Santo
do Dia (Auditório Santa Sabedoria) – 6/7/1965 –
3ª feira [SD 116] – p.
Santo do Dia (Auditório Santa Sabedoria) — 6/7/1965 — 3ª feira 1 [SD 116]
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O exemplo que Santa Maria Goretti nos deu é um contraste flagrante com a imoralidade atualmente existente * Mais vale perder a vida do que sacrificar sua pureza, e a virtude sobrenatural de uma Santa Maria Goretti nos deve levar a considerações também de caráter sobrenatural: a desolação atual pode se transformar em motivo de alegria * Não pode haver ordem familiar verdadeira sem a castidade, seja a castidade perfeita ou a castidade matrimonial: a ordem política e a ordem social ruem nos ambientes impuros * Quando o homem não age de acordo com suas idéias, acaba pensando de acordo com seus atos * Nas confissões, as pessoas têm dificuldade em pedir perdão * O assassino de Santa Maria Goretti reconheceu o mal que fez, demonstrou arrependimento e pediu perdão à mãe da vítima, comungando ao lado dela, e ofereceu-se ao Papa para estar presente na canonização, para que fosse humilhado * Se Santa Maria Goretti conseguiu até a conversão de seu assassino, podemos depositar confiança em sua intercessão
Hoje é dia de Santa Maria Goretti , virgem e mártir. Morreu por amor à pureza e sua relíquia se venera em nossa capela. Século XX.
* O exemplo que Santa Maria Goretti nos deu é um contraste flagrante com a imoralidade atualmente existente
Muita coisa haveria para se dizer a respeito da festa de Santa Maria Goretti. São coisas evidentes e que, portanto, não se prestam a um comentário muito extenso. Mas o contraste entre os acontecimentos dolorosos no terreno da pureza que se verificam em nossos dias, de um lado e, de outro lado, o exemplo que Santa Maria Goretti nos deu é um contraste tão flagrante, que não podemos deixar de fazer uma referência a isso no dia de hoje.
Basta lembrarmos que enquanto a Igreja venera no dia de hoje uma santa que ainda na infância sacrificou sua vida por amor à pureza vítima de um atentado brutal, bárbaro, bestial, enquanto isso, estamos numa época em que se introduz o costume escandaloso do chamado mono-biquini, e que o traje já tão obsceno do biquini — obsceno a tal ponto que não mereceria ser mencionado num ambiente como este — traje esse agravado … [inaudível]… e que depois conduzirá a mais um passo. Porque a degradação só pára quando chega ao último ponto do possível, não se detém a não ser quando já tenha destruído tudo aquilo que tende a destruir. Quando ela chegar ao último passo vai ser o do nudismo mais anarquista e mais completo.
A contradição entre essas duas coisas é muito grande. Nessa contradição nós já vemos um elemento fator de meditação poderosa, para darmos glória à Igreja que continua, no meio da degradação do mundo de hoje, a apresentar aos homens um modelo que é de tal maneira contrário àquilo para que o mundo contemporâneo tende.
Mas, de outro lado, nisso há um fator de tristeza. Porque se a Igreja Santa Católica Apostólica Romana no seu calendário de hoje nos manda venerar essa santa, a indiferença de inúmeros católicos ante essa degradação moral progressiva … [inaudível]… na luta contra a imoralidade, essa indiferença existe e vemos, então, coisas que bradam ao Céu e clamam a Deus por vingança. Como a introdução do biquini e depois do mono-biquini são introduzidos e aceitos como fatos mais ou menos indiferentes, temos então aqui um outro … [inaudível]… fixa, perene, indestrutível pela solidez e pelo caráter inabalável do elemento divino.
De maneira tal que isso é para nós uma fonte de alegria, uma fonte de consolação, uma inspiração para a luta por esses valores, por maior que seja a desolação que possa reinar em certos meios católicos a respeito desse assunto.
* Mais vale perder a vida do que sacrificar sua pureza, e a virtude sobrenatural de uma Santa Maria Goretti nos deve levar a considerações também de caráter sobrenatural: a desolação atual pode se transformar em motivo de alegria
Santa Maria Goretti se nos apresenta como um incitamento à doutrina tradicional da Igreja, ao zelo da Igreja pela pureza, ao valor que a Igreja sempre inculcou que a pureza possui, de tal maneira que mais vale a pena ao homem perder sua vida do que sacrificar sua pureza. Devemos compreender que é sobrenatural a virtude da uma Santa Maria Goretti, e nos deve levar a fazer considerações de caráter sobrenatural também, compreendendo que toda a desolação do mundo de hoje pode ser dominada e transformada em motivo de alegria pela ação do sobrenatural.
De maneira que não devemos desanimar na luta. Devemos nos lembrar que a pureza foi restabelecida e elevada a um grau até então desconhecido no mundo antigo, pelo fato de que se introduziu a religião católica entre os romanos. A religião católica continua sempre a mesma e o Precioso Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo e a Eucaristia pode ser chamada em nosso dias, como era chamada no passado, o vinho que gera virgens. Portanto, temos entre nós o fermento de todas as vitórias e a causa de todos os sucessos. E só termos fé, piedade, sabermos rezar, sabermos fazer penitência, sabermos fazer reparação por aqueles que peçam, que conseguiremos vencer essa onda imensa de impiedade que há no mundo contemporâneo.
* Não pode haver ordem familiar verdadeira sem a castidade, seja a castidade perfeita ou a castidade matrimonial: a ordem política e a ordem social ruem nos ambientes impuros
Eu gostaria de acentuar um ponto.
Em toda essa questão social de que tanto se fala, o problema da pureza ocupa um lugar preponderante. Não pode haver ordem social verdadeira sem ordem familiar verdadeira; e não pode haver ordem familiar verdadeira sem a virtude cujo nome enche os homens de respeito humano, sem que essa virtude seja praticada pelos católicos até a última perfeição, e praticada por ser conhecida e admirada como tal: é a virtude sobre a qual pouco se ousa falar e que é a virtude da castidade conforme o estado da pessoa, ou a castidade perfeita, ou a castidade matrimonial. Duas formas santas de virtude, que precisam ser adotadas e defendidas.
A ordem politica e a ordem social ruem inevitavelmente nos ambientes onde a virtude da pureza não é observada. Não há luta anticomunista, não há preservação da ordem política e social, não há construção da Civilização Cristã que se possa fazer seriamente sem que, entre outras virtudes, a virtude da pureza esteja na base, virtude que Santa Maria Goretti nos deu um tal exemplo.
* Quando o homem não age de acordo com suas idéias, acaba pensando de acordo com seus atos
Podemos ter isto bem em vista considerando o tema lamentável e obsceno do nudismo.
Os senhores estão vendo como a sociedade contemporânea caminha para o nudismo. Esse caminho para o nudismo é o caminho visado pelos anarquistas. Os anarquistas realizam, na Europa, reuniões de nudismo completo, porque sua luta não é apenas para a abolição de toda forma de autoridade, mas também para a abolição de toda forma de pudor e, portanto, para a abolição de toda forma de trajes. E essas são coisas que se imbricam, que constituem um todo na ordem da destruição completa.
É doloroso comentar, mas há uma ano ou dois atrás realizou-se na Inglaterra um congresso de anarquistas. Esse congresso realizou-se num castelo alugado pelo Centro Anarquista Inglês — castelo esse pertencente a um dos duques ingleses — e todo esse congresso foi feito os homens e mulheres completamente nus.
Vê-se, portanto, que nossa sociedade, antes mesmo de adotar as idéias anárquicas, vai infelizmente caminhando para essas idéias por meio dos costumes anárquicos.
Há um princípio de Pascal, muito verdadeiro, que é o seguinte: quando o homem não age de acordo com suas idéias, acaba pensando de acordo com seus atos. O mundo contemporâneo deslisa assim para o anarquismo.
* Nas confissões, as pessoas têm dificuldade em pedir perdão
Ao lado da consideração de Santa Maria Goretti, acho importante uma outra reflexão.
D. Mayer, Frei Jerônimo e outros padres com quem tenho conversado dizem-me que é um sintoma doloroso da degradação do século a dificuldade que há para que os penitentes, no confessionário, de fato peçam perdão pelos seus pecados; digam que fizeram mal em pecar, batam no peito e peçam perdão.
D. Mayer contou-me uma coisa curiosa.
Na zona de Campos, de que é bispo, quando pergunta para os caipiras como querem fazer a confissão, se querem que pergunte ou se querem dizer os pecados cometidos, a resposta é característica do desejo de não pedir perdão: “Sr. Bispo, o senhor me ataque, que eu me defendo”. Vejam que perguntar sobre os pecados não é uma colaboração, mas um ataque.
Isso, de um modo tão ingênuo, os habitantes da cidade não dizem, mas o estado de espírito não deixa de ser esse. A contrição, a atrição, o propósito de não pecar seriamente, que é o elemento fundamental para que o sacramento da penitência seja bem sucedido, isso são coisas secundárias.
* O assassino de Santa Maria Goretti reconheceu o mal que fez, demonstrou arrependimento e pediu perdão à mãe da vítima, comungando ao lado dela, e ofereceu-se ao Papa para estar presente na canonização, para que fosse humilhado
Nesse sentido, o caso de Santa Maria Goretti nos oferece um bonito exemplo.
Os senhores sabem que o homem monstruoso que a assassinou foi condenado à prisão. Condenado à prisão, reconheceu o mal que fez, e o reconheceu em toda a extensão. E saindo da prisão onde foi um prisioneiro modelar, pediu licença para ser recebido pela mãe de Santa Maria Goretti e pedir perdão. Isto era a atitude de um homem que estava realmente arrependido.
A mãe de Santa Maria Goretti mandou-lhe dizer o seguinte: que lhe era muito duro recebê-lo, mas que ela, para dar prova de que perdoava, combinava com ele para que comungassem lado a lado num dia marcado, numa igreja X.
De fato, a mãe da vítima e o assassino bestial da vítima comungaram juntos lado a lado. Não se falaram. Não podia haver uma forma mais discreta de perdão, sem nada de espetacular, nada de dramático, mas também mais expressivo. Porque depois de terem recebido juntos o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo é claro que o passado estava apagado.
Esse homem mandou depois fazer ao Papa, por ocasião da canonização de Santa Maria Goretti, um oferecimento: se o Santo Padre quisesse, ele, para sua humilhação e para testemunhar que tinha agido mal, estaria disposto a assistir à canonização. O Santo Padre mandou-lhe dizer que não convinha, pois a Igreja Católica tem no mais alto grau o senso das conveniências, da finura, dos matizes (ela é a Mãe do bom senso), mas que ele se mantivesse esse dia em oração pedindo à santa mais uma vez perdão do que fizera.
Foi o que ele fez e depois foi recebido como humílimo irmão converso numa ordem franciscana.
Os senhores estão vendo um exemplo de contrição verdadeira, num mundo onde esse tipo de contrição é cada vez menos conhecido: uma cabeça que se humilha, um peito em que se bate reconhecendo que pecou: mea culpa.
Exemplo admirável para compreendermos que Santa Maria Goretti se serve para ser nossa patrona, para nos preservar na virtude da pureza, serve também para ser patrona nossa se tivermos a desgraça de nos afastarmos desse caminho, para nos reconduzir a uma verdadeira penitência em matéria de pureza. Ela não é só a padroeira dos que nunca pecaram contra a castidade, mas também é a padroeira dos que pecaram, para os reconduzir a uma verdadeira e sincera conversão.
* Se Santa Maria Goretti conseguiu até a conversão de seu assassino, podemos depositar confiança em sua intercessão
Pedir a Santa Maria Goretti que nos dê essa preservação e nos dê essa contrição é uma coisa altamente oportuna no dia de hoje. Tanto mais oportuna que se ela chegou a perdoar por essa forma sublime ao homem que a matou e ela conseguiu para um tipo tão depravado uma forma tão alta de virtude que ele chegou a se tornar um religioso, quem pode o mais, pode o menos, e podemos compreender aí quanta confiança podemos depositar em sua intercessão.
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1) Nota do conferidor: A data no microfilme (06/06/1965) deve estar errada, pois a festa de Santa Maria Goretti é em julho. Contudo, já existe um “Santo do Dia” em 06/07/1965. De maneira que também o ano neste texto deve estar errado.