu discípulo Eliseu. Com isto de propriamente sobrenatural: que transmitido o espírito a Eliseu, Eliseu ficou com duas vezes mais espírito do que ele.
Ora, em geral acontece que há uma espécie de empobrecimento. O mestre dá, o aluno recebe, depois transmite para outro, e à medida que o espírito se transmite, ele vai se adelgaçando. Ali, pelo contrário, tão sobrenatural era o fato, que ele recebeu duas vezes esse espírito.
Quer dizer, era uma coisa vinda de Deus, era uma coisa que era dada na previsão dos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo e das orações de Nossa Senhora; e que nós, exatamente, devemos cultivar mais do que tudo.
É o bom espírito, a união desse espírito católico, espírito ortodoxo, espírito ultramontano, espírito mariano, que faz exatamente a nossa união em todos os outros campos.
Os senhores vão ter por esses dias um estupendo jornal-falado dado pelos três rapazes de Fiducia a respeito das atividades deles lá. Os senhores vão ver a adesão que as carmelitas do Chile dão à boa causa de “Catolicismo” e Fiducia, no Chile.
Os senhores sabem do apoio que elas nos dão aqui no Brasil. Os senhores sabem nossas relações com a Ordem do Carmo. Os senhores vêm essa unidade de espírito que acaba tendo algum nexo com a Ordem do Carmo e algum nexo com o espírito de Elias e Eliseu. E aí os senhores têm um painel muito grande a considerar, no qual essa noção de um espírito fica então marcada com toda a insistência, com todo o relevo que merece.
* São Vicente de Paulo era o santo da combatividade, mas ao mesmo tempo da caridade, da compaixão, o que parece uma incoerência à opinião corrente de que a combatividade e a compassividade são incompatíveis
Eu deveria dizer, falando precisamente de espírito e a pedido do nosso tão caro Dr. Gerardo, que tem uma data de sua vida muito ligada a São Vicente de Paulo, eu deveria dizer alguma coisa a respeito desse santo, e eu gostaria dizer algo sobre o espírito de São Vicente de Paulo.
Muitas vezes se tem dito aqui — e eu vou somente comentar em função dessa idéia do bom espírito — que São Vicente de Paulo era, ao mesmo tempo, o santo da combatividade e o santo da caridade. Da combatividade nos dois terrenos.
Da combatividade doutrinária: ele combateu os jansenistas meticulosamente, politicamente, taticamente, estrategicamente, exatamente como nós combatemos os progressistas, os democrata-cristãos, os liturgicistas, as catervas. Ele os combateu em Roma, ele os combateu na corte do rei, ele os combateu na nobreza, ele os combateu no clero, ele os combateu no povo de todos os modos possíveis, com sua imensa influência pessoal.
E como sabemos, além dessa forma de combatividade intelectual, doutrinária, ele também quis armar uma cruzada contra Túnis e, nesse sentido exatamente, dirigiu-se ao rei de França, etc.
Ao mesmo tempo, esse santo era o santo da caridade, o santo da compaixão.
E aqui encontramos, nessa conjunção, uma rara manifestação de bom espírito, uma alta manifestação de bom. Por quê? Porque segundo a opinião corrente por aí, quem é muito combativo, não é muito compassivo, e quem é muito compassivo, não é combativo.
Ora, como nós somos muito combativos, chegam à conclusão que nos falta compaixão. Então, somos duros, somos severos, somos maus, somos vingativos, temos em nossa alma toda a maldade que eles atribuem aos inquisidores, a Torquemada, e a um grande São Pio V, por exemplo. E é exatamente esse mito que se trata de destruir.
Quem é verdadeiramente compassivo, quem é santamente compassivo, é combativo. Quem é santamente combativo, é compassivo. Se a combatividade e a compaixão são virtudes, não pode haver entre elas uma incompatibilidade. Pelo contrário, todas as virtudes são irmãs, revertem umas nas outras, e imaginar que uma pessoa possa ter uma virtude e, por isto, não ter a virtude oposta, é ignorar o bê-à-bá da virtude.
O bom espírito consiste, isto sim, em ser combativo contra aquilo e aqueles que se deve combater e nas horas em que é preciso combater, e com toda a energia; ser compassivo para com aqueles que se deve ter compaixão, nas horas em que é preciso ter compaixão e na medida em que é preciso ter compaixão. Então, essas duas coisas se somam inteiramente.
Nós vemos isto bem na índole da Igreja, que ao mesmo tempo instituiu as ordens de cavalaria e instituiu as ordens de enfermeiros e enfermeiras, que curam as feridas.
Pode-se conceber perfeitamente um exército católico com uma ordem de cavalaria para ferir os adversários, e depois uma ordem de irmãs de caridade para cuidar dos adversários feridos com as devidas cautelas e nos termos necessários, sem humanitarismo.
* Não é possível amar o bem sem odiar o mal: qualquer amor ao bem que não redunde em ódio ao mal não é amor ao bem
Por que isso?
O verdadeiro católico ama o bem. Porque ele ama o bem e o ama sob todas as formas, e como o bem é difusivo de si, ele é compassivo. Mas não é possível amar o bem sem odiar o mal. Qualquer amor ao bem que não redunde em ódio no mal, não é amor ao bem. Então, se ele ama o bem, pela mesma razão pela qual é ele combativo, ele é compassivo. É evidente.
Então, uma indomável, feroz e tremenda combatividade pode e deve coexistir com uma dulcíssima e meticulosa compassividade, desde que a compassividade não signifique pactuar com o mal, consentir em que o mal continue quando ele deve morrer, consentir em que ele continue atuando, pelo menos ferido e incompleto, pois ele deve ser exterminado radicalmente. Consentir em que lhe restem algumas armas na mão, alguns restos de prestígio, alguns restos de influência, alguns restos de qualquer coisa… Contra o mal, a ofensiva tem que atingir para desarmar completamente o mal, tem que atingir também os maus, é preciso que chegue até lá, em toda a medida do necessário. Fora dessa medida, a mais requintada, a mais extrema, a mais delicada suavidade é o corolário da combatividade.
De maneira que arrasado o mal e negados a ele todos os quartéis, humilhado, destroçado, privado de todos os meios de ação e de todo o prestígio em toda a medida em que seja possível neste vale de lágrimas, não só eliminado, mas eliminado até em suas sementes, isto feito e na medida em que isso se consiga, o resto exatamente é tarefa da compaixão.
Na junção dessas duas coisas, entendemos o que é o bom espírito, envolvendo virtudes que parecem antitéticas, mas que são uma só virtude.
Isso é que nos explica a alma desse grande São Vicente de Paulo, ao mesmo tempo tão combativa e tão compassiva, igual a de todos os outros santos, inclusive dos santos cruzados, dos santos inquisidores e dos santos que fundaram ou que se santificaram em ordens de cavalaria.
Eram essas as considerações que me cabia fazer hoje.
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