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Santo do Dia — Março/65 (019.276)

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Finura e Santidade no Trato

Amanhã não há para nosso calendário Santo do dia. Hoje é a festa da Expectação da Bem-aventurada Virgem Maria, de que nós falamos ontem. O próximo santo é um santo tão de importância para todos nós: São Tomé Apóstolo, segunda-feira. Mas, está muito longe para nós falarmos qualquer coisa a respeito dele. Não sei se alguém sugere algum tema que eu possa tratar?

[….]

Finura e santidade no trato? Está bom, pode-se falar.

Para a gente entender as relações entre finura no trato e santidade, a gente tem que saber bem o que é o trato, e o que é finura. Oxalá a gente soubesse o que é santidade…

O trato é propriamente uma coisa toda ela externa. Ao menos no sentido mais grosso da palavra, mais imediato, é uma coisa toda ela externa. E é um conjunto de fórmulas por onde nós expressamos para com os outros a nossa atitude de espírito interior. Quer dizer, o trato envolve de fato duas coisas: envolve em primeiro lugar uma conduta e depois envolve maneira.

Por exemplo, há um modo de tratar que não é apenas feito de maneira, mas é feito de elevação de espírito. É quando a gente sabe, por exemplo, tratar os outros com benignidade, ou com força, com fidelidade, ou com nobreza, ou com qualquer outra coisa. Isso não é bem exatamente igual à maneira. Por exemplo, um amigo deve dinheiro a outro amigo. O modo pelo qual esta relação de crédito e débito se trata, se desenvolve, é uma coisa que diz respeito ao trato. Mas, diz respeito ao trato em que sentido? Quer dizer, é o lidar de um com outro em torno de uma situação naturalmente tensiva. E que é capaz de ser mais elevado, menos elevado, mais generoso, menos generoso, independente das maneiras da cortesia que nesse trato se empregam.

Agora, as maneiras de cortesia são as fórmulas, são as atitudes do rosto, são as atitudes das mãos, atitude de toda a pessoa, é a linguagem, etc., etc., que é por assim dizer um elemento secundário e extrínseco do trato.

Acontece que a santidade necessariamente conduz a um trato muito elevado no primeiro sentido da palavra, que é um sentido fundamental da palavra, quer dizer, o trato no seu aspecto profundo. Uma pessoa que é santa, pelo fato de ser santa, porque a santidade é a raiz de toda a conduta perfeita, tem em relação aos outros uma conduta e um trato exemplar. E trata aos outros, então, com toda distinção, com todo esmero, com todo o respeito, com todo o afeto, ou com toda a força, e com toda a energia e com todo o espírito vindicativo que as circunstâncias exige. Então a santidade aí é co-idêntica com a perfeição no trato.

Pode haver pessoas não santas que têm um trato bom, pode haver pessoas — ainda nesse sentido profano do trato — pode haver pessoas não santas que tratam os outros eximiamente?

Pode. Pode haver quando há uma grande tradição de civilização católica. Essa tradição não morre de um momento para outro. E se bem que a moralidade pode cair muito rapidamente, a tradição do trato ainda continua. Usando uma imagem de São Pio X, que ele aplicava a outra coisa, nós [não] podemos pôr rosas num jarro sem que o jarro possa se impregnar do perfume da rosa, e continuar até depois da rosa ser retirada do jarro.

Assim também, certo cavalheirismo de trato, certa fidalguia de trato, mas no menor sentido, no sentido mais profundo da palavra, pode subsistir como uma tradição católica num ambiente que já é muito pouco católico, que não é mais católico, não é? Já apostatou. Por exemplo, alguma coisa da nobreza de trato de certos lordes ainda é uma remota tradição da Inglaterra, no tempo que a Inglaterra era católica. Mas é uma coisa que vai morrendo. E esse exibido que será muito elegante no trato, em matéria de dinheiro de repente é muito deselegante em dinheiro mesmo. Ou se não for em dinheiro, é em matéria de adultério, em matéria de qualquer outra coisa. De maneira que ele, por exemplo, julgará que é um defeito de trato, ele ir à casa de um amigo, roubar a colheirinha do amigo e roubar a esposa do amigo.

Isso aqui é pitoresco, etc., etc., quer dizer, são tradições que ficam meio hirtas, mas que são duras e têm uma vida toda ela artificial. Como as coisas que ameaçam morrer, e que acabam morrendo mesmo.

De maneira que a finura do trato nesse sentido profundo da palavra, a finura do trato quando cessou o estado de graça, a finura do trato é como uma trepadeira da qual a gente corta a raiz. Pode ainda durante algum tempo algumas flores que começaram a desabrochar se desabrocharem inteiramente até. pode haver, portanto, uma ilusão de vida naquela trepadeira. Mas é uma post-vida. Aquilo morre mesmo. Porque de onde foi tirado o verdadeiro amor de Deus, não pode haver amor dos homens verdadeiro. E onde não há amor de Deus nem amor dos homens o trato, neste sentido elevado da palavra, evidentemente é uma coisa que tem que desaparecer. É uma coisa que está condenada a morrer.

Há símbolos na natureza magníficos dessas situações. Falaram-me que em certos cadáveres a barba ainda cresce um pouquinho. É um resto do desenvolvimento vital numa coisa que está morta. Assim também pode haver aparente florescimento de maneiras, numa civilização já morta. Assim, por exemplo, debaixo de um certo ponto de vista, certo ponto de vista apenas, nós podemos dizer que o trato continuou esplêndido na Europa, cristão, aristocrático e acidental até há pouco. Mas é uma coisa toda ela defectiva, toda ela errada, toda ela tendente a cair. Não é verdade? Era o resto de uma coisa magnífica que tinha existido.

Bem, agora, que diferença há entre trato e maneira? As maneiras são uma porção de fórmulas, de gestos, de atitudes, que têm muito de natural mas alguma coisa também de arbitrário, de convencional, pelas quais os povos chegam a exprimir por um consentimento geral, chegam a exprimir os seus estados de espírito e o seu bom trato. Então os povos podem ser muito virtuosos antes de terem maneiras perfeitas. Eles então têm um trato muito elevado e têm maneiras apenas corretas, apenas suficientes, com um resto de barbárie pode ser até. Não com selvageria, mas com um resto de trivialidade, um resto de banalidade, com uma falta de elegância, que afinal de contas pode ser que exista.

As maneiras são elaboradas. Um santo, por exemplo, pode portanto ter menos voas maneiras do que um outro que não é santo. As maneiras são elaboradas lentamente pelas civilizações. Elas são o produto de toda uma sociedade. E a relação que existe é sempre a seguinte: a perfeição no trato acaba gerando ao longo do tempo maneiras esplêndidas. As maneiras esplêndidas são portanto uma espécie de fruto mais remoto do trato. E, portanto, um fruto um pouco mais remoto ainda da virtude. Mas elas são também fruto da virtude. E vive necessariamente só da virtude. De maneira que se virtude não houvesse, as maneiras seriam também muitíssimo inferiores. E quando a virtude morre, o trato vai se deformando, as maneiras ainda continuam, porque é uma coisa mais externa, mais material e cujo desaparecimento se nota mais, choca mais.

Então nós temos civilizações, por exemplo a França nas vésperas da Revolução, com maneiras requintadíssimas mas indicando já algo que ia morrer, algo que ia cair.

O trato decorre, então, necessariamente da virtude, e decorre imediatamente das virtudes. As maneiras decorrem necessariamente das virtudes porque decorrem do trato, mas não decorrem imediatamente quanto as maneiras requintadas, quanto as maneiras esplêndidas, que são fruto de uma civilização.

Agora, é claro que uma pessoa assim como pode ter bom trato em alguns pontos e não ter virtude, a fortiori pode ter boas maneiras e em alguns não ter virtude. É uma coisa que com o tempo depois perecerá, desaparecerá.

Eu gostaria, para terminar, de dizer apenas o seguinte. Que o histórico das civilizações, se fosse bem feito, mostraria que as maneiras perfeitas só existiam com fruto da civilização católica; e que antes disso não houve maneiras perfeitas em tudo. Havia povos cujas aristocracias, debaixo de alguns aspectos, tinham maneiras excelentes. Debaixo de algum ponto de vista até insuperáveis. O povo chinês, por exemplo. Mesmo romanos, gregos, etc., debaixo de alguns pontos de vista eles tinham um Direito bom, uma arte boa, uma cultura boa, uma literatura, etc., debaixo de algum ponto de vista. Mas é apenas debaixo de algum ponto de vista, e nunca com a elevação que as coisas atingiram sob a civilização católica.

Os senhores pensem um pouco num banquete romano, por exemplo. A gente fala de civilização romana, civilização clássica. Um banquete romano. Os convivas todos deitados naqueles triclínios comendo e bebendo à tripa fôrra, mas de um modo indecente com uma glutonice sem igual. E embriagando-se de embriaguez de serem levados para fora da sala. Bem, quando alguém se sentia — a expressão é muito prosaica, mas afinal temos que empregar — quando algum se sentia cheio demais, levantava-se e ia para as salas contíguas, onde havia escravos que tinham a habilidade de provocar por meio de penas cócegas no paladar da pessoa que tinha comido demais. E a pessoa então restituía tudo o que tinha comido e tudo o que tinha bebido. Aí vinham escravos com vasilhas com água, a pessoa lavava a mão e, se queria, secava a mão na cabeça do próprio escravo, que servia de toalha. Compreende que o escravo ficava emporcalhado de toda espécie de porcaria.

Agora, imaginem a cena nos seus pormenores, hem? O glutão ou a glutona de bocarra aberta, e o escravo com a cócega: e não vai, não vai, e a ânsia, etc., afinal há a explosão gástrica. Anda de um lado para outro, e aguenta, e sustenta, pára, disparos de coração, etc. Afinal, equilibra-se o monturo, arfeja mais um pouco, volta cambaleando para comer. “Traga um leitão!” E recomeça aquilo.

Quer dizer, isso é maneira?

Bom, o festim terminava em geral com orgia no jardim. E na manhã, quando os escravos que não tinham servido à noite vinham para pôr em ordem as coisas, entrava até terra na boca daqueles convidados que tinham comido as comidas mais excelentes imagináveis naquele tempo, como por exemplo pirâmides de línguas de papagaio…

Bem, os senhores compreendem o que é que isto representa em matéria de maneiras. Isto é o horror em matéria de maneiras. Eu poderia citar cem outras coisas em cem espécies de civilizações.

Uma palavrinha, e com isso eu termino, sobre a falta de maneiras do brasileiro. A falta de maneiras do brasileiro, no que consiste? Eu falo do brasileiro, quer dizer, do luso-brasileiro. Consiste numa espécie de desbotamento, de acanhamento e de bobeira por onde toda a fórmula polida, todo o dito elegante, interessante, toda a atitude rasgada e gentil é substituída por uma acolhida parda, que é do Norte ao Sul, do Prata ao Amazonas, do mar às cordilheiras, hem? É isto, não é?

Hã… você veio? Bom dia! Senta. Qué sentá, ou não qué? Qué sentá, é?

Depois, segunda pergunta: — Qué café? Com a esperança de que não queira nem sentar nem café, para dar amolação, está compreendendo?

O sujeito diz: — Ah, quero sim!

Então, hem? como vai a Chica?

Isto é a última das coisas em matéria de trato. Frieza perfeita recíproca. Isso tudo é efeito de um desbotamento de alma, o qual desbotamento de alma tem uma raiz moral, a qual raiz moral tem uma raiz religiosa.

A gente vê, por exemplo, brasileiros colocados, um diz:

O nosso mar! que beleza! O nosso panorama, que lindo!

Ninguém ousa perguntar-se o seguinte: o que é que vê do mar o caiçara que está lá? Um depósito de peixes, que tem o inconveniente de se mover, porque se fosse tudo parado, era o ideal. Ele não queria outra coisa. Alheio ao significado de todas as coisas, apenas se preocupando em comer aquele peixinho com uma farinha vagabunda que ele come e gozando aquela vidinha que está li. Aquilo é uma falta, em última análise, de amar às coisas grandes, que resulta de uma falta de amor de Deus. E que dá nesse desbotamento de todo o Brasil.

Por exemplo, os ipês. Alguém me disse que conhece um ipê por aí numa cidade brasileira, que é uma verdadeira maravilha. Todo o mundo passa e nem olha. Podia embaixo fritar pipoca e encher o chão de pipoca, da fumaça daquele tubo preto de ônibus, de tudo o que quiser, que não tinha importância nenhuma. Se um belo dia cortarem o ipê também não tem importância. Só o que tem importância é a eleição do vereador e a politicagem.

Maneiras pocas, trato poca, resultado da tibieza.

Aqui os senhores têm um comentário sobre a santidade e a finura.

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