Santo do Dia (Rua Pará) – 1/7/1965 – 5ª feira [SD 026] – p. 5 de 5

Santo do Dia (Rua Pará) — 1/7/1965 — 5ª feira [SD 026]

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O sangue vertido, pelo fato de estar fora do corpo fala de luta, fala de crime * O sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo saiu de onde nunca deveria ter saído, por uma série de atos deicidas: flagelação, coroação, transudação — Até o sangue que ao fim Lhe restava, foi vertido pelo golpe da lança de Longino * A misericórdia de Deus quis que esse sangue fosse derramado, e derramado numa abundância inaudita, sem reserva de uma só gota, ainda que uma bastasse para nos salvar * Ninguém pode ser mais amigo de cada um de nós do que aquele que dá a vida por nós, e Deus ao dar o Seu sangue ia morrendo, pois cada gota de sangue que caía era como que uma pequena morte * Nosso Senhor não quis que Nossa Senhora vertesse sequer uma gota de seu sangue, mas enquanto Ele vertia sangue, Ela vertia lágrimas, e pode-se dizer que as lágrimas são o sangue da alma * Na Sagrada Eucaristia recebemos o mesmo sangue que foi por nós derramado nas ruas, nas praças, no pretório de Pilatos e no alto do Calvário

* O sangue vertido, pelo fato de estar fora do corpo fala de luta, fala de crime

Hoje é festa do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Havia um pedido para que eu tratasse desse assunto. Realmente, a festa está em nosso calendário, e eu trataria do assunto realmente.

Começa hoje também o tríduo pela beatificação de D. Vital, mas a respeito dele pretendo falar em outro dia do tríduo. Falaremos hoje sobre o Preciosíssimo Sangue de Cristo.

Confesso que das festas com que se honra Nosso Senhor Jesus Cristo, talvez nenhuma me diga tanto ao espírito e me impressione tanto, ou tão profundamente, quanto a festa do Preciosíssimo Sangue. É claro que tais coisas são individuais e dependem do modo da graça tocar cada pessoa, mas concretamente comigo isso é assim. Esta festa me impressiona profundamente e tenho uma propensão pessoal muito grande para a devoção ao Precioso Sangue.

A razão disso está no que segue.

Devemos considerar bem o que é o sangue e o que significa o sangue efundido, para compreendermos bem o que é a efusão do Precioso Sangue de Cristo.

Todos sabemos que o sangue faz parte do nosso organismo e que é um elemento, uma parte de nossa personalidade, ou melhor, de nossa pessoa. Portanto, deve-se ao Sangue de Cristo toda a adoração que se deve ao próprio Cristo.

O sangue é uma parte de nossa pessoa, está contido em nosso organismo e é uma condição natural sua o estar dentro de nosso organismo. De maneira que toda efusão de sangue, tudo aquilo pelo qual o sangue sai de nosso organismo apresenta um caráter catastrófico.

Por exemplo, são numerosas as doenças que se anunciam por uma perda de sangue, e uma desordem-desastre dentro do organismo que faz que o sangue saia de dentro dele é quase um sinal de alarme, e um sinal de alarme violento, dado para que se preste atenção a condições orgânicas que não estão boas.

O sangue vertido não nos fala apenas de doenças, mas pela violência de ele estar fora de nós, fala-nos de luta e fala-nos de crime. E impossível, por exemplo, falar em sangue vertido sem pensar na sangue de Abel vertida por Caim e que segundo a Escritura subia a Deus clamando por vingança.

A idéia do sangue derramado, e derramado pelo crime, do sangue que se encontra derramado pelo chão, desse sangue que é uma parte do organismo e que foi arrancada fora dele, numa espécie de dilaceração profunda do ser, esse sangue derramado nos dá a idéia de algo de injusto, de algo de violento, de algo de iníquo, que é uma perturbação profunda da ordem, e que clama a Deus pelo restabelecimento da ordem.

* O sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo saiu de onde nunca deveria ter saído, por uma série de atos deicidas: flagelação, coroação, transudação — Até o sangue que ao fim Lhe restava, foi vertido pelo golpe da lança de Longino

Quando pensamos no Sangue infinitamente precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo, esse Sangue gerado no seio de Nossa Senhora, esse Sangue que sai desse corpo de onde nunca deveria ter saído, desse Sangue que como tudo no Corpo de Cristo está em união hipostática com Ele e que sai do seu organismo sagrado como que simbolizando toda a dignidade desse organismo, mais ou menos como o vinho que sai da uva e que representa todo o suco da uva, aquilo que a uva tem de melhor, esse Sangue que é o sangue de Davi, que é o sangue de Maria, que é o sangue do Homem-Deus, e que por uma série de atos de violências deicidas inomináveis, pela flagelação, pela coroação, pela cruz que é carregada, pelos tormentos de toda espécie, pelo pior do que isso, pelo tormento da alma, quando Nosso Senhor, na agonia, começou a sofrer e que o sangue tressudava todo o seu Corpo, esse sangue que se derrama pelo chão e que fica atestando de modo clamoroso a injúria feita ao Homem-Deus, essa sangue assim é uma tal manifestação de donde pode ir a maldade humana, é tal manifestação do mistério da iniqüidade, é uma tal manifestação de quanto Deus tolera que o princípio do mal em seus piores aspectos exploda nesta Terra, que é um vale de lágrimas, que é um memorial para nós, para compreendermos que a natureza humana decaída — sobretudo quando dirigida pelo pecado e dirigida pelo demônio — é capaz de ir até o fim e não recua diante de nada.

Portanto, diante do mal, todas as desconfianças são de rigor. Isto está exatamente no preceito: “Vigiai e orai”. E preciso ter desconfiança, porque o mal é capaz de tudo, é capaz das piores infâmias, e tudo se pode esperar dele e contra ele se podem empregar todas as violências preventivas que se possam empregar. Tudo quanto é dormir a respeito dele, tudo quanto é otimismo bobo, tudo quanto é deixar para depois em seu combate, tudo isso é um verdadeiro crime, porque até lá o mal foi capaz de ir, e portanto ele foi capaz de ir até tudo. O mal quer toda espécie de mal e é capaz de chegar até o fundo na ordem de mal.

Esta consideração é muito desagradável para a natureza brasileira, que é bonacheirona, dulçorosa, amiga de pactuar, inimiga das divisões. Mas devemos meditar diante do Precioso Sangue até onde a Revolução vai.

A Revolução não recua diante de nada. E é bem evidente que já foi uma manifestação da Revolução — a pior delas — aquela que se voltou contra o Homem-Deus.

* A misericórdia de Deus quis que esse sangue fosse derramado, e derramado numa abundância inaudita, sem reserva de uma só gota, ainda que uma bastasse para nos salvar

Diante desse Sangue derramado, é importante notar a misericórdia de Deus, que quis que esse Sangue fosse derramado, e fosse derramado numa abundância inaudita. Todo Sangue que havia no Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo foi derramado como para mostrar que de todos os modos esse Sangue foi dado, e foi dado sem reserva de uma só gota, inteiramente, pelo imenso desejo de Nosso Senhor nos salvar. Uma gota de seu Sangue teria servido para tudo, mas Ele derramou todo o Sangue que tinha. E isso a tal ponto, que ainda aquilo que lhe restava, na lança com que Longino lhe travou, foi vertido juntamente com água. Ele quis que d’Ele não restasse nada para nos remir.

* Ninguém pode ser mais amigo de cada um de nós do que aquele que dá a vida por nós, e Deus ao dar o Seu sangue ia morrendo, pois cada gota de sangue que caía era como que uma pequena morte

Essa abundância de sangue, essa abundância de sofrimento, essa entrega completa de si até onde pode ser feita, lembra uma palavra de Nosso Senhor: “Ninguém pode provar mais a amizade do que dando a vida por seu amigo”.

Ora, nesta festa do Precioso Sangue, aqui está o Precioso Sangue diante de nós com essa afirmação: ninguém pode ser mais amigo de cada um de nós, do que aquele que dá a vida por nós.

Ele, de algum modo, fez mais, porque não só deu sua vida, mas quis sofrer toda a morte das pancadas, toda a morte da angústia, toda a morte de cada gota de sangue que ia saindo de seu Corpo sagrado. E nesse sentido, cada gota de sangue que cai é como uma pequena morte, porque é uma gota de vida que se esvai. Ele quis passar por todas essas pequenas mortes para mostra até que ponto infinito Ele tinha amizade a nós.

Daí pende uma consideração de confiança em sua misericórdia.

Se tanto nos quis salvar, devemos compreender que cobrindo-nos de seu Sangue e apresentando-nos ao Padre Eterno com a expressão de que cobertos com seu Sangue podemos pedir perdão para nós, devemos ter confiança de que podemos pedir esse perdão, mas por outro lado mostra o horror do destino eterno do condenado. Para nos evitar esse destino eterno, Nosso Senhor chegou até esse ponto.

Vejam quão grave é o mal de que Ele nos quis livrar. Então, medimos a profundeza do Inferno considerando uma gota do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

* Nosso Senhor não quis que Nossa Senhora vertesse sequer uma gota de seu sangue, mas enquanto Ele vertia sangue, Ela vertia lágrimas, e pode-se dizer que as lágrimas são o sangue da alma

Não é possível falar desse assunto, sem tocar em outro.

Em primeiro lugar, qualquer consideração sobre o Sangue de Cristo nos faz lembrar as lágrimas de Maria, vertidas junto com o Sangue de Cristo. Depois, uma consideração sobre a Eucaristia.

Nosso Senhor não quis que Nossa Senhora vertesse uma gota de seu sangue. E tendo permitido que se fizesse tudo contra Ele, não permitiu que as potências do mal tocassem sequer com a ponta do dedo em sua Mãe Imaculada. Portanto, Ela não teve tormento físico, e de seu sangue nada veio para a Humanidade, nem teria a força redentora do Sangue infinitamente precioso de Cristo. Seria apenas uma espécie de complemento, mas propriamente a Redenção viria inteira do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Mas Nossa Senhora verteu uma forma de sangue: foram suas lágrimas. Pode-se dizer que as lágrimas são o sangue da alma e que Ela sofreu nEla toda a dor da morte d’Ele, e que é impossível pensarmos no Sangue de Cristo quando não pensamos, ao mesmo tempo, nas lágrimas de Maria que se juntaram a esse Sangue e que foi o primeiro tributo da Cristandade para completar aquilo que Deus quis que fosse completado em sua Paixão pelo sofrimento dos fiéis, para que as almas se salvassem em quantidade.

* Na Sagrada Eucaristia recebemos o mesmo sangue que foi por nós derramado nas ruas, nas praças, no pretório de Pilatos e no alto do Calvário

Por fim é preciso pensar na Sagrada Eucaristia.

Esse Sangue de Cristo foi vertido pelas ruas, pelas praças, pelo Pretório de Pilatos, no alto do Calvário, e esse Sangue de Cristo está inteiro na Sagrada Eucaristia. E quantos de nós talvez tenhamos recebido ontem, hoje, amanhã, depois não sei quantos dias, o Sangue de Cristo dentro de nós.

Quando recebermos o Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, devemos nos lembrar disso. Esse precioso Sangue derramado por nós é por nós recebido. Ele, dentro de nós, está como a sangue de Abel, não para clamar castigo contra nós, mas para clamar misericórdia por nós.

Então, recebermos a Eucaristia com muita confiança, com muita alegria, porque recebemos o Sangue de Cristo que sobe ao Céu e brada pedindo por nós.

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