Reunião Normal ─ 4/3/65 ─ 5ª feira – p. 4 de 4

Reunião Normal ─ 4/3/65 ─ 5ª feira

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No Brasil contemporâneo, qual revolução é mais necessária: a revolução A, tendenciosa; ou a revolução B, sofística? * Para desfazer o efeito revolucionário que Brasília exerce sobre seus habitantes seria necessário construir um Mont Saint Michel * A dialética contra-revolucionária na Europa deve partir da análise Ambientes, Costumes para se elevar depois aos temas doutrinários * O Sr. Dr. Plinio manifesta o desejo de publicar, em separata, um álbum com todos os artigos da secção “Ambientes, Costumes e Civilizações”

* No Brasil contemporâneo, qual revolução é mais necessária: a revolução A, tendenciosa; ou a revolução B, sofística?

(…)

sobretudo a respeito da autenticidade dos fenômenos ideológicos, portanto da revolução sofística, no meio brasileiro quotidiano dentro do qual nós nos movemos. Eu dei como exemplo a modificação da mentalidade das classes conservadoras a respeito das reformas de base.

As reformas de base há vinte anos atrás fariam as pedras se levantar nas ruas, hoje as classes conservadoras protestam molemente. Isso foi uma modificação ideológica, obtida em grande parte pela publicação de coisas sobre a função social da propriedade, sobre privilégios, sobre abusos, sobre o rico, que criaram não só um clima emocional, mas deram argumentos de caráter ideológico para isso.

Eu hoje dou mais um passo na direção desse assunto. E é simplesmente para perguntar o seguinte: os senhores poderiam fazer a seguinte pergunta: “Dr. Plinio, o senhor parece dar muita importância, uma importância até nessa ordem de coisas primordial, a que nós saibamos para conhecer a Revolução como ela existe no Brasil contemporâneo, nós tomarmos em consideração a autenticidade desses fenômenos ideológicos

Ora, na RCR o senhor apresenta a Revolução A como sendo mais importante do que a Revolução B. Mas dentro da Revolução A, na qual o senhor distingue a revolução sofística e a revolução tendenciosa, o senhor apresenta a tendenciosa como mais importante do que a sofística. Ora a sofística é precisamente a ideológica, em sua formulação mais consciente, mais definida, mais… [ilegível].

Se a revolução sofística, quer dizer, a Revolução doutrinária, é menos importante do que a tendenciosa, porque que o senhor acha tão indispensável que a gente perceba a autenticidade desta revolução no Brasil?

E a resposta é a seguinte: compreenderam bem a pergunta, ou querem que eu me exprima melhor sobre ela? está um pouco tarde…

[Alguém pede para repetir])

Eu ontem declarei que o conhecimento da autenticidade da revolução sofística, quer dizer, a revolução dos argumentos ideológicos, é indispensável para que uma pessoa conheça a RCR como ela se passa no ambiente brasileiro. Lembre-se dessa tese ontem, ou não? Você estava aqui ontem? Entendeu bem ou não?

Bem, agora, então eu hoje estou enfrentando uma objeção que se poderia fazer ao que eu disse. E a objeção é essa: o senhor coloca no pórtico de suas elucubrações sobre esse assunto a prova de que a revolução sofística, quer dizer, doutrinária, é capital, que o conhecimento ─ o senhor coloca no pórtico de suas elucubrações a tese de que conhecer que há uma revolução sofística no Brasil é fundamental.

Ora, isso parece em contradição com o que o senhor afirma na RCR, em que o senhor coloca a maior importância para a Revolução tendenciosa, do que para a Revolução sofística. Como é que se explica isso?

Está clara a pergunta ou não? Se alguém desejar é só levantar o braço, que de bom grado eu repito de novo.

(Sr. –: […inaudível])

Eu acho que é mais importante a sofística, ou melhor, a tendenciosa. Mas eu coloco como base do estudo, como ponto de partida, se não como base pelo menos como ponto de partida, como pórtico, do estudo da Revolução como ela se passa no Brasil, o reconhecer nas pessoas que o fator ideológico existe. Isso é uma contradição aparente com o fato de indicar, de dar tanta importância à tendenciosa. Uma aparente contradição, e para explicar essa aparente contradição, porque a explicação conduz a algo de fecundo, a um conhecimento de uma outra coisa. Está bem clara a questão ou não?

* Para desfazer o efeito revolucionário que Brasília exerce sobre seus habitantes seria necessário construir um Mont Saint Michel

De fato a revolução tendenciosa, e agora estou respondendo, de fato a revolução tendenciosa é mais importante do que a revolução sofística. Mas acontece que só há dois meios para a gente reagir contra a revolução tendenciosa. Vamos imaginar por exemplo uma pessoa que mora em Brasília. Ela está sofrendo toda espécie de pressões na ordem da revolução tendenciosa, todas as tendências dela estão sendo sopradas na linha da revolução. Eu tenho dois meios para combater isso.

Primeiro: é sujeitar essa pessoa a um ambiente que desperte as tendências contrárias. Por exemplo, mandar construir uma coisa da força do Mont Saint Michel perto de Brasília, e chamar: Gustate et videte quam suavis est Dominum, vinde ver aqui quão bom é o convívio do Senhor. É uma coisa que se poderia fazer.

Mas acontece que nós contra-revolucionários brasileiros, estamos completamente [descapacitados] para uma coisa dessas. E então o único que há para demonstrar a revolução tendenciosa é dar ao indivíduo o conhecimento da ação que ele está sofrendo. E que ele mesmo se defenda. Quer dizer, olha Brasília, isso assim, veja como é, etc., deteste, etc., etc.

Mas para nós darmos a ele um conhecimento disso não é possível senão com uma iniciação doutrinária. De maneira que no caso concreto brasileiro, iniciar pelo lado ideológico é o único meio de se acabar atingindo o lado tendencioso também.

E com isso se explica a importância concreta dos livros doutrinários na Contra-Revolução brasileira. Uma coisa muito especial. E isto torna claro então porque é que é tão importante reconhecer que há uma revolução sofística no Brasil. Porque assim a gente… [inaudível] …nesse sujeito, e… [inaudível] …a gente pode então abrir os olhos dele sobre a Revolução tendenciosa.

Quer dizer, se eu chegar para um morador de Brasília, e travar com ele uma discussão teórica sobre a RCR, eu posso acabar fazendo com que ele compreenda que eu falo mal de Brasília depois. Mas eu tenho que começar pelo lado doutrinário com ele. E eu não começarei pelo lado doutrinário se eu não me convencer que ele tem um processo doutrinário na cabeça.

De maneira que com o eu perceber que ele tem esse processo e como é que ele tem, é capital para eu poder lutar. No Brasil.

(Sr. –: E isso porque não podemos fazer uma cidade.)

É, exatamente.

[Alguma pergunta sobre como se põe o problema na Europa]

Eu falo daqui a pouquinho da Europa, e perguntaria se o caso brasileiro está inteiramente claro. Está inteiramente claro, ou não?

* A dialética contra-revolucionária na Europa deve partir da análise Ambientes, Costumes para se elevar depois aos temas doutrinários

Na Europa, se eu tivesse um Mont Saint Michel, enfim, quer dizer, na Europa, uma pessoa que tenha aqueles ambientes europeus, pode engajar uma conversa que trata de uma comparação de uma coisa ou outra para subir até a doutrina. E portanto pode começar por ali, ambientes e costumes, etc., etc…. [inaudível] …cabe o processo… [inaudível] …mas também o outro. No Brasil cabe? Não cabe. De maneira que, no Brasil isso é mais premente do que na Europa a esse título. Querem que eu me exprime melhor, ou não?

O sujeito traz o exemplo do Palais de Chaillot, que é todo moderno, não [é]? Ele passa diante do Louvre, e compreende-se que, ou estando junto com ele, possa parar e dizer: mas, apesar do quê veja que harmonia, veja que equilíbrio, veja que não sei o que, e naquela linha promover uma desintoxicação para depois chegar ao doutrinário, porque a Contra-Revolução tem que tomar tudo.

Bem, mas no Brasil isso é quase impossível. Dar-se-á uma vez, como no Largo do Boticário, com um homem, mas é tão raro que é como que não, sobretudo em São Paulo, não é? Vejam então que em São Paulo e no Brasil o recurso de começar pelo doutrinário é muito mais obrigatório. Eu não sei se me exprimi bem.

[alguém pergunta se hoje em dia, mesmo na Europa, o caminho ideológico não é o mais importante]

Quer dizer, como pórtico para combater o tendencioso, eu acredito também, não apenas convindo como no Brasil. No Brasil não há quase outro remédio.

[Alguém pergunta se na Europa, há cinqüenta anos atrás, seria o contrário])

Eu acredito que sim. Seria bem mais fácil começar por aí para chegar no sofístico, no doutrinário.

Está bem claro isso ou não? Quase que para nós brasileiros não há outro caminho, que começar por aí. Eu creio que a Europa cada vez vai ficando mais assim também.

(Sr. –: [inaudível])

* O Sr. Dr. Plinio manifesta o desejo de publicar, em separata, um álbum com todos os artigos da secção “Ambientes, Costumes e Civilizações”

Não há termo de comparação. Ambientes e Costumes… mas isso é só, quase, para circulação interna, para o pessoal do “Catolicismo” que já tem uns pressupostos. Um ou outro “Ambientes e Costumes”, mas… tão escasso que não vale a pena tocar por aí, não é? Outra coisa seria saber se um álbum em separata do “Catolicismo” com um certo número de “Ambientes e Costumes” poderia servir de alimento, de meio para argumentação.

Aqui é um problema editorial muito grosso, seria uma questão de apostolado muito interessante. Mas nós estamos tão sobrecarregados de preocupações, que nem podemos entrar por aí. Seria uma coisa com um prefácio explicando, seria muito interessante.

(Sr. –: [inaudível].)

dificílimo, seria um livro com formato de um álbum, porque eu sustento que “Ambientes e Costumes” em fotografia pequena impressiona muito menos que em fotografia grande. É da natureza desse tema, entende, porque eu tentei publicar uma coisa por exemplo do formato disto, “Ambientes e Costumes” ─ lembram-se do primeiro “Ambientes e Costumes”, de uma lady deitada aos pés de um conde, etc., etc. Bom, aquilo, em tamanho slide, ou em qualquer outro tamanho, em que a gente possa ver mais ou menos, mas que não seja grandão, perde. Porque é grande, de maneira que… enfim, é outra questão.

E com isso fica dada mais essa achevée para o estudo da RCR na nossa vida quotidiana.

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