Santo
do Dia –06/04/65 – 3ª feira .
Santo do Dia —06/04/65 — 3ª feira
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Na apologética dos milagres, o Senhor Doutor Plinio se pergunta porque esse poder ainda não lhe foi dado e sustenta que o poder de fulminar e matar é maior que o de curar! * É preciso compreender e corresponder plenamente a graça do ultramontanismo para entender o que a Providência pede especialmente de nossa vocação * Excelência da virtude da fé e visão arquitetônica da doutrina católica * A graça do Thau é tão excepcional que em nossa via não precisamos do milagre * “O grande milagre entre nós é a própria existência do Grupo * O Profeta de Nossa Senhora opera com a geração‑nova um milagre na ordem moral mais espetacular do que fazer um perneta marchar com passo de ganço, que deixa pasmos os adversários! * Duas perguntas fundamentais: como serão os milagres no auge da Bagarre e do que adiantam os prodígios sem o milagre moral de uma conversão interior total? * A explicação de nossa vida até aqui sem milagres à luz da escravidão marial montfortiana e a graça da primogenitura
* Na apologética dos milagres, o Senhor Doutor Plinio se pergunta porque esse poder ainda não lhe foi dado e sustenta que o poder de fulminar e matar é maior que o de curar!
Santo Afraates, confessor. Dele diz o Martirológio o seguinte: era anacoreta e a poder de milagres defendeu a fé católica contra os arianos. Século IV.
Quais teriam sido esses milagres? Em que episódios isso se teria realizado? Que efeitos teriam conseguido junto aos arianos? É uma coisa que não sei e que lamento muito não saber. É uma coisa curiosa vermos um santo que tem essa forma especial de apologética, que são os milagres.
Mas isto nos poderia conduzir a uma pergunta, que me parece importante: por que motivo é que, contra os modernistas de hoje, contra os hereges de hoje, Nossa Senhora não nos dá o poder de fazer milagres? Porque se há um poder que não temos é o de operar curas miraculosas, é o poder de fazer com que um monte salte como um cabrito, segundo as palavras da Escritura. O poder de fulminar e de matar, muito mais precioso que o de curar.
Os senhores encontram santos que, em nossos dias quase, tiveram esse poder: Santo Antônio Maria Claret, por exemplo, durante uma pregação declarou: o demônio agora vai manifestar sua cólera. E houve tais estouros pelo campanário e pelo sótão da Igreja que as senhoras saíram correndo.
Na vida desse santo em Cuba, e depois na Espanha, os milagres pululam.
Na vida de D. Bosco, os milagres pululam. Em nossas pobres vidas, na obra do Catolicismo, mais ainda na vida dos escritores ultramontanos, se há uma coisa que não se encontra são os milagres. Poderíamos nos perguntar porque isso.
A primeira resposta seria muito simples: afinal de contas, não há santos entre nós; não correspondemos convenientemente à graça, mas se correspondêssemos, praticaríamos milagres; e se praticássemos milagres, converteríamos muita gente ao ultramontanismo.
* É preciso compreender e corresponder plenamente a graça do ultramontanismo para entender o que a Providência pede especialmente de nossa vocação
Mas, confesso que essa explicação me parece superficial. E isso pela razão seguinte: se é verdade que a prática de milagres é normal na vida dos santos, não é uma condição para que um santo prove ser santo, que ele pratique milagres. São Francisco de Sales, por exemplo, não consta que tenha feito um milagre em sua vida. E foi um grande santo. Por outro lado, pode haver pessoas com o carisma dos milagres, e que, entretanto, não são santos.
Os próprios apóstolos, na existência terrena de Nosso Senhor, praticaram milagres e, entretanto, o procedimento deles no Horto das Oliveiras e no que lhe seguiu, foi muito característico.
Essas coisas não se identificam dessa maneira. E não é uma resposta baseada apenas na nossa infelizmente real não correspondência à graça que será suficiente. Creio que devemos ver a coisa em sentido inverso.
A graça específica que o ultramontano recebe é uma graça especial por onde ele, embora de modo subconsciente, não nítido nem definido, tem uma estrutura de espírito que corresponde a certos princípios metafísicos que ele não conhece, mas que ele possui, e que lhe dão a possibilidade de ver que a Igreja Católica Apostólica Romana é a Igreja verdadeira, e que a ordem civil e temporal baseada sobre a doutrina da Igreja é a ordem civil e temporal verdadeira. De maneira tal que o ultramontano, mais do que qualquer outro não só discerne com facilidade a verdadeira fé e vê bem o mal que há na heresia e a nitidez do marco separador que existe entre a fé e a heresia, mas pelo mesmo fato de que ele tem os princípios por onde com facilidade se discerne a fé verdadeira, por esse mesmo fato ele tem a facilidade de perceber, na fé verdadeira, quais são seus aspectos mais determinantes, mais marcantes, mais autênticos.
É uma graça que não é recusada a ninguém, é uma graça que tem, naturalmente, seu suporte numa aceitação da vontade, porque nenhuma graça atua sobre o homem, a não ser com a aceitação da vontade — “aquele que te criou sem ti, não se salvará sem tua colaboração” — mas não deixa de ser verdade que é uma graça tal que, com muita facilidade possuímos o dom inestimável da fé. E esse dom, em sua integridade e, inclusive, em duas de suas pontas mais finas, que são o senso católico e o espírito de fé.
* Excelência da virtude da fé e visão arquitetônica da doutrina católica
O que é o senso católico? É uma excelência da virtude da fé por onde nós, com toda facilidade, conhecemos a religião católica não de um modo chato, plano, raso, mas a conhecemos em suas correlações, em seus relevos, na sua topografia, nas importâncias respectivas das várias teses, enfim, conhecemos a doutrina católica como uma imensa arquitetura em que cada parte tem seu valor, sua função e sua correlação com todo o resto.
E o espírito de fé é aquela excelência, aquela energia da fé por onde, quando se dão as circunstâncias concretas, a gente compara as circunstâncias concretas à luz da fé e age com firmeza, à luz dos princípios da fé, sem tomar em consideração os princípios da natureza apenas.
A virtude da confiança, de que tanto se fala entre nós, por exemplo, é um fruto do espírito de fé. A pessoa é capaz de agir contra as regras da natureza, contra as regras da sabedoria natural, fazendo coisas que seriam reprováveis e imprudentes se Deus não existe, mas que dada toda a nossa vocação, que dado todo o esquema das graças especiais que recebemos, é normal que façamos confiando em Deus.
* A graça do Thau é tão excepcional que em nossa via não precisamos do milagre
Temos, então, que essas virtudes nos dão uma tal clareza de qual é a verdadeira religião, que não precisamos do milagre. E o milagre, para nossa santificação, não é necessário. Os senhores dirão que isso explica a coisa ad intra, explica‑a para o Catolicismo. Mas não explica para os de fora.
E não seria uma via mais nobre e mais bela para nós a via dos milagres? Não seria mais bela a via dos milagres do que a vida da fé? E eu me lembro, então, de uma frase de Nosso Senhor para São Tomé: “Tomé, tu creste porque viste. Bem‑aventurados aqueles que não viram e creram”.
Bem‑aventurados são aqueles que tem uma fé tal que não precisam dos milagres e que Nosso Senhor leva por uma via que não é a dos milagres. É uma via que vai pela fé. É uma via que vai pelas obscuridades, mas também pelas clarezas da fé. Não tem o espetacular do milagre. Os senhores podem imaginar o que foi o jornal falado dos apóstolos contando que Lázaro tinha ressuscitado?
* “O grande milagre entre nós é a própria existência do Grupo do Catolicismo”
Reunindo os discípulos diriam que o Mestre dera o … que eles estavam esperando: o Mestre ressuscitara um morto. É um golpe de teatro. Essa não é a verdadeira via dos bem‑aventurados. Essa via dos bem‑aventurados é a via da fé, daqueles que não precisam de coisas espetaculares para crer, que não precisam de coisas espetaculares para entender, mas que na luz da fé, humildemente professado, amparados pelo senso católico, pelo espírito católico e pelo espírito de fé, são capazes de todas as certezas sem milagres nem maravilhas.
E são capazes de compreender então, e por causa disso, o nosso grande milagre. E qual é esse grande milagre? É o próprio grupo do Catolicismo.
Os senhores viram isto com o testemunho do Dr. …, e de todos os visitantes que nos conhecem, mesmo quando não participam de nossas idéias, como o príncipe de …. Eles ficam aqui meio confundidos, pasmos com algo que lhes parece irrealizável nos dias de hoje e que, entretanto, se realiza.
* O Profeta de Nossa Senhora opera com a geração‑nova um milagre na ordem moral mais espetacular do que fazer um perneta marchar com passo de ganço, que deixa pasmos os adversários!
E esse milagre moral que se realiza contra todas as condições de realizabilidade prova a existência de uma graça especial,que é um milagre permanente.
Permitam‑me que eu diga, com o afeto e respeito que tenho aos da geração nova: há, sobretudo, uma circunstância que torna esse milagre patente. Os senhores conhecem o passo de ganso da parada do soldado alemão. Não é milagre pegar uns teutônicos e fazê‑los andar assim na época do kaiser, belle époque, da segurança, dos bons nervos, da alegria de viver etc., etc.
Mas fazer isso com um exército de pernetas, isto já é uma coisa muito mais delicada e complexa. Ora, que Nossa Senhora consiga de tanta gente capenga, de tanta gente nervosa, de tanta gente não só geração nova, mas até geração novíssima, algo que as gerações não capengas não fizeram, isto é o evidentemente superar as deficiências da natureza pela superabundância da graça, em que Nossa Senhora, verdadeiramente se glorifica: aqueles que podiam, não quiseram.
Está bem: farão aqueles que não poderiam. Pega quem não é capaz, porque não tem estrutura psíquica, não tem distância psíquica, não tem consistência nervosa para enfrentar determinadas coisas, e compele a entrar, como no banquete do rei. Faz entrar, não só para a eucaristia — porque os senhores todos foram chamados a uma grande freqüentação da mesa eucarística — mas para o apostolado e para a causa de Nossa Senhora.
E é com esses coxos, com esses cegos, com esses surdos‑mudos, etc., que Nossa Senhora faz a organização que todos julgariam irrealizável. Há nisso algo de milagre permanente, que é dos tais milagres morais, que não dão uma demonstração apologética da fé como, de repente, fazer crescer um braço num homem que não o tem, mas que, para quem tem fé, confirma a fé.
Não adianta de nada para quem não tem fé, mas confirma a fé para quem já a tem, porque sabem perceber, à luz da fé, a presença da graça. Então, não seria normal que, a isso tudo, se acrescentasse ainda os grandes milagres como os do santo cuja festa estamos celebrando hoje.
* Duas perguntas fundamentais: como serão os milagres no auge da Bagarre e do que adiantam os prodígios sem o milagre moral de uma conversão interior total?
Os senhores dirão: e para fora? não converteríamos muito mais gente se tivéssemos o dom de fazer milagres? Eu pergunto de que adiantava esse dom de fazer milagres, se não fosse o dom de um milagre moral especial? Toma‑se um homem que não acredita em Deus e pratica um milagre em frente dele. Ele conclui que Deus existe mas continua com a mesma mentalidade de antes, continua revolucionário.
Ganhou‑se muito com isso? Que papel esse milagre representaria nisso?
Milagres os senhores os vão ver, mas não serão praticados por nós; os senhores serão testemunhas deles. Quando a Bagarre chegar em seu auge, quando os senhores presenciarem as catadupas de castigos que o Céu vai deitar sobre a terra, quando os senhores compreenderem que, arquitetonicamente falando, está havendo uma prefigura do fim do mundo, e os senhores virem a convulsão da natureza exprimir de modo inesperado, único e insuponível [?], a cólera insuponível [?] de Deus três vezes santo e, por isso, severíssimo em relação à humanidade contemporânea, aí então verão o que é milagre.
Mas esse milagre será presenciado por nós e não feito por nós.
* A explicação de nossa vida até aqui sem milagres à luz da escravidão marial montfortiana e a graça da primogenitura
Temos aqui uma explicação do que é nossa vida. A nossa via não é a da fé baseada nos milagres, mas da fé tão forte que é ela mesma um milagre. E essa é uma graça dos devotos de Nossa Senhora. Nossa Senhora obtém especialmente essa graça para seus devotos. São Luiz Maria Grignion de Montfort desenvolve longamente aquela comparação, ou paralelo, entre Esaú e Jacó.
E Jacó, que era o que tinha todas as graças do espírito, estava continuamente junto de sua mãe; era uma pessoa de natureza temperada, comedida, equilibrada e fiel, e que queria estar constantemente junto de sua mãe. Com isso ele obteve tudo.
Em relação ao homem moderno, que é um verdadeiro Esaú, nós somos Jacó, mais débeis na aparência, mais fracos na aparência, valendo menos, mas nunca largando de nossa Mãe, de maneira que sobre nós desce, com plenitude, a primogenitura.
E essa primogenitura nos alcança, antes de tudo, a melhor das primogenituras, que é uma excelência na fé, uma humildade particular no crer, uma adesão especial em crer, que faz do dom da fé, especialmente para nós, o que ele é para todo católico: o verdadeiro fundamento e raiz da vida espiritual e a bênção das bênçãos de Nossa Senhora. A fé é a castidade da alma, como a castidade é uma espécie de projeção da fé no corpo. Aí temos, então, a noção fundamental da R‑CR rapidamente evocada.
* O que pedir a Santo Afraates para nos extirpar as más raízes
Devemos pedir a Santo Afraates, que nos obtenha a graça de nós podermos crer continuamente e cada vez mais sem milagres e que esse seja um milagre a mais realizado por ele: dar um intenso espírito de fé, a nós, filhos do século XX, que carregamos tantas raízes péssimas em nós no sentido contrário.
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