Reunião
de sábado – 5/6/1965 – p.
Reunião para o Grupo da Martim 1 — 5/6/1965 — sábado
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Necessidade dos símbolos materiais – I
A pergunta é essa: Criteriologicamente falando, consideradas as exigências do espírito humano, como se explica que uma doutrina concebida em tese, ganhe em ser expresso sob formas sensíveis? Por que isso é assim? E qual é, então, o modo de tirar proveito disto?
Eu acho a pergunta cheia de propósito. Porque sem a gente compreender o fundo disso, é difícil a gente tirar inteiramente o proveito que se pode. Vamos então dizer uma palavra a respeito desse assunto.
O que é nossa doutrina? Quanto mais nós trabalhamos no MNF, tanto mais vai ficando claro que nossa doutrina é a doutrina que exprime que nós devemos amar a Deus amando a ordem do universo que espelha a Deus. E que os princípios que regem esta ordem do universo, quer quando regendo a alma humana – que é a mais nobre das criaturas que está ao alcance de nossa observação, e do mundo em que nós estamos – quer regendo as realidades materiais que existem na dependência, e para o serviço da alma humana, quer num caso, quer no outro, os princípios que regem essa ordem, e que dão a nota arquitetônica dessa ordem, que constituem a arquitetura dessa ordem, estes princípios são a melhor expressão que Deus fez para nós. O amar esses princípios, é amar a Ele, no mesmo modo pelo qual o simpatizar com uma figura que nós vemos num espelho, é simpatizar com a própria figura enquanto ela é no seu original. Porque esse é o espelho de Deus, enquanto visto na Igreja Católica e enquanto visto no universo material que nos circunda. Enquanto considerado também em todo o universo angélico, do qual, pela revelação, nós temos uma notícia.
Então esses três círculos, diversos, mas que tem um mesmo centro, que é Deus, Nosso Senhor; esses três círculos – a criação invisível, a criação visível, e a obra da graça, que é a Igreja Católica – esses três círculos se regem pelos mesmos princípios. E esses princípios são a mais perfeita e inefável expressão de Deus. Então, a alma que é verdadeiramente uma alma contemplativa e católica, uma alma que quer verdadeiramente amar a Deus, no prolongamento do que eu falava ontem na reunião da Comissão “B”, esta alma deve procurar ser Jacó e não Esaú. Esaú é o tipo terra-terra, baixo, materialista, que só se ocupa com as realidades palpáveis e sensíveis, cujo prazer consiste apenas em gozar o seu próprio existir, gozar de um modo inerte, como seria um jacaré à beira de uma lagoa, gozar por um movimento contínuo como seria o de um beija-flor que esvoaça pelo ar, mas gozar o seu próprio existir, sem procurar nem um pouco, pela reflexão, elevar-se aos princípios de ordem superior, com as quais esse existir existe. Sem ter nenhum pouco a necessidade de uma meditação mais profunda, para compreender a razão de ser de seu próprio eu, e daquilo que faz. Mas, colocando-se baixamente nesta posição: “Eu existo, eu gozo meu existir, e o meu gozar justifica meu existir. Explicações racionais, eu não quero. Elas não me interessam. Desde que eu goze, eu estou gozando e está acabado.”
Notem bem: eu não estou falando aqui de gozos imorais. Seria baixar a elevação do tema falar de gozos imorais, porque não é isto que está em cena. Está claro que, a alturas tantas, os deleites imorais entram. Mas não é disso que eu falo. Eu falo é da posição vazia, por exemplo, de minha geração, da posição vazia dos homens de minha geração, para os quais nenhum princípio tem importância. Nenhuma explicação de nada é necessária. Contanto que eles tenham a sua casinha, sua papinha, sua vidinha e sua rotinazinha, grande ou pequena, riquíssima ou não, isso pouco importa. Contanto que eles tenham a serra de que eles gostam, o resto para eles não tem importância nenhuma. Pode modificar-se como for, pode dar no que der, eles estão gozando. E está acabado. Os princípios que eles têm, são vazios. Mudam-se no consenso oficial, eles mudam também. Eles não lutam por princípio nenhum. A ordem superior do ser, que nos leva até Deus, para eles não significa nada. A alma deles é uma alma torpe, que não tem a menor apetência disto. Isto são eles.
E nós, pelo contrário, devemos ser daqueles que não queremos o prazer do viver, senão em função do compreender o viver, do entender que realidades superiores, que a partir disso, nós somos levados a aceitar. E a nos dirigir para essas realidades como sendo o complemento de nosso ser aqui na terra, e como sendo o rumo que nós devemos tomar na eternidade. Quer dizer, são as almas nobres assim. Porque a alma nobre á isso. Não há outro conceito de alma nobre. Tudo quanto se fala de alma nobre, em última análise é uma expressão deste espírito, desta mentalidade.
O heroísmo é isto, porque o heroísmo só não é o estouvamento quando ele é uma coragem que resulta dessas alturas do pensamento.
O sacrifício só é um mérito assim, porque ele só é benemérito quando ele resulta dessas expressões, ou dessas elevações da alma humana. Isto então, é aquilo que nós devemos com toda nossa alma procurar. Nos momentos interiores do recolhimento, em que o Espírito Santo nos visita, em que a graça da oração baixa sobre nossa alma, e em que nós começamos a considerar essas coisas e em que então, nós nos elevamos para uma ordem superior da realidade, aonde verdadeiramente o nosso espírito fixa moradia.
Se isso é verdade, do alto dessas considerações nós não podemos deixar de nos lembrar de que nós somos homens, e de que o homem, o espírito humano, vive normalmente dentro da carne e que a realidade que ele externa, que ele conhece, e a partir da qual ele elabora suas produções doutrinárias, suas abstrações, é uma realidade que está imersa na carne, e que o ponto de partida de todas as considerações abstratas e mais elevadas, são dados sensíveis e dados, portanto, que vêm dos aspectos que as coisas nos apresentam. Vêm do mundo externo que com nossos sentidos nós contemplamos. E que a elaboração normal de nosso pensamento pede que daí nós tiremos as abstrações, mas quando nós chegamos ao abstrato, nós voltemos ao concreto de novo, e que nós queiramos completar a nossa vivência das coisas, considerando no concreto aquilo que nós vimos no abstrato.
Dou um exemplo, e ele exprimirá bem o que eu digo: imaginem por exemplo, um filósofo, e imagine um Santo Tomás de Aquino que elabora longamente uma teoria da realeza. Imaginem que Santo Tomás de Aquino, em vez de morar em Paris, morasse, por exemplo, em Bremen, ou então na cidade de Lübeck, tão ligada à nossa história. Que morasse então, por exemplo, em Lübeck, cidade livre e republicana da Alemanha medieval. Ele subiria às mais altas considerações teóricas a respeito da realeza. Depois ele iria a Franck assistir a coroação do imperador do Sacro Império Romano Alemão. Ao presenciar aquelas cerimônias, ao ver o imperador, ao ver realizadas no imperador a majestade real, ao ver a corte que cerca o imperador e tudo aquilo de que de bom gosto da época, por sua vez, rodeou o imperador para exprimir a majestade dele, São Tomás de Aquino, com toda riqueza de sua abstração, lucraria. E lucraria até algo de indispensável para ter um conhecimento completo da realeza.
E o que é indispensável? Ele não é um anjo. Ele é um homem. E há uma zona da alma dele, que só se enche com imagens materiais. Zona da alma é uma expressão metafórica; é evidente, mas enfim, os senhores entendem o que ela quer dizer. Esta zona da alma dele precisa de imagens materiais, correspondentes à idéia da realeza. E então todas aquelas imagens da cerimônia da coroação preenchem um vácuo e lhe dão a conhecer quase de um modo vivencial, experimental e sensível, aquilo que teoricamente ele já conhecia. Então, pela conjunção do conhecimento abstrato e do conhecimento concreto, forma-se de um modo inefável, um conhecimento total, e é esse conhecimento total que é o objeto próprio ao termo último do conhecimento humano.
Agora, por que mecanismo é que essas coisas materiais podem exprimir dignamente a realeza? É que há uma afinidade que é inexprimível. Ela existe, a gente a percebe, mas ela não é suscetível de ser expressa entre os estado de alma do homem, as coisas materiais. Entre portanto, também, verdades abstratas e coisas materiais. E é esta afinidade, que a seção de Ambientes, Costumes e Civilizações procura explicitar tanto quanto possível, para formar as almas nesta orientação. É esta afinidade, por sua vez, que explica que as imagens materiais sejam adequadas, para dar ao homem uma representação material das coisas espirituais. E então nós temos aqui a explicação da razão de ser profunda da institucionalização. A institucionalização é: a apresentação em símbolos sensíveis, adequados, necessários para uma plena compreensão da realidade, inclusive pelo homem de mais excelsa compreensão que houvesse – como era Santo Tomás – a mais excelsa compreensão doutrinária necessária para uma plena e humana compreensão de uma determinada gama de realidades, que constituem o melhor da existência e a serem vistas de um modo, vamos dizer imponderável, mas de um modo total, dentro da conjugação da noção abstrata do símbolo. Quando as noções abstratas dos símbolos se osculam, formam uma ogiva completa e é nessa ogiva que o conhecimento se torna completo.
Então, o primeiro ponto é uma convergência de circunstâncias, que é a situação atual da Igreja em que uma série de instituições vão imergindo na ilegalidade, e em que concomitantemente se forma na linha do privado, mas certamente com vocação, uma entidade.
Segundo ponto: com vistas a providencialidade dessa entidade, o que isso tem de arquitetônico: a Providência enxotada dos organismos oficiais, com horror ao que é revolucionário, produz algo de privado e legal, extra-oficial. E isto é o Grupo.
Terceiro ponto: o que é produzir o Grupo? O Grupo há muito tempo está produzido. Com uma realidade excelente, no mais importante, que é a sua doutrina, sua missão e seu operar. Por que se diz que a institucionalização representa a produção do Grupo? Resposta: ela é como que o fim do produzir-se. É a totalização do produzir-se. E enquanto totalização do produzir-se, ela está para o anterior como o nascimento está para a gestação. É o complemento, é o que faltava. Então, neste sentido, é um produzir-se.
Quarto ponto: que importância tem a institucionalização nessa produção? Primeiro aspecto dessa importância é nas almas das pessoas que constituem o Grupo. O homem cartesiano é diferente do homem real. Para o homem cartesiano, inventada a doutrina, todo o resto vai automaticamente, a toque de caixa. Para o homem real, não. Inventada a doutrina, há um embebimento gradual da doutrina; nas vivências, nos reflexos, nos movimentos espontâneos. Este embebimento se chama compenetração. É uma vitória do princípio – compenetração não é só isso, mas esse é um aspecto. Quando ele embebe inteiramente aquele que pelo princípio deve viver. Então nós temos aqui um triunfo do princípio. Porque o princípio acaba de viver em nós. Quando nós estamos em ponto de que nossas vivências engendrem isso, os símbolos.
Uma consideração agora, para tornar isso mais vivo: na Vieira de Carvalho, um ano ou dois antes da mudança, ou se quiserem, na época em que julgarem melhor a comparação, e hoje em dia. Nós já tínhamos essa missão, tínhamos essa vocação, tínhamos resolvido consagrarmo-nos; mas as vivências não teriam suportado o que hoje elas suportam. O que houve? Isto que houve foi o complemento que faltava para o ponto em que estamos.
Outro ponto: estes símbolos, porque nascem assim das vivências e das circunstâncias, e porque a seleção dos aspectos materiais em que ele se exprime foi feita no conhecimento de uma altíssima verdade, ou de um altíssimo conjunto de verdades inexpressos que nós devemos exprimir, tem uma autenticidade que faz com que nós, no símbolo, nós vejamos a nós mesmos. As nossas idéias se contemplam nos seus símbolos, e nos seus símbolos se amam, por um processo que é parecido com aquele, pelo qual o Pai gera a imagem de si mesmo e depois procede de ambos o amor.
Então, outro ponto, daí nasceu uma instituição. O que é uma instituição? É um conjunto de verdades, uma missão e uma total realização dentro das pessoas. Um operar externo das pessoas conjugadas entre si, que constituem normalmente a instituição.
Por fim, a explicação. Por que razão é que esses símbolos são necessários ao homem? Primeiro, eles são. Segundo, por que eles são. Razão: o conhecimento do homem, não é apenas um conhecimento teórico, abstrato. Não é um conhecimento que se desliga inteiramente dos sentidos. O normal é que o homem, tendo entendido pela inteligência, e vendo depois a coisa teórica realizada na prática, pela conjunção do teórico e da prática, obtenha o conhecimento total.
Outro passo: há uma afinidade misteriosa entre os símbolos, entre as coisas materiais e as da alma, as coisas espirituais, as coisas elevadas, por onde a matéria exprime adequadamente isto. Então a nossa vivência escolhe com acerto os símbolos para encher na sua alma o que lhe faltava do conhecimento do abstrato.
Daí então a necessidade da institucionalização. É para encher nossa alma daqueles símbolos que ela é ávida de ter para completar o conhecimento que ela já tinha, daquilo que ela conhecia.
O que é o Grupo? A institucionalização disso. Os senhores vendo-se como se estão vendo aqui, tem uma noção mais completa do Grupo, do que se nunca tivessem visto isso aqui. Porque algo de sensível, que completa o intelectivo. Para uma visão.
Depois se segue a isso uma explicitação, já naturalmente com algo de subjetivo pessoal, do que a sala contém desse modo. E que eu gostaria apenas de frisar dois pontos: Primeiro, o caráter muito arquitetônico da primeira impressão, o que está de acordo com a nossa vocação, porque é uma nota arquitetônica que nós queremos conhecer e difundir. E em segundo lugar, esse misto de contradições, muito suave, mas muito hirto; muito nobre, mas muito ameno, contradições que chegam quase, contrastes que chegam quase até a contradição, mas que não o são. E reside numa superior harmonia.
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1 Estava como “Reunião de sábado”. Nos Sábados à tarde eram realizadas reuniões para os membros do Grupo da Rua Martim Francisco, na Sala dos fundos da mesma sede; e, no domingo, para os membros da Pará, na Sede do Reino de Maria, da rua Pará.