Santo
do Dia – 9/4/1965 – p.
Santo do Dia — 9/4/1965 — 6ª-feira
Nome
anterior do arquivo:
* Profecias de Simeão * Nos desígnios de Deus, por que glória e revés? * Por que revezes na vida dos bons? * Mentalidade happy end * Havido o pecado, agruras e lutas é o quinhão do homem * Mentalidade moderna ante a dor * Modus faciendi da Providência * Perspectiva da dor na vida de Nossa Senhora * Prêmio: Nossa Senhora ao pé da Cruz * Nossa Senhora aceita a Paixão para fazer a vontade do Pai * Nosso Senhor viu antes o que sofreria e aceitou * O Senhor Doutor Plinio aceita o cálice da dor * Pedirmos a apetência do gládio da dor
* Profecias de Simeão
…comentário do Evangelho que eu estava lendo. Os senhores se lembram que, ontem, fizemos o comentário a respeito da Apresentação do Menino Jesus, e que, em determinado momento, aproximou-se de Nossa Senhora um velho, o Profeta Simeão, que, a respeito do Menino Jesus e de Nossa Senhora, fez esplêndida profecia:
“Agora, Senhor, podeis deixar vosso servo partir em paz, segundo vossa palavra, porque meus olhos viram a salvação que preparastes ante a face de todos os povos, luz para iluminar as nações e glória de Israel, seu povo”.
Nossa Senhora, à vista dessa profecia, ficou ainda mais inteirada de toda a glória do Menino Divino que carregava nos braços. Depois de abençoar a Nossa Senhora, disse:
“Eis que esse Menino está posto para ruína e a ressurreição de muitos em Israel, e para ser alvo de contradição”.
Quer dizer, depois de um futuro esplêndido, ele predizia uma vida e uma luta tremenda. E, depois, prenuncia a Ela um sacrifício:
“Uma espada transpassará tua própria alma, a fim de se descobrirem os pensamentos escondidos no coração de muitos”.
Então, com trinta e três anos de antecedência, ele anuncia a Nossa Senhora não só a luta tremenda de Nosso Senhor, mas também que uma espada transpassará a alma d’Ela. Quer dizer, Ela terá um dos sofrimentos mais atrozes que uma pessoa pode ter; e ele anuncia isso com trinta e três anos de antecedência.
* Nos desígnios de Deus, por que glória e revés?
Temos aqui dois fatos a considerar, muito elucidativos para a mentalidade do homem moderno: em primeiro lugar, uma vez que Deus queria que esse Menino fosse o Rei vitorioso de que falava a profecia de Simeão, como explicar que Deus, logicamente, correntemente, sabiamente, havia de querer, ao mesmo tempo, que Ele passasse por todas essas lutas, e que essas lutas importassem, num determinado momento, em revés? Porque não se podia compreender de outro modo, essa espada de dor que atravessaria o Coração de Nossa Senhora. Não seria natural, não seria arquitetônico, não seria de acordo com a ordem das coisas estabelecida pela sabedoria de Deus, que uma vez que Deus queria que o Menino fosse o Rei de todos os povos, em todos os tempos, Rei imortal, que nada viesse atrapalhar essa carreira gloriosa? Que ela se fizesse de trabalhos em trabalhos, bonitos, sapientes, triunfais, de lutas em lutas, mas vencidas facilmente, com um olho mágico que faria tudo retroceder diante d’Ele; lutas que, no fundo, não eram lutas? E assim fazer que tudo chegasse à sua glória? Por que o mistério desse momento terrível, em que estava anunciado que um gládio atravessaria o Coração de Nossa Senhora? Como se pode compreender que Deus faça, no meio dessa trajetória, um sofrimento tão grande e uma aparente derrota? Isso não é uma coisa estranha?
* Por que revezes na vida dos bons?
O estado de espírito do homem moderno, que corresponde a isso, reflete-se, com freqüência, no modo pelo qual somos tomados, às vezes, a considerar os revezes de nossa vida espiritual e os revezes de nosso apostolado. Muitas vezes, aqui dentro, percebo dificuldades em algumas pessoas, em se explicarem a si mesmas porque vão andando bem, e, no entanto, podem ser tentadas. A idéia é essa: “Se Nossa Senhora, se Deus quer que me santifique, por que razão então devo ser tentado? Por que razão chega o fato de Nossa Senhora permitir que eu peque, que eu Lhe desagrade? Isso não é uma contradição? Se o fim é um, não é normal que tudo caminhe direitinho e coerentemente para esse fim? Como explicar que aconteçam coisas que parecem contrariar esse fim? Se Nossa Senhora quer que o Grupo de “Catolicismo” tenha uma influência mundial, como explicar que aconteçam revezes a esse Grupo? E que aqui, lá, acolá, nesse ou naquele Grupo, as coisas não corram bem? Que aqui, lá, acolá, iniciativas de nosso apostolado dêem resultado errado? Que aqui, lá se levante contra nós uma campanha infamante, que vai repercutindo por todo o Brasil? Como pode ser uma coisa dessas?”.
* Mentalidade happy end
Vê-se aí o reflexo daquela mentalidade happy end do cinema norte-americano: as coisas têm que correr direitinho, e quando não correm e há atrapalhações, são atrapalhações que podem ser até grossas, mas que a gente já sabe que têm que terminar direitinho, porque o homem é chamado para ser feliz nessa terra, para entender tudo quanto se passa com ele e para triunfar; e quando as coisas não acontecem assim, ele tem a sensação de que a vida humana não está em ordem. É como os heróis de um romance de fita que sofrem durante a fita, mas o expectador já sabe e tem a sensação de que eles também já sabem que tudo vai terminar à beira de um lago, olhando-se amorosamente, andando num barquinho, os passarinhos cantando e a fita acabando; o burguês voltando porcamente para casa, satisfeito. Essa mentalidade de happy end intoxica nosso espírito, e não podemos compreender qual o modo pelo qual as obras de Deus se realizam.
* Havido o pecado, agruras e lutas é o quinhão do homem
Uma vez posto o pecado, uma vez posta a queda dos anjos, uma vez posta, depois, a queda do homem, a vida humana tem um caráter, não só de prova, mas tem um caráter de expiação e de luta. E a Providência Divina age, de acordo com sua sabedoria, permitindo, para os bons, os revezes, as doenças, as tentações, permitindo a luta com o adversário, e exigindo que o homem bom compreenda que isso lhe pode vir em ocasiões em que isso lhe pareça incompreensível; compreenda que é o normal, nessa vida, o sofrer, e é o normal que muitas coisas, de fato, não dêem bom resultado, dão resultado errado, dão resultado diferente do que se quereria. Desse resultado errado, Deus tira, para sua glória, algo de melhor e de mais brilhante do que o resultado certo que teríamos imaginado. E que, portanto, esses sofrimentos inesperados e essas provações não só são algo que o homem decaído deve sofrer, mas são coisas que correspondem também a uma punição pelos pecados que tenhamos cometido; e ainda que não seja isso, escondem uma prova de amor que Deus quer da criatura e que a criatura deve dar; uma prova de confiança cega que a criatura tem que dar, uma prova de desprendimento e de abnegação que a criatura tem que dar também, e uma coisa altamente pedagógica para a criatura, porque a criatura só vale na medida realmente em que aceita esses sofrimentos com espírito sobrenatural, e não os aceita choramingadamente. Aceita isso como o soldado vai para a luta.
* Mentalidade moderna ante a dor
Aqui compreende-se, então, o mistério que há no seguinte fato: segundo a mentalidade moderna não seria o caso de avisar Nossa Senhora, trinta e três anos antes, que Ela iria sofrer essa dor; seria o contrário, ir tapeando, ficando quieto. Mesmo na hora de Nosso Senhor ser morto, enfim, d’Ela saber da Paixão, adiar; depois contar-Lhe aos poucos, para que Ela não se assuste muito. Afinal, quando não houvesse mais remédio, Ela saberia e ainda assim haveria os calmantes.
* Modus faciendi da Providência
A ação da Providência não é essa. Com trinta e três anos de antecedência, Ela avisa Nossa Senhora, exatamente porque a previsão dessa dor já é uma tremenda dor. Nossa Senhora carregou a previsão dessa dor durante todo o tempo, e Ela viu chegando de longe. Com isso, sua Alma imaculada, concebida, criada sem pecado original, foi-se aperfeiçoando e santificando na longa previsão e aceitação da dor que deveria vir. Compreendem os senhores que, até para a Alma imaculada de Nossa Senhora, a previsão forte, corajosa, razoável, eu diria mesmo varonil, da dor que deveria vir era um elemento para uma crescente união com Deus. Nossa Senhora, desde o primeiro instante de seu Ser, teve uma excelsa união com Deus, insondável por nossas mentes; entretanto, isso foi intencionado para que Ela carregasse essa dor, durante trinta e três anos, na compreensão desse fato de que o homem nasceu para sofrer, é normal que sofra, que é preciso aceitar a dor por inteiro, antes dela vir, e que é preciso que a dor nos encontre calmos, fiéis, sobranceiros e heróicos, porque é assim que se deve ser diante da dor.
* Perspectiva da dor na vida de Nossa Senhora
Então, encontramos essa analogia entre a vida de Nosso Senhor e a vida de Nossa Senhora. A vida de Nossa Senhora foi trinta e três anos de Horto das Oliveiras, em que Ela previu isso, e no meio de alegrias inenarráveis, Ela foi vendo seu Divino Filho crescendo, preparando-Se para a vida pública, compreendendo que, na vida pública, esse gládio de dor A esperava, vendo-O sair de casa, ouvindo falar dos rumores que se criavam em torno d’Ele e do ódio que subia em torno d’Ele, de todos os lados, e compreendendo cada vez melhor do que se tratava. Era o mal que haveria de armar, contra seu Filho, o golpe mais atroz possível. E Ela que O adorava como seu Deus e seu filho, sentindo o pecado horrível que estava sendo preparado, enfrentava a coisa que haveria de vir.
* Prêmio: Nossa Senhora ao pé da Cruz
O resultado foi a hora magnífica de sua vida: Nossa Senhora, enquanto tantos homens desertaram, esteve ao pé da Cruz. Não era de duvidar que estivesse, porque estava confirmada em graça, e assim certamente estaria ao pé da Cruz, mas Ela estava como fruto dessa longa preparação, e estava de pé junto à Cruz. Quer dizer, não desmaiada, não desfalecendo, não alquebrada pelos acontecimentos, mas toda iconografia católica apresenta, em todos os séculos, apresenta Nossa Senhora muito firme, de nenhum modo alquebrada, de nenhum modo desorientada, de nenhum modo não se dominando nem se contendo, de nenhum modo desejando fugir, paixões vis que não caberiam em sua Alma, às quais se contrapunham, na ordem teórica, virtudes mais excelsas que Ela tinha elevado ao mais alto dos mais altos graus. Nunca ninguém sofreu tanto com tanto domínio dos acontecimentos, compreendendo tanto a lógica do que se passava, com tanta força, com tanta sobranceria, com tanto ódio ao mal, quanto Nossa Senhora.
* Nossa Senhora aceita a Paixão para fazer a vontade do Pai
E esse ódio ao mal, os senhores o sentem nisso: Nossa Senhora sabia que todo o mal no mundo ia ser esmagado no momento em que o seu Divino Filho expirasse. Durante todo o tempo Ela esteve na seguinte disposição: “Adoro meu Filho, mas se for preciso sacrificá-Lo para esmagar o demônio, para derrotar o poder das trevas, para liquidar aquilo que chamamos de Revolução, concordo que convém que meu próprio Filho morra. Eu O entrego, Eu, por assim dizer, O imolo. Esse gládio, Eu enfio em meu próprio Coração, mas é preciso que o demônio seja esmagado; é preciso que aquilo que hoje chamamos a Revolução seja estraçalhada por todo o sempre. Uno-me às intenções santíssimas do Padre, do Filho e do Espírito Santo, e faço esse sacrifício horroroso. Mas isto que está acontecendo, no alto da Cruz, isto Eu quero, e não deixo de querer um instante, com toda a intensidade de meu Ser”. Se isto não é espírito de combate, se isto não é espírito de luta, se isto não é disposição para arrasar o adversário, então não sei mais o que significam essas palavras. Trinta e três anos de preparação.
* Nosso Senhor viu antes o que sofreria e aceitou
O que tem isso de comum com a vida de Nosso Senhor? Para não falar da preparação remota, no Horto das Oliveiras Nosso Senhor quis meditar e ver tudo que Lhe aconteceria. E Ele começou a sentir horror e pavor do que aconteceria, e fez aquela oração: “Meu Pai, afasta de Mim esse cálice; todavia, se for possível”. Quer dizer, “se não for condição para o gênero humano não se remir, enfim, se dentro de vossos desígnios for possível derrotar o demônio sem isso. Mas se não for possível — quer dizer — se não quiserdes que, sem isso, o demônio seja derrotado, faça-se a vossa vontade e não a minha. Eu aceito todo esse sofrimento, Eu quero esse sofrimento, e quero para chegar a esse resultado”. Suprema ordem mental, suprema lógica, suprema calma, suprema generosidade, indicando qual a têmpera do varão católico ante o sofrimento e o amor ao sofrimento que se deve ter. Então, é preciso entender bem.
* O Senhor Doutor Plinio aceita o cálice da dor
[O Grupo de] Catolicismo tem, muitas vezes, em sua luta, aspectos triunfais, aspectos triunfais de existência, no meio de toda a guerra que lhe movem. Mas nós precisamos nos compenetrar bem do seguinte: o normal, na luta tremenda que estamos tendo, é que virão vários momentos em que um gládio de dor vai transpassar a alma de cada um de nós. E que assim como já aconteceu no passado, o [Grupo de] Catolicismo possa parecer derrotado, desorientado, possa parecer abandonado pela Providência. O salmo que Nosso Senhor recitou, no alto da Cruz, foi esse: “Deus, Deus meu, porque me abandonaste?”. Nós temos que nos colocar diante dessa perspectiva: essas são as coisas que podem acontecer, nossa luta não será sempre uma parada de vitórias; nós não vamos ter sempre os jornais-falados que acabam sempre, uns pelos outros, sendo triunfais. Nós não seríamos dignos, nem d’Ele nem d’Ela, se isto fosse assim. Temos que ter diante dos olhos sempre a idéia de que um gládio de dor atravessará, em determinado momento, o [Grupo de] Catolicismo, e atravessará a alma de todos aqueles que forem fiéis ao [Grupo de] Catolicismo.
* Pedirmos a apetência do gládio da dor
Esse gládio de dor devemos pedir a Nossa Senhora; que nos alcance a graça — que, sob determinado ponto de vista, não temo chamar de graça suprema —, a graça suprema de o desejarmos, de o amarmos e de, desde logo, prepararmos nossa vida para essa hora. Porque assim como a hora do gládio foi a grande hora da vida de Nossa Senhora, foi a hora da fidelidade, junto com a hora da Encarnação, assim também podemos dizer que não foi somente a hora da vocação que foi a grande hora de nossa vida, mas vai ser a hora da perseverança, e a hora da perseverança vai ser a hora do gládio. Tivéssemos nós um gládio que, com maior furor guerreiro e de um modo mais terrível, representasse, ao mesmo tempo, o gládio de dor que tem que transpassar nossa alma, e o gládio da luta contra nossos adversários, e eu o poria em nossa capela, em sua porta. Nessa porta há um gládio que, de modo físico, é elegante, é tradicional, porque era da guarda pessoal do rei católico Afonso XIII, mas que não diz isso. Mas é a visão desse gládio, a resignação a esse gládio, mais ainda, uma sadia e equilibrada apetência desse gládio que deve nos caracterizar.
Conta-se que Nosso Senhor, quando recebeu a Cruz às costas, chorou, abraçou a Cruz e a beijou com muito carinho, porque desde sempre a desejara. Oxalá que, na hora de nosso gládio, possamos também chorar varonilmente de emoção, beijar esse gládio com muito carinho e dizer que desde sempre o desejamos. É o pedido do amor a esse gládio que devemos apresentar a Nossa Senhora nessa festa de Nossa Senhora das Dores.
*_*_*_*_*