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Reunião para o Grupo da Martim 1 — 10/7/1965 — sábado

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Virtudes Cardeais – II

Obediência e Mansidão

O que podemos dizer desta característica da virtude católica, por onde ela é tão nuance, por onde ela é tão voltada para tudo quanto não seja o mal? Existe uma palavra que possa conter tudo isso? E que possa exprimir tudo isso? Existem muitas palavras, porque isso é suscetível de ser visto sob muitos aspetos. Mas, uma palavra que por exemplo contém isso muito bem, é a palavra mansidão e é a palavra obediência. Porque isto, o que a gente vê no fundo, é da parte da vontade, e da parte da sensibilidade, enquanto possa tocar, uma suma obediência.

Quer dizer, a sabedoria domina o homem sábio. E, o que quer que seja que ala lhe peça, ele faz. Se ela lhe pede que ele ria, ele ri; se ela lhe pede que ele chore; ele chora. Se ela lhe pede que ele se zangue, ele se zanga. Se ela lhe pede que ele distinga e considere os matizes ele faz. Se ela pede o contrário, que ele sintetize, e afirme a unidade, ele o faz também. Quer dizer, ele não tem um apego próprio, ele não tem uma mania própria, ele não tem um tique próprio, ele não quer outra coisa senão refletir a ordem do ser e amar a ordem do ser. Quer dizer, refletir a Deus e amar a Deus. Mais nada ele quer, do que isto. E então, ele é flexível, ele é afável, ele é mutável, ele é vario, ele é multiforme, por causa disso. E isto é, em última análise, uma suma é a obediência de escravo. A quem o seu senhor diz vai ou vá, ele vai. Se o seu senhor diz: sente, ele senta, se o senhor dele diz: trabalhe, ele trabalha. Ele não tam vontade própria, ele tem como vontade a vontade do seu senhor. E assim também, é a vontade do verdadeiro católico, em relação a este ditame, da Sabedoria. Ele não tem mania própria. Ele não tem nada de próprio a não ser o querer isto. E a todos as horas estar tomando uma posição em face disso, conforme, coerente, adequada. E, mesmo quando ele se põe em luta, i então, numa luta indomável, é a luta invencível por excelência, ainda é a obediência que o guia. Porque então, é algo do contrário à ordem do ser, é algo de contrário à verdade, e ele então parte em luta contra aquilo, porque a obediência da sabedoria é essa, o ditame da sabedoria é esse. E, de outro lado, nós poderíamos falar aqui na palavra mansidão.

Porque, o que é isto senão aquela excelência exatamente da obediência, por onde a obediência é mansa, por onde não só faz a vontade do que lhe mandam, mas faz essa vontade, do bom grado, faz esta vontade num espírito desinteressado de holocausto, de homenagem, de obediência. Mandou-me fazer, mandou quem pode, e eu quero obedecer a quem pode mandar. Eu portanto obedeço e obedeço de bom grado.

Quer dizer, se Deus pede de nós coisas difíceis, ou se Ele pede fáceis, se ele pede de nós coisas que esperamos ou coisas que não esperávamos, nossa vontade é uma vontade cheia de mansidão e sem rugido, sem protesto, sem mau humor, sem impertinência, sem apego, prontamente faz. E faz porque lhe foi pedido. Quer dizer ainda aqui, há a posição do perfeito escravo, que faz a vontade do seu senhor, porque lhe foi mandado, e faz alegremente, faz de boa vontade, porque ele tem a alegria, de fazer a vontade de seu senhor.

Quer dizer, esta é a verdadeira posição, a verdadeira atitude de alma, do fiel. E é a verdadeira atitude de alma da Igreja Católica. E nós poderíamos fazer um estudo das outras religiões, mostrando como todas as outras religiões, em nenhuma delas tem isso, que é uma espécie de rosa da santidade, que contém todos os aspetos da santidade. Nenhuma delas tem isso completo. Pelo contrário tem lados incompletos. E por causa disso exatamente, elas são desfiguradas e aleijadas. Aqui, está uma espécie de visão conjunto do espírito católico, da posição católica, da doutrina católica, e que importa muito considerar.

Ser uno, nos lances mais extremos e opostos, em todas as direções. E de ser de todos os modos, de todo os jeitos, em todos os graus, sempre que as circunstâncias impunham aquele. Aqui está vamos dizer, a carola da flor, aqui está o ponto de unidade, em torno de qual se entroncam todas as virtudes. E aqui está também aquele superior espírito, aquele superior equilíbrio de espírito da doutrina católica, e aquilo que constitui o mistério da alma verdadeiramente católica e que está nesta posição de alma, que nos compete focalizar. Nos compete focalizar, porque é a conjunção de todas as virtudes que produz uma luz, que é a conjunção de todas as luzes. Essa conjunção de todas as luzes, é propriamente a luz da sabedoria, a atmosfera moral da sabedoria, vamos dizer, a estado temperamental da sabedoria, que é um estado de integração, de síntese poderosa, em torno de uma unidade que compreende de absolutamente tudo que é bom.

Assim, se vê que na Igreja Católica, se encontra essas prodigiosas expressões de espíritos diversos. Agora, se se cair nas heresias, encontra-se imediatamente o contrário. Este posição de alma de que eu acabe de falar, ela também serve para julgar as ideologias políticas. Há mil intuições da RCR, há mil posições de alma, em face do que não é católico, há mil reconheceres internos de nos mesmos do que há daquilo de errado naquele, naquele outro, naquele outro, psicologias: há mil diferenciações que nós fazemos em relação aos outros, e que procedem dessa posição interna, verdadeiramente sapiencial. Porque quando a gente se põe nela, a gente por exclusão percebe tudo quanto é errado. A gente por inclusão, entende tudo quanto é verdadeiro. É uma posição, vamos dizer muito simples da alma, muito primeira e muito fácil da alma. Não é nem de longe, uma posição difícil de atingir pele inteligência. Eu creio que esta posição é acessível a toda alma que peça a Nossa Senhora a graça de tê-la. E é esta posição assim, que afinal de contas é uma espécie de sinfonia em que as quatro virtudes cardeais, e, constituindo a Sabedoria, penetrada pela Fé, pela Esperança e pela Caridade, etc., dão uma espécie de grandeza de alma, um feitio de alma que é a nota católica inconfundível na qual tudo se conhece, tudo se sabe, tudo se discerne, tudo é fácil de resolver, e tudo é digno de amor. Quer dizer, desde já na terra, a única verdadeira felicidade, é a posse disso.

Eu posso dizer que as pessoas que procuram outra coisa senão isso, são pessoas que são de uma infelicidade suma. E que o católico canceroso, deitado num hospital, na miséria, imaginem um de nós com um câncer no rosto, num sanatório comunista, e portanto, sujeito a ser assassinado de um momento para o outro, está bem que até um católico nessas condições, porque possui isto, ele possui algo na alma que o torna nesta vida muito mais feliz de que todos os outros. É propriamente a felicidade desta vida, é possuir este quid, é possuir este imponderável.

Quer dizer, aqui se realiza bem o que Nosso Senhor disse: “Procurai o Reino de Deus e Sua Justiça, e todas as coisas vos serão dadas de acréscimo” . Porque este é o Reino de Deus. O Reino de Céus em nós é isto. O Reino de Deus em nosso ambiente, é a participação disto em comum. Este é o Reino de Deus, essa é a Justiça de Deus. As coisas nos serão dadas de acréscimo, quer dizer, tudo toma sabor, a partir disso. Até um infortúnio dissabor, toma um sabor a partir disso. Desta posição da alma, que é a virtude vista assim e que é a santidade vista assim.

Aí, a gente poderia verdadeiramente dizer, que a vida é um prenúncio do céu. Não porque o católico não sofra muito, mas que o maior sofrimento da vida, e que eu vejo tanta gente… [faltam palavras] …é vida sem sentido. Não tem razão de ser, para que? O que aquilo quer dizer? O que é? A viça que tem até um anti-sentido, porque eles acham que a vida não tem sentido, quando tudo lhes corre bem, e quando começa a correr mal, eles acham que tem um anti-sentido, um sentido negativo, é um absurdo, a vida. Tudo isso desaparece desde que a pessoa se coloque nessa posição de espírito.

Os srs. querem ver como é verdade que foi isso que o mundo recusou, quando o mundo recusou a Idade Média, os srs. tomem o extremo oposto da Idade Média hoje em dia, que é a arte moderna. A arte moderna é um exterior disso. E uma coisa que diz o seguinte: quer saber de uma coisa? É absurdo? É! Mas é porque eu quero. Sabe porque eu quero? Não é para ser feliz, é para chegar aqui e abrir uma chaga e me mostrar infeliz; é porque eu quero. Está acabado. Então, vem todos os contra-sensos da arte moderna aqui.

(faltam palavras)…como isso deve nos fazer ver a nossa santificação, como algo de muito mais alto do que simplesmente praticar certas normas. É claro que é praticar a norma, a prática das normas é indispensável. Ela é mesmo vamos dizer, o palpável da coisa. Mas, a coisa tem para além do seu palpável, um impalpável sem nome nem conta e que é essa imensa harmonia, essa imensa explicações, esse equilíbrio completo que exatamente Nosso Senhor, por meio de Nossa Senhora, oferece a aqueles que desejar segui-Lo.

Isso seria uma digressão e respeito da Sabedoria. Como ela é em si, como ela é na alma do homem, como ela existe na Igreja Católica, e como Ela não existe nas igrejas falsas, nas correntes políticas falsas, etc.

Vamos fazer uma rápida recapitulação:

Primeiro ponto: uma rememoração da reunião da última vez. E é o lembrar que as verdades dentro da Igreja são verdades que por assim dizer procedem de m mesmo pólo e caminham para extremos opostos e que as virtudes todas elas têm esta\ forma. Elas caminham para extremos opostos e se ligam a um só pólo. E que então, as verdades opostas mais extremas, as virtudes opostas mais extremas não só são irmãs e harmônicas, mas quanto mais opostas tanto mais harmônicas. O sumo da harmonia consiste precisamente nisso.

Segundo ponto: é que isto represente e unidade na diversidade. Quer dizer, todas essas virtudes tão várias, tem uma possante unidade. Esta unidade, qual é Exatamente as virtudes cardeais, a Sabedoria, a Fé, a Esperança e a Caridade. São como que o tronco de toda essa galharia imensa.

Terceiro ponto: é a análise, não da variedade, mas da unidade. Quer dizer, a alma que procura sempre o mais alto da verdade e o mais extremo do bem, essa alma, tem na sua inteligência, a receptividade para as verdades opostas. E na sua vontade, a de algum modo, na sua sensibilidade, ela tem o pendor para as virtudes opostas.

Conceito de obediência: evidentemente obedece quem faz a vontade de um outrem que tem o direito de mandar. Isso é a obediência. Segundo a linguagem marxista, é um alienado. Quer dizer, aquele que se alienou ao outro.

Agora, esta obediência aqui se revela assim: Deus quer, que nossa inteligência esteja aberta a toda esta ordem de verdades, a toda essa gama. E mais do que a cada fragmento de gama, a síntese da gama, o conjunto das gamas. Em toda a sua riqueza. Deus quer isto. E Deus não só quer, mas tem que querer. Ele não seria Deus se não quisesse, porque a ordem do ser é essa.

Deus quer que nossa vontade esteja aberta, conforme as circunstâncias, etc., a praticar as virtudes, das formas as mais variadas. E também tem que querer.

Agora, o que é dentro disso, apego? É quando Deus quereria que eu fosse de um jeito, e de outro e de outro, e eu quero ser só de um.

O que é a desobediência ou a revolta? É querer fixar-se num ponto, quando Deus quer esta mobilidade, harmônica.

O que é o desapego? É exatamente a facilidade de jogar de todos os lados para fazer a vontade de Deus.

O que é a mansidão? É exatamente aquela flexibilidade com que o escravo faz a vontade de seu senhor e não a sua própria. De bom grado, é normal, é natural que eu obedeça, eu abaixo a minha cabeça.

Depois disso, eu falei de Nosso Senhor Jesus Cristo, dei como O exemplo, Nosso Senhor Jesus Cristo. Como Ele teve tudo, mas Ele teve sobretudo a síntese do tudo. A mansidão e a obediência d’Ele, eram também na hora em que Ele era tremendo. Ele ai era manso também. Porque Ele fazia ali a vontade do Seu Pai. Ele combatia, aqueles que são contra a ordem do ser, contra o Bem, na contradição. E aí entra a suma intransigência.

Depois disso, eu mostrei como isso era verdadeiramente Sabedoria. Porque a partir disso, tudo se discerne, tudo se esclarece, tudo toma sentido.

(faltam palavras) …o que eu disse é que quem tem isso, implicitamente, não explicitamente, mas implicitamente, sabe tudo, quanto homem; enquanto um homem deve saber. Ele não sabe química, ou ele não sabe Direito Romano, ele pode ignorar essas duas coisas, é precisa estudar para saber isso. Mas o que eu quero dizer, é que ele sabe o que o homem enquanto homem precisa saber. E sem fazer brincadeira, se ele fosse estudar química ou Direito Romano, ele estudaria muito melhor por causa disso também.

Depois então, eu mostrei como se sabe, por exemplo, que a Igreja Católica é verdadeira. Porque só a Igreja tem essa totalidade, e cada heresia, nega esta ordem em algum ponto. De maneira que é olhar e perceber. Diretamente se vê que a Igreja é verdadeira. Aliás, os srs. todos, uns mais claramente, outros menos, e se não todos, pelo menos quase todos, no fundo se crêem, é por causa disso. Implicitamente, é por causa disso.

Depois eu falei da felicidade que isso traz. A infelicidade da vida sem sentido, a infelicidade da vida com anti-sentido, e a felicidade celeste que a vida assim apresenta. Mesmo no meio de infortúnios fenomenais.

A Sabedoria é a virtude pela qual se formula as perguntas e se tem a vontade de conhecer as respostas a essas perguntas.

A Fé, a Esperança e a Caridade, são essas respostas, enquanto amada, aceita, etc, pela Sabedoria.

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1 Estava como “Reunião de sábado à tarde”. Nos Sábados à tarde eram realizadas reuniões para os membros do Grupo da Rua Martim Francisco, na Sala dos fundos da mesma sede; e, no domingo, para os membros da Pará, na Sede do Reino de Maria, da rua Pará.