Santo
do Dia – 3/5/1965 – p.
Santo do Dia — 3/5/1965 — 2ª-feira
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Invenção da Santa Cruz; objeto de infâmia adquire glória divina; Jesus Cristo, glórias e cruzes; também do ponto de vista humano é incomparável; marca de homens providenciais: glória e cruz; não repudiemos nossa vocação.
* Glorificação da Cruz * Declínio da popularidade e Cruz * Glória da ressurreição * Glória humana incomparável * Glória celeste, glória eterna * Lição para nós: glória e cruz de pessoas e instituições providenciais * Missão singularíssima * Não aviltemos esse dom imenso que nos foi dado
Invenção da Santa Cruz
* Glorificação da Cruz
Hoje é a festa da Invenção da Santa Cruz. Uma vez que se trata da Cruz e que dela já temos falando sob tantos aspectos, gostaria de tratar de um aspecto, não mais da tristeza da Cruz, mas da glorificação da Cruz. Isto para chegar a um ponto que eu tenho em vista especialmente.
Quando se considera a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, vemos que é uma vida muito humilde, muito mortificada; levava uma vida apagada, perto dos pobres, vivia junto às pessoas de segunda categoria etc., e era uma espécie de pregador popular, se podemos usar essa expressão.
Ora, ao mesmo tempo que se nota isso, em todos os fatos de sua vida há uma espécie de glória e de glória triunfal; e quando se começa a ver desde o Seu nascimento até os primórdios de sua vida pública, notamos que há um contraste entre a Cruz e tudo isso. Ele nasce, os Anjos cantam sobre Ele, sobre Belém, e os magos vêm adorá-lo; depois há um grande silêncio sobre Ele. Não se ouve falar sobre Ele a não ser nos começos da vida pública. Mas a vida pública é feita, é assinalada logo no começo por milagres estrondosos.
E, de milagre em milagre, de doutrinação em doutrinação, há alguma coisa em sua vida que é uma espécie de… [falta palavra] …e que parece aproximar-se de um triunfo. Depois, quando esse triunfo parece iminente, depois do primeiro ano de vida pública, e sua glória O firma como um verdadeiro triunfador, os comentadores assinalam que há uma espécie de declínio contrário ao triunfo que se esperava.
* Declínio da popularidade e Cruz
A popularidade afasta-se d’Ele, e daquelas multidões que Ele atraíra a si e que O seguiam, começam a restar apenas discípulos. Mas discípulos dos quais alguns vão se tornando mais fervorosos e outros vão fugindo. De maneira que o núcleo que fica com Ele, ao mesmo tempo que vai progredindo diminui de número.
No fim, a glória de Nosso Senhor conduz-se a uma verdadeira catástrofe: até os discípulos fogem, Ele vai sozinho para a Cruz. Ele é morto na Cruz e a cruz representa a infâmia das infâmias, d’Ele. Sabemos que a cruz naquele tempo era o modo corrente e comum pelo qual se matavam os criminosos. Temos, então, a Cruz d’Ele representando uma espécie de catástrofe.
* Glória da ressurreição
Depois que é pregado na Cruz, morre, ressuscita e novamente volta a uma grande glória. É a glória da Ressurreição, a glória da Ascensão. Sobe aos Céus e é proclamado Rei da glória por todas as multidões. É aquela glória que começa na Ascensão, firma-se em Pentecostes e no firmamento da Igreja, Nosso Senhor Jesus Cristo está definitivamente como Rei da glória.
* Glória humana incomparável
Apesar de lutas contra Ele, a partir desse tempo uma série de triunfos que, humanamente falando, podem reduzir-se à seguinte concepção: em última análise nunca houve um homem — para falar apenas em termos de homem — que tivesse de longe uma glória que de longe parecesse com a glória d’Ele. Quem é a pessoa em função da qual se divide a História em duas partes: antes e depois d’Ele? Qual a pessoa em louvor de quem se tem erguido tantos monumentos, a propósito de quem se escreveram tantos livros, por amor de quem tantas pessoas deram suas vidas; ou transportadas de entusiasmo, ou com uma perseverança fabulosa no meio de toda espécie de medos e de assaltos do instinto de conservação? Qual a pessoa por quem tantos outros trabalharam?
Enfim, se tomamos a glória dos maiores homens que têm havido na História, por exemplo, Napoleão, César, Alexandre, Carlos Magno, Constantino, São Luís etc., qual o homem que de longe tem uma glória parecida com a de Nosso Senhor Jesus Cristo?
* Glória celeste, glória eterna
Vemos que Nosso Senhor Jesus Cristo se fixa já aos olhos dos homens e até aos olhos de seus adversários, como o Rei da glória, e que essa glorificação é apenas um espelho da glorificação definitiva que Ele encontra no Céu.
Então, nós nos damos mais conta de certas impressões um tanto hesitantes e um tanto confusas que a leitura dos Evangelhos nos dá: porque quando vem aquele começo de glória da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, entendemos que não há apenas ali uma glória que lhe é dada naquele começo, mas que aquela é uma glória tão grande que é uma promessa de uma glória muito maior, de uma glória por todos os séculos, etc.
E aquilo são pingos de glória que prometem glórias maiores, mas que a todo momento são interceptadas pela Cruz, a todo momento aquilo parece que vai dar certo e cai, fracassa: cântico de Anjos, etc., trinta anos de silêncio; vida pública, etc., Cruz, morte. Depois, Ressurreição e a glória definitiva.
* Lição para nós: glória e cruz de pessoas e instituições providenciais
Qual o ensinamento que podemos tirar disso? É uma coisa curiosa, mas todos os movimentos que, de fato, são inspirados pela graça, e que são movimentos destinados a fazer uma coisa grande na humanidade, estão envoltos nessa espécie de luz e sombra de Cruz e de glória, de glória e de Cruz, que ilude muitos dos participantes desses movimentos e faz com que não compreendam bem as coisas, percam o pé, etc., e a esse respeito seria interessante dizermos algo.
Por exemplo, o movimento do Catolicismo, é um misto de Cruz e de glória; misto de fracassos, derrotas e vitórias, que vão se alternando sucessivamente e que fazem com que, sob alguns aspectos, não há nada mais pisado, nada mais enxovalhado, nada mais envergonhado do que o movimento do Catolicismo. E desde já, e no momento presente, considerada a mesma realidade sob outros aspectos, desde já não há nada de mais esplêndido, de mais glorioso do que o movimento do Catolicismo.
E esse entrelaçamento de vergonhas, de injúrias, de perseguição, de difamação e, ao mesmo tempo, de glórias, que vai nascendo, esse entrelaçamento acompanha toda nossa vida trazendo uma espécie de constante mistura de promessa de uma grande glória e de promessa de uma grande Cruz. Isto é arquitetônico porque imita exatamente a Nosso Senhor Jesus Cristo.
* Missão singularíssima
Mas precisamos entender bem de que glória se trata e de que cruz se trata. Na vocação de cada um de nós existe um fator que seria inútil e mesmo criminoso querer abafar, fator pelo qual cada um de nós — para usar uma expressão romântica, mas que no caso diz algo de verdadeiro — canta a esperança de que tenhamos a felicidade de fazer pela glória de Nossa Senhora, não algum bem, não algum pouco de bem — o que já seria uma grande coisa — mas de trabalharmos e cooperarmos para fazermos pela glória de Nossa Senhora algo de colossal, algo de imenso, algo que de fato marque a vida dos séculos e marque a luta da Contra-Revolução contra a Revolução de um modo verdadeiramente extraordinário.
Houve um santo — se não me engano Santo Inácio de Loyola — que fez essa declaração: que se lhe fosse dado, para justificar sua vida, apenas empregar todos os esforços de sua vida para que uma alma em estado de pecado mortal deixasse de cometer um pecado mortal e depois essa alma fosse para o inferno, esse santo se daria por bem atendido e por feliz.
Isso porque tal é a injúria que um só pecado mortal traz a Deus. De maneira que, em rigor de lógica e de acordo com os dados da Igreja Católica, ainda que de nosso apostolado resultasse apenas que uma alma deixou de cometer pecado mortal, levados pelo zelo do amor de Deus deveríamos nos considerar extraordinariamente alegres por isso.
Acontece que se disséssemos que nossa vocação é só essa, nós não deixaríamos de fazer o que fazemos, mas acharíamos que algo não corresponde a uma esperança, produzida pelo bom espírito entre nós, e uma esperança, portanto, de fundo sobrenatural. Essa esperança exatamente é a de mover céus e terra, é de mover montanhas, é de participar de uma grande glória, não para nossa vantagem pessoal, mas para a glória de Nossa Senhora. De uma glória que seja como a de Carlos Magno e de seus pares; uma glória de São Luís e dos cruzados; ou dos heróis da Reconquista; ou dos chouans na Vendée; ou dos heróis carlistas dos bons tempos. Uma dessas glórias que ficam acima de toda glória humana.
* Não aviltemos esse dom imenso que nos foi dado
Nós devemos compreender que isso significa uma grande promessa de glória, como de fato nos é dada, mas é uma promessa de glória na pista de nossa vocação. E não se trata de promessa da glória fora dessa pista, porque, então, isso é uma maldição. Querer ser importante de acordo com o século, querer galgar cargos, querer ficar rico, querer ser influente, querer ser dominador, querer ser grande segundo o mundo e para as coisas do mundo, é corresponder do modo mais vil a esse convite para a glória que existe em nossa vocação. Entrar na pista do século, entrar na pista para a qual fomos chamados a sair, é entrar nessa pista para ir procurar uma glória que não nos foi prometida e dentro da qual nós nos perderemos.
Há uma outra pista, mas é essa a verdadeira pista da glória da vocação, por onde, fazendo na vocação tudo quanto ela nos pede — abstração feita de qualquer preocupação de importância fora do movimento e de importância dentro do movimento…
(…)
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