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Reunião para o Grupo da Martim 1 — 3/7/1965 — sábado

Nome anterior do arquivo: 650703--Reuniao_Grupo_da_Martim_Sabado.doc

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Virtudes cardeais

A visão corrente que existe a respeito de virtude na doutrina católica, é uma visão muito fragmentária. Costuma-se dizer que uma pessoa pratica a virtude, quando a pessoa pratica os dez mandamentos da Lei de Deus, quando ela dá sinais exteriores de praticar os dez mandamentos da Lei de Deus e, quando, sobretudo ela é muito notável na prática de um desses mandamentos. Então, por causa desses sinais de externos, que são um procedimento, estão no procedimento, por causa desses sinais externos, diz-se então que a pessoa pratica a virtude. E quando a pessoa pratica a virtude durante algum tempo, se diz, de um modo autêntico, de um modo justo, que a pessoa possui a virtude, porque ele então possui o hábito daquelas virtudes. E quem possui o hábito daquela virtude, possui a virtude propriamente dita.

Esse modo de se exprimir, é um modo legítimo e que está em conformidade com o que Nosso Senhor disse no Evangelho, “Pelos frutos, vós conhecereis a árvore”. Aí está o procedimento humano, e pelo procedimento humano tomado no seu conjunto, se conhece os frutos das disposições interiores, e se conhece também a disposição interior. Então, por esses sintomas internos, se tem a idéia de que a pessoa pratica a virtude. Quer dizer, tudo isso é irrepreensível. Mas é irrepreensível sob a condição de que se compreende que esta concepção da virtude é uma concepção que procede dos sintomas e que tem o perigo de nos dar uma idéia errada de que a virtude é uma espécie de coleção de sintomas. E que se uma justaposição de virtudes várias, exista então todo o campo psicológico está coberto por essas virtudes, e que então o indivíduo é virtuoso. As virtudes estariam então umas para as outras, mais ou menos como aqueles pontos pretos do arminho de nosso escudo: enchendo a bordadura do escudo, dá uma volta nele, e dando a volta nele cobre a área psicológica toda; e então a pessoa é completamente virtuosa. Ora, a realidade psicológica, e a realidade moral, é mais alta, mais profunda, mais bonita do que isso, e era preciso não ficar nessa visão puramente externa, entrar pela visão interna da coisa, para compreender toda a realidade daquilo que se fala quando se trata de virtude.

E, nós o compreenderemos melhor, quando nós entendemos o seguinte: que a virtude é fundamentalmente una. E que todas as virtudes que tem o nome de virtude, não são senão as aplicações a determinados campos do proceder humano, quer no proceder interno das potências da alma, quer no procedimento externo, a aplicação dos vários modos de proceder humano, desta virtude que é fundamentalmente una, que é uma coisa unitária. E que é propriamente nesta unidade que consiste a virtude do homem. Nós compreenderemos melhor isto, se nós atentarmos para as virtudes cardeais.

Os senhores sabem que as virtudes cardeais são quatro: Justiça, Fortaleza, Prudência e Temperança. Nas explicações correntes se costuma dizer que as virtudes cardeais orientam as virtudes determinadas e que elas são, portanto os gonzos sobre os quais – daí vem o nome cardeal, ou cardeais, -os gonzos sobre os quais gira todo o edifício das virtudes e que portanto, essas virtudes cardeais previdem a ordem moral. Essa expressão é boa; eu até acho que era efeitos catequéticos ela não só diz adequadamente a coisa, mas ela será talvez a única coisa a dizer para um ensino corrente da doutrina católica, porque a realidade sendo muito complexa e além disso, eu acho que é normal que não se possa tocar em doutrinas para cada um. Mas de fato a coisa é diferente. Cada uma das virtudes particulares, não é senão a aplicação de uma ou das várias virtudes cardeais num determinado campo. De maneira tal que quem possui inteiramente as virtudes cardeais, possui as outras virtudes implicitamente. Porque não é só dizer que as virtudes cardeais são outras virtudes. É por exemplo, em virtude de aplicação, em conseqüência da aplicação reta das virtudes cardeais, ao uso que o homem faz de sua palavra, que o homem não mente. Quer dizer, portanto a virtude da veracidade não é senão o conjunto de virtudes cardeais, aplicada ao campo do uso da palavra.

Vamos dizer, por exemplo, o não matar, é também um proceder com justiça, com temperança, em face de uma injuria que a gente recebe de alguém. Então, a gente não mata essa pessoa por causa da injuria, porque essas virtudes freiam. Então, assim conforme o campo de cada um dos mandamentos, cada um dos mandamentos preceitua agir de acordo com um ou com umas das virtudes cardeais, conforme a natureza a matéria que se trata, a gente acostuma com uma das virtudes cardeais, naquela matéria de que cogita o mandamento. Então, honrar pai e mãe, não pecar contra a castidade, e todos os outros, não são senão aplicações de uma ou algumas das virtudes cardeais. Mas na substância, a virtude é constituída pelas virtudes cardeais. E é por isso que se compreende que na pergunta que o papa faz na cerimônia de canonização, aliás, quando vão levar ele, a comissão vai levar a ele, a comissão incumbida do processo de canonização, vai levar a ele o processo concluído, ele pergunta: se consta do processo que o servo de Deus tal, foi perfeito na prática das três virtudes teologais, pede se ele era na caridade, e das quatro virtudes cardeais. E exatamente quando foi perfeito na pratica dessas virtudes, então, se compreende que a pessoa foi perfeita em tudo, porque as virtudes cardeais compreendem todas as outras virtudes.

Agora, isso do ponto de vista das virtudes cardeais, nos conduz então a essa posição, que essas virtudes cardeais são ela a substância da virtude, elas sendo quatro, devem por sua vez, ter uma unidade. E que deve haver outra virtude que comanda essas virtudes cardeais e que é como um cone do qual essas virtudes por sua vez procedem. Quer dizer que ela está para as virtudes cardeais como as virtudes cardeais estão para as outras virtudes.

Os senhores viram certos chafarizes antigos como eram. Eram composto de um esguicho e depois tinha uma taça, por exemplo do Largo de São Pedro, de uma taça, a água do esguicho cai na taça e transborda. Da taça, transbordando, caiam propriamente sobre como um reservatório, uma piscina, de onde então a água escoria. Então, nos teríamos as virtudes gerais, depois as virtudes particulares, depois nós teríamos as virtudes cardeais, e depois uma virtude da qual todas as demais virtudes promanariam e que iriam se espalhando pelos vários setores até constituir todo o edifício das virtudes.

Então, essa virtude o que seria o seria a virtude da sabedoria. Quer dizer, e enquanto a virtude da sabedoria, virtude intelectual, leva o homem a procurar em todas as coisas a verdade mais profunda e o bem último. E é enquanto a vontade humana adere à sabedoria, então a sabedoria é inteiramente possuída pela vontade humana, é enquanto tal que depois, o homem por isso, a vontade humana por isso se difunde pelas quatro virtudes cardeais. E depois dessas quatro virtudes cardeais, se multiplica então pelas virtudes mais numerosas. Mas, há uma virtude de cone, de centro, que é esta de querer amar a verdade última, e querer amar o bem supremo e o amor efetivo disso, num ato primeiro a vontade que adere a isto, e que afinal de contas, acaba sendo a mesma coisa que o amor de Deus, então, é enquanto tal, que essas virtudes depois, se multiplica, se difunde, etc, por todos os setores do procedimento humano, formando a monarquia da moral, que é exatamente como um reino no qual essa virtude rainha, domina e comanda tudo.

Então, nós compreendemos bem porque razão, é que na formação que se procura dar aqui no grupo, nós insistimos sobre uma verdade pouco posta em relevo, nas outras escolas. E a verdade é essa: de que nós queremos ter pessoas de uma virtude cabal, de uma virtude completa, essas pessoas devem ser formadas na compreensão de que essas virtudes particulares são uma só. E no desejo de tomar como estimulo das virtudes particulares, esta virtude primeira. E de orientar toda a alma para essa virtude primeira, e que fazer da construção desta virtude primeira a preocupação especial da virtude, digo, a preocupação especial da vida espiritual.

Agora, aqui a gente compreende também outra coisa, que é pouco compreendida pelo geral das pessoas: é o estado do temperamento, o estado das disposições temperamentais e dos feitios pessoais. Quando uma pessoa tem essa virtude bem construída, ela é tal, na pessoa, ou essa pessoa é tal nessa virtude, que sua alma tem uma espécie de ponto normal, comum, de serenidade e de equilíbrio. E um equilíbrio temperamental, que é muito difícil de realizar, com certos temperamentos, mas para os quais a virtude tende e que à maneira de hábito ela caba adquirindo, é uma virtude temperamental pela qual a alma se encontra num estado que, com facilidade, pode determinar o exercício de varias paixões da alma. De maneira que o indivíduo pode se tornar ou irascível, ou, enfim das várias outras paixões, que ele pode exercer, mas sem se deixar arrastar por elas, absorver por elas e quase que de habitar nelas, mas ele habita numa zona da alma que é mais alta do que isto, e da onde ele desce para essas várias paixões e para esses vários estados.

[faltam palavras]… É uma disposição suprema de espírito, que era como que distensão equilibrada e harmônica, que não é a disposição de um preguiçoso, mas que uma disponibilidade para, a cada momento conforme as circunstâncias, proceder e ter a possibilidade temperamental pelo menos proceder, de acordo com o que fosse necessário nas circunstâncias. De maneira o poder tomar-se a si próprio, e fazer tudo aquilo que era preciso fazer nas tão variadas manifestações de personalidade que o exercício do poder real compreende. E então, o mesmo homem, deveria tirar nessa virtude, a capacidade das posições extremas e antitéticas. Quer dizer, a possibilidade ao mesmo tempo zangar-se enormemente, mas de ser enormemente paterno, de ser enormemente bondoso, de ser enormemente misericordioso, enormemente afável. E nessa oposição serenidade-afabilidade, não se deveria dizer o seguinte: como ele tem facilidade de ser severo, ele tem dificuldade de ser afável. Na alta virtude, isto não é assim. Se ele possui verdadeiramente a virtude, ele tem a mesma facilidade primeira do temperamento, ao menos a mesma capacidade, de ser severo e de ser afável, porque a virtude inteira em que ele se encontra, é uma espécie de Pindaro de onde partem convergentes as virtudes opostas da severidade e da afabilidade.

Assim também. Em sentido oposto, a justiça e a misericórdia. Ele será ao mesmo tempo muito justo, mas ele será muito misericordioso. E a fórmula comum seria: apesar de justiceiro, ele era misericordioso. Ou então: apesar de tão misericordioso, ele sabia praticar a justiça. Essa fórmula não é falsa, mas ela não dá a inteira verdade. A inteira verdade é o contrario: porque justiceiro por razoes sobrenaturais, porque justiceiro em virtude do amor à Sabedoria, então por causa disto, ele era também muito misericordioso; sempre que ele sabia levar uma virtude ate um determinado extremo, ele sabia levar harmonicamente até o extremo oposto, e a virtude oposta. Isto por que? Por que o que está no alto, contém as duas vertentes. E igualmente conduz as duas vertentes. De maneira que a alma verdadeiramente santa, se encontra “degagee”, se encontra livre, se encontra com facilidade de movimentação para praticar exatamente as virtudes contrárias. E isso nós vemos na vida quotidiana dos grandes homens, que não chegaram a ser santos.

O jogo das virtudes e o extremo de um lado e o extremo de outro lado, na mesma virtude, provam a força da virtude. E a força da virtude dá exatamente ao homem virtuoso a possibilidade de acordo com as circunstâncias, e indiretamente portanto nos desígnios da Providência, se deslocar de um extremo para outro no campo da virtude, com toda a naturalidade. Praticando portanto de um modo exímio, precisamente porque algo que está superior a estas oposições, algo que esta superior e que as possui. Ele possui esse estado de alma, em que todas as virtudes estão contidas de um modo supereminente, e em que todas essas disposições temperamentais estão incluídas como na sua raiz, ou como na sua semente. E em que portanto, tudo aquilo, exprime um algo de estável, e dinâmico, de forte e de suave, de justo e de misericordioso, etc, que é um ponto de equilibro de tudo. E nesse sentido um ponto de repouso até de um movimento de inércia, algo de muito elevado. E que é exatamente, a habitação da alma, na zona mais alta e mais superior da virtude.

Nas catedrais da Idade Media, todos os estados de alma do homem estão expressos. Ou se preferirem, todas as virtudes estão expressas. As catedrais tem aspectos justos, tem aspectos misericordiosos, tem aspectos afáveis e tem aspectos enérgicos. Elas nos falam ora com uma meiguice extraordinária, quase com respeito para com o homem que entra dentro delas, ora, pelo contrario elas se apresentam majestosas de tal maneira que quase intimidam o homem, que esta embaixo delas. Elas contem tudo isso. Mas elas contêm isso não maneira de coisas díspares, mas elas contém isso numa espécie de suma total, que é a catadula da catedral, catadula esta que por supereminência, contém todo o resto, e que daquela calma, forte, serena, tranqüila, séria sem ser carrancuda, e que transcende a tudo isso, e que faz com que a gente fique durante uma porção de tempo olhando uma catedral.

Isto é propriamente o símbolo da virtude considerada no seu píncaro mais alto, enquanto nós tomamos em consideração as virtudes sobrenaturais da Fé, da Esperança e da Caridade,… [faltam palavras]…

Por que é essa virtude assim? Ele exige, digo, exige da pessoa, que o temperamento da pessoa, seja exatamente assim? Pensar isso, seria supor que a virtude acarreta a eliminação do pecado original. Maus pendores, pendores com desregramento em qualquer sentido, todo homem tem até o fim da vida. E evidentemente não é isso que se quer do homem, seria querer dele um absurdo.O que se quer é uma coisa diferente: E que o homem tenta se colocar nessa posição e que tome o habito de refrear com o auxílio da graça, por que sem o auxílio da graça, isso não vai, de refrear o seu temperamento, de maneira tal que quando ele tenha que tomar uma dessas posições extremas, ele nunca perde o equilíbrio e possa passar facilmente para outra, passe efetivamente para outra, por estar de posse de uma paz, de uma… [faltam palavras]… e a meu ver, o verdadeiro sentido de paz, e este, de uma união com Deus, de uma superior estabilidade, que exige durante a vida inteira um domínio de uma parte de nosso temperamento, porque eu não acho que há nenhum homem cujo temperamento é naturalmente assim, é preciso naturalmente o tempo inteiro ir contra algo, mas em que se estabelece uma segurança e em que se estabelece, uma certa estabilidade no homem, naquela posição que ele realmente quer conhecer.

Eu acho que o modelo perfeito disso, é Nosso Senhor Jesus Cristo. Eu acho… [faltam palavras]… É claro que é. Mas o que eu quero dizer, é que analisando Nosso Senhor Jesus Cristo no Evangelho, a gente vê nele o modelo perfeito disso. Eu tenho má memória, mas se não me engano foi Ele desceu do Tabor, que era tal Sua majestade, era tal a majestade que Ele apresentava, que o povo dava gritos de medo, Ele era o mesmo que outras vezes. E que encantava o povo com sua suavidade d’Ele. E que encantou todos os séculos com a suavidade d’Ele.

Quando Ele nos fala de justiça, Ele parece resplandecer tanto de justiça, que a gente O acha todo cheio de justiça. Por exemplo, a resposta d’Ele a respeito da moeda: “Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. No fundo, é um princípio de justiça que esta exposto aí. Mas é um princípio exposto por uma formulação tão clara tão superior, a beleza e a força da justiça pesam de tal maneira em Nosso Senhor Jesus Cristo, enquanto Ele expõe o princípio, que a gente tem a impressão de que Ele é feito de justiça.

Mas depois, quando Ele por exemplo recebe Madalena pecadora, e que Ele faz com os outros pecadores toda forma de misericórdia. Mas a gente tem impressão de que Ele é todo feito de misericórdia. Mas a gente só compreende toda a santidade Dele, quando a gente toma em consideração que Ele é feito de cada uma dessas coisas, porque Ele é feito de síntese de todas elas. Ele é, enquanto Deus própria virtude uma de que todas essas coisas são manifestações. E então a gente compreende algo que sem isso Nosso Senhor fica assim, vamos dizer que a fulguração é tão grande, que o nosso espírito não consegue pôr tudo inteiramente em ordem. Porque ele é exatamente essa espécie de extremo, muito radical, com ele passa para os mais variados aspectos de mentalidade, os mais variados aspectos temperamentais. E que entretanto Ele, sempre perfeito, portanto, sempre extremo em todas as posições em que ele se coloca. Ele nunca cai naquilo que se poderia chamar o defeito do extremismo, porque Ele num extremo esta todo inteiro no outro. Por que? Porque Ele está em cima e é de cima que ele pratica a virtude, que ele define os dogmas, ele define a vida espiritual, etc. quer dizer, é assim que se deve compreendê-lo.

E é assim que a virtude cristã é verdadeiramente admirável a beleza dela está entrevista logicamente assim, em ser admirada assim, e é assim que homem católico, o varão católico, nos aparece inteiramente diante do olhar. E é assim que não só ele é razoável, mas se compreende a verdadeira superioridade dele. E,eu tenho por mim, que esse longo processo de decadência que foi da Idade Media até o estabelecimento da heresia branca, exatamente foram desbotadas dos ensinamentos da Igreja, as verdades superiores, que fariam com que a Igreja pudesse ser muito admirada. E na moral católica, essa foi uma das verdades, que foi também não negada, mas que passou assim por uma espécie de campo de névoa indefinida, pairando sobre um lamento definido. E que fez com que perdendo isso de vista, a própria moral cristã começasse a ser admirada, sob apenas alguns de seus aspectos admirar a caridade, admirar por exemplo a sinceridade do cristão, admirar enfim, aspectos fragmentários da virtude cristã. E esses aspectos fragmentários, por admiráveis que sejam, não arrancam do homem uma admiração inteira, porque é uma admiração inteira só pode ser de uma virtude inteira toma o homem inteiro. Exatamente isso, a meu ver, faltou, foi-se desbotando, foi-se diluindo. Até chegar ao miserável passo da virtude heresia branca… [faltam palavras]… E que é essa: é misericordioso, portanto, não é justo. Se for falar de justiça, faz mal. Então, não se pode falar do inferno, porque as almas deixam de amar a Deus, quando lhe fala de inferno, etc. todo o resto da deserição da heresia branca. E que ela perdeu essa visão de conjunto superior, que exatamente a tornava amável e digna de amor, a virtude católica.

Nos deveríamos dizer uma palavra a respeito da Fé, da Esperança e da Caridade. A Fé, a Esperança e a Caridade são das virtudes teologais. Elas dão nisso: que o homem recebe a virtude da Fé, e quando ele de sua adesão de alma à Fé, ele, por dar sua adesão de alma a Fé, ele toma duas atitudes corolários, que são conseqüência lógica dessa adesão que ele mesmo deu, quer dizer, se ele crê, ele espera, evidentemente. Se ele crê, ele ama, evidentemente também é. De maneira que a virtude da Fé, traz como corolário a virtude da Esperança e da Caridade. Elas são virtudes autônomas, mas elas são o corolário da virtude da Fé, que é a conseqüência de todas as virtudes.

Agora, o que faz o homem? A virtude da Fé, é uma virtude intelectual, mas enquanto virtude intelectual, ela tem elemento volitivo. Esse elemento volitivo contido na virtude da Fé, que relação ele tem com as virtudes cardeais? Se o homem age retamente em face da Revelação, em face da Fé que lhe foi infundido,(?), ele teve uma graça para receber, então, se ele age retamente em face desse ensino que ele recebe e dessa graça que ele tem para receber o ensino, ele aceita. E esse reto agir, é algo que entra também num agir com justiça, com prudência, com fortaleza e com temperança.

Quer dizer, o primeiro movimento da Fé, já supõe uma orientação assim da verdade. De maneira que se é verdade que essas virtudes nascem da Fé, porque todas essas virtudes nascem da Fé, a gente deve dizer que logo o indivíduo recebe a Fé, no ato de vontade, já entra qualquer coisa disso. E aí nós temos então, se nós formos olhar tudo ate o fundo, nos temos essa estrutura feita assim: a virtude da Fé, a virtude da esperança, a virtude da Caridade. Agora, na virtude da Caridade, que é a posição amorosa diante da Fé, da virtude da Esperança que é o estimulo que para a virtude nós temos, esperando os bens eternos, nasce a possibilidade de aplicar as quatro virtudes cardeais, as quatro seriam absurdas, impraticáveis, se esse edifício teológico fosse desfeito, nasce então na alma desse católico, todas as outras virtudes. E aqui nós temos então a Fé presidindo tudo; o amor de Deus, a Esperança e então a movimentação das virtudes cardeais nesta direção, da Sabedoria…[faltam palavras]… , e que faz a movimentação da alma no seu existir.

Então, toda essa movimentação, imensamente variável, imensamente diversificada, de acordo com as circunstâncias, e ao longo do qual o homem pratica então todas as virtudes.

Isto nos levaria às mais variadas considerações. Mas, a consideração que eu gostaria de deixar aqui, é a noção de equilíbrio. Porque nisso há portanto um supremo equilíbrio, desde que à palavra equilíbrio não se dê num sentido poca. Não se trata aqui de fazer medianamente tudo, para evitar os excessos. Isto é uma noção inferior de tudo. Mas é contrario: trata-se de fazer tudo perfeitamente, certo de que todas as perfeições são irmãs entre si. E de que todos os aparentes excessos, não são excessos, são extremos, nas várias linhas, facilitam o extremo oposto. E que é nisto que um equilíbrio inteiramente superior, se afirma e se define. Esse aspecto não é o único, pode não ser o aspecto dominante, mas me parece que é um aspecto que se considera menos freqüentemente e que portanto para o qual insisto mais.

Isto é uma espécie de prisma pelo qual se podem ler as vidas dos santos. Quando a gente procura na vida dos santos, apesar de todos os extremos, que cada um tem num certo sentido, e que representa a luz primordial dele, a gente procura a presença do outro aspecto também. E quando a gente sobretudo compreende que o mais bonito da coisa, como o extremo tal a que chegou São Fulano, é irmão do extremo oposto a que chegou São Ciclano. E que todos os santos são irmãos e que eles todos são sumamente homogêneos não como se costuma dizer, apesar do que eles têm de heterogêneo, mas que eles são homogêneos, naquilo que eles tem de heterogêneo. Que a heterogeneidade deles, é irmã, que nunca se desmente uma à outra, mas que ao contrário convivem harmoniosamente se corroboram e se deliciam em ser diferente, se deliciam em ser diferentes, hem! E que é desse deliciar em se sentir diferentes, que eles amem a Deus, e de modo supereminente, é tudo isso mais do que cada um deles.

Quer dizer, é essa espécie… [ilegível]…, chegando quase ao absurdo, mas sempre muito finamente equilibrada, nisto está uma espécie de unidade de variedade no aspecto moral, e que constitui uma verdadeira maravilha. E que me parece que é um aspecto muito interessante para a gente considerar dentro disso.

Eu creio que esta é uma… [ilegível]… , pelos quais a Providência quis que Santa Terezinha do Menino Jesus, florescesse na família…[ilegível]… de Santa Teresa a grande. Quem lê a vida de Santa Terezinha do Menino Jesus, tem a impressão, e a impressão tem fundamento “in re”, de que a via de Santa Terezinha, é o oposto da via de Santa Teresa de Jesus. E é o oposto. Na medida em que por exemplo, a caridade é o oposto da justiça. Mas o que quer dizer aqui oposto? Não é um contrário que se choca, mas são dois caminhos numa mesma linha que se reduzem a uma síntese maravilhosa. E em que exatamente, inteiramente coerente e incompreensível que na via da grande Santa Tereza, nessa via, nesta família espiritual, apareça a pequena via de Santa Terezinha do Menino Jesus.

Quer dizer, a doutrina católica, estaria reduzida a uma espécie de regime prussiano, se não fosse isso. Isso aqui exatamente é uma variedade prodigiosa, que exprime a prodigiosa unidade de tudo isso.

Dentro do grupo, a gente poderia considerar isso também. No nosso grupo cabem, nesta linha, as diversidades mais assombrosas. E deve caber. Nesse sentido, a qualquer coisa nesse grupo, que também é mais uma vez diferente de uma ordem religiosa. Porque numa ordem religiosa, há essa variedade, como há no Carmo por exemplo, Santa Tereza a Grande, e Santa Terezinha, mas eu não sei porque, mas eu tenho impressão que em nosso grupo o jogo ainda é muito maior.

A Providência conduziu para o grupo, almas tão diferentes chamadas a realizar tipos de santidade tão diferentes, e portanto, por vias próprias. E, o não compreender isso dentro do grupo, é uma falta de finura, falta de sutileza, por não perceber exatamente um dos aspectos mais ricos e mais belos do grupo, que é este forte “degage” nas várias direções. E sem receio da perda da unidade, porque nada do que é bom, entra em conflito de unidade, com aquilo que o grupo procura inculcar mais, e que é exatamente esse ponto central, esse ponto de transcendência. De maneira tal que aqui a gente compreende a livre movimentação do grupo, que por alguns aspectos poderia dar por exemplo parecer, para uma pessoa inadvertida, quase caótica às vezes. Mas que, assim, toma a sua verdadeira fisionomia. E que não entra nem um pouco em caos com, aliás, ou em choque com a institucionalização do grupo por exemplo, já é outra coisa, que é um dos aspectos e também esse tem contraforte, e assim por diante.

Quer dizer, aqui nós temos uma espécie de teoria do grupo. Nos podemos tirar disso também uma teoria do universo. Como é essa teoria do universo? E feita à maneira da Igreja, que é toda feita de santos assim. E à maneira do universo que é feito todo de aspectos assim. Em que a gente compreende bem nesta visualização primeira, de uma verdade arquitetônica suprema, sapiencial, um aspecto sapiencial, que domina todo o universo, uma atitude de alma, de amor fundamental a este amor sapiencial, e depois então as várias aplicações, segundo as diferenças de diferentes feitios, de temperamentos, de circunstâncias, etc, chegando quase ao contraditório. Mas, que não chega ao contraditório. Nunca, por mais arrojadamente que pareça ser contraditório. E que a gente tomando uma afirmação legítima e a confrontando com a outra, encontra sempre um ponto de encontro e uma verdade inteiramente superior.

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1 Estava como “Reunião de sábado à tarde”. Nos Sábados à tarde eram realizadas reuniões para os membros do Grupo da Rua Martim Francisco, na Sala dos fundos da mesma sede; e, no domingo, para os membros da Pará, na Sede do Reino de Maria, da rua Pará.