Santo
do Dia – 24/5/1965 – p.
Santo do Dia — 24/5/1965 — 2ª-feira
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Festa de Nossa Senhora Auxiliadora, padroeira dos Salesianos; vitoriosa em Lepanto, esquecem-nA e chegam até a devolver o estandarte capturado dos turcos; prosseguem comentários sobre a Salve Rainha; missão advocatícia, olhar de Nossa Senhora, badalar de sinos; devido as brutalidades da Revolução, as gerações atuais têm dificuldade com a misericórdia.
* Nossa Senhora Auxiliadora, padroeira dos salesianos. Esquecimento * Devolvem o estandarte de Lepanto * Continuação do comentário da Salve Rainha * Papel da expressão “eia pois” * Missão do advogado não é julgar, mas defender * O olhar de Nossa Senhora * No final um badalar de sinos * As gerações modernas têm dificuldade com a misericórdia * Acréscimos à biblioteca
Salve Rainha II
Hoje é a festa de Nossa Senhora Auxílio dos Cristãos. Essa invocação foi introduzida na Ladainha Lauretana por São Pio V, em comemoração da vitória alcançada contra os turcos, em Lepanto. A festa foi instituída por Pio VII, quando voltou a Roma, depois de ter sido feito prisioneiro por Napoleão. Estamos também na novena de Nossa Senhora Rainha. Amanhã temos outra grande festa, que é a de São Gregório VII, Papa e Confessor. Nosso comentário deve cingir-se à festa de Nossa Senhora, Auxílio dos Cristãos.
* Nossa Senhora Auxiliadora, padroeira dos salesianos. Esquecimento
O primeiro comentário a fazer, é um comentário de tristeza: Estive hoje no Coração de Jesus. Os senhores sabem que Nossa Senhora Auxiliadora é a padroeira dos salesianos, como, por exemplo, Nossa Senhora do Bom Conselho é a padroeira dos jesuítas, ou como Nossa Senhora da Salete é dos claretianos. Pois no Coração de Jesus parece que não houve absolutamente nada além de um dia comum. A única coisa que notei foi a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora um pouco mais iluminada. É mais como uma injúria formal feita a Nossa Senhora. É como numa casa de família, intencionalmente, não há festa da mãe da família. Antigamente, havia benção de Nossa Senhora Auxiliadora todo dia 24 do mês. Era uma tradição de D. Bosco. Era uma benção instituída por ele. Havia missa festiva etc. Todo dia 24, era especialmente assinalado. E, agora, o dia 24 de maio passa dessa forma…
* Devolvem o estandarte de Lepanto
Se os senhores tomam em consideração que o estandarte de Lepanto foi devolvido, os senhores vêem o que resta dessa invocação. Resta a glória de Nossa Senhora e a veneração que os fiéis prestam a ela apesar de tudo. Mas da parte das honras oficiais, o que resta?
É uma coisa que não pode deixar de não só nos entristecer, porque a palavra entristecer designaria uma parte apenas dos sentimentos, mais ainda, verdadeiramente, indignar. Porque, realmente, quando a coisa chega a esse grau de ultraje a Nossa Senhora, não se tem mais nada a esperar a não ser castigo. E esse comentário precisa ficar.
Lembro aos senhores que Nossa Senhora Auxiliadora é a imagem que está em nossa capela, e que será objeto de nossa veneração especial agora, terminando essa ato, no hall de entrada.
* Continuação do comentário da Salve Rainha
Termino, então a parte final da Salve Rainha. A primeira parte, como já disse, era uma introdução, depois, uma descrição de nossa situação; filhos degredados de Eva, gemendo e chorando nesse vale de lágrimas. Depois, vem a súplica: “Eia, pois, advogada nossa, esse vossos olhos misericordiosos a nós volvei. E deste desterro, mostrai-nos a Jesus, bendito fruto do Vosso ventre. Ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria”. Depois, uma espécie de jaculatória, um tanto separada, que já não está no corpo da Salve Rainha: “Rogai por nós, santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo”.
* Papel da expressão “eia pois”
“Eia, pois, advogada nossa”. Qual o papel da palavra “eia”?
Por que São Bernardo, construindo essa oração, colocou essa expressão “eia pois”? O “eia” é um pouco mais forte do que “eis”. Chama a atenção com uma certa violência. Isto para mostrar como toda oração é uma coisa raciocinada. Devemos ver aqui o intuito de fazer uma coisa lógica, que tenha estrutura, que tenha substância e pensamento.
* Missão do advogado não é julgar, mas defender
Se Vós sois tudo isso e nós somos só isso, “eia, pois [as invocações], advogada nossa”. Essa expressão de Nossa Senhora como advogada pinta muito bem o papel do Reino de Maria. O Reino de Maria não é o do nosso juiz que está governando, mas é da nossa Advogada, isto é, d’Aquela que não tem por missão julgar-nos, mas que tem por missão defender nossa causa; tem por nós toda espécie de parti pris, toda espécie de atitude pré-concebida favorável, e que pode tudo. O réu, por pior que seja, aproxima-se de seu advogado com confiança, porque sabe que a posição do advogado não é de julgar, mas de defender. Então, chamando Nossa Senhora de advogada, São Bernardo quis que tivéssemos bem em vista tudo quanto representa a acessibilidade, a afabilidade, a bondade de Nossa Senhora em relação a nós.
* O olhar de Nossa Senhora
“Os vossos olhos misericordiosos a nós volvei”. Isso de falar dos olhos misericordiosos de Nossa Senhora lembra o olhar de Nosso Senhor a São Pedro. Foi uma recriminação, mas de misericórdia, que converteu a São Pedro. Nossa Senhora tem olhos de misericórdia e um olhar de Nossa Senhora pode salvar-nos. Mas aqui, propriamente não está pedido esse olhar, o sentido é um pouco diferente. Quer dizer: olhai a miséria de nossa situação, atendei a penúria em que estamos. Tende pena de nós, Vós que sois nossa advogada. Vemos que é uma coisa altamente lógica, mas patética, indicando a mais alta aflição, para que a Salve Rainha fosse oração das almas aflitas.
“A nós volvei”. Por que esse “volvei”? Isso supõe que os olhos de Nossa Senhora não estão volvidos para nós? Os olhos de Nossa Senhora estão voltados para os que a chamam. É preciso pedirmos, invocarmos, insistirmos, para que os olhos dela se voltem para nós. Então, é esse o efeito da oração. Insistentemente pedir para que ela olhe para nós.
“E depois desse desterro, mostrai-nos a Jesus, bendito fruto do vosso ventre”. Quer dizer, depois do desterro, dai-nos a glória que queremos, isto é, a salvação eterna. Dai-nos a alegria de ver Jesus e dEle nos ver.
* No final um badalar de sinos
E a oração termina com uma coisa que parece um badalar de sinos: “ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria”. Depois de insistir nessa idéia “misericordiosa, misericordiosa, misericordiosa”, as idéias quase que se equivalem, são vários modos de dizer a mesma coisa. Vós sóis clemente, vós sóis piedosa, clemente e piedoso o que são? Uma coisa dá mais ou menos na outra. “Ó sempre doce Virgem Maria”. Por que esse “sempre doce”? Porque Nossa Senhora, mesmo quando tem razão de estar desgostosa, ela é doce. É doce para conosco em todas as circunstâncias e ocasiões. E essa confiança nessa doçura invariável, nesse perdão perpétuo que nos é dado em todos os casos e em todas as circunstâncias, esse é o pensamento que essas considerações mais inculcam na alma: “o clemens, o pia, o dulcis Virgo Maria”.
Depois, “rogai por nós, santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo”. É o que sempre se pede à Mãe de Deus.
* As gerações modernas têm dificuldade com a misericórdia
Termina aqui o comentário da Salve Rainha, e os senhores vêem aí um elemento em que insisto muito: a alma moderna, muito atribulada, tratada com muita rudeza pela atual tirania do demônio, tem uma certa dificuldade em se capacitar do que é a misericórdia. Tanto mais que a “heresia branca” explora a idéia de misericórdia de um modo idiota e adocicado, apresentando a misericórdia como uma espécie de cumplicidade com o erro. A misericórdia não consiste em ter uma condescendência vil para quem está errado, a não ser no sentido de que lhe pode dar meios de sair do erro. É um convite para sair do erro, do pecado e do mal. E nesse sentido é que a misericórdia é misericórdia. E nesse sentido a misericórdia de Nossa Senhora é sem palavras.
E devemos, em nossas orações de hoje, pedir a Nossa Senhora uma graça: em todas as aflições, dificuldades de nossa vida, que ela nos dê a graça de nunca duvidarmos do auxílio que ela nos vai dar. Segunda graça: que ela nos faça o favor de alcançar que obtenhamos para aqueles que desejamos que tenham a graça, de comunicar também [essa misericórdia]. E sermos apóstolos dessa confiança, dessa certeza da bondade de Nossa Senhora, verdadeiramente inabalável. Essas seriam as duas graça que eu sugiro que se peçam hoje.
* Acréscimos à biblioteca
Mudando de assunto: a biblioteca recebeu, de compra do senhor… [faltam palavras] …de Petrópolis, dois livros de edição portuguesa, muito interessante: um sobre os segredos da Bastilha, extraídos de seus arquivos, de Funck Brentano. É um livro que tem alguma coisa de “fassura”, mas é muito interessante, mostrando que a revolução fez do castelo da Bastilha uma espécie de cavalo de batalha, mas que a Bastilha estava longe de ser a coisa horrível que dizem. Sugiro que os que têm interesse no assunto, retirem o livro, depois de falarem devidamente com o Gustavo e o Arnaldo.
Também um livro muito interessante é a tradução em espanhola da edição francesa de “La Revolution Française”, de Pierre Gaxotte. Também tem algumas “fassuradas”, mas diz muita coisa interessante.
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