Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 12/2/1965 – 4ª feira – [SD 006] – p. 3 de 3

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 12/2/1965 — 4ª feira — [SD 006]

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A lançada no Coração de Jesus mostra o desígnio de matá-Lo mesmo * A cura do centurião evidencia o desejo de perdoar e estimular a confiança * Prenúncio da Ressurreição, o Sagrado Coração de Jesus e de Maria são penhor de misericórdia

* A lançada no Coração de Jesus mostra o desígnio de matá-Lo mesmo

O que aquele crucifixo tem de muito bonito, é que ele, entre outros aspectos, põe muito em foco um dos aspectos mais trágico, mais dramáticos da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, e que é a efusão de sangue. O sangue que mostra uma carne muito viva, em todas as feridas com um realismo extraordinário, feridas que arrebentam e que deixam, portanto, a carne viva bem ao nu, e depois o sangue escorre também ao longo do corpo. Algumas gotas, o artista escolheu, exatamente, para as representar, pequenos rubis, que pudessem dar toda a noção do sangue ainda escorrendo, o sangue que ainda não coagulou, que ainda não secou, está acabando apenas de se verter. E há uma chaga que é apresentada do lado do Coração de Nosso Senhor e que representa a chaga que foi aberta por um centurião quando, com a sua lança afiada, cravada no coração, ele tirou de Nosso Senhor o último sangue e a última água, e tudo quanto havia de líquido no corpo sacratíssimo de Nosso Senhor Jesus Cristo se verteu.

A separação do corpo e do sangue indica a morte. E exatamente para indicar a morte, a oblação, o sacrifício, a entrega total da vida, a destruição inteira do ser, é que também a comunhão se faz debaixo de duas espécies.

Nosso Senhor Jesus Cristo está presente com seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade, tanto na hóstia quanto no vinho. Mas Nosso Senhor fez o sacrifício debaixo das duas espécies para lembrar como na sua Paixão o Corpo e o Sangue estariam completamente separados, como haveria a última efusão de sangue e como, portanto, tendo querido remir-nos, e tendo querido remir-nos derramando seu preciso Sangue, Ele derramou esse sangue em toda a quantidade possível, como a Redenção que é, portanto, um sacrifício abundantíssimo. A dor foi sem nome, e de uma morte ignominiosa. E essa morte foi caracterizada pela completa separação entre o sangue e a carne. Portanto, até essa união vital entre o sangue a carne, completamente destruída.

Mais ainda, e esse é o lado mais pungente:

Nós sabemos que o coração representou sempre na Sagrada Escritura a própria alma do homem, representou os desejos do homem, representou os movimentos da vontade do homem. Os salmos estão repletos de alusões ao coração como simbolismos destes. O coração é de algum modo o símbolo da vida. Ele é também o símbolo do afeto, é o símbolo do amor.

Está bem, Nosso Senhor Jesus Cristo quis que fosse possível e que fosse feito, que para que esse sacrifício fosse completo viesse um homem e sobre o corpo d’Ele já dilacerado de mil modos fizesse essa última ferida, de uma lancetada, e que essa lança atingisse o coração. De tal maneira que o resto, já não corre sangue nem água, de um líquido orgânico meio amarelado com resto de sangue, até isto saiu. E seu Coração ele próprio fosse ferido pela lança de um homem. De maneira tal que, até no Coração, Ele recebeu esse ferimento.

Esse ferimento do Coração aparece, portanto, como uma espécie de requinte da Paixão, como sendo a Paixão levada ao último ponto. E embora pareça que essa lança tenha sido cravada nEle para atestar que Ele tinha morrido e para o corpo poder ser tirado da Cruz, isso no entanto não deixa de ser por algum aspecto um último ato de selvageria. Quer dizer, uma resolução tão completa de matá-Lo que, por via das dúvidas, fizeram nEle por fim um ferimento que mataria se Ele não estivesse morto. De tal maneira havia essa resolução de acabar com Ele.

De maneira que neste mesmo ato de misericórdia e de segurança , havia um ato que de si mesmo era… Então nós compreendemos o contraste.

O Sagrado Coração de Jesus que amou os homens durante esta vida terrena com um amor infinito, que os amou por uma via tão contínua que foi até o último ponto… Ele mesmo qualificou a morte d’Ele dizendo que ninguém pode ser mais amigo do que um amigo que dá a vida pelo seu amigo. Era entretanto o que Ele fazia por seu amigo, e o amigo era cada um de nós. Ele quis permitir que a coisa fosse a tal ponto, que esse coração cheio de misericórdia, cheio de bondade, que esse coração fosse cravado. Fosse cravado por mãos de homens e por mãos de homens que gostariam de matá-Lo se Ele ainda não estivesse morto.

* A cura do centurião evidencia o desejo de perdoar e estimular a confiança

E o último ponto da misericórdia desse coração foi exatamente esse:

Conta-se — e tudo leva a crer que é verdade — que esse centurião que cravou a lança nEle, não era cego, mas era um homem de uma vista muito ruim, muito precária, digamos quase cego, e com aquele sangue, com aquela água que caiu sobre ele ficou miraculosamente curado de sua cegueira. De maneira que há então um ato de selvageria da parte de um, e um ato de bondade e de perdão da parte de Nosso Senhor.

Isso é uma promessa do Sagrado Coração de Jesus que está contida aí. E a promessa é a seguinte: para todos os que tiverem confiança nEle, que tiverem confiança na misericórdia d’Ele, que tiverem confiança na bondade d’Ele, podem esperar o perdão e as graças necessárias para a salvação mesmo depois dos piores pecados, desde que se voltem a Ele com resignação, desde que se voltem a Ele com humildade, para pedir perdão. Quer dizer, Nosso Senhor Jesus Cristo não nos abandona nunca.

Nós podemos imaginar qual foi nesse último momento a aflição de Nossa Senhora e das santas mulheres. Quando toda a destruição parecia consumada, nada mais restava, Nossa Senhora e São João olhando de baixo o corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz, eles de repente… que se aproxima, e nesse corpo em que cada pancada tinha repercutido espiritualmente sobre eles que estavam ao pé da Cruz nesse aperto tremendo, vêem ainda esta última coisa, esse último ato de ferocidade, e depois observam o último perdão.

Imaginem o grito do centurião dizendo: “Estou vendo!” e manifestando-se alegre porque estava vendo.

* Prenúncio da Ressurreição, o Sagrado Coração de Jesus e de Maria são penhor de misericórdia

Bem, há em tudo isto, e nessa aflição de Nossa Senhora no último momento, o que foi a última aflição d’Ela, vamos dizer assim, de algum acontecimento da paixão, porque todo o resto foi a tristeza d’Ela com a piedade, com Nosso Senhor sobre o colo, etc. Nós podemos imaginar que nesse momento eles todos tenham tido luzes especiais a respeito da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Tanto mais que na cura desse centurião havia uma coisa muito bonita: era Nosso Senhor que dava uma primeira prova de sua Ressurreição, porque derrotado, esmagado, Ele fazia milagres, que ninguém é capaz de fazer. Quer dizer, Ele continuava com seu poder inteiro, com sua vida na sua existência inteira, e tudo quanto tinha sido feito contra Ele, não tinha destruído d’Ele nada.

De maneira que nós vemos aí também um primeiro prelúdio da Ressurreição.

É por causa disso que na ladainha do Sagrado Coração de Jesus uma da invocações mais bonitas é: “Cor Jesu, lancea perforatum, miserere nobis — Coração de Jesus perfurado por uma lança, tende compaixão de nós”.

E quando a gente pensa no Coração de Jesus perfurado por uma lança, pensa no Imaculado Coração de Maria transpassado pelo forte gládio das dores que Simeão previu para Ela. São coisas conexas. São Corações cheios de sofrimentos e cheios de dor.

E é por causa disso que diante daquela imagem embaixo nós fazemos nossa cerimônia dizendo: “Cor Jesu lancea perforatum, miserere nobis”, que é a fórmula que empregaremos a partir de hoje. Nesse momento nós nos lembremos que Nossa Senhora está espiritualmente ao pé de todas as cruzes do mundo com as suas intercessões e seus rogos, e peçamos a Ela que se una a nosso pedido.

Que o Coração de Jesus perfurado por uma lança tenha pena de nós. Tenha pena de nós para nos dar aquela santidade, nos dar aquela excelência de vida espiritual que é a missão de nossa vida. E para nos dar o dom de desferirmos golpes tremendos contra todos aqueles que são inimigos do Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria.

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