Santo do Dia (––- Segunda datilografia, sem conferição final ––-) – 05/04/65 – 2ª feira – p. 7 de 7

Santo do Dia — 05/04/65 — 2ª feira

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A chegada de novas relíquias leva nosso Pai e Fundador a tecer comentários sobre seu culto * Impregnação, ação, e presença, e fundamentação do culto às relíquias ilustrada com exemplos históricos e considerações sobre as circunstâncias nobilitantes das mesmas * Tradição, culto às relíquias e ressurreição final * No culto a uma relíquia temos a inefável graça de possuirmos a “garantia da presença do Santo, de que ele está de algum modo presente e quase poderíamos arrancar as graças dele” * Junto com a veneração, os cuidados que devemos ter no cultuar as relíquias * O Senhor Doutor Plinio acha que na morte do Dr. Ablas a Providência quis um holocausto para o sucesso da RA-QC * Atualidade do papel das santas descomposturas * Qual é a hora exata da intervenção da Providência? Uma definição de um ultramontano célebre elogiada e assumida pelo Profeta de Nossa Senhora

* A chegada de novas relíquias leva nosso Pai e Fundador a tecer comentários sobre seu culto

Na verdade, alguma coisa valeria a pena dizer sobre as relíquias, porque, se bem que tenhamos algumas excelentes na capela, também não deixa de ser verdade que a aquisição, a vinda das novas relíquias para cá etc., nem sempre foi recebida com o fervor e o entusiasmo que mereciam. Digo a verdade, entusiasmo propositadamente, porque uma relíquia merece um verdadeiro entusiasmo; é uma grande graça ter uma relíquia e ela é, em si mesma, uma grande coisa. E por quê razão?

A palavra relíquia vem do latim “relingue” (?), quer dizer, deixar. As relíquias foram as coisas que foram deixadas. Nesse sentido, a relíquia de um santo foi aquilo que o santo deixou.

Como os senhores sabem, a Igreja faz uma distinção entre duas espécies de relíquias: as diretas e as indiretas. A relíquia direta é aquela que tirada do corpo, dos ossos, ou das cinzas de um mártir ou de um santo. Essa relíquia é dita direta porque é diretamente dele.

A relíquia indireta é algo que tocou nele. Da relíquia indireta temos duas espécies: ou são os objetos que eles tocaram em vida, ou são coisas que se tocam nos corpos deles depois de mortos, e que, por causa disso, são consideradas relíquias indiretas.

Vemos muitas vezes uma multidão de relíquias indiretas de santos, e há pessoas que objetam que os santos não poderiam ter tocado em tantas coisas. Eles não tocaram. Mas nos ossos deles, ou em suas relíquias diretas certas coisas foram tocadas e depois distribuídas.

* Impregnação, ação, e presença, e fundamentação do culto às relíquias ilustrada com exemplos históricos e considerações sobre as circunstâncias nobilitantes das mesmas

Qual o fundamento que existe no culto às relíquias indiretas? O fundamento desse culto vem do seguinte: é uma coisa um pouco difícil de exprimir, mas cujo valor é intuitivo: quando alguém toca em alguma coisa, algo desse alguém passa para aquilo que foi tocado.

Por exemplo, um objeto que foi tocado por um fassur qualquer, Napoleão, digamos. Aqui por exemplo, está uma cadeira onde Napoleão sentou quando esteve em tal lugar. Algo da dignidade, da importância ou da fassurice ou da cachorrada de Napoleão, passa para a cadeira. Os senhores tem bem a idéia disso, se lhes oferecessem de presente a corda com que Judas se enforcou. Em si é uma corda tão corda como qualquer outra. Se diria apenas que está muito velha, com cerca de dois mil anos.

Se estivesse em razoável estado de conservação, dava até para amarrar um cachorro nela. Mas nós nem queríamos tocar na corda com que Judas se enforcou. Porque algo de Judas passa na corda.

Imaginem que nos oferecessem a túnica de Judas. Eu mandava imediatamente um pastor protestante ou um padre cismático pegá-la e queimá-la. Depois, erguia um cercado em volta. Isso porque algo da infâmia de Judas passou na túnica. Então, há o fato de que algo passa para algo.

Esse fato, aliás, encontra todo um suporte na Sagrada Escritura. Quando se fala na cura daquela mulher que pegou na túnica de Nosso Senhor, a Sagrada Escritura diz uma coisa curiosa: quando a mulher tocou na túnica, Ele perguntou quem tinha tocado, porque tinha sentido que uma virtude curativa tinha saído d’Ele e atingido aquela mulher.

A túnica tinha sido como o elemento de transmissão de uma virtude curativa saída de um corpo Sagrado. Compreende-se que aquilo circulou através da túnica, e como que enobreceu e dignificou a túnica. Aí se compreende o que tem no fundo dessa questão de tocar.

Aliás o Evangelho diz que todos aqueles que tocavam nEle eram curados. Por causa disso, temos, dentro do [tesouro ?] Igreja, algumas relíquias indiretas, de um valor tão grande que elas, por assim dizer, valem mais do que as relíquias diretas. Por exemplo a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo é uma relíquia indireta; o Sepulcro é uma relíquia indireta; fragmentos que restam da mangedoura, são relíquias indiretas; o Santo Sudário, relíquia indireta. Como são sagrados esses objetos que são afinal de contas, relíquias indiretas, e que veneramos como se venerássemos relíquias diretas.

Para vermos até onde vai esse culto das relíquias, devemos distinguir as relíquias em que a pessoa tocou, mas não só tocou, como se serviu delas para instrumento para uma ação insigne. O fato de ter servido como instrumento para uma ação insigne, aumenta muito o valor da relíquia.

Considerem, por exemplo, um pedaço do pano com que a Verônica tocou no rosto de Nosso Senhor. Ainda que não houvesse ali a verdadeira face, pelo fato de ter sido instrumento para consolar a Nosso Senhor numa situação muito difícil, etc., instrumento de um ato de generosidade, coragem etc., pelo fato instrumental de ter servido a uma ação nobre, aquela relíquia servia muito; tomou algo da dignidade da ação da qual participou.

Então, relíquias, poderíamos considerar, as coisas em que alguém tocou, as coisas que serviram de instrumento para a ação de alguém; num sentido muito mais amplo, já não no sentido religioso da palavra, América do Sul [???] com sentido analógico, as obras que alguém deixou, os livros que escreveu, os pensamentos que deixou etc.

* Tradição, culto às relíquias e ressurreição final

Também, como relíquia, poderíamos considerar. os filhos de uma pessoa. A prole que deixou e que, de algum modo lembra essa pessoa. Tomem toda essa doutrina das relíquias, ampliada como estou dando, que os senhores tem como fundamento a Tradição.

A Tradição, exatamente, é a continuidade de algo através daquilo que tocou e é um dos elementos da trilogia Tradição, Família e Propriedade. Os senhores estão vendo como todas essas coisas se pegam e como o fundo do nosso pensamento se toca no mais fundo do pensamento católico.

Se as relíquias indiretas tem tanto valor e são tão sagradas, o que dizer então da relíquia direta? Se, por exemplo, a espada com que um São Fernando combateu é uma relíquia instrumental, isto é, relíquia indireta porque ele tocou, e instrumental porque com ela fez as guerras contra os mouros, o que dizer, então do corpo de São Fernando?

Que não foi apenas um instrumento para a alma dele, porque o corpo não é somente um instrumento para a alma, mas é uma parte do todo que é o homem, concretamente falando; eu não posso dizer que minha mão é um instrumento meu, porque é um instrumento, mas também é eu; eu não sou minha mão, mas minha mão é eu e é uma parte de minha pessoa.

Um pedaço de carne, ou um pedaço de osso de um santo é uma parte, um elemento constitutivo da própria pessoa do santo. E está numa união, que não é uma união viva, mas uma união profunda, de caráter metafísico, está numa união com a alma do santo no Céu.

De tal maneira que quando o santo ressuscitar, aquele fragmento vai ser incorporado ao corpo dele e vai estar em estado glorioso, e aquilo é uma parte de uma pessoa que está no Céu. E aquela carne e aqueles ossos que estão em nossos guarda-relíquias vão estar em estado glorioso e vão dar glória a Deus durante toda a eternidade no Céu!

Os senhores estão compreendendo, portanto, como isso é mais do que qualquer outra relíquia, e é como que um pedaço do próprio santo, e algo da presença física do próprio santo entre nós.

Agora, é claro que se de uma túnica de Nosso Senhor saía graças, quanto mais dos santos de Nosso Senhor, que estão muito mais unidos a Ele do que sua túnica. Aqueles que Ele declarou que eram mais unidos a Ele do que os pais e irmãos, e eram seus discípulos, podemos imaginar quanto os santos são unidos a Ele, mais do que uma túnica!

* No culto a uma relíquia temos a inefável graça de possuirmos a “garantia da presença do Santo, de que ele está de algum modo presente e quase poderíamos arrancar as graças dele”

Então compreendemos quanto essa presença das relíquias constitui uma graça para aqueles que tem ali a relíquia. E por quê constitui uma graça?

Mais uma vez, reporto-me a alguma coisa do Evangelho. Um fato curioso, algo que Santa Madalena disse a Nosso Senhor: ela mandou chamar a Nosso Senhor, par atender a Lázaro, que estava muito mal. Nosso Senhor não foi. Lázaro morreu. E ela disse uma coisa curiosa: se tivésseis estado aqui, meu irmão não teria morrido.

Quer dizer, uma certeza de que a presença física de Nosso Senhor determinaria uma atitude dele, que era a de curar o irmão. Portanto, quando se tem a presença física d’Ele, a graça se torna quase irrecusável.

Ora, é mais ou menos a mesma coisa que se pode dizer da presença da relíquia. Guardadas as devidas proporções, vale como a presença física de Nosso Senhor valia.

Quer dizer, é uma garantia a presença do santo de que ele de algum modo está fisicamente presente ali, e que quase podemos arrancar as graças dele, por atenção às relíquias dele ali presentes.

Compreende-se então, que nesse sentido as relíquias tem um significado enorme e são fontes colossais de graças, e devem ser tratadas com muito respeito. E por quê? É que a relíquia, em última análise, sendo uma parte do santo, e nada havendo de mais respeitável, abaixo de Deus, no céu e na terra, do que os santos, é claro que devemos ter para com a relíquia uma suma veneração. Uma relíquia direta é algo de imensamente mais respeitável do que qualquer rei no céu e na terra. Por isso os antigos construíam catedrais para abrigar relíquias.

A Sainte Chapelle, com toda sua magnificência, foi construída para abrigar relíquias indiretas de Nosso Senhor: espinhos da coroa sagrada e, se não me engano, um cravo.

E se isto era assim para relíquias indiretas, quanto mais para relíquias diretas de santos. Por causa disso, o Luizinho comprou, para nossa capela, um relicário muito bonito. E queremos exatamente colocar nos dias de cada santo, a relíquia exposta no relicário, para que todos possam venerar essa relíquia e agradecer a Nossa Senhora essa graça.

* Junto com a veneração, os cuidados que devemos ter no cultuar as relíquias

Vejam que grandes tesouros trouxemos da Europa ao trazer essas relíquias. E é bom termos isso em mente, para compreendermos o valor de tais relíquias.

Vem aqui uma aplicação concreta. O modo de guardar as relíquias que se tem. Não é correto guardarmos as relíquias jogadas em gavetas, no meio de uma porção de objetos: remédios contra-mosquito, band-aid etc., e pererecando pelo meio, relíquias de três ou quatro santos. Isto é uma forma muito incorreta de fazer as coisas. Se não se tiver recurso, precisa-se ter uma pequena caixa, mesmo de papelão, mas inteiramente separada, colocada de preferência num lugar onde não haja outros objetos, e tenha-se ali todas as relíquias juntas e não todas separadas nos lugares mais díspares.

Todas reunidas e devem ser objeto de nosso culto. E como deve ser esse culto? Pelo menos o seguinte: todos os dias, de manhã e à noite oscularmos todas as relíquias que temos para pedir àqueles santos que rezem por nós. Procurarmos conhecer a biografia daqueles santos para compreender bem quem está ali presente, e por essa forma prestarmos culto a essas relíquias.

Resumo, portanto, as duas coisas:

1) guardar condignamente — não quero dizer guardar luxuosamente;

2) prestar culto. E para que o culto seja prestado, sugiro que se transforme numa rotina, que seja, por exemplo, oscular todos os dias a relíquia, de manhã e à noite. É uma tristeza a gente ter uma relíquia jogada em casa, sem culto, sem devoção, sem nada, sendo o caso de devolver para que outro cultue aquela relíquia, porque não se compreende que o santo esteja ali presente, com um elemento constitutivo de sua pessoa e que não seja objeto de nosso culto!

Creio que é o que tenho a dizer sobre as relíquias.

(Sr. –: Pode-se carregar as relíquias consigo?)

Pode, desde que se tenha o necessário cuidado para não perder. Por exemplo, conservando sempre no mesmo bolso. Por exemplo, sabem que na espada do Poli há uma relíquia de São Pio X dada num congresso do Catolicismo para ele. Eu compreenderia que, com a necessária prudência, houvesse uma relíquia numa caneta de um de nós, ou num instrumento de trabalho. Mas sempre com o cuidado necessário.

* O Senhor Doutor Plinio acha que na morte do Dr. Ablas a Providência quis um holocausto para o sucesso da RA-QC

Gostaria de lembrar, simplesmente, o aniversário de nosso Ablas. Ele faleceu em 1960 e foi uma morte tão abençoada e uma coroação tão digna da vida dele, o melhor de sua pessoa e de sua vida apareceram tão claramente, que aquilo foi uma graça para o Grupo inteiro.

Eu tenho sempre a impressão de que entre outras razões na morte do Ablas, esteve a intenção da Providência de tomar essa morte oferecendo-a, imolando esse homem, para o sucesso da RA-QC, entre outras razões.

Ele morreu em plena elaboração da RA-QC. Estava pronta, mas devia ser revista pelo Castilho, pelo Arnaldo, pelo Azeredo e outras pessoas, para depois ir para a tipografia. Foi nesse momento que o Ablas morreu. Devemos considerar como relíquias do Ablas, não só objetos seus, que Da. Julinha me deu — por exemplo, sua caneta-tinteiro, com a qual assinou todas as receitas durante sua vida médica — mas devemos pensar na família dele, que ele confiou a nós, à nossa solicitude, ao nosso respeito e à nossa amizade.

Pensar na família dele e redobrar de atenção, de carinho em todas as ocasiões que tivermos para servir Da. Julinha e aos dele. Isso também fica recomendado na noite de hoje.

* Atualidade do papel das santas descomposturas

O Dr. Eduardo me deu um texto para ler, que é a Segunda Epístola a Timóteo. Nesse texto, o comentário feito pelo Dr. Eduardo é o seguinte: se fizéssemos contra alguém uma descompostura como essa que São Paulo passa na Epístola a Timóteo, nós seríamos considerados pessoas sem caridade. Entretanto, São Paulo, um santo, passava essas descomposturas. Mais ainda: isso não diz respeito às pessoas do tempo de São Paulo, mas às pessoas que viriam nos últimos tempos, dos quais, nossos tempos são uma prefigura.

O texto diz o seguinte: “Saiba, porém, que nos últimos dias sobrevirão tempos perigosos; porque haverá homens egoístas, avarentos, altivos, soberbos, blasfemos, desobedientes a seus pais, ingratos, malvados, sem afeição, sem paz, sem ardores, incontinentes, desumanos, sem benignidade, traidores, protervos [?], orgulhosos, e mais amigos dos prazeres do que de Deus”.

Vejam que é uma descompostura completa, nada restando. Vejam o final, que acho interessante: “E mais amigos dos prazeres do que de Deus”, como se fosse um denominador geral, que contém toda a outra forma de ignomínia.

Ele continua: “Tendo uma aparência de piedade, porém, não tendo a realidade”. Tenho a impressão de que é a Democracia Cristã. Começa-se a ler e começa-se a pensar neles. A Ação Católica também. “Foge também desses, porque esses são os que entram pelas casas e levam cativas as mulherinhas carregadas de pecados, movidas por várias paixões”. Exatamente são os que entram com palavras de virtude e arrastam para o mal, as mulheres, habitualmente mais protegidas no lar doméstico, contra o mal, do que os homens; “… as quais aprendem sempre e nunca chegam ao conhecimento da verdade”.

O Dr. … disse que houve um tempo na Argentina, em que o Padre Castelani (?) dava essa definição de Ação Católica: Ação Católica é um grupo de senhoras e de homens que se reúnem sempre para discutir o que é a ação católica. E assim como … e … resistiram a Moisés, assim também esses resistem à verdade, homens corrompidos de espírito, réprobos acerca da fé, mas não irão avante, porque se tornará manifesta sua loucura, como também se tornou a daqueles maus os quais, confessando sua impossibilidade, foram obrigados a exclamar: o dedo de Deus está aqui”.

Afinal de contas isto dá no seguinte: em determinado momento haverá acontecimentos em que a gente, a respeito dessa gente toda, vai ter que exclamar: o dedo de Deus está aqui!

* Qual é a hora exata da intervenção da Providência? Uma definição de um ultramontano célebre elogiada e assumida pelo Profeta de Nossa Senhora

E eu me lembro de uma consideração de Joseph de Maistre: quando Deus quer intervir nos acontecimentos históricos, a preparação que Ele dá sempre à sua intervenção é reduzir tudo, todo o esforço humano a um tal estado de impotência, que nada, nem ninguém pode realizar qualquer coisa, a não ser Ele.

A partir do momento em que tudo parecer perdido, e que tudo que os homens intentarem for completamente inútil, a partir desse momento deve-se começar a esperar a intervenção de Deus. Exatamente, creio, mais do que nunca, que quando a intervenção de todos os homens parecer inútil e mesmo a intervenção daqueles homens que parecem, ou melhor, que falam em nome de Deus, mas são homens, torna-se contraproducente, tenho a impressão de que há de haver o momento em que se produzirão coisas em que a gente tem que acabar dizendo: o dedo de Deus está aqui!

Vamos pedir a Nossa Senhora que apresse esse momento, porque, realmente, se esses dias não forem abreviados, não sei, dentro de algum tempo, quem verdadeiramente subsistirá?

Falávamos, há pouco, da época e da fisionomia que terá a Igreja quando os atuais seminaristas forem padres, bispos, cardeais e papas. Não se sabe o que dizer! De maneira que a hora do dedo de Deus está próxima!

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