Reunião
Normal – 24/3/65 – 4ª feira .
Reunião Normal — 24/3/65 — 4ª feira
Nome
anterior do arquivo:
Os critérios segundo os quais o Senhor Doutor Plinio chegou a conhecer as leis e as regras da RCR analisando seu próprio ambiente * O fenômeno RCR se opera inteiramente até sobre os espíritos mais pocas * Mesmo na Europa, por causa do fenômeno da americanização, o processo revolucionário vem sendo cada vez menos explicitamente ideológico * O fenômeno típico do processo no Brasil é o caminhar das idéias “a la pastasciutta”
Nós tivemos, durantes esses dias de carnaval, umas reuniões a respeito do artigo “Bucko”, em que foi feita uma espécie de dissecação do artigo “Bucko”, ponto por ponto, esquema, etc., para facilitar a fixação de toda a matéria que o artigo contém.
Isso trouxe, de proche en proche, a idéia de fazer um serviço da mesma natureza com o “Diálogo” que está em vias de preparação e também devagarinho com a RCR. Então, pegar fragmentos ou aspectos da RCR e nos momentos em que der, enfim, vagas que houver nas conferências, etc., tratar um pouco da questão.
E me parece que um modo interessante de nós fazermos uma espécie de divulgação da RCR consistiria em nós tomarmos a RCR e não considerarmos os grandes problemas políticos, econômicos, sociais, não em suas grandes linhas históricas, mas debaixo de um outro aspecto que é o seguinte: a RCR vista no âmbito individual de cada um.
* Os critérios segundo os quais o Sr. Dr. Plinio chegou a conhecer as leis e as regras da RCR
Eu cheguei a conhecer as leis e as regras da RCR, vamos dizer pela conjugação desses dois critérios ou dessas duas vistas.
Primeiro, examinando muito o desenvolvimento das idéias e das tendências, etc., no ambiente da vida de todo dia que me cercava, quer o ambiente doméstico, quer o ambiente das relações de faculdade, enfim, de sociedade, quer o ambiente político nacional, de um lado. E de outro lado a história, e sobretudo a Revolução Francesa que durante muito tempo foi o micro‑cosmos dentro do qual eu estudei a RCR.
Agora, me ocorreu que aos meus amigos, eu nunca expus esse método, que é o que conduz à visão completa da RCR. E que é o saber ver, também, a Revolução e a Contra‑Revolução no ambiente concreto de cada um. Parece‑me que, se a gente não tem os olhos abertos para isto, não compreende as grandes leis históricas e os grandes acontecimentos históricos, e que é preciso então saber ver as duas coisas conjugadas. E por isso me pareceria que uma série de noções sucessivas a respeito do problema da Revolução e da Contra‑Revolução, miudamente na vida privada que nos cerca, seria talvez um modo interessante de iniciar os espíritos a uma compreensão inteiramente prática e concreta do que seja a RCR.
Então resolvi fazer o seguinte: Eu vou dar um exemplo disso agora à noite — que corre em dez minutos, uma coisa muito rápida — que corre o risco de cair na banalidade, a respeito do Brasil.
E a respeito concretamente do ambiente intelectual e psicológico das boas famílias do Brasil; e mais especialmente das boas famílias de São Paulo; e mais especialmente das boas famílias a que nós pertencemos — que é uma coisa assim — que é uma matéria tão nula e tão vazia de pensamento, tão a‑doutrinária e composta de gente tão inidônea do ponto de vista do pensar, que nem há palavras [suficientes] que se digam a esse respeito.
E que, portanto, falar que essa gente é teatro da Revolução e da Contra‑Revolução, e que por elas passam os grandes acontecimentos históricos, e que nelas as leis da história possam ser vistas e vividas, parece um non sense, parece um verdadeiro estapafúrdio. E que portanto no Brasil, concretamente, nesses meios brasileiros, não existe nem Revolução nem Contra‑Revolução. Existe besteira.
Bem, daí uma espécie de susto quando eu, de repente, insinuo que não, que esse ambiente considerado de perto é um ambiente no qual se dá a Revolução e a Contra‑Revolução.
Vamos dizer que se fosse dizer, por exemplo, que isso se estende um pouco aos ambientes profissionais. No precioso IEE — meus olhos caíram no Vita — ali pode haver Revolução e Contra‑Revolução, ou que nos prédios locados pela “Nair”, possa haver Revolução e Contra‑Revolução; isso pareceria um estapafúrdio. Que, por exemplo, nos colégios do Fedeli possa haver, vá lá, que possa haver nas construções de casas tradicionais pelas CALs de São Paulo e do Rio, vá lá, que possa haver Revolução no hospital do Edwaldo, vá lá. Mas que possa haver Revolução e Contra‑Revolução na Consispa, e outras coisas da Light, e outras coisas do gênero; a idéia é de que não.
* A luta RCR no interior de cada alma se trava entre um substrato da velha tradição medieval e a corrosão cotidiana produzida nas mentalidades pelo processo revolucionário
Ora, se isto é verdade a RCR é um livro nulo, é um livro vazio. Porque a realidade é o contrário.
Essa luta entre a Revolução e a Contra‑Revolução, a existência de um substrato tradicional que é um resto da velha tradição medieval nas mentalidades, e a corrosão disso dia a dia pela Revolução, se realiza individualmente em cada pessoa.
Mas notem que cada não quer dizer a maior parte, nem quer dizer a generalidade, mas quer dizer cada [pessoa] realmente; é este, aquele e aquele outro, nominalmente no Manoel, na Luísa, e em pessoas que o Manoel e a Luísa, e em pessoas que o Manoel e a Luísa consideram broncos. Porque a coisa vai até lá.
[Se] haverá gente que o Manoel e a Luísa consideram com desprezo por serem incultos, tem que haver. Pois bem, naqueles, isso se passa e naqueles entra todo o jogo Revolução e Contra‑Revolução, e que portanto em cada ambiente em que a gente está tratando, entra a Revolução e a Contra‑Revolução.
No meu barbeiro, por exemplo, na cabeça daqueles oficiais de barbeiro cretinos que me servem, eu seria capaz de dizer como é que está a Revolução e a Contra‑Revolução na cabeça de cada um, porque (…)
* As regras da RCR se verificam em todos os ambientes, e seu manuseio é condição indispensável para compreender como a Revolução ou a Contra‑Revolução podem arrastar o mundo
… então a idéia de que no ambiente de cada um de nós essa luta existe, e que todas as regras da RCR se verificam naquele ambiente, é um pressuposto indispensável para se compreender que a Revolução possa arrastar todo o mundo, e que a Contra‑Revolução possa arrastar todo o mundo. E, portanto existem no Brasil também, e existe no ambiente individual de cada um de nós.
Aqui está portanto a tese da presença necessária da RCR — não do livro, eu digo da problemática — da luta das duas forças, a presença necessária dessa luta em cada mentalidade, na força da palavra cada. É cada um mesmo!
O José Fernando me fala, por exemplo, muitas vezes, de um irmão dele chamado judeuzinho, que ele com essa ou aquela intenção, não sei bem, quer dizer, até onde o José Fernando leva essa carga que lhe passou pelas mãos — mas ele diz ser um homem inteiramente a‑ideológico, sinárquico, preocupado apenas em acumular dinheiro, e portanto um homem, vamos dizer — o José Fernando nunca insinuou isso, mas do qual se poderia dizer talvez que esteja à margem do fenômeno.
Pois bem, não é verdade, ele também está dentro do fenômeno.
Quer dizer, ninguém escapa ao fenômeno. Eu excluo naturalmente os abrigos de alienados onde houver loucos furiosos, e quand même, porque acaba sendo que quando eles fazem quadros, eles fazem arte moderna… De maneira que algo há. Aí, ainda, mesmo, não simplifiquemos.
Agora, eu digo, isso então é uma primeira tese, de que isto é assim.
* A análise psicológica de nossos familiares, segundo os critérios da RCR, dá‑nos condição de compreender melhor a universalidade do fenômeno
E eu digo depois, segunda tese, que essa existência desse fenômeno assim, individual, ninguém conhece as grandes regras da RCR se não tiver aprendido a verificá‑las individualmente também, e nas pessoas com que convive e no ambiente dentro do qual está.
Bem, essas são as duas proposições. Uma é uma proposição genérica e a outra é uma proposição de caráter metodológico. Bem, eu então daria alguma coisa, uma rápida observação para indicar isto. Eu faço portanto uma aplicação do princípio que eu acabo de enunciar.
E a aplicação seria a seguinte: tomemos os nossos tios; a todos nós a Providência deu um tio. Bem, é um ótimo presente.
Tomemos os nossos tios ou as nossas tias — porque a Revolução também [se] dá em cabeça de mulher, e a Contra‑Revolução também se dá.
Elas pertencem, como foi debatido num Concílio da Idade Média, elas pertencem, segundo dizem os dicionários, o Concílio debateu e chegou à conclusão de que elas pertencem ao gênero humano, não é?
Na verdade é o contrário, a coisa [é que] no Credo se diz que Jesus Cristo veio redimir todos os homens, [e] nos homens estavam incluídas as mulheres. Então é claro que foi isso que o Concílio estudou.
Então, os nossos tios e as nossas tias, quando a gente trata com eles a respeito de doutrina, ou se preferirem com elas, elas consideram o assunto tão ligeiramente, tão superficialmente, e aquilo ocupa um papel tão frouxo no horizonte visual deles, que a gente diz, eles dizem umas coisas tão vagas, propriamente eles balbuciam uns balbucios tão inexpressivos a respeito da coisa, e às vezes até tão contraditórios conforme as impressões de momento, que se diria que as idéias não exercem sobre eles nenhum efeito. Que eles são exclusivamente guiados pelo interesse.
E isso é reforçado pelo fato que eles não gostam de conversar a respeito de idéias. E pelo contrário, gostam muito de conversar sobre os interesses deles, e sobre os interesses dos outros na medida em que sejam os interesses de cada um deles.
De maneira que então se diria que eles estão imersos no nível do interesse, e não estão imersos no nível da idéia. Portanto se diria que com essa gente a Revolução e a Contra‑Revolução não entra.
* Utilizando um método sugerido por Santo Inácio, nosso Pai e Fundador refuta objeções vivenciais de seus filhos a propósito da R‑CR
Então cada um pode pôr diante dos olhos — para fazer uma espécie de composição de lugar como Santo Inácio de Loyola prescreve nos Exercícios dele — para tomar a idéia de um tio poca. E imaginar então a dificuldade que há em conceber que com toda a elevação daquele jogo, a profundidade daquele jogo, estão se realizando ali as regras da Revolução e da Contra‑Revolução, quando aquele sujeito é um verdadeiro poca.
Então, meu tio não é teatro dessas coisas, porque é um homem a‑ideológico. Ele não é… [inaudível] …, não é capaz de ser teatro de Revolução e da Contra‑Revolução, porque isso é um fenômeno sutilíssimo e profundíssimo. Ora, ele é um poca. E portanto na cabeça dele não podem haver fenômenos sutilíssimos nem profundíssimos. Essa seria uma objeção.
Conclusão: na vida quotidiana de cada um de nós a Revolução e a Contra‑Revolução não existem. Não existe até no Brasil, não existe na América do Sul, existe na Europa que é um continente altamente culto. Mas nesta bestada desse continente aqui, ingleses diminutae rationis, ou seja, americanos do norte, espanhóis diminutae rationis, ou seja, os sul‑americanos, portugueses diminutae rationis, ou seja, brasileiros, aqui não há Revolução e Contra‑Revolução. Aquilo é um produto europeu, é um estudo da história da Europa.
Eu tenho a impressão que algo disso há no subconsciente de muitos de nós quando se aventa a idéia que a Revolução e a Contra‑Revolução existem concretamente no meio de cada um. E existe na cabeça do Manoel e da Luísa. E do Joaquim copeiro do Luizinho, etc., etc. Aliás, no Joaquim é visível. Os dias revolucionários e os dias contra‑revolucionários do Joaquim são discerníveis a olho nu, a gente de costas percebe qual é o dia.
* O fenômeno RCR se opera inteiramente até sobre os espíritos mais pocas
Bem, eu então destruo, ou me proponho a destruir, os dois argumentos.
O primeiro é: meu tio é poca, nele não pode haver toda essa complexidade de fenômenos.
É mais ou menos como quem dorme num galinheiro, olha numa vasilha de água suja, velha e rasa, em que as galinhas bebem, e diz: essa água é uma água tão poca e tão suja que não pode haver as regras da química aqui dentro. Não tem sentido.
Quer dizer, aquilo não é H2O? É H2O com muita sujeira.
Está bem, então aqui tem reação química, tem fenômenos físicos, tem tudo. Porque quem pertence, quem está no mundo da matéria, por mais deteriorada que esteja, a matéria está sujeita às regras da matéria.
Quem está no mundo do espírito, por mais poca e vil que seja, está sujeito às regras do espírito. E portanto o tio mais poca, e com mais ar assim de galo velho, ou de galinha velha que possa haver, esse tio está sujeito a essas regras.
A tia mais [etourdi?], mais frívola, mais superficial, mais nervosa, mais contraditória nos seus julgamentos, está sujeita a essas regras também. Quer dizer, a poquice não exime a pessoa de estar sujeita a essas regras.
Então, agora vem a questão: de que maneira essas regras atuam, como é que se prova que essas regras estão na cabeça dessa gente?
Eu outro dia mencionei um fenômeno, que é uma das vitórias mais importantes da Revolução. O fenômeno é o seguinte: se no tempo — eu não sei quem me fez essa pergunta, eu creio que foi o Fábio, ou foi Arnaldo, eu não sei quem me fez essa pergunta — se é verdade que no tempo do Getúlio, quer dizer, no começo do regime do Getúlio, não havia possibilidade de falar em Reforma Agrária. E minha resposta foi enfática: não havia nenhuma possibilidade de falar em Reforma Agrária. As pedras da rua se levantariam de indignação se se falassem em Reforma Agrária.
Quer dizer, a mentalidade dos proprietários era tal que eles não caberiam em si de indignação se se lhes falassem de Reforma Agrária. E é por isso o governo do Getúlio foi provavelmente quem pediu a D. Jaime que propusesse a “nati‑morta”, a qual “nati‑morta” foi, ou eu me engano muito, em 53. Porque se a Igreja começasse por falar, eles se sentiriam menos desautorizados em protestar, mas se a Igreja não falasse eles mugiriam contra a Reforma Agrária.
Agora, correm os anos, e aquilo que em 1951 seria impossível, no ano de 1964 se realiza, e eles são passíveis de uma manobra de opinião pública que os torna inteiramente átonos diante dos fatos.
Houve, portanto, uma enorme mudança de mentalidade neles. Essa mudança de mentalidade representa um progresso na Revolução. E representa um progresso da natureza ideológica, em que eles, cuja ideologia os levava a repelir a reforma, depois mudaram de ideologia por força de determinados fatores, de maneira tal que, embora eles não sejam de modo positivo favoráveis à reforma, entretanto acham‑na plausível e não se indignam contra ela.
* As idéias revolucionárias atiradas sobre uma mentalidade liberal produziram no Brasil a confusão sobre a noção do direito de propriedade
Quer dizer, uma mudança de mentalidade houve. E essa mudança de mentalidade foi um progresso da Revolução e uma, vamos dizer, com o aumento da substância revolucionária no espírito de cada um deles, e foi uma diminuição da substância tradicional e contra‑revolucionária no espírito deles. E portanto dentro deles houve uma importantíssima transformação do tipo RCR, realizado em quinze anos.
Quais são, quais foram os fatores disso?
Evidentemente, essa gente, por mais tonta que seja, lê jornal. No ler o jornal houve tiradas de cá e de lá, sobre a função social da propriedade, sobre justiça social, tiradas sobre miséria, houve tiradas sobre o fato de que em nosso século não se podem suportar sobrepostas desigualdades, ouvem tiradas contra privilégios, e tudo isto vai deitando semente em espírito de um fundo liberal, com mentalidade de Revolução Francesa.
De maneira que tudo isto colocado assim no fundo da luta não visando o interesse deles de imediato, eles, por mau espírito, vão aceitando como uma coisa indiscutível, sem se dar conta de que isso vai se voltar contra eles. E ainda que essas coisas sejam postas no espírito deles muito ligeiramente, de modo muito esparso, muito fragmentário, entram, e aos poucos vão mudando a mentalidade dele. Mudando de tal maneira que ao cabo de quinze anos quando se chegar a atacar o interesse dele, ele está com um verdadeiro complexo criado, de que o interesse deles não corresponde a um direito.
E portanto elas já não defendem os interesses com calor, porque não estão persuadidos da legitimidade desses interesses, e não tem face para defendê‑los, não tem argumentos para defendê‑los.
Quer dizer, houve portanto uma mudança. Essa mudança foi de caráter ideológico, espalhada pela doutrina social cristã [sediça?], espalhada por toda espécie de influxos socialistas suspeitos pelo ar, mas não só influxos, mas também conceitos feitos pelos jornais assim, continuamente. Eles mudaram. E essa foi uma transformação RCR, dada concretamente em torno de cada um de nós.
Quer dizer, os meus tios, as minhas tias, os meus primos, na tontice individual de cada um deles, porque quase cada um é um tanto — eu ponho um quase porque existe o Adolphinho — bem. Eles foram na onda e se deixaram transformar. Bem, isso se deu, salvo juízo temerário pelo qual eu bato no peito […inaudível], na família de cada um dos senhores.
Bem, e é a autenticidade de um fenômeno ideológico que se passa numa substância e num gênero de gente que a gente imaginaria não ideológico.
Quer dizer, isso nos mostrar em que sentido existe a RCR em torno de nós, como é que as idéias entram, como elas atuam e que transformações elas produzem.
* O fundo de quadro ideal de quem lê a RCR, é habitualmente o de um europeu familiarizado com o embate ideológico — O modo de ser vista a RCR no Brasil
Não é portanto no quadro que fica no subconsciente da gente quando se lê a RCR. Quer dizer, os partidos políticos, os grandes escritores, as pessoas preocupadas em idéias, em discussões. Isto de fato é o ambiente europeu, em que se debate assim mesmo. O ambiente nosso é um ambiente desbotado, em que isso se deu assim como eu estou descrevendo. Mas nem por isso se deixa de se dar continuamente, e vai continuamente para a frente.
É portanto assim que a RCR deve ser vista no Brasil. Talvez no Chile, aliás eu teria curiosidade de saber, se é mais ou menos assim no Chile, ou se não é, daqui a pouco irei ouvi‑los.
Bem, isto seria uma das indicações. Nós poderíamos examinar outras, que seria a questão da luta das duas morais, que eu daria em outra noite em que haja assim uma nesguinha de tempo, porque eu também tenho a impressão de que é muito mais interessante dar isso em nesgas de tempo do que em grandes conferências, não sei se me entendem.
Bem, então, se me lembrarem, o José Fernando tem tido boa memória para esse gênero de coisas, numa primeira nesga de tempo que haja assim, uma reunião que termine um pouco mais cedo, e em que o auditório não esteja tão exausto, dia seguinte de feriados, segundas a noite são excelentes para coisas assim — eu trato de uma coisa dessas, mas um aperçu de outros aspectos mostrando o quê? [Mostrando] a autenticidade do fenômeno Revolução e Contra‑Revolução no ambiente em que privadamente vivemos, mas também o modo pelo qual se realiza.
O modo não livresco, de que às vezes não faz parte bonitos lances da história, não é uma coisa como Donoso Cortez, que a pouco foi citado, Marquês de Valdegamas, com cabelão romântico, uma casaca, condecoração, a mão aqui fazendo um discurso no parlamento espanhol. Não é isto, mas [é] a vidinha à maneira de curau, de curau de todos os dias, de todos os dias, que acaba por fazer um crime.
* Mesmo na Europa, por causa do fenômeno da americanização, o processo revolucionário vem sendo cada vez menos explicitamente ideológico
[Não sei] se eu conseguir tornar claro a existência do fenômeno miúdo assim, palpável, como é que ele se dá. Isto está claro ou não? Se alguém gostar de duas palavrinhas de explicação, tenha a bondade de levantar o braço, que eu de bom grado darei.
(Dr. Celso: Dr. Plinio, o senhor estabeleceu uma diferença entre o clima europeu e o americano, na verdade, mesmo na Europa, apesar desse problema RCR ser muito mais intelectualizado, a Revolução não caminha muito mais nesse tram‑tram de todos os dias, do que nos lugares em que se discuta doutrina?)
Como a Europa está virando América, quer dizer, por força da decadência, Portugal está virando Brasil, Espanha está virando América do Sul, Inglaterra está virando Estados Unidos e França está virando Canadá, e Itália está virando Suíça italiana, bem, acaba sendo que a Europa de hoje é mais ou menos isso.
Mas se você se reporta à Europa de antes da II Guerra Mundial ainda, e à medida que você vai ainda para trás pela história, vamos dizer, a Europa de antes da I Guerra Mundial ainda mais, a Europa do século XIX ainda mais, vocês pegam por exemplo a sociedade européia, ela está dividida, nitidamente, em famílias de almas, de maneira que um é legitimista, não é?
[…inaudível] nos reportar à Espanha; uns são carlistas, outros afonsistas, outros republicanos e outros comunistas. Isso divide de tal maneira os homens que até a vida social é assim. Então, você tem salões, que são carlistas. Então num dia de anos de um carlista vai carlista. E quem não é carlista, se é tio vai devagar, sem discutir muito, ou discute e sai encrenca… [inaudível].
Então, a argumentação marca, a argumentação explicita, marca muito. E a fricção de carlistas com afonsistas, com tudo, aqueles argumentos voltam, são sempre retomados. E existem, vamos dizer, os temores grandes, que dão o pânico: soube do último argumento de Donoso Cortez? Ou então [Vasquez de Mella?] disse tal coisa assim. E dá na cabeça. O outro diz: é, mas [Questerat?] respondeu…
Quer dizer, os miúdos ficam vendo os Pelés da ideologia para onde é que jogam, e refletem nas tendências, e aquela coisa, tudo isso interessaria muito o debate.
* O fenômeno típico do processo no Brasil é o caminhar das idéias “a la pastasciutta”
Enquanto aqui não, é esta pastasciutta que eu acabo de descrever que leva até muito dos senhores a achar que não existe ideologia. Não sei se me exprimi bem.
(Dr. Celso: Sim, eu compreendi bem, mas mesmo um carlista admirador do Donoso Cortez, mesmo nesse carlismo, na alma desse carlista, se passa… [inaudível] a RCR. Ele não é inteiramente contra‑revolucionário, ele é meio revolucionário. De forma que mesmo nos partidos anti‑revolucionários, mesmo nos partidos contra‑revolucionários, se verifica esse fenômeno, e é esse fenômeno mesmo nos melhores partidos, que permitiu que a Revolução caminhasse e chegasse até os dias de hoje e vai fazer caminhar ainda.)
Nisso você tem toda a razão. Mas o que eu quis indicar como fenômeno típico da situação brasileira não é esse caminhar subconsciente, é esse poder da idéia, enquanto idéia, simplesmente disseminada, nunca discutida, mas mudando as mentalidades. Isso que é característico, que eu quis indicar. Não sei se me exprimi bem.
*_*_*_*_*