Santo
do Dia ─ 20/11/64 ─ 6ª feira .
Santo do Dia ─ 20/11/64 ─ 6ª feira
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A terrível situação de um cativo, capturado pelos maometanos * A situação dos cativos preocupava profundamente a Cristandade, principalmente pelo risco em que era posta a salvação de suas almas * Para atender às necessidades dos cativos, a Providência suscita a Ordem dos Mercedários * Diante dos povos dominados pelo comunismo não há mais a mesma atitude que tomaram os espanhóis face aos católicos presos pelos muçulmanos * Diante do perigo da investida comunisa, a tentação é de “levar a vidinha”
Eu devo avisar que hoje é festa de Santa Elizabete viúva e que amanhã será festa de São Felix de Valois, confessor da família real da França. Fundou, com São João da Mata, a Ordem dos Trinitários para resgate dos cativos.
Lembro-me de uma história de Isabel, a católica, que nos foi dada pelo Restrepo.
* A terrível situação de um cativo, capturado pelos maometanos
O problema dos cativos nesta história, sobretudo na parte que diz respeito à luta contra os mouros e o fim da reconquista e a queda de Granada; o [poder?] dos cativos aflora com muita freqüência.
O modo pelo qual viviam e tratavam os problemas dos cativos nos explica bem porque uma Ordem Religiosa foi fundada especialmente para isto.
Acontecia que naqueles reinos… Quem lembra, por exemplo, Alhambra, o generalíssimo e ouviu falar do reino de Granada, tem uma idéia errada a respeito da essência do Estado muçulmano daquele tempo.
Não se tratava de um Estado organizado como o nosso. Quem vê aqueles palácios, pensa que moravam ali reis, seriamente reis. Eu não quero dizer que fossem reis sérios, mas ao menos que fossem seriamente reis. E que esses reis tivessem ali um Estado organizado, com um mínimo de decência de praxe de todo Estado organizado. Uma sucessão dinástica regular, etc. Ora, isto não existiu em toda a antiguidade pagã, por exceção do Egito ─ sucessão dinástica regular ─ e da China.
E o Estado maometano, além disso, não era propriamente uma coisa assim, mas era uma espécie de Estado bandido vivendo como os bárbaros numa espécie de luta habitual, mas de luta de saques e de pilhagem contra quem não fosse eles, e muitas vezes contra eles também.
De maneira tal que cada uma daquelas cidades, vamos dizer por exemplo, o reino de Granada, era uma cidade magnífica, com um conforto muito bonito, etc., etc. Mas naquele palácio cercado no geral muito mais de choças do que de habitações de um certo nível ─ porque também eles não tinham uma verdadeira elite, nem uma verdadeira aristocracia ─ eles tinham uma gente efêmera, ativista, que subia e que descia.
Bom, naquela cidade havia até certo ponto, uma espécie de antro de bandidos que viviam de pirataria e que portanto, no mar e em terra, vivia de saquear, de roubar como uma fonte habitual de renda e de se apoderar de cativos, como um modo costumeiro de conquistar mão de obra e de incutir terror no adversário.
Por que incutir terror? Vejam o paralelismo. Do lado católico não havia escravidão, ou havia um tímido apenas de escravidão. O cativo era muito mais bem tratado, o cativo de guerra, do que do outro lado. De maneira que quando eles estavam em guerra, os católicos lutavam em inferioridade de condições, porque os outros tinham menos medo de ser presos, os outros tinham menos medo de irem para a guerra do que os nossos. Porque os nossos chegando lá na zona maometana, eram pessimamente tratados.
Por exemplo, o sistema de com freqüência arrancar os olhos, porque arrancando os olhos o sujeito não pode fugir. Então trela como uma espécie de burro de carga, para puxar certas coisas. Põe 500 cegos numa corda, diz: “Toca para a frente.” Eles o que podem fazer é não tocar, mas sair fugindo não podem. Fica ali. No duro. De maneira que a coisa era “batata”, a coisa era assim.
Bem, outras vezes eles desfiguravam o sujeito. Eles tomavam homens importantes, maltratavam horrorosamente. Eles, matavam muitas vezes. Eles corrompiam moralmente com muita freqüência.
Quer dizer, era uma situação moralmente miserável e essa captura era um forma de banditismo habitual que eles faziam também quando não estavam em guerra. É essa história de ciganos que antigamente roubavam crianças.
Eles faziam também ─ eles viviam de roubar ─ por exemplo: Na fronteira tem uma família de camponeses espanhóis. Está bom, numa certa noite, passa, roubam uma família, fazem escravos. Roubam tudo quanto é da família, por exemplo, gados, haveres domésticos etc., algum dinheiro que têm guardado vai para quem pegou e quem pegou fica indevidamente dele. É uma espécie de banditismo sistemático, produzindo sistematicamente a condição de escravos.
* A situação dos cativos preocupava profundamente a Cristandade, principalmente pelo risco em que era posta a salvação de suas almas
Então a gente vê a idéia que tinham todos aqueles de libertar os cativos, de resgatar os irmãos deles na raça, mas sobretudo e principalmente os irmãos da Fé, e a coisa muito ordenadamente feita.
Era muito mais para salvar dos perigos da alma do que dos tremendos perigos do corpo. Preocupavam-se muito, era uma espécie de preocupação que pairava em toda a população, a perdição eterna daqueles cativos que estavam seguros ali.
E o libertar os cativos, era muitas vezes uma das razões das expedições católicas contra os muçulmanos. Sabiam que havia cativos do lado oposto, que corriam risco da sua vida, corriam risco da sua liberdade, de algum modo corriam risco de sua própria salvação eterna, porque também eles podiam ficar cativos, para se apoderarem daqueles cativos, resgatarem. Por exemplo, entravam, pegavam os cativos… [inaudível] … e portanto libertavam.
Ou então eles pediam esmolas para poderem comprar cativos. Enfim, trabalhavam constantemente com essa idéia dos cativos.
Aqui que nós temos é portanto uma parte da cristandade que vivia o regime cristão. E outra parte da cristandade que estava sujeita ao regime pagão, que estava sujeita a todos os sofrimentos, a todos padecimentos, todos os perigos do cativeiro entre os pagãos.
Quando a gente vai ver o contraste, gerava nos nossos uma imensa compaixão, um imenso zelo pela salvação daquelas almas, um grande senso de honra cristã. Era o terceiro fator que entrava: a idéia de que era uma vergonha ver que seus irmãos na Fé eram tratados por esta forma e que eles não reagiam.
Então, esta situação, quando a gente compara o número dos cativos com o número dos que não estavam no cativeiro, os cativos eram uma minoria e uma minoria até certo ponto até bem pequena, não há estatísticas, mas era uma minoria pronunciadamente minoritária. Apesar disto, esta situação amargurava os nossos e determinava atitude…[inaudível].
* Para atender às necessidades dos cativos, a Providência suscita a Ordem dos Mercedários
Agora, como sempre aconteceu que a Igreja, sempre que há uma grande necessidade da Igreja, a Providência suscita uma Ordem religiosa, para atender a sua necessidade e esta Ordem religiosa é ao mesmo tempo uma família de almas e é ao mesmo tempo um aparelho, um instrumento de ação novo.
Então, apareceu a Ordem dos Mercedários, para atender a esta necessidade. E era uma Ordem de Cruzados, era uma Ordem mendicante e era uma Ordem de Cavalaria ao pé-da-letra, quer dizer, que tinham os seus cavaleiros que deveriam fazer a guerra santa para resgate dos Cruzados.
São Felix de Valois, nos aparece portanto como um dos santos que encarnaram esse ideal; que se encarregam dessa preocupação; que sentiam o problema com toda energia das graças sobrenaturais que ele recebeu para isso e, vamos dizer, que polarizou essa preocupação disseminada por todo o corpo social e que chamou a si então a fundação dessa ordem.
Esta ordem tornou-se famosa, ela realizou um trabalho prodigioso. Ela atuou até o fim do século XVIII. As nações árabes do norte da Áfica perderam qualquer possibilidade de fazer novos cativos, e ela se encheu de glória por esta forma.
* Diante dos povos dominados pelo comunismo não há mais a mesma atitude que tomaram os espanhóis face aos católicos presos pelos muçulmanos
Agora qual é o contraste, qual é a reflexão que eu sugiro a respeito disto na noite de hoje? É a diferença de atitude entre o espanhol do tempo de São Felix de Valois em face do cativo e o católico e hoje em face do comunista. Os milhões de católicos que no regime comunista, estão num verdadeiro cativeiro e que desde que queiram permanecer fiéis à sua Fé, sofrem facilmente o que os cativos sofrem.
A indiferença dos católicos de hoje a dois passos da cortina de ferro… Os católicos alemães e austríacos levam toda a vida folgada e despreocupada que se poderia levar como se os russos não fossem comunistas e não houvesse comunistas na Europa.
Eu tenho a impressão que já contei aqui a sensação horrível que eu tive em Veneza. Provavelmente Paulinho, D. Bertrand, João e outros que tiveram em Veneza, Paulo, etc., Luizinho, devem ter sentido também, naqueles hotéis olhando para o mar e pensando que a umas duas horas de avião, até lá, menos ainda, se chega na Yugoslávia, onde é o reino da morte. E ninguém se incomoda com isso, ninguém tem pena, ninguém tem zelo, ninguém tem vontade de combater.
Mais ainda, a vontade é uma espécie de apetência para ceder. E daí o “Bucko” e tudo o mais que os senhores conhecem. Os senhores compreendem então a enorme… [inaudível] … e a miséria que se apoderou da Cristandade.
A diferença entre o zelo espanhol daquele tempo e a indiferença de milhões de católicos que só pensam no comunismo em termos de evitar que entrem na sua própria pátria. Esta idéia de resgatar as nações dominadas pelo comunismo nem de longe lhes passa pela cabeça. Eles julgam que são os mártires, eles julgam que são super-homens, eles que se reputam de admiráveis, com a súplice idéia de que em seu país eles impedem que entrem os comunistas. E esses são os melhores. Os que não têm vontade de ceder.
Os senhores compreendem a decadência que houve e a situação em que nós estamos.
* Diante do perigo da investida comunisa, a tentação é de “levar a vidinha”
Agora para que esta reflexão? Em primeiro lugar porque fortificamos em nós a convicção de que nós estamos em decadência, nós compreendemos melhor o sentido…
(…)
…pela providencialidade de nossa obra, que precisamente a obra dessa reação. Mas é também para nós nos examinarmos a nós mesmos e vermos, não na nossa teoria, mas nas nossas vivências, quanto desta decadência existe.
Quer dizer por exemplo, quantos de nós tem como pensamento vivo, um pensamento freqüente, um pensamento ativo de [que] todos os nossos irmãos na Fé estão nesta situação?
E isto agravado por uma circunstância que ainda é das mais desoladoras. Eu tenho informação do seguinte fato. Esta informação eu tive em Roma, quando eu estive em 62. É o convite de observadores cismáticos e sobretudo comuno-cismáticos, o convite desses observadores para estarem presentes ao Concílio Vaticano, produziu um desânimo enorme nos cismáticos não comunistas que há na Rússia e mais ainda nos católicos… [inaudível] … que não são cismáticos e nem comunistas. Que os deprimiu enormemente.
E o que foi pior, foi que havia uma rede de informações que [caudiava??] por meios de heroísmos, informações sobre a situação Russa para Roma. E essa rede era uma rede católica. E que logo no começo do pontificado de João XXIII, essa rede recebeu recomendação de não funcionar mais, porque não havia mais interesse em se conhecer o que se passava por trás da Cortina de Ferro.
Vejam de que natureza é esta provação. Um filho pode estar nas piores das situações quando o pai não está presente que imagina um pai cheio de carinho. Mas quando ele vê isto e ele… [ilegível]… notícias como nós temos hoje no jornal a respeito dos judeus, por exemplo…
O que é que está proposto a respeito dos judeus e que deve ser comentado amanhã? Os senhores terão a seu tempo oportuno o comentário. Quando… [ilegível] … isto, os senhores compreendem a que provação essa gente está sujeita.
O que é que um Felix de Valois diria? O que é que ele pensaria? E sobretudo diante desta emergência?
E qual é a nossa posição? E a tentação de fazer como os outros: Levar vidinha. Cumpre achar: “É, lá na Rússia tem gente que está padecendo?” A pergunta é antes: “O que é que você está falando mesmo?” Certamente está pensando num cheque que ele emitiu…
(…)
Quer dizer, ato contínuo, volta para a vidinha. E nós acharmos que é tanto o que a Providência pede de nós em comparação com que as almas fiéis que há lá no regime comunista, como é que… [inaudível].
Quer dizer, quando essa gente nos citar diante do tribunal de Deus para perguntar qual foi o nosso consentimento com eles e como é que nós pelo menos aproveitamos dos tormentos deles para sermos mais corajosos nos nossos tormentos, o que é que nós vamos responder? São meditações de tantas… [inaudível] … de nosso panorama… [inaudível].
Então nós devemos pedir a São Felix de Valois que ele nos dê o espírito da Ordem dele. Nos dê espírito de fogo, uma indignação inextinguível, um zelo de resgate irreprimível, um espírito de Cruzada [insupitável??]. É isto que nós devemos pedir.
Então amanhã festa dele, é muito adequado…
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