Reunião de sábado à tarde – 12/6/1965 – p. 5 de 5

Reunião para o Grupo da Martim 1— 12/6/1965 — sábado

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Necessidade dos símbolos materiais –II

Por que Deus quis que a alma humana ficasse condicionada à matéria para a percepção das coisas exteriores, e que sendo a alma humana espiritual, ela precisasse dessas coisas materiais para conhecer essas coisas superiores?

Deus criando o cosmos atual, Ele quis fazer com uma grande perfeição, quer dizer, colocando criaturas de todos os graus possíveis. De maneira tal, que houvesse criaturas das mais altas, como são por exemplo os anjos, e passando sucessivamente pelos graus inferiores, e chegasse à criatura mais baixa que é a matéria. E que então, toda a ordem do possível fosse representada. Mas a natureza desses seres é tal, que São Tomás de Aquino mostra que existindo a matéria e o homem, deveria existir o anjo. A matéria é um ser tão baixo, que entre ela e Deus, há uma espécie de descontinuidade ou de salto rápido demais. Ela de si não é capaz de espelhar convenientemente a Deus. E se Deus fizesse um universo consistente apenas de matéria, por que a matéria não é capaz de O espelhar dignamente, de modo conveniente, de modo suficiente, esse universo seria absurdo. E Deus, se queria criar uma escala de seres, que chegasse até o ínfimo que é a matéria, Ele deveria também criar os anjos. A criação dos seres espirituais, era uma coisa necessária para que a ordem da criação existisse. Agora, criando anjos, Ele teria que necessariamente criar homens, segundo esse teólogo e que se baseiam no abeé Arminjon.

Quer dizer, entre os anjos e os homens, existe também um hiato, aliás, entre os anjos e a matéria. E era preciso que houvesse seres puramente espirituais, depois seres espirituais e materiais, e depois seres puramente materiais. Para que o universo pudesse ser uma grandeza tal, que ele atingisse toda a escala dos seres, desde o ser puramente espiritual, até o último dos seres que é a matéria. Haver, portanto, um ente que fosse espírito e matéria, e um ente, portanto, em cujas funções da alma, a cognição material tivesse que entrar, porque se é um só ente, essas funções têm que agir juntas, haver um ente desse tipo, era uma necessidade dentro de uma ordem de coisas criada por Deus, assim, e com essa visualização.

E exatamente essa ligação do homem à matéria, expõe o abeé Arminjon — e nisso, todos os teólogos estão de acordo — esta ligação do homem com a matéria, essa espécie de “enclausuramento” do espírito dentro da matéria, esse “enclausuramento” tem como conseqüência exatamente que o homem é, debaixo de um certo ponto de vista, a parte mais excelente da criação. É a parte da criação que reúne toda ela, e em que estão representados tanto os anjos, quanto a matéria. E por causa disso, o homem teve a grande felicidade, a grande honra de que se operasse na natureza humana a união hipostática. É o modo de, com uma só união hipostática, honrar todo o universo criado por Deus. De maneira que essa condição de nossa ligação à matéria, se é verdade que nos cria uma situação muito mais restrita do que a dos anjos, porque o nosso conhecimento é todo encharcado de dados materiais, de outro lado, entretanto nos coloca numa posição privilegiada em relação à dos anjos. Porque na ordem do universo, é um Homem, embora Homem-Deus, que preside a tudo. E é Nosso Senhor Jesus Cristo. E abaixo de Nosso Senhor Jesus Cristo, Sua Mãe, que é Nossa Senhora, de maneira tal, que Nossa Senhora, afinal de contas, mera criatura, preside. Ela, ente material, e, ainda mais, feminino, Ela preside toda a criação abaixo da humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Há portanto aqui, uma preocupação de fazer uma hierarquia com todos os degraus possíveis, uma hierarquia que seja como uma escada bem construída. E essa preocupação explica a condição em que a mente humana foi posta.

Primeiro ponto: o universo seria tanto mais excelente quanto mais toda a escala de criaturas possíveis nele existisse.

Portanto faz parte da excelência desse universo que exista a matéria, e não só anjos.

Segundo ponto: a matéria não poderia existir sem seres espirituais, porque ela é tão vil, que ela não representa suficientemente a Deus. Seria preciso portanto, seres espirituais.

Terceiro ponto: Uma vez que Deus criou seres puramente espirituais para a glória dEle, entre esses seres espirituais e a matéria, também ficava um hiato muito grande. Era preciso que houvesse, segundo uns, preciso, segundo outros, conveniente, puros espíritos, houvesse um ser tanto material quanto espiritual, e depois um ser material, para que toda a escala pudesse existir. De maneira que esta situação em que o homem se encontra, em ser meio material e meio espiritual, é uma situação que era, ou conveniente ou necessária para a beleza da ordem do universo, desde que tivesse que existir até matéria.

Agora, uma reflexão sobre isso: é que esse estado aparentemente muito diminuído em relação aos anjos, é um estado muito excelente enquanto reúne tudo. E enquanto nele se operou a união hipostática. E depois, porque a Rainha do céu e da Terra… [faltam palavras] …

[faltam palavras] …apenas um panorama complementar disso que nós estamos dizendo. Como se está vendo, cada uma dessas ordens de seres postula outra. E dentro do universo criado por Deus, isto representa uma espécie de cadeia perfeita, de concatenação perfeita. Concatenação perfeita esta, que é a perfeição do cosmos, a perfeição do universo.

Agora, segundo o que nós estamos estudando no MNF, tudo leva a crer que essa concatenação se dá da maneira seguinte: há todo um mundo angélico que espelha as perfeições de Deus. Depois, a seu modo, existe a humanidade, compreendendo desde Adão e Eva até os últimos homens que vão existir, e que provavelmente são os que não vão morrer, por ocasião do Juízo Final, então compreende tudo isso junto. E este mundo humano, esta humanidade é uma espécie de reprodução da perfeição angélica, mas reprodução feita em escala humana, e já em escala espiritual e material ao mesmo tempo. E depois, se nós estudarmos a fundo o mundo material, na sua hierarquia interna dos seres vivos, e depois dos seres mortos, nós encontramos depois a reprodução da mesma coisa. Então nós temos que cada uma dessas categorias, é como que uma frase musical completa que comenta e repete a outra. De maneira que isso forma uma espécie de hino em que a seu modo, vamos dizer, em quatro ou três instrumentos diferentes, se toca a mesma frase musical. E o instrumento mais nobre, de algum modo os anjos, o instrumento mais nobre de algum modo, o homem, o instrumento certamente menos nobre, a matéria. Mas que é uma mesma perfeição, seria o mesmo esquema, o mesmo mapa, uma mesma arquitetura, uma mesma música, e que se repete por esses vários modos. E que cada um desses modos, por assim dizer, sustenta a outro mais perfeito. De maneira tal que os anjos governam os homens. Depois, os homens governam os animais e as plantas, mas os anjos governam, eles mesmos, com governo próprio, também o outro mundo – mineral, vegetal e animal – que está abaixo dele, e que forma assim uma interpenetração de governos, de categorias mais altas nas suas categorias mais baixas. Em que para governar uma certa coisa, vamos dizer, por exemplo, um anjo governa um reino. Mas o rei também governa o reino. E o homem é meio associado ao anjo no governo do reino. E na direção de todas as coisas humanas, importantes, pelo menos, existe então um anjo para dirigir, e um homem co-reinante, que vai tocando junto com o anjo.

Agora, nós temos por cima do anjo, Nossa Senhora que reina, e depois Nosso Senhor Jesus Cristo que reina, e como Nosso Senhor Jesus Cristo Deus. São quase que revelações de níveis diversos, exercitando sobre o mesmo terreno, em modos ou funções diversas, e completando-se umas às outras. E que explicam então o governo de todo universo.

O que é muito bonito é a tarefa então, e diz isso respeito a nosso anjo da guarda, e daí se pode dar uma conseqüência de caráter espiritual, o papel do anjo da guarda dentro disso. A gente percebe bem que o anjo da guarda não é apenas um ser celeste, que está posto para evitar desastre de nossa parte: machucar o pé, a criancinha não cair da ponte, etc., porque ele não tem apenas uma guarda; ele não é apenas nosso amparo, mas ele é nosso regnator. Ele é um ente que dirige a nossa vida, que orienta a nossa vida, que preside a nossa vida. Ele é como que a luz primordial de nós mesmos, que orienta toda a nossa vida e que traça os planos, que intervém, que nos aconselha como um verdadeiro pai, em todos os momentos, em todas as situações. Essa função de guardar é um elemento correlato, é um elemento integrante da função dele, mas não é o principal. Ele não é apenas uma espécie de parapeito para nós não fazermos asneiras, segundo se interpreta a expressão do anjo da guarda, mas é, como provavelmente no português arcaico a palavra guarda deve, querer dizer isto, a expressão “Deus guarde a Vossa Excelência; ou a Vossa Senhoria”, esse “guarde” não deve também apenas ser: Deus evite que Vossa Senhoria faça asneiras, ou que trucide seu corpo numa carroça, mas deve ser outra coisa. É a guarda, quer dizer, a direção, a orientação, a inspiração, enfim, a resignação sobre aquela pessoa.

Então nós compreendemos uma coisa muito bonita que é uma espécie de jogo de mediações que existe dentro do universo. Então, através desse jogo de reinos, um jogo de mediações de graças e com esse jogo de mediações de graças, toda uma coisa que se desvenda para nós. Porque Nosso Senhor Jesus Cristo, é o nosso mediador único diante de Deus. Quer dizer, em face de Deus, diretamente ligado a Deus, nós não temos outro mediador a não ser Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele não precisava de Nossa Senhora como mediadora. Ela não é, portanto, uma mediadora absolutamente necessária, mas Ele quis que Ela fosse mediadora. E pelo fato de que Ele quis, Ela ficou como que necessária. Porque a vontade dEle é uma vontade que impera e é preciso obedecer a Ele. Então Ele dispensa todas as graças Dele por meio Dela.

Agora, de algum modo, nosso anjo da guarda é mediador nosso junto a Ela e a Nosso Senhor Jesus Cristo. Porque de algum modo, é ele que deve nos obter as graças, as inspirações, os bons movimentos da alma, afastar o mal, combater o demônio, enfim, exercer toda uma ação sobre nós, necessária para que a nossa vida chegue a bom termo. E ele é como que o outro eu mesmo, o arquieu mesmo; aquilo que se eu fosse santo, eu não seria senão uma realização pálida, mas de que ele é uma realização imensamente mais rica, por causa da natureza angélica dele. E, por causa disso, ele velando sobre mim, sobre minha pequenez, me dirigindo, me orientando, como um verdadeiro mediador entre Nossa Senhora e eu, e como um servo de Nossa Senhora, que é a Rainha do universo, a tudo que diz respeito a minha vida espiritual.

Então, a gente compreende quanta coisa da Revolução Francesa, do homem independente e livre se esvai. Porque para a Revolução Francesa, todo homem, é homem ciente, homem potente, onipotente e um centésimo milionésimo de voto. E ele é capaz de fazer tudo, de resolver tudo, decidir tudo, e tudo por si. E ele não aceita sugestões de ninguém, não aceita o mando de ninguém, não aceita a autoridade de ninguém. Por quê? porque ele se basta a si próprio. Nós vemos nessa visão o contrário, aparecer toda a fraqueza do homem, e um príncipe celeste, para o mais republicano dos homens, governando o homem, como um verdadeiro príncipe e tocando para o céu, afastando os demônios, enfim, orientando a vida dele como um pai faria com seu filho. Mas então, também, toda a nossa confiança na Providência que nos assiste, na bondade de Nossa Senhora, etc, tem motivos para redobrar de intensidade. Exatamente na devoção a este anjo que está continuamente com cada um de nós.

Aí a gente compreende bem também o papel da devoção que se tinha antigamente aos anjos e que à medida que os anjos foram mudando de fisionomia na iconografia, também foi caindo no espírito dos fiéis. Mas nós compreendemos também muito mais, toda esta função de mediação, como ela está na ordem do universo. Autoridades cumulativas que ao mesmo tempo se exercem concomitantes sobre o mesmo ser, mas em que a autoridade de caráter inferior, não é inimiga da autoridade de caráter superior, que governa ali. Mas é uma medianeira para obter das autoridades de caráter superior, aquilo que é necessário para o inferior.

De maneira que este sistema feudal, importa numa espécie de concomitância de mediações que explica então um tanto da ordem do universo, no movimento das almas, etc. explica também de algum modo, porque a Providência instituiu tão largamente o jogo planeta-satélite. Exatamente porque nesse jogo, a gente percebe também que entra uma repetição dessa ordem universal. E, que o planeta, acaba tendo uma faixa também muitas vezes indispensável, porque Deus quis, não de necessidade absoluta, mas de necessidade desejada por Deus, acaba tendo uma faixa dentro deste conjunto de autoridades. Mas também uma função de mediação, para obter as graças, para pedi-las, para transmiti-las, para governar aqueles que são seus satélites, etc. o que, em vários modos e graus, a gente pode ver dentro de nossa família de almas. É uma nota nova a respeito do jogo de planeta-satélite, ou duas notas novas: em primeiro lugar, nesse jogo planeta-satélite… [faltam palavras] …coisa efêmera e pode dar duravelmente de um modo capilar e de mil maneiras, e depois a idéia da mediação. A idéia da mediação por onde exatamente não se trata apenas de uma ação individual, mas no jogo de planeta-satélite que seja completo, o planeta espalha, difunde as suas graças para os satélites, e as orações dele, podem, provavelmente, atrair as graças de Nossa Senhora, para o satélite, de um modo mais especial.

As orações e os desejos. E é toda oração – eu já tive ocasião de dizer isto aqui, toda oração; todo desejo é uma oração. E a gente vê nisso coisa curiosa. Quando o planeta desce, digo, deseja ardentemente a santificação de seu satélite, a gente vê que aquilo tem vida. Quando um planeta mole e que deseja pouco a santificação de seu satélite, a gente tem a impressão de que aquela constelação toda como que se arrasta. Vai como é possível. Agora, por quê? Porque exatamente a oração do desejo não está presente. E então àquilo, falta vitalidade.

Nós temos portanto, uns tantos dados novos, a acrescentar a uma visão já muito conhecida.

É possível neste sentido, que até muitas vezes, o planeta seja inferior ao satélite, inferior do ponto de vista humano, e debaixo de uma porção de pontos de vistas. Mas em um certo ponto de vista, ele tem a possibilidade de ser superior ao satélite: toda a multiforme riqueza desse jogo de planeta-satélite quando se trata de um homem, quer dizer, é uma coisa intérmina, uma coisa colossal.

Eu acredito que quando a História humana acabar, e, usando a expressão da Escritura, o céu se enrolar como um pergaminho, o que vai ficar de mais bonito da História, e que vamos contemplar na eternidade, são essas relações entre almas que foram feitas: as mediações, os governos simultâneos e acredito que isso continue no céu. E acredito que duas almas que tenham estado numa relação de planeta e satélite de alto nível na terra, essas almas, depois no céu, vão estar na mesma relação. E que haverá uma comunicação de graças, etc, que poderá vir através de nossos anjos da guarda, através de nossos santos protetores, através daqueles que nos ajudaram a nos levar para o céu, desde que, desde que fiquem no céu mais alto que nós, nem sempre é certo: poderá nos levar para uma ordenação de uma espécie de arquitetura de todo universo das almas, onde a gente compreende melhor como vai ser a estrutura da corte celeste. Então uma corte imensamente feudal, com uma porção de reis, reinando sobre reis, que serão reis em várias escalas e várias ordens. Isto será a apresentação da glória de Deus no Céu.

1 Estava como “Reunião de sábado à tarde”. Nos Sábados à tarde eram realizadas reuniões para os membros do Grupo da Rua Martim Francisco, na Sala dos fundos da mesma sede; e, no domingo, para os membros da Pará, na Sede do Reino de Maria, da rua Pará.