Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 15/12/1964 –
3ª feira [SD 013 e 228] – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 15/12/1964 — 3ª feira [SD 013 e 228]
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A perseguição moral deu a Santo Eusébio a glória do martírio * Pela ferocidade dos inimigos da Igreja pode se discernir o falso do verdadeiro filho dela * Por odiar a luz, o filho das trevas odeia as qualidades e não os defeitos que possamos ter * Situações trágicas da vida quotidiana podem se equiparar aos tormentos do Coliseu * O sofrimento é o que de melhor existe em nós e nossa grande surpresa deve ser não sofrermos — Exemplo de Mons. Boudon * A perseguição dos filhos das trevas nos faça compreender o valor do sofrimento
Amanhã é festa de Santo Eusébio, bispo e mártir. Lutou contra os arianos. Os sofrimentos que estes lhe infligiram, valeram-lhe o título de mártir, embora não tivesse derramado seu sangue. Século IV.
* A perseguição moral deu a Santo Eusébio a glória do martírio
Alguns comentários rápidos sobre Santo Eusébio.
O primeiro é sobre a caridade dos adversários da Igreja. Afinal, é coisa frisante que os arianos fizeram sofrer esse homem de tal maneira, sofrimento de caráter moral, que ele é considerado mártir da Igreja, embora não tenha sofrido o martírio físico.
Quer dizer, deve ter sido perseguições, calúnias e incompatibilidades entre seus amigos, deve ter sido tudo quanto moralmente pode atormentar um homem. O que quer dizer que houve uma campanha organizada contra esse santo. Campanha organizada que é exatamente [como] pela “máfia” que nos persegue. Deve ter eliminado a condição de existência desse santo, de maneira a reduzi-lo ao máximo do infortúnio.
E aí nós vemos bem a ferocidade dos inimigos da Igreja em relação aos que verdadeiramente servem a Igreja, tão em contraste com a doçura que os inimigos da Igreja têm em relação aos falsos filhos da Igreja.
* Pela ferocidade dos inimigos da Igreja pode se discernir o falso do verdadeiro filho dela
E aí podemos também tomar um critério para o discernimento dos espíritos e compreender bem quais são os verdadeiros filhos da Igreja.
Nós, infelizmente, muitas vezes, não sabemos ver quem é verdadeiro filho da Igreja ou não. Porque Nosso Senhor disse no Evangelho que infelizmente os filhos das trevas são mais sagazes às vezes que os filhos da luz.
Mas os filhos das trevas, por isso mesmo, raras vezes se enganam. E quando eles agradam alguém das fileiras católicas, é muitíssimo raro — eu não conheço exceções — que eles estejam enganados. Quem eles agradam nas fileiras católicas, não presta. Quem eles atacam nas fileiras católicas, habitualmente — existem exceções — presta.
Eles às vezes atacam para prestigiar um inimigo entre os católicos. E por isso aqui é preciso ter um pouco mais de cuidado. Mas, em todo caso, a verdade é que, em geral, quando eles atacam uma pessoa é porque essa pessoa presta.
Aí os senhores têm um exemplo nesse santo: nota-se como ele, um homem todo cheio de qualidades, cheio de virtude, foi atacado e odiado dessa forma porque era um verdadeiro filho da Igreja.
Isto nos mostra também qual é o fundo da malícia que existe nos filhos das trevas.
* Por odiar a luz, o filho das trevas odeia as qualidades e não os defeitos que possamos ter
Nós não devemos imaginar que os filhos das trevas nos odeiam por causa de nossos defeitos. Se há algo onde o ódio deles sobre nós não é completo, é por causa dos defeitos que possamos ter. São as nossas qualidades o que eles odeiam.
Os filhos das trevas odeiam a luz, odeiam a verdade, odeiam a virtude, odeiam o bem, e é por causa das qualidades que há em nós que nos odeiam. É por causa de nossos defeitos que eles, eventualmente, podem contemporizar conosco.
De maneira tal que uma pessoa de nosso movimento — cujo nome eu não quero revelar, é uma pessoa da qual eu pessoalmente ouvi isso — dizia que uma ocasião notava que estava sendo objeto de muitas cortesias por parte dos filhos das trevas. Então essa pessoa dizia: “Eu preciso fazer um exame de consciência, porque algo em mim não está direito para essa gente de tal maneira estar tendo interesse em mim”. E o mais extraordinário é que ele precisava.
Quer dizer, de tal maneira a regra acerta bem.
* Situações trágicas da vida quotidiana podem se equiparar aos tormentos do Coliseu
Seria interessante um outro acréscimo a respeito do seguinte: como a Igreja reconhece que o sofrimento de caráter moral pode ser igual ou maior do que o martírio.
Nós lemos na “Acta Martirum”aqueles tormentos tremendos: panteras, jaguares, lobos, hienas, leões que se jogavam sobre os mártires, que os estraçalhavam, etc. A gente tem impressão de que era um tormento horroroso, e era um tormento horroroso.
Quando a gente visita o Coliseu, há uma prisãozinha onde ficavam os mártires que iam ser sacrificados no dia seguinte e ficavam a noite inteira rezando, porque sabiam que no dia seguinte tinham que morrer e ficavam rezando para ter perseverança. E a uma distância não muito grande ficavam as jaulas das feras famintas, uivando, à espera da carne daquela gente no dia seguinte. Era um tormento tremendo.
Mas na vida de todos os dias do verdadeiro apóstolo, na luta de todos os dias do verdadeiro apóstolo, apresentam-se situações trágicas, apresentam-se situações dificílimas, que são comparáveis aos tormentos dos mártires no Coliseu. E é preciso que a gente tome isso em consideração para compreendermos o valor do sofrimento pelos quais passamos e para acharmos normal que passemos por sofrimentos.
É próprio do apóstolo sofrer, e sofrer sofrimentos que muitas vezes são comparáveis aos sofrimentos do Coliseu. De maneira tal que devemos compreender o traço de martírio que existe em nossa vida e devemos amar esse traço de martírio. Amá-lo com amor, porque é o fio de ouro de nossa existência.
* O sofrimento é o que de melhor existe em nós e nossa grande surpresa deve ser não sofrermos — Exemplo de Mons. Boudon
Tudo quanto em nossa existência é bom, não é tão bom quanto o sofrimento que sofremos. Porque é pelo sofrimento que sofremos que nosso sangue se mistura ao sangue infinitamente precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo para, de um modo imensamente secundário mas eficaz, auxiliar a salvação das almas. De maneira que isso nós devemos considerar.
Devemos considerar e devemos, por causa disso, compreender que é natural que Nossa Senhora faça vir sofrimentos sobre nós. E é natural que esses sofrimentos sejam, às vezes, horrorosos. E nós, quando esses sofrimentos vierem, devemos recebê-los com a alma preparada, e não com surpresa e o susto de uma pessoa para a qual acontece algo que não devia acontecer.
O grande susto e a grande surpresa de nossa vida será ver que não sofremos, de tal maneira o sofrimento nos é natural.
Eu me lembro aqui de um caso de um verdadeiro filho de Nossa Senhora que passou por um sofrimento tremendo e é uma pessoa que São Luís Grignion de Montfort em suas obras elogia. Parece que ele foi o inspirador do “Tratado da Verdadeira Devoção” de São Luís Grignion de Montfort. Era um padre chamado Mons. Boudon1, ou uma coisa assim… um padre da Alsácia. Esse padre — era um cônego até — exercia seu ofício em Estrasburgo, se não me engano, e era muito bem visto pelo bispo diocesano, que com freqüência ia visitá-lo, conversavam, boas relações, etc.
Um dia esse padre acabava de celebrar a missa e sai da sacristia, correndo, um acólito, um coroinha, gritando por toda a rua que o padre tinha atentado contra a pureza desse coroinha.
As circunstâncias narradas pelo menino foram tão tremendas, que a opinião pública, muito montada contra o padre que era um verdadeiro devoto de Nossa Senhora, numa época em que os devotos de Nossa Senhora eram odiados, a opinião pública deu crédito à calúnia infame, apesar de haver apenas o testemunho de uma criança, e de uma criança só. O bispo acreditou também, cortou as relações com o padre, e ele passou durante dez anos na maior abjeção, no maior desprezo, na maior rejeição da parte de todo mundo, completamente isolado e bloqueado.
Ao cabo de dez anos esse menino, que se tinha tornado um mocinho, morreu. Antes de morrer ele chamou para junto de si um número grande de pessoas que mandou ele chamar às pressas e ele contou que uma pessoa de cidade lhe havia dado dinheiro para ele inventar a calúnia. Era calúnia e ele não queria aparecer diante do tribunal de Deus levando uma infâmia dessas nas costas. E indicou o nome da pessoa e o dinheiro que lhe tinham dado.
Havia até pessoas do clero que estavam assistindo o moribundo, etc.
O fato então se espalhou por toda a cidade e o bispo, que ainda era o mesmo, foi visitar o cônego, restabeleceu-o nas suas boas relações, começou novamente a tomar as refeições em casa dele, etc., e a tormenta passou.
Durante dez anos, sem nenhuma esperança plausível de que essa situação se consertasse até o fim de seus dias, esse homem esteve no pior estado de infâmia em que um homem possa estar.
* A perseguição dos filhos das trevas nos faça compreender o valor do sofrimento
Essas são as provas tremendas a que os filhos das trevas sujeitam os filhos da luz. Como os arianos do século IV, como os jansenistas do século XVII, é a “máfia” no século XX, seja o que for… é sempre a mesma coisa, a mesma forma de perseguição. E é a mesma infâmia, mesma torpeza.
E nós nos devemos preparar para todos os sofrimentos morais para, seja de que forma for, sermos fiéis a Nossa Senhora.
Vamos pedir ao santo, cuja festa amanhã se celebra, que nos obtenha a graça dessa compreensão do valor do martírio do sofrimento moral, esse entusiasmo pelo sofrimento moral, como forma, como fator de martírio, e essa compreensão de que na vida absolutamente nada se pode fazer melhor ou tão bom quanto sofrer, a não ser rezar. São as duas coisas melhores na vida que se pode fazer.
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1) Era arcediago de Évreux, Normandia