Santo do Dia – 23/6/1965 – 4ª feira [SD 186] . 3 de 3

Santo do Dia — 23/6/1965 — 4ª feira [SD 186]

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Comemoração da festa da Bem-Aventurada Teresa de Santo Agostinho e suas companheiras Virgens e Mártires, carmelitas de Compiègne * Blanche de la Force, personagem do “Diálogo das Carmelitas”, que de fraca e medrosa tornou-se forte e enfrentou o martírio * As carmelitas mártires de Compiègne eram virtuosas, e buscavam a perfeição almejando novas virtudes: à chegada do “noivo”, suas lâmpadas estavam repletas de azeite * A alegria da religiosa ao ser certificada de que morreria por ódio à religião * Na Igreja Católica há moradas para todos, e os que estão em suas moradas devem amar as moradas dos outros

Hoje é dia 23 de junho, e nós vamos voltar à nossa praxe de comentar o santo do dia seguinte, para facilitar a devoção no dia em que a festa se realiza. Quer dizer, amanhã os senhores terão isto em consideração.

* Comemoração da festa da Bem-Aventurada Teresa de Santo Agostinho e suas companheiras Virgens e Mártires, carmelitas de Compiègne

Amanhã é a festa da Bem-Aventurada Teresa de Santo Agostinho e suas companheiras, virgens e mártires. Essas dezesseis carmelitas de Compiègne foram martirizadas pela Revolução Francesa em ódio à sua fidelidade ao instituto e à devoção ao Coração de Jesus. Ao instituto carmelitano e à devoção ao Coração de Jesus. É do breviário esse comentário. E elas são do século XVIII, como é evidente.

Seria talvez interessante um comentário comparativo entre ela e aquela Blanche de la Force, como ela foi figurada na peça das carmelitas, no “Diálogo da Carmelitas”.

A psicologia da Blanche de la Force é uma psicologia toda ela singular, e ao mesmo tempo muito legítima na sua apresentação, mas muito perigosa por causa dos equívocos e das generalizações a que induz.

* Blanche de la Force, personagem do “Diálogo das Carmelitas”, que de fraca e medrosa tornou-se forte e enfrentou o martírio

Blanche ( Branca) de la Force. La Force é uma grande família francesa, é a família dos Duques de la Force. Mas la Force é “a força”. Então ela chamava-se Branca da Força. Quer dizer, dá alguma coisa assim, uma espécie de Joana d’Arc, virginal e forte.

Ora, essa Blanche de la Force, como os senhores sabem, porque quase todos os senhores acompanharam o “Diálogo das Carmelitas”, era uma pessoa que tinha uma espécie de psicose de medo. Ela tinha verdadeiro pavor de morrer. E ela tinha uma superiora que representava uma escola espiritual oposta à dela. Era uma dama, uma mulher forte do Evangelho, coerente, varonil, de grande personalidade, dessas que vêem vir a morte de longe e que vão de encontro à morte, passo a passo, em holocausto. E no momento da dor e da imolação, cumprem um ato de vontade ponderado e maturado profundamente durante anos inteiros antes. De maneira que aquilo é o esplendor da coerência, o esplendor da grande escola clássica da vida espiritual.

E diante desta prioresa que poderia morrer tendo nos lábios aquelas palavras de São Paulo: “Eu combati o bom combate, Senhor, dai-me agora o prêmio de Vossa glória” em comparação com ela teria, então, a Blanche de la Force, fraca, frágil, suscetível a ter pânicos de medo, muito desejosa de ser fiel, e por causa disto tendo até a miséria de, por psicose, escapar do convento, escapar da morte, evitar de ser guilhotinada com as outras, mas depois o triunfo da fidelidade dos fracos, subindo ao cadafalso com as outras na última hora, e deixando-se matar juntamente com as outras.

É claro que a oposição das duas escolas deixa insinuar que existe a possibilidade — que existe mesmo — de uma alma ter esta estrutura e, entretanto, será uma alma muito bem intencionada e muito fiel.

O perigo é que isto pode ser legítimo, mas ao mesmo tempo isto é muito parecido com o contrário da virtude. Isto é muito parecido com o medo, é muito parecido com a covardia, é muito parecido com a incongruência. E, portanto, a divulgação de uma coisa destas, muito legítima, tanto pode em alguns casos fazer muito bem, como pode fazer muito mal. Porque pode servir para colocar à vontade almas fracas chamadas a uma grande santidade, mas pode servir de pretexto à fraqueza de almas sem generosidade.

O caso dessas carmelitas de Compiègne é bem o contrário disso.

* As carmelitas mártires de Compiègne eram virtuosas, e buscavam a perfeição almejando novas virtudes: à chegada do “noivo”, suas lâmpadas estavam repletas de azeite

Eu li o parecer do visitador que as visitou alguns anos antes da Revolução Francesa. Ele fez a seguinte nota: que ele tinha feito uma visita canônica, longa, pormenorizada, severa, e que ele as achou em tudo e por tudo de tal maneira perfeitas que nem sequer ele sabia no que aconselhar a elas para melhorarem.

Não se pode fazer um elogio mais magnífico do que esse, não é? De maneira que a gente percebe que a visita para ele redundou em ser embaraçosa. Porque com certeza elas diziam: “Padre, nós estamos descontentes conosco, queremos melhorar, indique-nos novas virtudes”. E elas estavam num tal ápice de virtudes, que ele não sabia o que aconselhar para elas para terem uma virtude ainda maior.

Então elas foram colhidas como fruto maduro. Quer dizer, a virtude nelas tinha chegado ao seu apogeu quando chega a Revolução. Vindo a Revolução de encontro a elas, vinha de encontro a elas a morte. Mas a morte que vinha de encontro a elas era um esposo que vinha de encontro às virgens. E elas eram as virgens fiéis, que tinham as lâmpadas repletas de azeite e cujas chamas brilhavam com o maior brilho. De maneira que, chegando o esposo, realmente elas estavam prontas para o martírio.

* A alegria da religiosa ao ser certificada de que morreria por ódio à religião

Foi lindíssima a morte delas. Os senhores sabem que quando elas estavam para ser condenadas, uma delas — para que ficasse bem claro que era um martírio que elas iam sofrer — perguntou ao cidadão ignóbil que a julgava ou ao promotor público que as denunciava porque era aquilo, porque que elas iam morrer, e a resposta era: “Por ódio à Religião”. Ela disse: “Bom, obrigada, era o que eu queria saber”.

O martírio estava inteiramente tranqüilizado. E elas, então, morreram indo para o cadafalso cantando a Salve Regina.

Quer dizer, é a morte saindo diretamente das mãos do carrasco para as mãos imaculadas de Nossa Senhora. É uma dessas trajetórias em linha reta, toda feita de força, toda feita de coerência, toda feita de aplicação das grandes regras normais que eu confesso que consola, que anima e que estimula a quem, como na nossa época de hoje, é obrigado aos ziguezagues das incoerências, das exceções, dos conformes, dos modos.

Não! ali é um vôo como é o vôo da águia. Não tem incoerências, nem transigências, nem nada. Vai direto da torre ao mais alto rochedo, olhando para o Sol numa linha reta que verdadeiramente entusiasma a gente.

* Na Igreja Católica há moradas para todos, e os que estão em suas moradas devem amar as moradas dos outros

O que é que nós devemos deduzir disto?

Não é um terror para as almas fracas. Porque há almas fracas a quem esse exemplo enregela e paralisa. Mas é para que todas as vias se compreendam e se amem dentro da Igreja Católica. Há moradas para todos. Os que estão nas várias moradas devem, todos, amar uns às moradas dos outros. Porque é o conjunto dessas moradas que, na Terra, constituem a Igreja Militante, e no Céu constituirá a Igreja Triunfante.

Vamos reconhecer que esta é uma esplêndida morada, que isto aqui é um verdadeiro palácio. É o palácio da coerência, da regra geral, da previsão, da grande classe e do grande estilo da vida espiritual.

Este seria o comentário para a noite de hoje.

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