Santo
do Dia – 2/7/1965 – p.
Santo do Dia — 2/7/1965 — 6ª-feira
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Na Visitação de Nossa Senhora a Providência manifesta amor à genealogia; a Revolução debica do apreço genealógico; Deus pune com severidade seus amados; concepções de felicidade terrena.
* Visitação de Nossa Senhora e importância da genealogia * Família moderna, parentesco reduzido a graus mínimos * Consangüinidade: maior vínculo ontológico * Razão da severidade na punição de Zacarias * Como são punidos os santos e a glória sucessiva * Mistério das coisas altas * Felicidade na terra * Alegria de consertar um carro velho… * Palácio do Marajá. Duas concepções de prazer * A superior alegria do religioso * Alegria e sofrimento do verdadeiro católico
Visitação de Nossa Senhora
Nós temos hoje a festa da Visitação de Nossa Senhora e para amanhã eu creio que não há festa definida. Ah! não. É de São Leão Papa e Confessor, e Santo Irineu, Bispo e Confessor.
* Visitação de Nossa Senhora e importância da genealogia
Vamos fazer algum comentário, embora rápido, porque a hora já está muito adiantada, a respeito da Visitação de Nossa Senhora.
Nós, já no ano passado, comentamos, creio eu, na festa da Visitação de Nossa Senhora, o Magnificat que foi a canção de Nossa Senhora quando ela foi saudada por Santa Isabel. Há um outro conjunto de circunstâncias que não são tão centrais na visitação, mas que importam muito e que podem ser comentadas na festa de hoje.
Em primeiro lugar, uma coisa curiosa é a seguinte: é a importância do aspecto genealógico dessa festa.
Como os senhores [sabem], Nosso Senhor, de acordo com as profecias, tinha que nascer da casa de David. E São João Batista também era da casa de David. Mas, a gente vê aí a importância que a Providência dava a que Nosso Senhor fosse da casa de David e o precursor de Nosso Senhor também fosse da casa de David.
E depois a importância do parentesco, embora remoto, entre Nossa Senhora e Santa Isabel, como era um parentesco que era tomado em linha de conta, a ponto tal, que não só as duas eram; uma, a Mãe do Messias, e outra, a mãe do Precursor, mas o fato de Santa Isabel estar esperando um filho, ser uma razão alegada pela Providência para Nossa Senhora ir honrá-la com a sua visita sobremaneira honrosa. Dito que era por ser prima. “Isabel tua prima concebeu” etc., quer dizer, o parentesco como representa algo de definido e de ativo dentro desse lance, por uma porção de aspectos.
* Família moderna, parentesco reduzido a graus mínimos
O que mostra bem como a organização da família moderna, que reduz os parentescos a seus graus mais elementares, mais mínimos, é uma organização errada. E como pelo contrário, o sentido da família, é de uma árvore frondosa que, quanto mais vivaz é a família, o senso de família, mais conta os parentescos. E mais toma em consideração os vínculos do sangue.
É uma coisa curiosa, mas quando as pessoas hoje falam de parentesco, de genealogia etc., gente que conta muito longe os parentescos, dá a impressão do indivíduo que prolonga uma lengalenga inútil. “Você está contando que é primo daquele outro lá, mas que importância tem isto? É melhor esquecer isto! Isto é uma nota que não tem importância nenhuma! Não tem efeito nenhum, na ordem prática das coisas, porque é que você arrasta esta repercussão cacete, insípida, e ainda vai contá-la para os outros!?”
* Consangüinidade: maior vínculo ontológico
Não! A consangüinidade representa um vínculo ontológico entre as pessoas, maior da consangüinidade dos parentescos, do que a que existe com os outros. E numa civilização católica, o verdadeiro é quanto mais pujante é a família, tanto mais ela se estenda, e tanto mais ela tenha consciência dos seus vínculos remotos; como quanto mais pujante é a arvore, tanto mais ela deita galhos frondosos. E isto nós vemos em toda a organização patriarcal antiga baseada muito na família, mas nós vemos sancionado e tomado em linha de consideração pela Providência, na própria economia da Redenção.
* Razão da severidade na punição de Zacarias
Outra coisa curiosa é a severidade com que a Providência pune o pai de São João Batista, Zacarias. É evidente que se trata de uma alma eleita. A honra que ele teve de ser casado com Santa Isabel. O fato de ele ser, afinal de contas, o pai do precursor, mostra que ele era um homem, um sacerdote muito amado de Deus. Entretanto o que é que acontece? Este homem tem um momento de dúvida, e fica mudo. E essa mudez só se dissipa diante da Visitação de Nossa Senhora.
Como explicar que outros cometem pecados muito maiores e não têm esse castigo tão forte? Entretanto esta alma eleita é castigada tão fortemente. É uma coisa que se explica um pouco por aí: os senhores imaginem um pai que tem dois filhos. Um filho é cor unum et anima una com ele. Sentem do mesmo modo, pensam do mesmo modo, o filho é propriamente o alter ego do pai. O outro é um filho “poca”. É um Esaú. Um sujeito que liga para umas coisas secundárias, não entende bem o pai, meio rosnento etc. O pai para esse segundo filho, perdoa isto, perdoa aquilo, perdoa aquilo outro. Para o primeiro filho, ele cumula de predileção e de bênçãos. Mas uma ofensa feita por esse primeiro filho o atinge muito mais do que uma feita pelo segundo. Exatamente porque ele ama mais. Exatamente porque daquele ele não esperava aquilo.
De maneira que há uma espécie de susceptibilidade, ou de sensibilidade maior, desse pai, com este filho, porque é bom. Então, ao mesmo tempo, ele pune mais, mas ele faz da punição uma condição maior de misericórdia. Então são as tais punições cheias de misericórdia, que machucam muito, e que fazem muito bem. E que salvam muito. E que indicam uma proximidade maior da Providência daquela alma, do que de outras almas que são tocadas assim de modo meio indefinido, de maneira tal que Deus nem pune tanto, nem premia tanto e fica na indefinição de uma providência geral.
* Como são punidos os santos e a glória sucessiva
Os senhores vêem isto freqüentemente na vida dos santos, com numerosos dentre eles. Algumas infidelidades muito punidas. Às vezes é até de espantar. São Bernardo, o grande São Bernardo de Claraval, sofreu durante a vida inteira de uma moléstia de estômago extremamente incômoda. Agora, por que? Ele explicava, ele dava a razão. É que ele na mocidade dele — vejam a razão em… e ele achava que era punição —, ele tinha jejuado de um modo intemperante. Nós teríamos mais facilidade em compreender que é por ser glutão, não é? Comeu demais, pesou sobre o estomago, fez mal para a saúde, o resto da vida não pode comer bem. Está bom. Está entendido, não é não! Por ter tido, na virtude da penitência, uma certa intemperança, que é uma impenitência; ele teve essa punição até o fim da vida.
Agora, essa punição, quantas graça trouxe para ele? Quantas fontes de bênçãos foi para ele? Isto aqui é uma coisa indizível. E que mostra bem como a Providência faz entrelaçar de um modo que nós nem podemos compreender bem. Porque é meio incompreensível. Há qualquer coisa [de] incompreensível na contextura da coisa [que] faz entrelaçar a punição e a glória na vida dos bem amados.
O resultado é que no momento em que ele soltou a língua, ficou testado o fato miraculoso que se passava ali. A cura dele deu uma glória de milagre aos acontecimentos que ali transcorriam. E com isto, a cura dele foi um fator para a glória de Deus, e foi uma espécie de cooperação que ele deu no patentear o caráter maravilhoso daqueles acontecimentos.
* Mistério das coisas altas
Os senhores estão vendo como isto se entrelaça, portanto, e como há mistérios dentro disto, indecifráveis na terra. Nós podemos compreender [o] princípio, mas quanto às aplicações, elas permanecem inteiramente indecifráveis muitas vezes. Mas, por uma coisa de economia da Providência também, em geral as coisas mais altas são as mais misteriosas, e por isto, reciprocamente, as mais misteriosas são as mais altas. E por causa disso, nos casos onde… muito misteriosos, há em geral um princípio mais alto do que nos outros casos. Há isto.
Os senhores têm aí, uma consideração colateral.
* Felicidade na terra
Bem, outra coisa que me parece importante aqui é o estremecer de gozo de São João Batista. Santa Isabel disse isso, quando ouviu a Nossa Senhora, a voz de Nossa Senhora. Esse estremecer de gozo nos leva também a uma reflexão. Nós estamos numa época em que existe a mania da felicidade mais do que nunca, da felicidade terrena. Todo o mundo se preocupa muitíssimo mais com ser feliz nesta terra, do que ser feliz no Céu. E as pessoas que procuram a felicidade nesta terra, vão num engodo do demônio. Porque não compreendem qual é a única forma de felicidade possível nesta terra.
A única forma de felicidade possível nesta terra é aquela que é gozada pela alma que é de tal maneira reta, que ela é capaz dos prazeres ocasionados pela contemplação da verdade e pelo conhecimento da santidade e da virtude. E com isto estremece de gáudio inteiramente. São João Batista já no ventre materno deu o exemplo disto. Ele ouviu Nossa Senhora, ele estremeceu de gáudio.
Os grandes estremecimentos de gáudio na terra só são das almas que verdadeiramente compreendem que na terra só valem os prazeres que são prenúncios dos prazeres do Céu. E quais são esses prazeres? Quando a pessoa medita, quando a pessoa toma conhecimento da santidade da Igreja, da divina beleza da Igreja, da divina beleza da vida dos santos, que a Igreja produziu, da divina beleza tão misteriosa da história da Igreja, inclusive nas suas humilhações atuais.
Quando a pessoa considera, além da Igreja, o Universo e toda a ordem do Universo como é feita, em que medida que ela simboliza verdadeiramente a Deus, etc., a pessoa é capaz de alegrias que estão completamente acima das alegrias da terra.
* Alegria de consertar um carro velho…
Alegrias, por exemplo, de um rapaz muito rico, que eu conheço, cuja alegria principal é ter uma grande oficina mecânica, em que ele [lhe?] absorveu milhares e milhares de contos, e em que ele fica martelando e torcendo e arranjando, e suando, não é? Afinal ele consegue consertar um automóvel velho. Vende por uma quinquilharia qualquer e compra outro automóvel velho para consertar. É a alegria da vida dele…
Pior ainda quando são “fassuras”, não é? Mas o que são essas alegrias todas? Isso não é nada. Os senhores dirão: “Não! o gostoso é bebericar um conhaque gostoso”. Há dois jeitos: quem bebe conhaque com a língua não pode imaginar quanto é mais gostoso beber conhaque com a cabeça. É, mas é verdade!
* Palácio do Marajá. Duas concepções de prazer
É um pouquinho como quem olha para um palácio, eu ouvi contar, eu li, vi a fotografia uma vez do palácio de Marajá na Índia, nos bordos de um lago. Um palácio de mármore branco com o teto todo de cobre e refletindo-se no lago, na hora de bater o sol, aquelas flores todas, aquela coisa deslumbrante.
Bem, há um jeito pelo qual o norte americano olha para aquilo, não é? “Ih! Que branco…! Que dourado…! Que água…!” Conclusão: “Nadarei nessa água.” Ele toma um banho, não é? E acabou. E está o prazer dele feito.
Agora, há outro que é o prazer do artista, que sabe definir para sua cabeça, não só para os seus olhos, o que o palácio tem de maravilhoso. Esse prazer é muito maior do que o do banho do norte americano, evidentemente, que sai de lá, se esfrega, põe uma chinela ordinária qualquer.
Bem, o artista é muito maior.
* A superior alegria do religioso
Pois bem, o homem religioso está mais acima do artista do que o artista está acima do americano. Por que? Porque o homem religioso vê nisso tudo o símbolo de uma outra vida, de uma outra ordem do ser, de uma outra realidade, de um paraíso, inclusive o paraíso material, que existe para além da realidade desta terra, o paraíso terreno e depois, fora da terra, o paraíso celeste, e que todas essas coisas existem de um modo inimaginável belo do qual um certo vislumbre, apesar de tudo, daí se pode tirar. E então, daí vem uma alegria que faz estremecer de gáudio a alma do homem.
Agora, de todo o Universo, o compêndio é Nossa Senhora. Nossa Senhora… [faltam palavras] …o que mereceria… [falta palavra] …muito oportuno quase uma conferência para provar este fato.
* Alegria e sofrimento do verdadeiro católico
Ninguém sofre tanto quanto o verdadeiro católico. Essa é uma grande verdade. Verdade incomparavelmente maior é que ninguém tem tanta alegria quanto o verdadeiro católico. Que sofre tudo quanto se pode sofrer, mas cuja alegria é maior do que os seus próprios sofrimentos. O aprofundar essas grandes alegrias na história dos santos, de Nosso Senhor, de Nossa Senhora, da Igreja, seria talvez o caso, seria talvez um ângulo para isto ser abordado globalmente ao longo dos Santos do Dia.
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