29/5/1965
– sábado – p.
Reunião para o Grupo da Martim 1 (Sede do Reino de Maria – Rua Pará) — 29/5/1965 — sábado [RN 353]
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Teoria sobre o pecado original e sentimentalismo
Eu tinha mostrado que há uma visão errada que o homem tem da natureza humana, dupla e que tem ponto de partida no sentimentalismo. O primeiro dado é esse: de que nós somos como que a própria “substancificação”, a própria “substancianização” das qualidades morais ou intelectuais que estão em nós. E que há portanto em nós, qualquer coisa de divino, qualquer coisa de transcendental, que é diferente de nossa natureza. E que portanto, quando nós possuímos algo, por exemplo, possuímos o “charme”, nós não somos pessoas que têm o “charme”, como um acidente na sua personalidade, que tanto pode perder quanto pode ter, mas nós somos como que o “charme”, como que a “consubstanciação” e a representação do “charme”. Quando um outro, por exemplo, é corajoso, aquilo não é uma virtude que ele tem e que ele pode perder, mas ele é como que a coragem; ele é co-idêntico com a coragem. É uma espécie de “substantinização” dos adjetivos que se poderiam dizer dele. E que, portanto, nós estando em contato com o fundo de alma das outras pessoas, nós estamos em contato com algo de absoluto, e de transcendente e algo que sacia uma avidez que nós temos de algo.
Então, depois desse ponto fundamental, que é dessa espécie de posse do estado de transcendente de uma determinada virtude ou de um determinado predicado, vem a idéia exatamente de saciar. Cada um de nós sente na sua alma uma determinada carência, um conjunto carente. E tem a ilusão de que se pondo em contato com uma determinada pessoa, e [tendo] amizade com determinada pessoa, transfere para si aqueles valores que estão faltando. E que nessa transferência, sacia a sua alma de algo. De onde então, [em ?] conseqüência, um movimento necessário, e portanto neste sentido, de egoísmo, produz a vontade de se dessedentar em águas de um outro, de uma outra pessoa. E produz naturalmente então, uma atitude de espírito que tem todas as aparências do amor e da dedicação, e que é substancialmente o egoísmo. Porque esse dessedentar é [uma] utilidade própria.
Agora, isso tem uma coisa recíproca, isso cria uma coisa recíproca: é de que se eu tenho a ilusão de que eu tenho, eu [mesmo?], em mim algo assim de inefável, de supremo, de sublime, idêntico com a minha pessoa, com a sua “substancialização”, eu tenho o desejo de ver-me adorado, eu tenho o desejo de ser muito admirado. E eu fico “en quête”, à procura de quem me admire e de quem sinta isso inteiramente. De maneira que eu realizo um movimento que é um movimento de egoísmo do outro lado. E então, este sentimento assim, quando existente, esse sentimento pode entrar em toda espécie de relações humanas. Quando existente em pessoa de outro sexo, ele determina como um acréscimo, uma exacerbação, mas uma exacerbação, não tanto [física?], quanto psíquica, do instinto sexual. E é esta exacerbação do instinto sexual, visto nesta linha, que constitui propriamente um vício sentimental daquilo que a gente chama amor.
Eu creio que em nenhuma música esse tipo de exacerbação sentimental é tão sensível, naturalmente no seu aspecto subjetivo, do que no Chopin. Toda música de Chopin é o devaneio de uma alma a respeito de si mesma e de outra. É uma espécie de devaneio que uma alma tem a propósito de suas relações com a outra. A gente percebe que a outra é apresentada como uma espécie de paraíso inefável, onde vive de um modo riquíssimo, numa fonte própria, um conjunto de riquezas de alma arrebatadoras; e que a pessoa então se aproxima daquilo e se imerge naquilo. E acaba sendo a realização entre mulher e homem de algo de sumamente parecido com a visão beatífica. E de algo sumamente parecido como uma devoção religiosa. É naturalismo completo, porque não se fala aqui de graça, nem de pecado original, nem de nada; é um naturalismo completo, esse naturalismo completo traz como conseqüência, a necessidade de pôr uma espécie de bem infinito numa outra criatura. Essa necessidade cria um mito a respeito da outra criatura, e um mito egoístico, e toda espécie de enredo, egoístico-amoroso, com aparência de um lance até sublime, enredo esse, que acaba afinal de contas, não sendo outra coisa, senão uma projeção do próprio egoísmo.
Agora, é fácil conceber que em função disso, a esposa legítima faz um “pífio” papel, porque ela representa o “terra-terra”; ela representa o bom senso, ela representa a convicção de que não existem… [faltam palavras] …nem nada disso, mas que a verdade é muito outra, ela representa o dever, e o senso do dever quebra isso. A palavra dever, quebra com tudo isso, evidentemente; ela representa a legitimidade. Ora, na ordem… [faltam palavras] …a única coisa que é legitima é o amor, não existe outra coisa legítima.
Então, a gente compreende também com quanta facilidade essa gente considera o casamento como uma forma prosaica daquilo em que o amor é o fundo. E o casamento só é feliz quando ele é a [finalização?] de um amor. Fora disso, nem ele é feliz, nem ele é legítimo. E o casamento sem amor e vivido por dever, estaria para com essa ligação amorosa, embora não-matrimonial, como o pato está para o cisne.
Por que insisto tanto nisto e insisto… [faltam palavras]? Eu insisto nisso, não porque me pareça que os senhores não sabem, ou porque não entenderam, mas é porque alguma faceta pode ficar de fora. E nessa compreensão, ou se compreende todas as facetas, ou não se compreendeu nada. A coisa está toda na totalidade das facetas. E está em habituar a memória e criar no espírito uma espécie de reflexo de considerar esse problema, de ter esse problema em mente, de o ter em vista, quando acontecem as coisas. Quer dizer, em face desse quadro, é preciso criar uma espécie de reflexo de desconfiança, e reflexo de análise por onde, sempre que o quadro se repõe, a pessoa o perceba. E por onde, a pessoa naturalmente é levada a analisá-lo e a descobrir o que ele tem de mentiroso. Enquanto esse reflexo não se cria, nós temos uma conferência solta no ar.
Para que isso seja útil, nós tenhamos isso de tal maneira presente ao nosso espírito e à nossa mão que em todas as relações humanas nós nos lembremos de fazer uma retificação. E nós nos lembremos, então, de ver as coisas como de fato são. E se não houver esse hábito, mais ou menos nós poderemos nos engajar no sentimentalismo.
Se nós não nos engajarmos no sentimentalismo, pelo menos uma outra coisa acontecerá. Nossos olhos não estão tão abertos para ver como devem, a verdade oposta. Isto que eu estou dizendo aos senhores, todos nós recebemos no subconsciente uma série de ensinamentos que nos levam a aceitar isso como eu disse. E mesmo na “geração- nova”, que está tão mais distante da época do sentimentalismo que eu, e mesmo na época dos senhores, muito disso ficou. E se a pessoa não toma o cuidado para destruir esse mito, esse mito toma conta da pessoa de um momento para outro. É pelo menos em muitas almas, o que facilmente pode acontecer.
Aqui está, portanto, uma primeira utilidade dessa série de conferências. E depois também são de uma primeira necessidade, de a gente criar um reflexo, Para habitualmente… [faltam palavras]. Reflexo é igual a movimento natural, instintivo, de associações de imagens por onde, quando se põe esse tema, a gente põe… [faltam palavras]. Então, sempre que esse tema nos passa pelo espírito, nos vir facilmente à memória o por onde isto é mentiroso. E nós absolutamente não acreditarmos nisso. Esta é a coisa…
(…)
Eu digo que isso é, sobretudo, em matéria sexual, em matéria de ação, relação com outro sexo, mas é evidente que isso pode se dar em matéria de outras relações também. Por exemplo, há um terreno onde essa relação amorosa, aliás, essa relação mítica, sem nenhuma implicação sexual, pode dar-se facilmente também, que é um modo de considerar as crianças.
Eu me lembro que numa ocasião, eu falei a esse respeito. As senhoras, sobretudo, são muito propensas a isso: “coitadinha da criancinha”. A criancinha é um “abisminho” de bondade e de inocência, que está dentro do berço, uma espécie de tesourinho do qual vai sair toda espécie de coisa boa. Razão: porque foi batizada. Então, está sendo habitada pelo Espírito Santo, e nela, embora de modo inexpresso, dormem as energias mais sacrossantas e mais ativas da vida espiritual. E, portanto, a gente pode estimar sem nenhuma arrière pensée, que se a criança morrer repentinamente, vai para o Céu. E portanto, é um anjinho que está ali.
Quão isso é verdade! Mas como essa verdade está longe de ser a única verdade que se pode dizer a respeito daquela criança. Porque, se isso é verdade, também é verdade o que disse, eu não sei que escritor, que cada geração que nasce é uma geração de bárbaros que entra no mundo. E o bárbaro é a criancinha dentro do berço. E é porque o fato do bárbaro ser batizado, ele é concebido para a vida sobrenatural, e faz um bem infinito para a alma dele. Mas não deixa de ser bárbaro, trazendo consigo todas as eventualidades da barbárie. De maneira que é preciso ver as duas coisas juntas.
Depois, a mesma coisa com um amigo. [Faltam palavras] Nós sabemos por experiência própria, quanta coisa e quão pouca coisa é o bom amigo.
A própria vida religiosa. Eu tinha lido na vida de Santa Teresa de Jesus, algo que era mais ou menos o seguinte: Santa Teresa morrendo, e algumas freiras do Carmelo mais unidas a ela, ela estava fazendo a despedida dela, achando que ela estava demorando muito na despedida e atrapalhando a boa ordem do convento, atrasando a hora do jantar, etc. É a realidade espinhosa da vida religiosa e que a gente tem que tomar como uma coisa superável, aperfeiçoável, mas muito arriscada de ficar mais ou menos por aí como em alguns aspectos. E que é o contrário do tal mito. E enquanto a gente não resiste a este mito, a gente toma, mesmo em outras coisas, uma posição completamente falsa.
E de onde vem isto? O mito vem dos erros de que eu falei, e da recusa de medir a presença do pecado original, de admitir a sua presença.
Todas essas concepções são feitas como se o pecado original não existisse. Ora, o pecado original existe.
Agora, uma outra face da questão sobre o pecado original: o pecado original é uma realidade que se mostra sob dois aspectos, ou por outra, tem comportamento em dois aspectos. Em algum dos aspectos, ele se esconde, até criar as maiores ilusões. Em outros, ele usa outro aspecto: ele se manifesta, com uma brutalidade tal, que parece justificar os piores desânimos. Então, na ilusão do irremediável, ou na ilusão daquilo que não precisa de remédio, porque está muito direito, nisso lá vai o pecado original, enganando os homens.
Quando nós olhamos para um homem, habitualmente, o achamos com cara de bom. E todo mundo costuma esconder os efeitos que o pecado original produz em si mesmo. Há uma coisa que é a educação e uma outra coisa que é a distinção, e outra coisa chamada amabilidade, que são a arte de esconder esses defeitos.
Agora, se a gente a toda hora não está vencendo a miragem e a visão falsa que o pecado original produz em nós, o pecado original do outro, e não estar vendo a realidade a respeito do outro, nós acabamos com uma noção boba a respeito da vida, que poderá não ser já a noção sentimental, mas é a pista de vôo para essa noção sentimental, mas que em todo caso, é uma noção boba, é uma noção desprevenida e que não nos fará compreender nunca a realidade profunda dos fatos.
Porque, como o pecado original, na sua luta com a graça, é a substância da vida e da História, quando vemos as pessoas à la bobo, e não vemos nem o pecado original, nem a graça, nós vemos a natureza num aspecto como ela se apresenta, deformado, o resultado é que nós ficamos com uma noção “bobória”.
E então, não compreendemos a RCR, não compreender todo o problema em que nossa vocação está ligada, porque nós não sabemos ver na dimensão mais próxima. E essa dimensão próxima de nós, é a natureza decaída, a graça, e o demônio. E esses três fatores, constantemente agindo, e sabendo ver isso nos outros, como sabendo ver em nós mesmos.
Quer dizer, também aqui é deixar uma atitude de repouso, e de “nonchalance”. Ora, a grande maioria das pessoas, tem dos outros com quem convive essa visão. E uma visão “bobória” e superficial. Com pequenos aprofundamentos, na medida em que reações de interesse próprio surgirem. Só. Não vai além disso. E o hábito de não aprofundar os outros, de formar impressões imprecisas e de viver na base dessas impressões. Quem tem esse hábito, acaba não podendo, de fato, entrar na RCR.
Pode ter um gênio teórico muito alto, e por causa disso pegar algo da RCR, ou pode ter um senso prático muito grande, e pegar…[ilegível]…algo ou outro da RCR, mas algo da substância real e viva da RCR, ele não pega.
Quer dizer, é preciso também criar um reflexo, por onde a gente habitualmente com os outros está considerando o pecado original, está vendo o pecado original.
Esse reflexo, como se chama? Afinal, isto aqui não é a meu ver, senão realizar aquilo em muitos tratados de vida espiritual, se chama a oração contínua. Um dos elementos do fazer continuamente oração, é estar com a vista sobrenatural a respeito de tudo aquilo que a gente…[falta uma palavra]…, tudo aquilo que se passa dentro da gente. E o estar com uma vista sobrenatural, é mais uma dessas fórmulas, que apenas deslocam o problema e não resolvem. Porque estar vendo uma coisa com uma vista sobrenatural, é ao ver a coisa, dizermos a realidade mais profunda, que em vista da fé, nós sabemos a respeito da coisa. Isto é que é olhar a coisa com espírito de fé. E portanto com consideração de caráter sobrenatural. Então, [ um ?] dos aspectos da visão sobrenatural de uma pessoa, não é o único aspecto da visão, mas é um dos muitos aspectos, é eu ver na pessoa, isto que a fé me ensina que existe que é o pecado original. Eu ao tratar com a pessoa, ainda que eu não tenha senso psicológico , porque eu não sou obrigado a ter senso psicológico para me salvar, e não é disso que se trata, mas eu amiúde ter em mente, que é uma pessoa concebida no pecado original. E que portanto, tem tais fraquezas, tem tais…[faltam palavras]…como eu tenho, instabilidades como eu tenho, que outro tem, e ter pelo menos senão da situação presente daquela pessoa, ao menos da condição de pessoa nascida, em estado de natureza vulnerada, pelo menos disso, uma noção comum que forma o fundo da cabeça, que forma uma noção que está na nuca. E que ilumina tudo quanto vem da cabeça para cá. Isto em última análise é uma consideração e um ponto de oração, como eu volto a dizer, não é a única, mas uma das considerações e um ponto de orações, que se possam fazer, a respeito de uma pessoa com quem a gente trate. Mas é uma consideração, que conforme a via de cada um, pode estar mais presente ou não, mas que nunca pode estar inteiramente ausente à maneira de cada um. Quer dizer, de algum modo, ela tem que estar presente. Porque do contrário, nós temos da vida em que estamos, uma visão inteiramente naturalista, ou seja, uma visão pagã.
Notem bem, o que eu estou afirmando: eu não estou afirmando o seguinte: que para chegar a esse resultado, é preciso negar o pecado original. Isso entre nós, não teria consideração. Mas, desde que a gente não se lembre que ele existe, as coisas se passam na cabeça como se ele não existisse. Porque a gente não vê, [ tem?] a presunção de que ele não existe. E é preciso portanto ter um reflexo de alma, e este reflexo de alma exatamente eu considero uma oração contínua, que consiste em ter em vista isto, quando a gente trate com as pessoas.
E eu vejo aí uma graça a pedir, que é exatamente essa graça, da continuidade das vistas sobrenaturais e da continuidade desta oração meditativa e contemplativa, enquanto a gente está tratando com os outros. De maneira tal, que nesta condição, a gente veja os outros como são, a gente considere os outros como são. E, pelo menos, a gente considere a natureza humana como é, em qualquer pessoa, ainda que não tenha dotes para interpretar aquela psicologia. Mas ao menos isso, a gente sabe fazer. De maneira tal, que seja uma posição habitual diante de nós.
E, eu digo isso, porque eu vejo no que estou dizendo, algo até de alentador, de confortador, eu digo isso para o seguinte efeito: a gente compreender que isto não é tanto o resultado de aplicação de espírito, de métodos psicológicos ou de métodos…[faltam, palavras]…mas é uma graça para eu pedir. E que pedida essa graça, a gente a pode receber, e recebendo-a, a gente pode agir, de acordo com ela. E o problema se desloca sobretudo para o capítulo do pedir. Mas o capítulo do pedir, nós também devemos ver o que é pedir. Pedir, não é apenas, formular a Deus o pedido. Eu ousaria quase dizer, que pedir não é sobretudo formular a Deus o pedido, mas pedir, é o desejar.
Há muitíssimas coisas que nós desejamos em nossa alma, e que nós não pedimos. Mas são desejos suscitados pela graça, aos quais nós aderimos de toda alma, que Deus conhece e que Ele toma como pedidos. Seria portanto o caso aqui, era de desejar. Era de fazer, pelo menos aqui, terminada a reunião, um ato de desejo pelo qual nós orientamos, nós tornamos presente a Nossa Senhora, quanto pelo menos desejamos o desejo, de que Ela nos dê isso. E quanto sabemos quanto tudo isso facilitará as formas de contemplação inerentes à nossa vocação e que são na linha RCR.
De maneira que, eu concluo nesta linha: é exatamente o desejo, quer dizer, a apetência de ter, a apetência de receber formulada de vez em quando, à maneira de uma súplica, mas que , esta sim, nós devemos ter. E esta apetência, ela por sua vez, não deve ser uma veleidade, mas deve ser uma apetência carregada de esperança.
Se nós desejamos isso, foi o Espírito Santo que nos pôs esse desejo na alma. E se Ele pôs, Ele não pôs em nossa alma desejos vãos. E o próprio desejo que começa a nascer em nossa alma, é uma promessa de que Ele dará. Quer dizer, nós devemos desejar, com esperança, com alegria, E não com desânimo, com essa alegria de que seremos atendidos, de que seremos ouvidos. Porque, mais cedo ou mais tarde, aquele que pede, obtém, e aquele que bate, a porta acabará se abrindo. De maneira que eu queria que isso terminasse nessa espécie de desejo alegre, de desejo jubiloso.
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1 Estava como “Reunião de Sábado à tarde” Normal. Nos Sábados à tarde eram realizadas reuniões para os membros do Grupo da Rua Martim Francisco, na Sala dos fundos da mesma sede; e, no domingo, para os membros da Pará, na Sede do Reino de Maria, da rua Pará.
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